# A dríade

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/a-driade)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: e3c725b2-1f6e-4546-bf1c-a864b65df910
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Uma dríade de um castanheiro no campo deseja conhecer Paris e a Exposição Universal; sua árvore é levada para uma praça da cidade.

## Conto integral

Viajamos para a Exposição de Paris.

Já estamos lá! Foi um voo, uma corrida, sem feitiçaria alguma; viajamos a vapor, por água e pela estrada.

Nosso tempo é o tempo dos contos maravilhosos.

Estamos no meio de Paris, num grande hotel. Flores enfeitam toda a escada, tapetes macios cobrem os degraus.

Nosso quarto é acolhedor, e a porta da sacada está aberta para uma grande praça. Lá embaixo mora a primavera; ela veio de carro para Paris, chegou ao mesmo tempo que nós, sob a forma de um grande e jovem castanheiro, com delicadas folhas recém-abertas. Como está vestido de beleza primaveril, mais do que as outras árvores da praça! Uma delas deixou por completo o número das árvores vivas e jaz arrancada pela raiz, jogada sobre a terra. Ali onde estava, será plantado o viçoso castanheiro, para crescer.

Por enquanto ele ainda está lá no alto, sobre a pesada carroça que o trouxe esta manhã para Paris, de muitas milhas de distância, lá do campo. Durante anos estivera junto de um poderoso carvalho, sob o qual muitas vezes se sentava o velho e abençoado padre, que conversava e contava histórias às crianças que o escutavam. O jovem castanheiro também ouvia; a dríade que estava dentro dele ainda era criança, podia recordar o tempo em que a árvore era tão pequena que mal se erguia acima das altas hastes de capim e das samambaias. Estas já tinham o maior tamanho que podiam alcançar, mas a árvore crescia e aumentava a cada ano, bebia ar e sol, recebia orvalho e chuva e, como era necessário, era sacudida e açoitada pelos ventos fortes. Isso faz parte da educação.

A dríade estava contente com sua vida e seu viver, com o sol e o canto dos pássaros, mas sobretudo com a voz dos seres humanos; compreendia sua fala tão bem quanto a dos animais.

Borboletas, libélulas e moscas, sim, tudo o que podia voar fazia visitas; todos tagarelavam: contavam da aldeia, da vinha, do bosque, do velho castelo com seu parque, onde havia canais e lagos. Lá embaixo, na água, também moravam seres vivos que, à sua maneira, podiam voar de um lugar a outro debaixo da água; seres dotados de conhecimento e pensamento, que não diziam nada, de tão sábios que eram.

E a andorinha, que mergulhara na água, falava dos belos peixinhos dourados, da gorda brema, das tencas rechonchudas e dos velhos pimpões cobertos de musgo. A andorinha fazia uma descrição muito boa, mas é melhor ver com os próprios olhos, dizia ela. Mas como poderia a dríade chegar um dia a ver aqueles seres? Tinha de se contentar com olhar a bela paisagem e perceber a atarefada atividade humana.

Era belo, mas o mais belo era quando o velho padre estava ali sob o carvalho e contava sobre a França, sobre grandes feitos de homens e mulheres cujos nomes eram mencionados com admiração através dos tempos.

A dríade ouvia falar da pastorinha Jeanne d'Arc, de Charlotte Corday; ouvia falar de tempos antiquíssimos, do tempo de Henrique IV e de Napoleão I, e, até chegar ao presente, de talento e grandeza. Ouvia nomes, cada um com uma ressonância no coração do povo: a França é o país do mundo, o solo do gênio com a cratera da liberdade!

As crianças da aldeia escutavam com devoção, e a dríade não menos; ela era uma aluna como as outras. Nas formas das nuvens que navegavam, via uma imagem após outra daquilo que ouvira contar.

O céu de nuvens era seu livro de imagens.

Sentia-se tão feliz na bela França, mas tinha a impressão de que os pássaros, de que todos os animais capazes de voar eram muito mais favorecidos do que ela. Até a mosca podia olhar ao redor, por toda parte, muito além do horizonte da dríade.

A França era tão extensa e magnífica, mas ela só via uma manchinha. O país se estendia como um mundo, com vinhas, bosques e grandes cidades, e de todas elas Paris era a mais magnífica, a mais poderosa. Os pássaros podiam chegar até lá, mas ela, nunca.

Entre as crianças da aldeia havia uma menina tão esfarrapada, tão pobre, mas bela de se ver; cantava sempre e ria, prendia flores vermelhas nos cabelos negros.

— Não vá para Paris! — dizia o velho padre. — Pobre criança! Se for para lá, será a sua perdição!

E, mesmo assim, ela foi.

A dríade pensava muito nela; ambas tinham o mesmo desejo e anseio pela grande cidade.

Veio a primavera, o verão, o outono, o inverno; passaram-se dois anos.

A árvore da dríade deu suas primeiras flores de castanheiro, e os pássaros gorjeavam a esse respeito ao belo sol. Então veio pela estrada uma carruagem vistosa com uma senhora elegante; ela mesma conduzia os belos cavalos de trote leve, e um pequeno jóquei enfeitado ia atrás. A dríade a reconheceu, o velho padre a reconheceu, sacudiu a cabeça e disse, entristecido:

— Você foi para lá! Foi a sua perdição, pobre Mari!

“Ela, uma coitada!”, pensou a dríade. “Não, que transformação! Está vestida como uma duquesa! Foi isso que se tornou na cidade do encantamento. Ah, se eu estivesse lá, no meio de todo aquele brilho e esplendor! Ele ilumina até as nuvens da noite, quando olho para onde sei que está a cidade.”

Sim, era para lá que a dríade olhava a cada entardecer, a cada noite. Via a névoa luminosa no horizonte; sentia sua falta nas noites claras de luar, sentia falta das nuvens navegantes que lhe mostravam imagens da cidade e da história.

