# A família de Grethe das galinhas

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/a-familia-de-grethe-das-galinhas)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 5972a25a-6b56-48f4-a414-180a8132858c
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Grethe cuida das aves de uma propriedade construída no lugar de um antigo solar, cuja história o sacristão reúne em livros e anotações.

## Conto integral

Grethe das galinhas era o único ser humano que morava na vistosa construção erguida para as galinhas e os patos da propriedade senhorial; ficava onde antes se erguera o velho solar de cavaleiros, com torre, empena recortada, fosso e ponte levadiça. Ali perto havia um matagal de árvores e arbustos; ali fora o jardim, que se estendia até um grande lago, agora transformado em pântano. Gralhas, corvos e gralhas-de-nuca-cinzenta voavam, gritando e grasnando, sobre as velhas árvores, uma multidão fervilhante de aves; seu número não diminuía quando se atirava no meio delas, antes aumentava.

Era possível ouvi-las até dentro do galinheiro, onde Grethe estava sentada, e os patinhos lhe corriam por cima dos tamancos. Ela conhecia cada galinha, cada pato, desde que tinham saído do ovo; tinha orgulho de suas galinhas e seus patos, orgulho da bela construção feita para eles. Seu quartinho era limpo e asseado, como exigia a senhora da propriedade, a quem pertencia o galinheiro; ela vinha ali muitas vezes com seus hóspedes distintos e mostrava o “quartel das galinhas e dos patos”, como o chamava.

Havia um guarda-roupa e uma poltrona, sim, havia uma cômoda, e sobre ela estava uma placa de latão brilhante e polida, com a palavra “Grubbe” gravada; era justamente o nome da antiga família da alta nobreza que morara ali no solar. A placa fora encontrada quando escavaram o lugar, e o sacristão dissera que não tinha outro valor senão o de uma antiga lembrança. O sacristão sabia muito sobre o lugar e os tempos antigos, tinha aprendido nos livros; havia tantas coisas escritas na gaveta de sua mesa. Tinha grande conhecimento das épocas passadas; mas talvez o corvo mais velho soubesse mais e gritasse a respeito na sua língua, só que era língua de corvo, e essa o sacristão não entendia, por mais sábio que fosse.

Depois de um dia quente de verão, o pântano podia soltar vapores, de modo que parecia haver um lago inteiro diante das velhas árvores onde voavam as gralhas, os corvos e as gralhas-de-nuca-cinzenta; assim fora quando o cavaleiro Grubbe vivia ali e o velho solar tinha grossas muralhas vermelhas. A corrente do cão alcançava então até além do portão; pela torre entrava-se no corredor de pedra que levava aos aposentos; as janelas eram estreitas e as vidraças pequenas, mesmo no grande salão onde se dançava, mas no tempo do último Grubbe não se dançara ali desde que alguém pudesse lembrar, e no entanto ainda havia um velho tímpano que servira à música. Havia um armário habilmente entalhado onde se guardavam bulbos de flores raras, pois a senhora Grubbe gostava de plantar e cultivava árvores e ervas; seu marido preferia sair a cavalo para caçar lobos e javalis, e sua filhinha Marie sempre o acompanhava. Aos cinco anos, sentava-se orgulhosa no cavalo e olhava corajosamente ao redor com seus grandes olhos negros. Gostava de estalar o chicote entre os cães de caça; o pai preferia que ela o estalasse entre os meninos camponeses que vinham olhar os senhores.

O camponês da casa de terra, perto do solar, tinha um filho, Søren, da idade da pequena senhorita nobre; ele sabia trepar e sempre tinha de subir para lhe buscar ninhos de pássaros; as aves gritavam o mais que podiam, e uma das maiores o bicou bem acima do olho, de modo que o sangue jorrou; pensaram que ele tivesse perdido o olho, mas não sofrera dano algum. Marie Grubbe o chamava de seu Søren, o que era um grande favor, e esse favor ajudou o pai, o pobre Jøn; um dia ele cometera uma falta e devia ser castigado, montar no cavalo de madeira. Ele ficava no pátio, com quatro estacas por pernas e uma única tábua estreita por dorso; sobre ela o culpado Jøn devia montar de pernas abertas, com pesados tijolos presos às pernas para não se sentar leve demais; fazia caretas horríveis, Søren chorava e suplicava à pequena Marie; ela ordenou imediatamente que tirassem dali o pai de Søren, e, como não lhe obedecessem, bateu os pés no calçamento e puxou a manga do casaco do pai até rasgá-la. Queria o que queria, e fez sua vontade; o pai de Søren foi solto e desceu.

