# A Pequena Sereia

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/a-pequena-sereia)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: bb45c73b-96b0-4622-8258-bedfde0cf528
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

A filha mais nova do rei do mar deseja conhecer o mundo dos homens. Quando finalmente pode subir à superfície, vê um príncipe num navio e o salva durante um naufrágio, sem que ele descubra quem o resgatou. De volta ao fundo do mar, procura saber como vivem os humanos e o que acontece com suas almas. O desejo de estar com o príncipe e de obter uma alma imortal a leva à bruxa do mar.

## Conto integral

Longe, no mar, a água é azul como as pétalas da mais bela centáurea e transparente como o vidro mais puro. Mas é muito profunda, mais do que alcança qualquer cabo de âncora. Seria preciso empilhar muitas torres de igreja para chegar do fundo até acima da água. É lá embaixo que vive o povo do mar.

Não se deve pensar que ali só existe o chão nu de areia branca. Não: crescem as mais extraordinárias árvores e plantas, de caules e folhas tão flexíveis que se movem ao menor movimento da água, como se estivessem vivas. Todos os peixes, pequenos e grandes, deslizam entre os ramos, como aqui em cima os pássaros no ar. No lugar mais profundo fica o palácio do rei do mar. As paredes são de coral, as longas janelas pontudas, do âmbar mais transparente, e o telhado, de conchas que se abrem e fecham conforme a água se move. É lindo de ver, pois em cada uma há pérolas reluzentes; uma só delas seria um grande enfeite na coroa de uma rainha.

O rei do mar era viúvo havia muitos anos, mas sua velha mãe cuidava da casa. Era uma mulher sábia, porém orgulhosa de sua nobreza; por isso usava doze ostras na cauda, enquanto os outros nobres só podiam usar seis. Fora isso, merecia muitos elogios, sobretudo por gostar tanto das pequenas princesas do mar, suas netas, filhas do rei. Eram seis lindas crianças, mas a mais nova era a mais bonita de todas. Sua pele era clara e delicada como uma pétala de rosa, seus olhos eram azuis como o mar mais profundo, mas, como todas as outras, não tinha pés: seu corpo terminava numa cauda de peixe.

Podiam passar o dia inteiro brincando no palácio, nos grandes salões onde flores vivas cresciam das paredes. As grandes janelas de âmbar eram abertas, e os peixes entravam, como entre nós as andorinhas voam para dentro quando abrimos as janelas. Mas os peixes nadavam direto até as pequenas princesas, comiam em suas mãos e se deixavam acariciar.

Fora do palácio havia um grande jardim com árvores vermelhas como fogo e azuis-escuras. Os frutos reluziam como ouro, e as flores, como fogo ardente, sempre movendo caules e folhas. O chão era da areia mais fina, mas azul como chama de enxofre. Sobre tudo ali embaixo pairava um extraordinário brilho azul: seria mais fácil pensar que se estava no alto do ar, vendo apenas céu por cima e por baixo, do que no fundo do mar. Quando tudo estava imóvel, podia-se avistar o sol. Parecia uma flor de púrpura, de cujo cálice saía toda a luz.

Cada princesinha tinha um pequeno pedaço do jardim onde podia cavar e plantar como quisesse. Uma deu a seu canteiro o formato de uma baleia; outra preferiu que o seu parecesse uma pequena sereia. Mas a mais nova fez o seu inteiramente redondo como o sol e só plantou flores que brilhavam vermelhas como ele. Era uma criança estranha, quieta e pensativa. Enquanto as outras irmãs enfeitavam seus canteiros com as coisas mais extraordinárias que conseguiam de navios naufragados, ela só queria, além das flores cor-de-rosa que lembravam o sol lá no alto, uma bela estátua de mármore. Era um lindo rapaz, talhado na pedra branca e límpida, que chegara ao fundo do mar num naufrágio. Junto da estátua plantou um salgueiro-chorão cor-de-rosa. Ele cresceu magnificamente, estendendo seus ramos frescos sobre ela e até a areia azul, onde a sombra aparecia violeta e se movia como os ramos. Parecia que a copa e as raízes brincavam de se beijar.

Nada lhe dava mais alegria do que ouvir falar do mundo dos homens lá em cima. A velha avó precisava contar tudo o que sabia sobre navios e cidades, pessoas e animais. A pequena achava especialmente maravilhoso que as flores na terra tivessem perfume — as do fundo do mar não tinham —, que as florestas fossem verdes e que os peixes vistos entre os ramos cantassem tão alto e tão lindamente. Eram os passarinhos que a avó chamava de peixes, pois de outro modo elas não a entenderiam, já que nunca tinham visto um pássaro.