A criança estende a mão para seu livro de imagens; a dríade a estendia para o mundo das nuvens, seu livro de pensamentos.

O céu sem nuvens, aquecido pelo verão, era para ela uma página em branco, e havia vários dias que só via uma página assim.

Era o verão quente, com dias ardentes de sol e sem uma brisa; cada folha, cada flor permanecia como que entorpecida, e os seres humanos também.

Então se ergueram nuvens, justamente do lado em que, à noite, a névoa luminosa anunciava: aqui está Paris.

As nuvens se ergueram, tomaram a forma de toda uma região montanhosa e avançaram pelo ar, por sobre a paisagem inteira, até onde a dríade podia enxergar.

As nuvens jaziam como poderosos blocos de rocha azul-negra, camada sobre camada, no alto do céu. Os raios saíam delas. “Eles também são servos de Deus, o Senhor”, dissera o velho padre. E veio um raio azulado, ofuscante, um clarão de luz, como se o próprio sol rompesse o bloco de rocha; o raio caiu e despedaçou até a raiz o velho e poderoso carvalho. Sua copa se separou, o tronco se separou, e ele caiu fendido, como se estendesse os braços para abraçar o mensageiro da luz.

Nenhum canhão de bronze poderia ressoar pelo ar e pela terra, por ocasião do nascimento de um filho de rei, como ressoou ali o estrondo do trovão na morte do velho carvalho. A chuva caía em torrentes, o vento refrescante soprava, a tempestade passou, e tudo ficou festivo como num domingo. A gente da aldeia se reuniu em volta do velho carvalho abatido; o velho padre proferiu palavras de homenagem, e um pintor desenhou a própria árvore para lembrança duradoura.

— Tudo passa! — disse a dríade. — Passa como a nuvem e nunca mais volta!

O velho padre não veio mais ali; o teto da escola caíra, a cadeira do mestre desaparecera. As crianças não vinham, mas o outono vinha, o inverno vinha, e também a primavera; e, durante todas essas mudanças, a dríade olhava para o lado em que, a cada entardecer e noite, longe no horizonte, Paris brilhava como uma névoa luminosa. Dela saía locomotiva após locomotiva, um trem ao lado de outro, atrás de outro, silvando, rugindo, a todas as horas. Ao entardecer e à meia-noite, de manhã e durante todo o dia claro chegavam os trens, e de cada um saíam e em cada um entravam multidões de pessoas de todos os países do mundo. Uma nova maravilha do mundo as chamara para Paris.

Como se manifestava essa maravilha?

— Uma flor esplêndida da arte e da indústria — diziam — brotou na areia sem plantas do Campo de Marte; um girassol gigantesco, de cujas folhas se pode aprender geografia, estatística, adquirir o saber de um mestre de ofício, elevar-se à arte e à poesia, conhecer a extensão e a grandeza dos países.

— Uma flor de conto maravilhoso — diziam outros —, um lótus multicolorido que estende sobre a areia suas folhas verdes como tapetes de veludo, brotadas no começo da primavera. O verão o verá em todo o seu esplendor, as tempestades do outono o levarão, e não ficará folha nem raiz.

Diante da “Escola Militar” se estende a arena da guerra em tempo de paz, o campo sem capim nem palha, um pedaço de estepe arenosa recortado do deserto da África, onde a Fata Morgana mostra seus estranhos castelos no ar e jardins suspensos. No Campo de Marte, eles agora se erguiam mais magníficos, mais maravilhosos, pois o gênio os tornara realidade.

— O palácio de Aladim dos nossos dias foi erguido! — ouvia-se. — Dia após dia, hora após hora, desdobra cada vez mais sua rica magnificência. Os salões intermináveis resplandecem de mármore e cores. O mestre “Sem Sangue” move ali seus membros de aço e ferro no grande salão circular das máquinas. Obras de arte em metal, pedra e tecido anunciam a vida do espírito que se agita nos países do mundo; galerias de quadros, esplendor de flores, tudo o que o espírito e a mão podem criar na oficina do artesão está aqui exposto. Até vestígios da Antiguidade vindos de velhos castelos e turfeiras compareceram.

O espetáculo imensamente grande e variado tem de ser reduzido, comprimido até o tamanho de um brinquedo, para que se possa reproduzi-lo, compreendê-lo e vê-lo como um todo.

O Campo de Marte era como uma grande mesa de Natal, um palácio de Aladim da indústria e da arte, e em volta dele estavam dispostas pequenas preciosidades de todos os países: miniaturas de grandeza; cada nação recebia uma lembrança de seu lar.

Ali estava o palácio real do Egito, ali o caravançará do deserto; passava correndo o beduíno em seu camelo, vindo de sua terra de sol. Ali se estendiam estábulos russos com magníficos cavalos de focinho fogoso vindos das estepes. A pequena casa camponesa dinamarquesa, coberta de palha, erguia sua bandeira Dannebrog junto da magnífica casa de Gustavo Vasa, talhada em madeira, de Dalarna. Cabanas americanas, casas de campo inglesas, pavilhões franceses, quiosques, igrejas e teatros estavam espalhados de maneira admirável e, entre tudo isso, a relva fresca e verde, a água clara e corrente, arbustos floridos, árvores raras, estufas onde a pessoa se julgaria nas florestas tropicais; jardins inteiros de rosas, como se trazidos de Damasco, ostentavam-se sob um teto. Que cores, que perfume!

Grutas de estalactites, feitas artificialmente, encerravam águas doces e salgadas e ofereciam o espetáculo do reino dos peixes; a pessoa se encontrava no fundo do mar, entre peixes e pólipos.

Tudo isso, diziam, é o que o Campo de Marte agora sustenta e oferece; e, sobre essa grande mesa de festa tão ricamente posta, move-se como enxames de formigas atarefadas a multidão inteira, a pé ou puxada em carrinhos, pois nem todas as pernas suportam uma caminhada tão cansativa.