A senhora Grubbe, que chegava naquele momento, alisou os cabelos da filhinha e a olhou com olhos bondosos; Marie não entendeu por quê.

Ela queria ir para junto dos cães de caça, e não acompanhar a mãe, que atravessou o jardim em direção ao lago, onde floresciam nenúfares brancos e amarelos; taboas e juncos-floridos balançavam entre os caniços; ela contemplava toda aquela exuberância e frescor.

— Que agradável! — disse. Havia no jardim uma árvore rara naquele tempo, plantada por ela mesma, chamada “faia-sanguínea”, uma espécie de mouro entre as outras árvores, de tão castanho-escuras que eram as folhas; precisava de sol forte, pois à sombra constante ficaria verde como as outras árvores e perderia sua singularidade. Nos altos castanheiros havia muitos ninhos de pássaros, assim como nos arbustos e na relva. Era como se as aves soubessem que ali estavam protegidas, que ali ninguém ousava disparar uma espingarda.

A pequena Marie veio com Søren, que sabia trepar, como sabemos, e foram apanhados tanto ovos quanto filhotes cobertos de penugem. As aves voavam apavoradas e aterrorizadas, pequenas e grandes voavam! O abibe lá do campo, as gralhas, os corvos e as gralhas-de-nuca-cinzenta das árvores altas gritavam e gritavam; era um grito que sua descendência ainda solta em nossos dias.

— Mas o que estão fazendo, crianças! — exclamou a bondosa senhora. — Isso é uma obra ímpia!

Søren ficou intimidado; a pequena senhorita nobre também olhou um pouco para o lado, mas depois disse, curta e mal-humorada:

— Meu pai deixa!

— Fora daqui! Fora daqui! — gritaram as grandes aves negras e voaram, mas voltaram no dia seguinte, pois ali era sua casa.

Já a senhora quieta e bondosa não permaneceu muito tempo naquela casa; Nosso Senhor a chamou para junto de si, e com ele também se sentia mais em casa do que ali no solar; os sinos da igreja soaram solenemente quando seu corpo foi levado à igreja, e os olhos dos pobres se molharam, pois ela fora boa para eles.

Depois que se foi, ninguém cuidou de suas plantações, e o jardim se arruinou.

O senhor Grubbe era um homem duro, diziam, mas a filha, por mais jovem que fosse, conseguia dominá-lo; ele tinha de rir, e ela fazia sua vontade. Agora tinha doze anos e era forte de corpo; olhava as pessoas de frente com seus olhos negros, montava como um homem e atirava como um caçador experiente.

Então vieram à região visitantes importantes, os mais distintos: o jovem rei e seu meio-irmão e companheiro, o senhor Ulrik Frederik Gyldenløve; queriam caçar javalis e passar um dia e uma noite no solar do senhor Grubbe.

À mesa, Gyldenløve sentou-se ao lado de Marie Grubbe, segurou-lhe a cabeça e lhe deu um beijo, como se fossem da mesma família, mas ela lhe deu uma bofetada na boca e disse que não o suportava; houve muitas risadas, como se fosse tão divertido.

Talvez também tivesse sido; pois cinco anos depois, quando Marie completara dezessete anos, veio um mensageiro com uma carta; o senhor Gyldenløve pedia a mão da nobre senhorita; era algo e tanto!

— É o cavalheiro mais distinto e galante do reino! — disse o senhor Grubbe. — Não se deve recusá-lo.

— Não gosto muito dele! — disse Marie Grubbe, mas não recusou o homem mais distinto do país, que se sentava ao lado do rei.