— Quando completarem quinze anos — disse a avó —, terão permissão para subir do mar, sentar-se ao luar nas rochas e ver os grandes navios que passam. Verão florestas e cidades! — No ano seguinte, uma das irmãs faria quinze anos; as outras tinham um ano de diferença entre si. A mais nova, portanto, ainda precisava esperar cinco anos inteiros antes de poder subir do fundo do mar e ver como eram as coisas entre nós. Mas cada uma prometeu contar às outras o que tivesse visto e achado mais belo no primeiro dia, pois a avó não contava o bastante: havia tanta coisa que precisavam saber!

Ninguém ansiava tanto quanto a mais nova, justamente ela, que tinha mais tempo para esperar e era tão quieta e pensativa. Muitas noites ficava à janela aberta, olhando para cima através da água azul-escura, onde os peixes batiam as barbatanas e a cauda. Podia ver a lua e as estrelas. Seu brilho era bem pálido, mas através da água pareciam muito maiores do que aos nossos olhos. Quando algo como uma nuvem negra deslizava por baixo delas, sabia que era uma baleia nadando acima de sua cabeça ou um navio com muitas pessoas. Elas certamente não imaginavam que uma linda sereiazinha estava lá embaixo, estendendo as mãos brancas para a quilha.

Por fim, a princesa mais velha completou quinze anos e pôde subir acima da superfície.

Quando voltou, tinha cem coisas para contar. Mas o mais lindo, dizia, era deitar ao luar num banco de areia, no mar tranquilo, e ver perto da costa a grande cidade, cujas luzes piscavam como cem estrelas. Ouvir a música e o barulho das carruagens e das pessoas, ver tantas torres de igreja e agulhas e ouvir os sinos repicarem! Justamente por não poder ir até lá, era o que mais desejava.

Ah, como a irmã mais nova escutava! Depois, à noite, quando ficava à janela aberta e olhava para cima através da água azul-escura, pensava na grande cidade, com todo aquele movimento e barulho, e parecia ouvir os sinos das igrejas repicarem até ela.

No ano seguinte, a segunda irmã teve permissão para subir pela água e nadar para onde quisesse. Emergiu bem quando o sol se punha, e achou aquela visão a mais bela de todas. O céu inteiro parecia ouro, dizia. E as nuvens! Não conseguia descrever toda a sua beleza. Vermelhas e violetas, tinham passado flutuando sobre ela. Muito mais depressa que elas, porém, um bando de cisnes selvagens voou como um longo véu branco sobre a água, em direção ao sol. Ela nadou para lá, mas ele se pôs, e o brilho cor-de-rosa se apagou da superfície do mar e das nuvens.

No ano seguinte, foi a vez da terceira irmã subir. Era a mais ousada de todas, por isso nadou rio acima por um largo rio que desaguava no mar. Viu belas colinas verdes cobertas de videiras, castelos e fazendas que apareciam entre florestas magníficas. Ouviu todos os pássaros cantarem, e o sol brilhava tão quente que muitas vezes precisava mergulhar para refrescar o rosto ardente. Numa pequena enseada encontrou um grupo de criancinhas humanas. Corriam inteiramente nuas e chapinhavam na água. Ela quis brincar com elas, mas fugiram assustadas. Então apareceu um pequeno animal preto: era um cachorro, mas ela nunca tinha visto um. Ele latiu tanto que a assustou, e ela voltou ao mar aberto. Nunca mais, porém, esqueceu aquelas florestas magníficas, as colinas verdes e as lindas crianças que sabiam nadar na água apesar de não terem cauda de peixe.

A quarta irmã não era tão ousada. Ficou no meio do mar bravio e contou que ali era o lugar mais belo de todos. Podia-se enxergar por muitas milhas ao redor, e o céu por cima parecia uma grande campânula de vidro. Tinha visto navios, mas muito longe, parecendo gaivotas. Os divertidos golfinhos davam cambalhotas, e as grandes baleias lançavam água pelas narinas, como se houvesse cem fontes por toda parte.