Para lá vão eles, desde cedo pela manhã até tarde da noite. Vapor após vapor, abarrotado de gente, desliza pelo Sena; a quantidade de carruagens aumenta sem cessar, cresce a multidão a pé e a cavalo; bondes e ônibus estão apinhados, entupidos e guarnecidos de pessoas. Todas essas correntes se dirigem a um só destino: “A Exposição de Paris!” Todas as entradas resplandecem com a bandeira da França; em volta do edifício do bazar dos países, viam-se as bandeiras de todas as nações. O salão das máquinas silva e zumbe, carrilhões fazem descer melodias das torres, o órgão toca dentro das igrejas; cantos roucos e anasalados dos cafés do Oriente se misturam a tudo isso. É como um reino de Babel, uma língua de Babel, uma maravilha do mundo.

Certamente era assim, assim diziam as notícias; quem não as ouvia? A dríade sabia tudo o que aqui se disse da “nova maravilha” na cidade das cidades.

— Voem, pássaros! Voem para ver, voltem e contem! — era a prece da dríade.

O anseio cresceu até se tornar desejo, tornou-se pensamento de uma vida; e então, na noite quieta e silenciosa, quando brilhava a lua cheia, a dríade viu voar de seu disco uma centelha que caiu, resplandecendo como estrela cadente. Diante da árvore, cujos ramos tremiam como sob uma rajada, surgiu uma figura poderosa e luminosa; ela falou em tons tão suaves e ao mesmo tempo fortes como a trombeta do Juízo Final, que beija para dar vida e chama a julgamento.

— Você entrará na cidade do encantamento, fincará raízes ali, sentirá suas correntes impetuosas, seu ar e seu sol. Mas então sua vida será abreviada; a série de anos que a esperava aqui ao ar livre se consumirá lá dentro e ficará reduzida a poucos anos. Pobre dríade, será a sua perdição! Seu anseio crescerá, sua aspiração, seu desejo se tornarão mais fortes! A própria árvore será para você uma prisão; você abandonará seu invólucro, abandonará sua natureza, voará para fora e se misturará aos seres humanos; então seus anos se terão reduzido à metade da vida de uma efêmera, a uma única noite apenas. Sua vida será apagada com um sopro, as folhas da árvore murcharão e serão levadas pelo vento, nunca mais voltarão.

Assim ressoou, assim cantou, e a claridade desapareceu, mas não o anseio nem o desejo da dríade; ela tremia de expectativa, na febre de uma sensação desenfreada.

— Vou para lá, para a cidade das cidades! — exultava. — A vida começa, cresce como a nuvem, ninguém sabe para onde ela vai.

Ao romper do dia, quando a lua empalideceu e as nuvens ficaram vermelhas, soou a hora da realização; as palavras da promessa se cumpriram.

Vieram pessoas com pás e barras de ferro; cavaram em volta da raiz da árvore, fundo, por baixo dela. Aproximou-se uma carroça puxada por cavalos; a árvore, com as raízes e o torrão de terra que elas abraçavam, foi erguida, envolta em esteiras de junco, um verdadeiro saco quente para os pés, e depois posta sobre a carroça, bem amarrada. Ia viajar para Paris, crescer e permanecer ali, na cidade da grandeza da França, na cidade das cidades.

Os ramos e as folhas do castanheiro tremeram ao primeiro instante do movimento; a dríade tremia no prazer da expectativa.

“Avante! Avante!”, ressoava em cada pulsação. “Avante! Avante!”, ressoava em palavras trêmulas, pairando no ar. A dríade esqueceu de dizer adeus à terra natal, às hastes de capim que se embalavam e às inocentes margaridas, que a tinham olhado de baixo para cima como uma grande dama no jardim de Nosso Senhor, uma jovem princesa que brincava de pastora ali ao ar livre.

O castanheiro estava sobre a carroça; acenava com os ramos, “Adeus” ou “Avante”, a dríade não sabia; pensava, sonhava com o novo maravilhoso e, no entanto, tão conhecido que se desdobraria diante dela. Nenhum coração de criança em sua alegria inocente, nenhum sangue de sensualidade começou a viagem para Paris mais cheio de pensamentos do que ela.

“Adeus!” se tornou “Avante! Avante!”

As rodas da carroça giravam, o distante se aproximava e ficava para trás; a paisagem mudava como mudam as nuvens; novas vinhas, bosques, aldeias, casas de campo e jardins brotavam, surgiam, desdobravam-se. O castanheiro seguia adiante, e a dríade seguia com ele. Locomotiva após locomotiva passava rugindo bem perto das outras, cruzavam-se; as locomotivas lançavam nuvens que formavam figuras, que falavam de Paris, de onde vinham, para onde a dríade devia ir.

Tudo ao redor sabia e devia compreender para onde ia seu caminho; parecia-lhe que cada árvore por que passava estendia os ramos para ela e pedia: “Leve-me junto! Leve-me junto!” Pois em cada árvore também havia uma dríade cheia de anseio.

Que mudança! Que voo! Era como se as casas brotassem da terra, cada vez mais numerosas, cada vez mais juntas. As chaminés se erguiam como vasos de flores, postos uns sobre os outros e lado a lado pelos telhados; surgiam grandes inscrições com letras do tamanho de côvados, figuras pintadas nas paredes, da base à cornija.

“Onde começa Paris, e quando estarei lá dentro?”, perguntava a dríade a si mesma. A multidão crescia, o tumulto e a agitação aumentavam, carroça seguia carroça, pedestres seguiam cavaleiros, e por toda parte loja ao lado de loja. Música, canto, gritos, conversa.

A dríade, em sua árvore, estava no meio de Paris.