Prataria, lã e linho foram por navio para Copenhague; ela fez a viagem por terra em dez dias. O enxoval encontrou ventos contrários ou nenhum vento; passaram-se quatro meses até chegar, e, quando chegou, a senhora Gyldenløve já havia partido.

— Prefiro deitar-me em pano grosseiro a me deitar na cama de seda dele! — disse ela. — Prefiro andar com os pés descalços a ir com ele de carruagem!

Tarde numa noite de novembro, duas mulheres entraram a cavalo na cidade de Aarhus; eram a esposa de Gyldenløve, Marie Grubbe, e sua criada; vinham de Vejle, aonde tinham chegado de Copenhague por navio. Cavalgaram até a casa de pedra do senhor Grubbe. Ele não ficou contente com a visita. Ela recebeu palavras ásperas, mas ao menos um quarto para se deitar; recebeu de manhã sua sopa de cerveja, mas nenhuma fala branda como sopa de cerveja; a maldade do pai se voltou contra ela, coisa a que não estava acostumada; ela não era mansa de espírito: conforme gritam com a gente, a gente responde; e ela respondia mesmo, falando com clareza e ódio do marido, com quem não queria viver, pois era orgulhosa e honrada demais para isso.

Assim passou um ano, sem alegria. Trocaram-se palavras más entre pai e filha, o que nunca deveria acontecer. Palavras más dão frutos maus. Que fim teria aquilo?

— Nós dois não podemos ficar sob o mesmo teto! — disse o pai um dia. — Mude-se para nosso velho solar, mas antes morda e arranque a língua do que ponha mentiras a circular!

Então se separaram; ela foi com a criada para o velho solar onde nascera e fora criada, onde a senhora quieta e piedosa, sua mãe, repousava na cripta da igreja; um velho boiadeiro morava na propriedade, era todo o pessoal. Nos aposentos pendiam teias de aranha negras e pesadas de poeira; o jardim crescia à vontade; ramos de lúpulo e trepadeiras teciam uma rede entre árvores e arbustos; cicutas e urtigas cresciam mais e mais. A “faia-sanguínea” estava coberta de vegetação e à sombra, suas folhas agora eram verdes como as das outras árvores comuns, acabara sua glória. Gralhas, corvos e gralhas-de-nuca-cinzenta voavam, numa multidão fervilhante, sobre os altos castanheiros; havia gritos e grasnados, como se tivessem notícias importantes para contar uns aos outros: agora ela voltara, a pequenina que mandara roubar seus ovos e filhotes; o próprio ladrão que os buscava agora trepava numa árvore sem folhas, sentava-se no alto mastro e recebia boas bordoadas de corda quando não se comportava.

Tudo isso contava o sacristão em nosso tempo; reunira e organizara a história a partir de livros e anotações; ela estava escrita e guardada, com muitas outras coisas, na gaveta da mesa.

— Subir e descer é o curso do mundo! — dizia ele. — É estranho ouvir isso!

E queremos ouvir o que aconteceu a Marie Grubbe; nem por isso esquecemos Grethe das galinhas, que está sentada em seu vistoso galinheiro em nosso tempo; Marie Grubbe viveu no seu tempo, mas não com o mesmo espírito da velha Grethe.

O inverno passou, a primavera e o verão passaram, depois veio outra vez o outono ventoso com as névoas úmidas e frias do mar. Era uma vida solitária, uma vida tediosa ali no solar.

Então Marie Grubbe pegou sua espingarda e saiu para a charneca de urzes, atirou em lebres e raposas, atirou nas aves que conseguia atingir. Lá fora encontrou mais de uma vez o nobre senhor Palle Dyre, de Nørrebæk, que também passeava com sua espingarda e seus cães. Era grande e forte, e disso se gabava quando conversavam. Ousaria medir forças com o falecido senhor Brockenhuus de Egeskov, na ilha de Fiónia, cuja força ainda era famosa. Seguindo seu exemplo, Palle Dyre mandara pendurar no portão uma corrente de ferro com uma trompa de caça, e, quando voltava a cavalo, agarrava a corrente, erguia do chão a si e ao cavalo e soprava a trompa.