Chegou a vez da quinta irmã. Seu aniversário era justamente no inverno, por isso viu coisas que as outras não tinham visto na primeira vez. O mar parecia inteiramente verde, e por toda parte flutuavam grandes icebergs. Cada um parecia uma pérola, dizia, embora fosse muito maior que as torres de igreja construídas pelos homens. Tinham as formas mais extraordinárias e brilhavam como diamantes. Ela se sentara num dos maiores, e todos os navegantes passavam assustados ao largo do lugar onde estava, deixando o vento brincar com seus longos cabelos. Ao anoitecer, porém, o céu se cobriu de nuvens. Relampejava e trovejava, enquanto o mar negro erguia os grandes blocos de gelo e os fazia brilhar sob os relâmpagos vermelhos. Todos os navios recolheram as velas. Havia medo e terror, mas ela permanecia tranquila em seu iceberg flutuante, vendo o relâmpago azul descer em zigue-zague até o mar reluzente.

Na primeira vez que cada irmã subia acima da água, ficava encantada com tudo o que via de novo e belo. Mas agora que, já crescidas, podiam subir quando quisessem, aquilo lhes ficou indiferente. Voltavam a sentir saudade de casa e, depois de um mês, diziam que o lugar mais bonito era mesmo lá embaixo, onde se estava tão bem, em casa.

Em muitas noites, as cinco irmãs se davam os braços e subiam em fila pela água. Tinham vozes lindas, mais belas que as de qualquer pessoa. Quando uma tempestade se aproximava e achavam que os navios poderiam naufragar, nadavam à frente deles, cantando tão lindamente sobre a beleza do fundo do mar e pedindo aos marinheiros que não tivessem medo de descer até lá. Mas eles não entendiam as palavras: pensavam que era a tempestade. Tampouco chegavam a ver a beleza lá embaixo, pois, quando o navio afundava, as pessoas se afogavam e só chegavam mortas ao palácio do rei do mar.

Quando as irmãs subiam assim à noite, de braços dados, a pequena ficava sozinha, olhando atrás delas. Parecia que ia chorar, mas a sereia não tem lágrimas, e por isso sofre muito mais.

— Ah, se eu já tivesse quinze anos! — dizia. — Sei que vou amar muito aquele mundo lá em cima e as pessoas que constroem suas casas e vivem nele!

Finalmente, completou quinze anos.

— Agora também estamos livres de você — disse sua avó, a velha rainha-viúva. — Venha, deixe-me enfeitá-la como suas irmãs! — Pôs-lhe nos cabelos uma grinalda de lírios brancos, mas cada pétala da flor era metade de uma pérola. Depois fez oito grandes ostras se prenderem à cauda da princesa, para mostrar sua elevada posição.

— Isso dói tanto! — disse a pequena sereia.

— Sim, é preciso sofrer um pouco pelo luxo! — disse a velha.

Ah, como ela queria sacudir de si todo aquele esplendor e tirar a pesada grinalda! Suas flores vermelhas do jardim lhe ficavam muito melhor, mas agora não se atrevia a mudar nada. — Adeus! — disse, e subiu pela água tão leve e transparente como uma bolha.

O sol tinha acabado de se pôr quando ela ergueu a cabeça acima do mar. Mas todas as nuvens ainda brilhavam como rosas e ouro, e no meio do ar rosado e pálido a estrela da tarde reluzia clara e bela. O ar estava ameno e fresco, e o mar, inteiramente imóvel. Ali havia um grande navio de três mastros, com uma única vela erguida, pois não soprava vento algum. Marinheiros estavam sentados por toda parte nas cordas e nas vergas. Havia música e canto, e, à medida que escurecia, acendiam-se cem lanternas coloridas. Pareciam bandeiras de todas as nações tremulando no ar. A pequena sereia nadou até a janela da cabine e, sempre que a água a erguia, podia olhar pelos vidros límpidos como espelhos. Havia ali muitas pessoas bem vestidas, mas a mais bonita era o jovem príncipe, de grandes olhos negros. Não devia ter muito mais de dezesseis anos. Era seu aniversário, e por isso havia toda aquela festa. Os marinheiros dançavam no convés. Quando o jovem príncipe apareceu, mais de cem foguetes subiram ao ar, iluminando tudo como em pleno dia. A pequena sereia ficou tão assustada que mergulhou, mas logo pôs a cabeça para fora outra vez, e pareceu que todas as estrelas do céu caíam até ela. Nunca tinha visto fogos assim. Grandes sóis giravam; magníficos peixes de fogo se moviam pelo ar azul, e tudo se refletia no mar claro e tranquilo. No próprio navio havia tanta luz que se enxergava cada cordinha, quanto mais as pessoas! Ah, como o jovem príncipe era bonito! Apertava as mãos das pessoas, ria e sorria, enquanto a música soava na bela noite.