A grande e pesada carroça parou numa pequena praça plantada de árvores, cercada de casas altas, onde cada janela tinha sua sacada. Lá de cima, as pessoas olhavam o jovem e viçoso castanheiro que chegava e agora seria plantado no lugar da árvore morta e arrancada, que jazia sobre a terra. As pessoas paravam na praça e olhavam, sorrindo e satisfeitas, aquele verde de primavera. As árvores mais velhas, ainda só em botão, saudavam com seus ramos sussurrantes: “Bem-vindo! Bem-vindo!” E a fonte, que lançava seus jatos ao alto e os deixava cair na larga bacia, permitia que o vento levasse gotas até a árvore recém-chegada, como se quisesse oferecer-lhe uma bebida de boas-vindas.

A dríade sentiu que sua árvore era erguida da carroça e colocada no lugar de seu futuro. As raízes desapareceram na terra, relva fresca foi posta por cima; arbustos floridos e vasos de flores foram plantados como a árvore; formou-se todo um pequeno jardim no meio da praça. A árvore morta e arrancada, que o cheiro de gás, o cheiro de comida e todo o ar da cidade, sufocante para as plantas, tinham matado ali dentro, foi posta sobre a carroça e levada embora. A multidão observava; crianças e velhos se sentavam no banco entre o verde e olhavam para cima, entre as folhas da árvore recém-plantada. E nós, que contamos isso, estávamos na sacada, olhando aquela jovem primavera vinda do ar fresco do campo, e dizíamos, como teria dito o velho padre:

— Pobre dríade!

— Sou feliz, feliz! — dizia a dríade. — E, no entanto, não consigo compreender direito, não consigo dizer o que sinto; tudo é como eu imaginava! E, no entanto, não é como eu imaginava!

As casas se erguiam tão altas, tão perto; o sol iluminava diretamente apenas uma parede, que estava coberta de anúncios e cartazes, diante dos quais as pessoas paravam e se aglomeravam. Passavam correndo veículos leves e pesados; ônibus, aquelas casas ambulantes abarrotadas, ganhavam velocidade; cavaleiros galopavam, carroças e carruagens de passeio exigiam o mesmo direito. Será que também aquelas casas tão altas, tão próximas, não se moveriam em breve, pensava a dríade, mudariam de forma como as nuvens do céu, deslizariam para o lado, para que ela pudesse ver Paris por dentro e por cima? Notre-Dame teria de aparecer, a coluna Vendôme e a maravilha que chamara e chamava tantos estrangeiros para ali.

As casas não saíram do lugar.

Ainda era dia quando as lanternas se acenderam; os jatos de gás brilhavam nas lojas, iluminavam o espaço entre os ramos da árvore; era como um sol de verão. As estrelas apareceram no alto, as mesmas que a dríade vira em sua terra natal; parecia-lhe sentir uma brisa vinda de lá, tão pura e suave. Sentiu-se elevada, fortalecida, percebeu uma força de visão que atravessava cada folha da árvore, uma sensação nas pontas extremas das raízes. Sentia-se no mundo humano vivo, contemplada por olhos bondosos; ao redor havia tumulto e sons, cores e luz.

Da rua lateral vinham os sons dos instrumentos de sopro e as melodias dos realejos, que convidavam à dança. Sim, à dança, à dança! À alegria e ao gozo da vida, diziam os sons.

Era uma música que faria dançar pessoas, cavalos, veículos, árvores e casas, se soubessem dançar. Uma alegria embriagadora se ergueu no peito da dríade.

— Que felicidade, que beleza! — exultava ela. — Estou em Paris!

O dia que veio, a noite que se seguiu e depois o dia seguinte ofereciam o mesmo espetáculo, o mesmo trânsito, a mesma vida, variando e, contudo, sempre iguais.

“Agora conheço cada árvore, cada flor desta praça! Conheço cada casa, sacada e loja daqui, onde fui posta neste cantinho apertado que me esconde a grande e poderosa cidade. Onde estão os arcos do triunfo, os bulevares e a maravilha do mundo? Não vejo nada disso? Estou encerrada como numa gaiola entre as casas altas, que agora sei de cor, com suas inscrições, cartazes, letreiros, todas aquelas guloseimas de propaganda lambuzada, que já não me agradam. Onde está tudo aquilo de que ouvi falar, que conheço, que desejei e por que quis vir até aqui? O que agarrei, conquistei, encontrei? Anseio como antes, sinto uma vida que preciso agarrar e viver! Preciso entrar na fileira dos vivos! Agitar-me ali, voar como os pássaros, ver e sentir, tornar-me inteiramente humana, trocar anos de vida na fadiga e no tédio de todos os dias, em que definho, afundo, caio como a névoa do prado e desapareço, por metade de um dia de vida. Quero brilhar como a nuvem, brilhar ao sol da vida, olhar tudo lá de cima como a nuvem, passar como ela, ninguém sabe para onde!”

Era o suspiro da dríade, que se elevou em prece:

— Tome meus anos de vida, dê-me metade da vida de uma efêmera! Liberte-me da minha prisão, dê-me vida humana, felicidade humana por um breve instante, apenas esta única noite, se assim tiver de ser; e depois castigue-me por minha ousada coragem de viver, por meu anseio de vida! Apague-me, deixe então meu invólucro, a jovem e viçosa árvore, murchar, ser abatido, tornar-se cinza, dispersar-se ao vento!

Os ramos da árvore sussurraram; veio uma sensação de cócegas, um tremor em cada folha, como se um fogo corresse por ela ou saísse dela. Uma rajada atravessou a copa, e no meio dela se ergueu uma figura de mulher, a própria dríade. No mesmo instante, ela estava sentada sob os ramos folhosos iluminados pelo gás, jovem e bela como a pobre Mari, a quem fora dito: “A grande cidade será a sua perdição!”