— Venha ver por si mesma, senhora Marie! — dizia. — Há ar fresco em Nørrebæk!

Não ficou escrito quando ela foi à propriedade dele, mas nos castiçais da igreja de Nørrebæk podia-se ler que tinham sido doados por Palle Dyre e Marie Grubbe, do solar de Nørrebæk.

Palle Dyre tinha corpo e força; bebia como uma esponja, era como um barril que não se podia encher; roncava como um chiqueiro inteiro; tinha a aparência vermelha e inchada.

— É porcalhão e provocador! — dizia a senhora Palle Dyre, filha de Grubbe. Logo se cansou daquela vida, mas isso não a tornou melhor.

Um dia a mesa estava posta, e a comida esfriou; Palle Dyre caçava raposas, e a senhora não se encontrava em parte alguma. Palle Dyre voltou à meia-noite; a senhora Dyre não veio nem à meia-noite nem de manhã: dera as costas a Nørrebæk, partira a cavalo sem saudação nem despedida.

O tempo estava cinzento e úmido; o vento soprava frio; um bando de aves negras e gritantes voou sobre ela, mas elas não estavam tão sem abrigo quanto ela.

Primeiro seguiu para o sul, até perto das terras alemãs; dois anéis de ouro com pedras preciosas foram trocados por dinheiro; depois foi para o leste, depois voltou para o oeste; não tinha destino em vista e estava zangada com todos, até com o bom Deus, tão miserável era seu estado de espírito; logo seu corpo também ficou assim, mal podia mover os pés. O abibe levantou voo de sua moita quando ela caiu sobre ela; a ave gritou como sempre grita:

— Ladra! Ladra!

Ela nunca roubara os bens do próximo, mas, quando menina, mandara buscar ovos e filhotes de pássaros em moitas e árvores; era nisso que pensava agora.

De onde estava deitada podia ver as dunas da praia; ali moravam pescadores, mas ela não conseguia chegar até lá, de tão doente. As grandes gaivotas brancas da praia voavam sobre ela e gritavam como as gralhas, os corvos e as gralhas-de-nuca-cinzenta gritavam em casa sobre o jardim do solar. As aves voavam muito perto; por fim, pareceu-lhe que ficavam negras como carvão, mas então também a noite caiu sobre seus olhos.

Quando abriu os olhos de novo, estavam erguendo-a e carregando-a; um homem grande e forte a tomara nos braços. Ela olhou diretamente para seu rosto barbudo; ele tinha uma cicatriz acima do olho, como se a sobrancelha estivesse partida em duas; carregou-a, no estado miserável em que estava, até o navio, onde o capitão o recebeu com palavras ásperas pelo que fizera.

No dia seguinte, o navio partiu. Marie Grubbe não desembarcou; portanto, ia a bordo. Mas certamente voltaria? Sim, quando e onde?

Sobre isso o sacristão também sabia contar; não era uma história que ele próprio inventara: obtivera todo o seu estranho curso de um velho livro digno de confiança, que nós mesmos podemos pegar e ler. O historiador dinamarquês Ludvig Holberg, que escreveu tantos livros que valem a leitura e as divertidas comédias pelas quais bem podemos conhecer seu tempo e suas pessoas, conta em suas cartas sobre Marie Grubbe,
onde e como a encontrou no mundo; vale a pena ouvir, por isso não nos esquecemos de maneira alguma de Grethe das galinhas, que vive contente e bem em seu vistoso galinheiro.

O navio partiu com Marie Grubbe; foi aí que paramos.

Passaram-se anos e mais anos.

