# A lebre e o ouriço

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/a-lebre-e-o-ourico)
Autoria original: Jacob Grimm e Wilhelm Grimm
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 070bc8eb-0d24-480b-bbea-95b77a593dc8
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Numa manhã de domingo, uma lebre caçoa das pernas tortas de um ouriço. Ele a desafia para uma corrida e chama sua mulher para ajudá-lo.

## Conto integral

Esta história parece mentira de se contar, meninos, mas é verdadeira, sim, pois meu avô, de quem a ouvi, sempre costumava dizer, quando me contava a história com todo o gosto:

— Verdadeira ela tem de ser, meu filho, senão não se poderia contá-la.

Mas a história aconteceu assim.

Era uma manhã de domingo na época da colheita, justamente quando o trigo-sarraceno estava em flor. O sol tinha nascido brilhante no céu, o vento da manhã soprava morno sobre o restolho, as cotovias cantavam no ar, as abelhas zumbiam entre as flores do trigo-sarraceno e as pessoas iam à igreja em seus trajes de domingo. Todas as criaturas estavam contentes, e o ouriço também.

O ouriço estava diante de sua porta, de braços cruzados, olhando para fora, ao vento da manhã, e cantarolava uma cantiguinha para si, tão bem e tão mal quanto um ouriço costuma cantar numa bela manhã de domingo. Enquanto ainda cantava baixinho, ocorreu-lhe que, enquanto sua mulher lavava e vestia as crianças, ele bem podia dar um passeio pelo campo e ver como estavam seus nabos suecos. Esses nabos suecos eram os que ficavam mais perto de sua casa e, como ele e sua família costumavam comê-los, considerava-os seus. Dito e feito. O ouriço fechou a porta de casa atrás de si e tomou o caminho do campo. Ainda não estava muito longe de casa e ia justamente contornar o arbusto de abrunheiro que havia diante do campo, para subir à plantação de nabos suecos, quando encontrou a lebre, que saíra com intenção parecida: ir ver suas couves. Ao avistá-la, o ouriço lhe deu um amistoso bom-dia. A lebre, porém, que a seu modo era uma grande senhora, e além disso terrivelmente arrogante, não respondeu à saudação do ouriço; em vez disso, disse-lhe, com uma expressão de grande escárnio:

— Como é que você já anda pelo campo tão cedo assim?

— Estou passeando — disse o ouriço.

— Passeando? — riu a lebre. — Acho que você bem podia usar essas pernas para coisa melhor.

Essa resposta aborreceu enormemente o ouriço, pois ele podia suportar tudo, mas não admitia que falassem mal de suas pernas, justamente porque eram tortas por natureza.

— Você deve imaginar — disse então o ouriço à lebre — que consegue fazer mais com as suas pernas, não é?

— Acho que sim — disse a lebre.

— Isso depende de uma prova — opinou o ouriço. — Aposto que, se disputarmos uma corrida, eu passo na sua frente.

— É de dar risada, com essas suas pernas tortas — disse a lebre —, mas por mim pode ser, se você tem tanta vontade. Quanto vale a aposta?

— Um luís de ouro e uma garrafa de aguardente — disse o ouriço.

— Aceito — falou a lebre. — Dê cá a mão, e podemos começar agora mesmo.

— Não, não há tanta pressa — respondeu o ouriço. — Ainda estou em jejum; primeiro vou para casa tomar um pouco de café da manhã. Daqui a meia hora estarei aqui outra vez.

Com isso, o ouriço foi embora, pois a lebre concordara. Pelo caminho, pensou consigo: “A lebre confia nas pernas compridas, mas vou dar um jeito nela. Pode ser uma grande senhora, mas não passa de uma tola e terá de pagar.” Quando o ouriço chegou em casa, disse à mulher:

— Mulher, vista-se depressa, você precisa ir comigo ao campo.

— O que aconteceu? — perguntou ela.

— Apostei com a lebre um luís de ouro e uma garrafa de aguardente. Vou disputar uma corrida com ela, e você vai estar lá comigo.

— Ó meu Deus, homem! — começou a gritar a mulher do ouriço. — Você está maluco? Perdeu completamente o juízo? Como pode querer disputar uma corrida com a lebre?

— Cale a boca, mulher — disse o ouriço. — Isso é assunto meu. Não se meta em negócios de homem. Vamos, vista-se e venha comigo.

O que a mulher do ouriço poderia fazer? Tinha de obedecer, quisesse ou não.

Quando os dois iam pelo caminho, o ouriço disse à mulher:

— Agora preste atenção no que vou dizer. Está vendo aquele campo comprido? É lá que vamos disputar a corrida. A lebre vai correr num sulco, e eu no outro; começaremos lá em cima. Você não tem mais nada a fazer a não ser ficar aqui embaixo, no sulco. Quando a lebre chegar do outro lado, grite para ela: “Já estou aqui!”

Assim chegaram ao campo. O ouriço mostrou à mulher o lugar dela e subiu pelo campo. Quando chegou lá em cima, a lebre já estava lá.

— Podemos começar? — perguntou a lebre.

— Sim, senhor — disse o ouriço.

— Então vamos!

E cada qual se pôs em seu sulco. A lebre contou: “Um, dois, três!” e disparou campo abaixo como uma ventania. O ouriço, porém, correu apenas uns três passos, depois se abaixou no sulco e ficou quieto, sentado.

Quando a lebre chegou a toda velocidade à parte de baixo do campo, a mulher do ouriço gritou para ela:

— Já estou aqui!

A lebre estacou, nada pouco admirada; estava convencida de que quem lhe gritava aquilo era o próprio ouriço, pois, como se sabe, a mulher do ouriço é igualzinha ao marido.

A lebre, porém, pensou: “Isso não é coisa natural.” E gritou:

— Vamos correr outra vez, de volta!

E lá foi ela outra vez como uma ventania, com as orelhas batendo na cabeça. A mulher do ouriço, porém, ficou quieta em seu lugar. Quando a lebre chegou lá em cima, o ouriço gritou para ela:

— Já estou aqui!

A lebre, completamente fora de si de raiva, berrou:

— Vamos correr outra vez, de volta!

— Para mim não é difícil — respondeu o ouriço. — Por mim, quantas vezes você quiser.

Assim a lebre correu mais setenta e três vezes, e o ouriço sempre aguentou firme com ela. Cada vez que a lebre chegava embaixo ou em cima, o ouriço ou a mulher dele dizia:

— Já estou aqui!

Na septuagésima quarta vez, porém, a lebre não chegou ao fim. No meio do campo, caiu por terra, o sangue lhe jorrou da garganta e ela ficou morta ali mesmo. O ouriço pegou o luís de ouro e a garrafa de aguardente que ganhara, chamou a mulher para fora do sulco e os dois voltaram juntos, contentes, para casa; e, se não morreram, ainda estão vivos.

Foi assim que aconteceu de o ouriço fazer a lebre correr até morrer na charneca de Buxtehude, e desde então nenhuma lebre voltou a ter a ideia de apostar corrida com o ouriço de Buxtehude.

A lição desta história, porém, é, primeiro, que ninguém, por mais distinto que se julgue, deve se atrever a caçoar de um homem humilde, mesmo que ele seja apenas um ouriço. E, segundo, que é aconselhável, quando alguém se casa, escolher uma mulher de sua própria condição e que seja igualzinha a ele. Quem for ouriço, portanto, deve tratar de que sua mulher também seja ouriço, e assim por diante.

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/#frente-educacao)

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