A dríade estava sentada ao pé da árvore, à porta de sua casa, que fechara e cuja chave jogara fora. Tão jovem, tão bela! As estrelas a viam, as estrelas piscavam; os lampiões a viam, brilhavam, acenavam! Como era esbelta e, no entanto, firme, uma criança e, no entanto, uma donzela adulta. Sua veste era fina como seda, verde como as folhas frescas abertas na copa da árvore; em seus cabelos castanhos pendia uma flor de castanheiro entreaberta. Parecia a deusa da primavera.

Ficou sentada, imóvel, por um breve minuto apenas; depois saltou de pé e, num voo de gazela, disparou, virou a esquina; corria, saltava, como o clarão de um espelho levado ao sol, clarão que a cada movimento é lançado ora aqui, ora ali. E, se alguém tivesse olhado bem e pudesse ver o que havia para ver, que maravilha! Em cada lugar onde ela se detinha por um instante, sua veste e sua figura se transformavam conforme a natureza daquele lugar, daquela casa cuja lâmpada a iluminava.

Ela alcançou o bulevar; ali corria um mar de luz das chamas de gás nas lanternas, lojas e cafés. Árvores jovens e esbeltas estavam em fila, cada uma escondia sua dríade dos raios daquele sol artificial. A calçada inteira, infinitamente longa, era como um único grande salão de festas; havia mesas postas com toda sorte de bebidas e refrescos, champanhe, Chartreuse, até café e cerveja. Havia exposição de flores, quadros, estátuas, livros e tecidos coloridos.

Da multidão sob as casas altas, ela olhava a corrente assustadora que passava logo além da fila de árvores; ali ondulava um rio de veículos rodando, cabriolés, carruagens, ônibus, carros de praça, senhores a cavalo e regimentos em marcha. Atravessar para a margem oposta era arriscar a vida e os membros. Ora brilhavam luzes azuis, ora predominava a luz do gás; de repente subia um foguete, de onde, para onde?

Certamente aquela era a grande estrada da cidade do mundo!

Aqui soavam suaves melodias italianas, ali canções espanholas acompanhadas pelo estalar das castanholas; mas, acima de tudo, mais fortes, dominando tudo, ressoavam as melodias de caixinha de música da moda naquele minuto, a música excitante do cancã, que Orfeu não conhecera e a bela Helena jamais ouvira. Até o carrinho de mão teria de dançar sobre sua única roda, se pudesse dançar. A dríade dançava, pairava, voava, mudando de cores como o colibri à luz do sol; cada casa e seu mundo lá dentro davam o reflexo.

Como a flor de lótus resplandecente, arrancada de sua raiz, é levada pela corrente e por seus redemoinhos, ela seguia à deriva; e, onde parava, já era outra figura, por isso ninguém conseguia acompanhá-la, reconhecê-la e contemplá-la.

Tudo passava por ela como imagens de nuvens, rosto após rosto; mas não conhecia um só, não via ninguém de sua terra natal. Dois olhos resplandecentes brilharam em seus pensamentos: pensava em Mari, pobre Mari! A criança esfarrapada e alegre com a flor vermelha nos cabelos negros. Ela estava na cidade do mundo, rica, resplandecente como quando passara de carruagem pela casa do padre, pela árvore da dríade e pelo velho carvalho.

Decerto ela estava ali, naquele ruído ensurdecedor, talvez tivesse acabado de sair da magnífica carruagem que esperava. Belas carruagens estavam paradas, com cocheiros de galão e criados de meias de seda. Os passageiros que desciam eram todos mulheres, senhoras ricamente vestidas. Passavam pelos portões de grades abertos e subiam a alta e larga escadaria que levava a um edifício com colunas brancas de mármore. Seria aquela a “maravilha do mundo”? Mari devia estar ali!

— Sancta Maria! — cantavam lá dentro; o perfume do incenso ondulava sob os altos arcos pintados e dourados, onde repousava a penumbra.

Era a igreja da Madalena.

Vestida de preto, nos tecidos mais preciosos, cortados segundo a última e mais elevada moda, a elegante sociedade feminina deslizava pelo chão lustroso. O brasão estava nos fechos de prata do livro de orações encadernado em veludo e no fino lenço muito perfumado, com suas caras rendas de Bruxelas. Algumas mulheres se ajoelhavam em prece silenciosa diante dos altares, outras procuravam os confessionários.

A dríade sentiu uma inquietação, um medo, como se tivesse entrado num lugar onde não ousava pisar. Ali era a morada do silêncio, o grande salão dos segredos; tudo era sussurrado e confiado sem ruído.

A dríade viu-se disfarçada de seda e véu, semelhante às outras mulheres ricas e de alta linhagem; seria cada uma delas, como ela, uma filha do anseio?

Ouviu-se um suspiro tão dolorosamente profundo; viria do canto do confessionário ou do peito da dríade? Ela apertou mais o véu em torno de si. Respirava incenso de igreja, em vez de ar fresco. Aquele não era o lugar de seu anseio.

Avante! Avante, num voo sem descanso! A efêmera não tem descanso, seu voo é vida.

Ela estava novamente lá fora, sob os candelabros de gás resplandecentes, junto de fontes magníficas.

— Todas essas correntes de água não são capazes de lavar o sangue inocente que aqui foi derramado.

Essas palavras foram ditas.

Ali havia estrangeiros que falavam alto e animadamente, como ninguém ousava fazer no grande salão solene dos segredos de onde a dríade vinha.

Uma grande laje de pedra foi girada e erguida; ela não compreendia; viu a descida aberta para as profundezas da terra. Eles desceram, deixando o ar estrelado, as chamas de gás radiantes como o sol, toda aquela vida viva.

— Tenho medo disso! — disse uma das mulheres que ali estavam. — Não ouso descer! Também não faço questão de ver essa maravilha! Fique comigo!