A peste grassava em Copenhague, era o ano de 1711. A rainha da Dinamarca foi para sua terra natal alemã, o rei deixou a capital do reino, todos os que podiam se apressavam em partir; os estudantes, mesmo os que tinham moradia e comida gratuitas, procuravam sair da cidade. Um deles, o último que ainda ficara no chamado “Colégio de Borch”, perto de Regensen, também partiu. Eram duas horas da madrugada; levava sua mochila, mais cheia de livros e papéis escritos do que propriamente de roupas. Uma névoa úmida e pegajosa pairava sobre a cidade; não se via uma pessoa na rua inteira por onde andava; por toda parte havia cruzes desenhadas nas portas e portões: lá dentro estava a doença, ou os moradores tinham morrido. Também não se via ninguém na mais larga e sinuosa “Kødmangergade”, como se chamava a rua que ia da “Torre Redonda” ao palácio do rei. Então passou, estrondando, um grande carro funerário; o cocheiro estalava o chicote, os cavalos iam a galope, o carro estava cheio de mortos. O jovem estudante cobriu o rosto com a mão e cheirou um álcool forte que trazia numa esponja dentro de um estojo de latão para giz. De uma taberna numa das ruelas vinham cantos aos berros e risadas sinistras de gente que bebia a noite inteira para esquecer que a doença estava à porta e queria levá-los no carro funerário para junto dos outros mortos. O estudante seguiu para a ponte do palácio, onde havia duas pequenas embarcações; uma levantava âncora para fugir da cidade infectada.

— Se Deus nos deixar viver e tivermos vento para isso, vamos para Grønsund, junto a Falster! — disse o capitão, e perguntou o nome ao estudante que queria embarcar.

— Ludvig Holberg — disse o estudante, e esse nome soou como qualquer outro; agora vocês ouvem nele um dos nomes de que a Dinamarca mais se orgulha; naquele tempo era apenas um jovem estudante desconhecido.

O navio deslizou diante do palácio. Ainda não amanhecera quando chegou a águas abertas. Veio uma leve brisa, a vela se enfunou; o jovem estudante sentou-se com o rosto voltado para o vento fresco e adormeceu, o que não era exatamente a coisa mais aconselhável.

Já na terceira manhã a embarcação estava diante de Falster.

— Conhece alguém aqui onde eu possa me hospedar com pouco dinheiro? — perguntou Holberg ao capitão.

— Creio que fará bem em procurar a barqueira no Borrehuset — disse ele. — Se quiser ser muito galante, ela se chama mãe Søren Sørensen Møller! Mas pode ser que fique furiosa se a tratar com fineza demais! O marido está preso por um crime, ela mesma conduz o barco da travessia. Tem bons punhos!

O estudante pegou sua mochila e foi à casa da barqueira. A porta da sala não estava trancada; a aldrava se levantou, e ele entrou num aposento de piso de pedra, onde o móvel mais importante era um banco-cama com uma grande coberta de peles. Uma galinha branca com pintinhos estava amarrada ao banco-cama e derrubara a vasilha de água, que se espalhara pelo chão. Não havia ninguém ali nem no quarto ao lado, apenas um berço com uma criança. O barco da travessia voltava; nele vinha uma única pessoa, homem ou mulher não era fácil dizer. A pessoa se envolvia num grande casaco e tinha na cabeça um gorro semelhante a uma touca. O barco atracou.

Era uma mulher que veio e entrou na sala. Ao endireitar as costas, parecia bastante imponente; dois olhos orgulhosos estavam sob as sobrancelhas negras. Era mãe Søren, a barqueira; gralhas, corvos e gralhas-de-nuca-cinzenta teriam gritado outro nome que conhecemos melhor.

Parecia carrancuda e certamente não gostava muito de falar, mas conversaram e acertaram o suficiente para que o estudante contratasse comida e hospedagem por tempo indeterminado, enquanto as coisas iam tão mal em Copenhague.

De vez em quando vinham à casa da travessia, da cidade próxima, alguns cidadãos respeitáveis. Vinham Frands, o fabricante de facas, e Sivert, o fiscal de sacos; bebiam uma caneca de cerveja e discutiam com o estudante; ele era um jovem capaz, conhecia sua prática, como diziam, lia grego e latim e sabia de assuntos eruditos.

— Quanto menos se sabe, menos isso pesa sobre a gente! — dizia mãe Søren.

— Sua vida é dura! — disse Holberg, num dia em que ela fervia suas roupas em lixívia forte e ainda precisava rachar os nós de madeira para fazer fogo.