Ficou tarde, mas a pequena sereia não conseguia desviar os olhos do navio e do belo príncipe. As lanternas coloridas foram apagadas; já não subiam foguetes nem se ouviam tiros de canhão. Mas, no fundo do mar, havia um zumbido e um rumor. Ela continuava sobre a água, subindo e descendo para poder olhar a cabine. O navio começou a andar mais depressa; uma vela após a outra se abriu. As ondas ficaram mais fortes, grandes nuvens se formaram e relâmpagos brilharam ao longe. Ah, viria um temporal terrível! Por isso os marinheiros recolheram as velas. O grande navio balançava velozmente no mar bravio. A água se erguia como enormes montanhas negras, prontas para desabar sobre o mastro. Mas o navio mergulhava como um cisne entre as ondas altas e depois se deixava erguer sobre aquelas torres de água. A pequena sereia achava a viagem divertida; os marinheiros, não. O navio rangia e estalava, as grossas tábuas se curvavam sob os golpes violentos, e o mar se lançava contra ele. O mastro se partiu ao meio como um junco, e o navio tombou de lado enquanto a água entrava no porão. Só então a pequena sereia percebeu que estavam em perigo. Ela mesma precisava tomar cuidado com as vigas e os destroços que flutuavam na água. Num instante, tudo ficava tão escuro que não enxergava nada; quando relampejava, porém, era tão claro que reconhecia todos no navio. Cada um lutava como podia. Ela procurava sobretudo o jovem príncipe e, quando o navio se desfez, viu-o afundar no mar profundo. De início ficou contente, pois agora ele desceria até ela. Mas então se lembrou de que os homens não podem viver na água e de que ele só poderia chegar morto ao palácio de seu pai. Não, ele não podia morrer! Nadou entre as vigas e tábuas que flutuavam, esquecendo completamente que poderiam esmagá-la. Mergulhou fundo e tornou a subir entre as ondas, até alcançar o jovem príncipe, que já quase não conseguia nadar naquele mar tempestuoso. Seus braços e pernas começavam a fraquejar, os belos olhos se fechavam: teria morrido se a pequena sereia não tivesse chegado. Ela sustentou sua cabeça acima da água e deixou as ondas levá-los para onde quisessem.

Pela manhã, o temporal tinha passado. Não se via uma lasca sequer do navio. O sol se ergueu vermelho e reluzente da água; parecia dar vida às faces do príncipe, mas seus olhos continuavam fechados. A sereia beijou sua bela testa alta e afastou-lhe os cabelos molhados. Achava que ele se parecia com a estátua de mármore de seu pequeno jardim. Beijou-o de novo e desejou que vivesse.

Viu então à frente a terra firme, altas montanhas azuis, com neve branca brilhando nos cumes, como cisnes ali pousados. Perto da costa havia belas florestas verdes e, diante delas, uma igreja ou um convento; não sabia ao certo, mas era um edifício. No jardim cresciam limoeiros e laranjeiras, e diante do portão havia altas palmeiras. Ali o mar formava uma pequena enseada, imóvel mas muito profunda, até junto da rocha onde se acumulara a areia branca e fina. Ela nadou até lá com o belo príncipe e o deitou na areia, cuidando especialmente para que a cabeça ficasse erguida ao sol quente.

Os sinos começaram a tocar no grande edifício branco, e muitas moças vieram pelo jardim. A pequena sereia nadou para mais longe e se escondeu atrás de grandes pedras que saíam da água. Pôs espuma do mar sobre os cabelos e o peito, para que ninguém visse seu pequeno rosto, e ficou observando quem chegaria ao pobre príncipe.

Não demorou para uma moça aparecer. Pareceu se assustar muito, mas apenas por um instante; logo buscou outras pessoas. A sereia viu o príncipe voltar à vida e sorrir para todos ao redor. Para ela, porém, ele não sorriu: nem sabia que tinha sido salvo por ela. Ficou tão triste! Quando o levaram para dentro do grande edifício, mergulhou pesarosa e voltou ao palácio de seu pai.

Sempre fora quieta e pensativa, mas agora ficou muito mais. As irmãs lhe perguntavam o que tinha visto na primeira vez lá em cima, mas ela não contava nada.

Em muitas manhãs e noites, subia ao lugar onde tinha deixado o príncipe. Viu os frutos do jardim amadurecerem e serem colhidos, viu a neve derreter nas altas montanhas, mas não viu o príncipe; por isso voltava para casa cada vez mais triste. Seu único consolo era sentar-se no pequeno jardim e abraçar a bela estátua de mármore que se parecia com ele. Mas não cuidava das flores, que cresciam como numa mata selvagem, invadindo os caminhos e enredando seus longos caules e folhas nos ramos das árvores, até tudo ficar escuro.