— E voltar para casa — disse o homem —, sair de Paris sem ter visto o que há de mais extraordinário, a verdadeira maravilha dos tempos atuais, criada pela inteligência e pela vontade de um único homem!

— Não vou lá embaixo — foi a resposta.

“A maravilha dos tempos atuais”, haviam dito. A dríade ouviu, compreendeu; o alvo de seu maior anseio estava alcançado, e ali era a entrada, para o fundo, por baixo de Paris. Não tinha imaginado aquilo, mas agora o ouvira, via os estrangeiros descerem e os acompanhou.

A escada era de ferro fundido, em espiral, larga e cômoda. Uma lâmpada brilhava lá embaixo, e outra mais ao fundo.

Estavam num labirinto de salões e galerias de arcos interminavelmente longos que se cruzavam. Todas as ruas e vielas de Paris se viam ali, como num reflexo baço; os nomes podiam ser lidos, cada casa lá de cima tinha ali seu número, sua raiz, que descia sob as calçadas macadamizadas e desertas, apertadas em volta de um largo canal de lodo que avançava aos borbotões. Mais alto, por arcos, era conduzida a água fresca e corrente; no alto de tudo pendiam, como uma rede, tubos de gás e fios de telégrafo. Lâmpadas brilhavam ao longe, como imagens refletidas da cidade do mundo lá em cima. De vez em quando ouvia-se lá no alto um estrondo retumbante: eram veículos pesados que passavam sobre as pontes de acesso.

Onde estava a dríade?

Você já ouviu falar das catacumbas; elas são apenas trechos insignificantes desse novo mundo subterrâneo, a maravilha moderna: os esgotos de Paris. Ali estava a dríade, e não na Exposição Universal do Campo de Marte.

Ouvia exclamações de espanto, admiração e reconhecimento.

— É daqui de baixo — diziam — que agora crescem saúde e anos de vida para milhares e milhares lá em cima! Nosso tempo é o tempo do progresso, com toda a sua bênção.

Essa era a opinião dos seres humanos, a fala dos seres humanos, mas não a dos seres que construíam, moravam e tinham nascido ali, os ratos. Eles guinchavam de uma fenda num pedaço de muro velho, de maneira tão audível, clara e compreensível para a dríade.

Um grande e velho rato macho, com a cauda mordida, guinchava penetrantemente seu sentimento, seu mal-estar e sua única opinião correta, e a família concordava com cada palavra.

— Dá-me náuseas esse miado, esse miado humano, essa fala da ignorância! Sim, agora aqui é uma beleza, com gás e petróleo! Eu não como essas coisas. Tudo ficou tão elegante e tão claro que a gente fica sentada com vergonha de si mesma e não sabe por que tem vergonha. Quem dera vivêssemos no tempo das velas de sebo! Não faz tanto tempo assim! Era um tempo romântico, como dizem.

— O que é isso que você está contando? — perguntou a dríade. — Eu não tinha visto você antes. De que está falando?

— Dos belos tempos antigos! — disse o rato. — Do encantador tempo do bisavô-rato e da bisavó-rata! Naquele tempo era uma grande coisa vir aqui embaixo. Era um ninho de ratos diferente de Paris inteira! A mãe Peste morava aqui; matava seres humanos, mas nunca ratos. Ladrões e contrabandistas respiravam livremente aqui embaixo. Era o refúgio das personalidades mais interessantes, que agora só se veem nos teatros de melodrama lá em cima. O tempo do romantismo também acabou em nosso ninho de ratos; recebemos ar fresco aqui embaixo e petróleo.

Assim guinchava o rato! Guinchava contra os novos tempos, em honra dos antigos com a mãe Peste.

Havia ali um carro, uma espécie de ônibus aberto, puxado por pequenos cavalos ligeiros; o grupo subiu e partiu pelo Boulevard Sébastopol, o subterrâneo, exatamente por cima do qual se estendia o conhecido bulevar cheio de gente lá em Paris.

O carro desapareceu na penumbra; a dríade desapareceu, erguida para a claridade das chamas de gás, para o ar fresco e livre. Ali, e não nas galerias que se cruzavam lá embaixo, com seu ar abafado, poderia estar a maravilha, a maravilha do mundo que ela procurava em sua curta noite de vida. Devia brilhar mais do que todas as chamas de gás lá de cima, mais do que a lua que agora surgia.

Sim, certamente! E ela a viu acolá, brilhava diante dela, cintilava, acenava como a estrela Vênus no céu.

Viu um portal radiante aberto para um pequeno jardim cheio de luz e melodias de dança. As chamas de gás brilhavam como uma bordadura em volta de pequenos lagos e tanques tranquilos, onde plantas aquáticas artificiais, recortadas de folhas de lata, dobradas e pintadas, resplandeciam naquela iluminação e lançavam de seus cálices jatos de água à altura de um côvado. Belos salgueiros-chorões, verdadeiros salgueiros-chorões da primavera, abaixavam seus ramos frescos como um véu verde, transparente e, contudo, encobridor. Entre os arbustos ardia uma fogueira; sua luz vermelha iluminava pequenas e silenciosas cabanas de folhagem, meio escuras, atravessadas por uma torrente de sons, uma música que fazia cócegas no ouvido, enfeitiçava, seduzia e impelia o sangue pelos membros humanos.

Ela via moças belas, vestidas para a festa, com o sorriso da ingenuidade, o espírito leve e risonho da juventude, uma “Mari” com rosa nos cabelos, mas sem carruagem nem jóquei. Como ondulavam de um lado para outro, como rodopiavam em danças desenfreadas! O que era para cima, o que era para baixo? Como mordidas pela tarântula, saltavam, riam, sorriam, felizes a ponto de abraçar o mundo inteiro.