— Deixe isso comigo! — respondeu ela.

— Desde pequena sempre teve de trabalhar e se esfalfar assim?

— Pode muito bem ler isso nos meus punhos! — disse ela, mostrando duas mãos que eram pequenas, sim, mas duras e fortes, com as unhas roídas. — Afinal, tem estudo para ler.

Perto do Natal começaram fortes nevascas; o frio apertou, o vento cortava como se tivesse ácido nítrico para lavar o rosto das pessoas. Mãe Søren não se deixava abalar: jogava o casaco sobre os ombros e puxava a touca sobre a cabeça. Dentro de casa escurecia cedo, ainda à tarde; punha lenha e turfa no fogo, depois se sentava e remendava as solas das meias, pois não havia mais ninguém para fazer aquilo. Ao anoitecer falou com o estudante mais do que era seu costume; falou do marido.

— Matou sem querer um capitão de Dragør e por isso agora tem de trabalhar acorrentado por três anos em Holmen. É apenas um simples marinheiro, então a lei tem de seguir seu curso.

— A lei também vale para as classes mais altas — disse Holberg.

— Acha? — disse mãe Søren, olhando para o fogo; depois recomeçou. — Ouviu falar de Kai Lykke, que mandou demolir uma de suas igrejas e, quando o pastor Mads trovejou contra isso do púlpito, mandou pôr o senhor Mads no tronco e a ferros, instituiu um tribunal e ele próprio o condenou a perder a cabeça, que de fato lhe cortaram? Aquilo não foi sem querer, e mesmo assim Kai Lykke ficou livre e solto naquela ocasião!

— Naquele tempo ele agia dentro do seu direito! — disse Holberg. — Agora já passamos dessa época!

— Vá fazer os tolos acreditarem nisso! — disse mãe Søren, levantou-se e entrou no quarto onde estava “a menina”, a criancinha; ergueu-a e a deitou, depois arrumou o banco-cama do estudante; ele ficava com a coberta de peles, pois sentia mais frio que ela, embora tivesse nascido na Noruega.

A manhã de Ano-Novo foi um dia de sol muito claro; a geada fora e continuava tão forte que a neve soprada pelo vento ficara congelada e dura, a ponto de se poder andar sobre ela. Os sinos da cidade chamavam para a igreja; o estudante Holberg envolveu-se na capa de lã e quis ir à cidade.

Gralhas, corvos e gralhas-de-nuca-cinzenta voavam, gritando e grasnando, sobre o Borrehuset; a gritaria não deixava ouvir os sinos da igreja. Mãe Søren estava do lado de fora, enchendo uma chaleira de latão com neve para pôr no fogo e obter água de beber; olhava para o bando de aves e tinha seus próprios pensamentos a respeito.

O estudante Holberg foi à igreja; na ida e na volta passou diante da casa de Sivert, o fiscal de sacos, junto ao portão; ali o convidaram a entrar para uma tigela de cerveja quente com xarope e gengibre; a conversa recaiu sobre mãe Søren, mas o fiscal não sabia grande coisa, como provavelmente poucos sabiam: ela não era de Falster, disse, talvez tivesse tido alguns bens outrora; seu marido era um simples marinheiro, de temperamento violento, que matara um capitão de Dragør.

— Ele bate na velha, e ainda assim ela o defende.

— Eu não suportaria um tratamento desses! — disse a mulher do fiscal. — Também venho de gente melhor: meu pai era tecelão de meias do rei!

— Por isso também se casou com um funcionário real — disse Holberg, fazendo uma reverência para ela e para o fiscal.

Era a véspera do Dia de Reis. Mãe Søren acendeu para Holberg uma vela de Reis, isto é, três pavios de sebo que ela própria mergulhara.

— Uma luz para cada homem! — disse Holberg.

— Cada homem? — disse a mulher, encarando-o.

— Cada um dos sábios do Oriente! — disse Holberg.

— Ah, nesse sentido! — disse ela, e ficou muito tempo em silêncio. Mas naquela véspera de Reis ele ficou sabendo mais do que soubera antes.