A dríade sentiu-se arrastada pela dança. A bota de seda se ajustava ao seu pequeno e delicado pé, castanha como a fita que, de seus cabelos, esvoaçava sobre o ombro descoberto. O vestido verde de seda ondulava em grandes pregas, mas não escondia a perna bem formada com o gracioso pé, que parecia querer traçar um círculo mágico no ar diante da cabeça do jovem que dançava.

Estaria no jardim encantado de Armida? Como se chamava aquele lugar?

O nome brilhava lá fora em chamas de gás:

“Mabille”.

Sons e palmas, foguetes e águas murmurantes estalavam ali dentro junto com o champanhe; a dança tinha a fúria das bacantes e, sobre tudo, navegava a lua, talvez com o rosto um pouco torto. O céu estava sem nuvens, claro e puro; parecia que do Mabille se podia olhar para dentro do céu.

Uma vontade de viver, devoradora e excitante, fazia estremecer a dríade; era como uma embriaguez de ópio.

Seus olhos falavam, seus lábios falavam, mas as palavras não eram ouvidas entre os sons das flautas e dos violinos. Seu par lhe sussurrava palavras ao ouvido, que ondulavam no ritmo do cancã; ela não as compreendia, nós não as compreendemos. Ele estendeu os braços para ela, ao redor dela, e abraçou apenas o ar transparente, cheio de gás.

A dríade foi levada pela corrente de ar, como o vento leva uma pétala de rosa. No alto, diante de si, viu uma chama, um clarão cintilante no topo de uma torre. O farol brilhava no alvo de seus anseios, brilhava na torre vermelha da “Fata Morgana” do Campo de Marte; para lá ela foi levada pelo vento da primavera. Deu voltas à torre; os trabalhadores pensaram que viam uma borboleta descer para morrer por ter chegado cedo demais.

A lua brilhava; chamas de gás e lanternas iluminavam os grandes salões e os espalhados “Edifícios do Mundo Inteiro”, iluminavam as elevações de relva e os rochedos feitos pela inteligência humana, onde quedas de água se precipitavam pela força do “Mestre Sem Sangue”. As cavernas dos abismos marinhos e as profundezas da água doce, o reino dos peixes se abriam ali; a pessoa estava no fundo do tanque profundo, estava dentro do mar, num sino de mergulho de vidro. A água fazia pressão contra as grossas paredes de vidro, em volta e por cima. Os pólipos, compridos de braças, flexíveis, retorcendo-se como enguias, tremendo, intestinos vivos, braços, agarravam-se, erguiam-se, prendiam-se ao fundo do mar.

Uma grande solha jazia pensativa ali perto, estendida à vontade, confortavelmente; o caranguejo rastejava por cima dela como uma aranha enorme, enquanto os camarões se lançavam com tal voo e rapidez que pareciam as mariposas e borboletas do mar.

Na água doce cresciam nenúfares, juncos e juncos-floridos. Os peixinhos dourados se tinham posto em fileira como vacas vermelhas no campo, todos com as cabeças na mesma direção para receber a corrente nas bocas. Tencas gordas e rechonchudas olhavam estupidamente as paredes de vidro; sabiam que estavam na Exposição de Paris, sabiam que tinham feito a viagem bastante difícil até ali em barris cheios de água, que tinham enjoado de terra no trem, como os seres humanos enjoam de mar nos navios. Tinham vindo ver a exposição, e a viam de seus próprios camarotes de água doce ou salgada, viam a multidão humana que passava de manhã até a noite. Todos os países do mundo tinham enviado e exposto seus seres humanos, para que as velhas tencas e bremas, as ágeis percas e carpas cobertas de musgo pudessem ver aquelas criaturas e dar seu parecer sobre tal espécie.

— É um animal de escamas! — disse um pequeno ruivo enlameado. — Trocam de escamas duas, três vezes por dia, e emitem sons pela boca, chamam isso de fala. Nós não trocamos, e nos fazemos compreender de maneira mais fácil: movimentos nos cantos da boca e olhos arregalados! Temos muitas vantagens sobre os seres humanos!

— Mas aprenderam a nadar — disse um peixinho de água doce. — Sou do grande lago; no tempo quente, os seres humanos entram na água, mas primeiro tiram as escamas, depois nadam. As rãs lhes ensinaram: impulso das pernas de trás e remadas das da frente; não aguentam muito tempo. Querem parecer conosco, mas isso não se consegue! Pobre ser humano!

E os peixes olhavam de olhos arregalados; acreditavam que toda a multidão humana que tinham visto à luz forte do dia ainda se movia ali. Sim, estavam certos de ver ainda as mesmas figuras que, por assim dizer, haviam atingido primeiro seus nervos de percepção.

Uma pequena perca, de bela pele listrada e invejável dorso arredondado, assegurava que o “lodo humano” ainda estava ali, ela o via.

— Eu também o vejo, vejo tão claramente! — disse uma tenca dourada de icterícia. — Vejo bem a bela e bem formada figura humana, a “senhora de pernas altas”, ou como é que a chamavam; tinha os nossos cantos da boca e olhos arregalados, dois balões atrás e uma sombrinha fechada na frente, grandes apêndices de lentilha-d'água, penduricalhos e badulaques. Devia tirar tudo isso, andar como nós, conforme o dom da criação, e pareceria uma tenca respeitável, tanto quanto os seres humanos podem parecer.

— Onde foi parar aquele preso ao cordão, o humano macho que puxavam?

— Ia num carro-cadeira, sentado com papel, tinta e pena, anotava tudo, escrevia tudo. O que ele significava? Chamavam-no de repórter!

— Ainda anda por aí! — disse uma fêmea de pimpão, virginal e coberta de musgo, com as provações do mundo na garganta, a ponto de estar rouca; uma vez engolira um anzol e ainda nadava pacientemente com ele na garganta.

— Repórter — disse ela —, falando de modo compreensível para os peixes, é uma espécie de polvo entre os seres humanos.

Assim falavam os peixes à sua maneira. Mas no meio da gruta artificial que encerrava as águas soavam marteladas e cantos dos operários, que precisavam trabalhar também à noite para que tudo ficasse pronto em breve. Cantavam no sonho de noite de verão da dríade, que estava ali para novamente voar e desaparecer.

— São os peixinhos dourados! — disse ela, acenando-lhes com a cabeça. — Afinal consegui ver vocês! Sim, conheço vocês! Conheço vocês há muito tempo! A andorinha me falou de vocês lá em nossa terra natal. Como são belos, brilhantes, encantadores! Eu poderia beijar cada um! Também conheço os outros! Aquele deve ser o pimpão gordo, aquela é a saborosa brema, e aqui estão as velhas carpas cobertas de musgo! Conheço vocês! Vocês não me conhecem.

Os peixes olhavam de olhos arregalados, não compreendiam uma única palavra, olhavam a luz crepuscular.

A dríade já não estava ali; encontrava-se ao ar livre, onde a “flor maravilhosa” do mundo exalava seus perfumes dos diferentes países, da terra do pão de centeio, da costa do bacalhau seco, do reino do couro da Rússia, da margem do rio da água-de-colônia e do Oriente do óleo de rosas.

Quando, depois de uma noite de baile, voltamos para casa meio acordados, as melodias que ouvimos ainda ressoam nitidamente em nossos ouvidos, podemos cantar cada uma delas. E, assim como no olho de quem foi morto a última imagem do que viu ainda deve permanecer fotograficamente por algum tempo, assim também estavam ali, na noite, o tumulto e o brilho da vida diurna; não tinham passado, não estavam apagados. A dríade os sentia e sabia: assim continuarão a rugir amanhã.

A dríade estava entre as rosas perfumadas, julgava reconhecê-las de sua terra natal. Rosas do parque do castelo e do jardim do padre. Também viu ali a flor vermelha de romã; Mari usara uma igual nos cabelos negros como carvão.

Lembranças do lar de infância lá no campo cintilavam em seus pensamentos; bebia o espetáculo ao redor com o desejo dos olhos, enquanto uma agitação febril a enchia e a conduzia pelos salões maravilhosos.

Sentia-se cansada, e o cansaço aumentava. Tinha vontade de repousar nas almofadas e tapetes orientais macios, estendidos ali dentro, ou inclinar-se com o salgueiro-chorão para a água clara e mergulhar nela.

Mas a efêmera não tem descanso. Faltavam minutos para o fim do dia.

Seus pensamentos tremiam, seus membros tremiam; ela tombou na relva junto da água que murmurava.

— Você brota da terra com vida duradoura! — disse. — Refresque minha língua, dê-me alívio!

— Não sou a fonte viva! — respondeu a água. — Jorro por meio de uma máquina.

— Dê-me um pouco do seu frescor, capim verde — pediu a dríade. — Dê-me uma das flores perfumadas!

— Morremos quando somos arrancados! — responderam as hastes e as flores.

— Beije-me, corrente de ar fresco! Um único beijo de vida!

— Logo o sol beijará as nuvens e as deixará vermelhas! — disse o vento. — E então você estará entre os mortos, terá passado, como toda a magnificência daqui passará antes que o ano acabe, e eu poderei brincar outra vez com a areia leve e solta deste lugar, soprar poeira sobre a terra, poeira no ar, poeira! Tudo apenas poeira!

A dríade sentiu uma angústia como a da mulher que, no banho, cortou a artéria e perde o sangue, mas, enquanto se esvai, ainda deseja viver. Ergueu-se, deu alguns passos e tornou a tombar diante de uma pequena igreja. A porta estava aberta, luzes ardiam no altar, o órgão soava.

Que música! A dríade nunca ouvira sons assim e, no entanto, parecia-lhe ouvir neles vozes conhecidas. Vinham do fundo do coração de toda a criação. Julgava sentir o sussurro do velho carvalho, julgava ouvir o velho padre falar de grandes feitos, de nomes célebres, daquilo que a criatura de Deus podia oferecer como dádiva a um tempo futuro, que devia oferecer-lhe para assim conquistar uma vida duradoura.

Os sons do órgão cresciam e ressoavam, falavam em canto:

— Seu anseio e seu desejo a arrancaram pela raiz do lugar que Deus lhe deu. Foi a sua perdição, pobre dríade!

Os sons do órgão, macios e suaves, ressoavam como em pranto, morriam como em pranto.

No céu as nuvens brilhavam vermelhas. O vento sussurrava e cantava:

— Partam, mortos, agora o sol se levanta!

O primeiro raio caiu sobre a dríade. Sua figura brilhava, mudando de cores como a bolha de sabão quando estoura, desaparece e se torna uma gota, uma lágrima que cai na terra e desaparece.

Pobre dríade! Uma gota de orvalho, apenas uma lágrima, vertida, desaparecida!

O sol brilhava sobre a “Fata Morgana” do Campo de Marte, brilhava sobre a grande Paris, sobre a pequena praça com árvores e a fonte que chapinhava, entre as casas altas, onde estava o castanheiro, mas de ramos curvados e folhas murchas, a árvore que ainda ontem se erguia tão cheia de vida quanto a própria primavera. Agora morrera, diziam; a dríade saíra, passara como a nuvem, ninguém sabe para onde.

No chão jazia uma flor de castanheiro murcha e quebrada; a água benta da igreja não conseguia chamá-la de volta à vida. Um pé humano logo a pisou no cascalho.

Tudo isso aconteceu e foi vivido.

Nós mesmos o vimos, no tempo da Exposição de Paris de 1867, em nosso tempo, no grande e maravilhoso tempo dos contos.

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/#frente-educacao)

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