— Tem um sentimento amoroso pelo homem com quem vive casada — disse Holberg. — Mas as pessoas dizem que ele a maltrata todos os dias.

— Isso não diz respeito a ninguém além de mim! — respondeu ela. — Essas pancadas poderiam ter-me feito bem quando pequena; agora decerto as recebo por meus pecados! O bem que ele me fez, eu sei — e endireitou-se por inteiro. — Quando eu jazia doente na charneca aberta e ninguém queria se aproximar de mim, a não ser talvez gralhas e corvos para me bicar, ele me carregou nos braços e ouviu palavras ásperas pela presa que trazia ao navio. Não fui feita para ficar doente, e me recuperei. Cada um tem seu jeito, Søren tem o dele; não se deve julgar o cavalo pelo cabresto! Com ele, no fim das contas, vivi mais alegremente do que com aquele que chamavam de mais galante e distinto de todos os súditos do rei. Fui casada com o governador Gyldenløve, meio-irmão do rei; depois tomei Palle Dyre! Tanto faz um como o outro, cada qual à sua maneira e eu à minha. Foi uma longa conversa, mas agora sabe!

E saiu da sala.

Era Marie Grubbe! Assim a sorte a lançara de um lado para o outro. Ela não viveu para muitas outras vésperas de Reis; Holberg anotou que morreu em junho de 1716, mas não anotou, porque não sabia, que, quando mãe Søren, como a chamavam, jazia morta no Borrehuset, uma multidão de grandes aves negras voou sobre o lugar; não gritavam, como se soubessem que um enterro pede silêncio. Assim que ela foi posta na terra, as aves desapareceram, mas naquela mesma noite, na Jutlândia, perto do velho solar, viu-se uma quantidade imensa de gralhas, corvos e gralhas-de-nuca-cinzenta; gritavam umas por cima das outras, como se tivessem algo a anunciar, talvez sobre aquele que, quando menino, roubava seus ovos e filhotes cobertos de penugem, o filho do camponês que recebeu ligas de ferro na ilha do rei, e a nobre senhorita que acabou como barqueira em Grønsund.

— Bravo! Bravo! — gritavam.

Sua descendência também gritou “Bravo! Bravo!” quando o velho solar foi demolido.

— Ainda gritam lá, e já não há mais nada por que gritar! — dizia o sacristão ao contar a história. — A família morreu, o solar foi demolido, e onde ele ficava está agora o vistoso galinheiro, com cata-ventos dourados e a velha Grethe das galinhas. Ela é tão feliz em sua bonita moradia; se não tivesse vindo para cá, teria ido para o asilo dos pobres.

As pombas arrulhavam acima dela, os perus tagarelavam ao redor e os patos grasnavam.

— Ninguém a conhecia! — diziam. — Ela não tem família. É uma obra de caridade que esteja aqui. Não tem pai-pato nem mãe-galinha, descendência nenhuma!

Mas ela tinha família; ela não a conhecia, nem o sacristão, apesar de tudo o que guardava escrito na gaveta da mesa; um dos velhos corvos, porém, sabia e contava. Ouvira de sua mãe e de sua avó falar da mãe de Grethe e de sua avó, que também conhecemos, desde que, menina, atravessava a ponte levadiça a cavalo e olhava tão orgulhosa ao redor, como se o mundo inteiro e todos os seus ninhos fossem dela; nós a vimos na charneca junto às dunas e por fim no “Borrehuset”. A neta, a última da família, voltara para casa, onde estivera o velho solar, onde as aves negras e selvagens gritavam; mas ela se sentava entre as aves domésticas, conhecida delas e familiarizada com elas. Grethe das galinhas não tinha mais nada a desejar; estava contente para morrer, velha para morrer.

— Cova! Cova! — gritaram os corvos.

E Grethe recebeu uma boa sepultura, que ninguém conhecia, exceto o velho corvo, se é que ele também não morreu.

Agora conhecemos a história do velho solar, da velha linhagem e de toda a família de Grethe das galinhas.

## Créditos

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