Por fim não aguentou mais e contou a uma das irmãs. Logo todas as outras souberam, mas ninguém mais, além delas e de duas outras sereias, que só contaram às amigas mais próximas. Uma delas sabia quem era o príncipe: também tinha visto a festa no navio e sabia de onde ele vinha e onde ficava seu reino.

— Venha, irmãzinha! — disseram as outras princesas. Com os braços nos ombros umas das outras, subiram do mar numa longa fila, diante do lugar onde sabiam que ficava o palácio do príncipe.

Era construído de uma pedra brilhante, amarelo-clara, com grandes escadarias de mármore, uma das quais descia direto ao mar. Magníficas cúpulas douradas se erguiam acima do telhado. Entre as colunas que rodeavam todo o edifício havia estátuas de mármore que pareciam vivas. Pelos vidros transparentes das altas janelas podiam ver salões esplêndidos, onde pendiam cortinas de seda e tapetes preciosos. Todas as paredes estavam enfeitadas com grandes pinturas, que era um prazer admirar. No meio do maior salão jorrava uma grande fonte, cujos jatos subiam até a cúpula de vidro do teto. Por ela o sol iluminava a água e as belas plantas que cresciam na grande bacia.

Agora sabia onde ele morava e voltava muitas noites. Nadava muito mais perto da terra do que qualquer das outras tinha ousado. Chegava a entrar no canal estreito, debaixo da magnífica varanda de mármore, que lançava uma longa sombra sobre a água. Ali ficava olhando o jovem príncipe, que se julgava inteiramente só ao luar.

Em muitas noites, via-o navegar com música em seu magnífico barco, de bandeiras tremulando. Ela espiava entre os juncos verdes. Se o vento agitava seu longo véu branco-prateado e alguém o via, pensava que era um cisne erguendo as asas.

Muitas noites ouvia os pescadores, que estavam no mar com fachos de luz, contarem tantas coisas boas sobre o jovem príncipe. Isso a alegrava, pois lhe salvara a vida quando ele flutuava quase morto nas ondas. Lembrava como sua cabeça tinha repousado firmemente em seu peito e com que ternura o beijara. Ele nada sabia daquilo; nem sequer podia sonhar com ela.

Gostava cada vez mais dos homens e desejava cada vez mais subir para o meio deles. Seu mundo lhe parecia muito maior que o dela. Podiam voar sobre o mar em navios, subir às altas montanhas muito acima das nuvens, e as terras que possuíam se estendiam, com florestas e campos, para além de onde ela conseguia enxergar. Havia tanta coisa que queria saber! Mas as irmãs não sabiam responder a tudo. Então perguntava à velha avó, que conhecia bem o mundo superior, como ela chamava, com muita razão, as terras acima do mar.

— Quando os homens não se afogam — perguntou a pequena sereia —, podem viver para sempre? Não morrem, como nós aqui embaixo no mar?

— Morrem, sim! — disse a velha. — Também têm de morrer, e sua vida é ainda mais curta que a nossa. Podemos chegar aos trezentos anos. Mas, quando deixamos de existir aqui, viramos apenas espuma na água, sem ter sequer uma sepultura entre nossos entes queridos. Não temos alma imortal, nunca mais voltamos a viver. Somos como o junco verde: depois de cortado, não pode reverdecer! Os homens, porém, têm uma alma que vive para sempre, mesmo depois de o corpo virar terra. Ela sobe pelo ar límpido, até todas aquelas estrelas reluzentes! Assim como nós subimos do mar para ver as terras dos homens, eles sobem para lugares desconhecidos e belos, que nunca veremos.

— Por que não recebemos uma alma imortal? — disse a pequena sereia, triste. — Eu daria todas as centenas de anos que tenho para viver por um único dia como ser humano e depois poder participar do mundo celestial!

— Não fique pensando nisso! — disse a velha. — Somos muito mais felizes e vivemos melhor que os homens lá em cima!

— Então vou morrer e flutuar como espuma no mar, sem ouvir a música das ondas, ver as belas flores e o sol vermelho! Não posso fazer nada para ganhar uma alma eterna?

— Não! — disse a velha. — Só se um ser humano a amasse tanto que você fosse para ele mais que pai e mãe; se todos os seus pensamentos e seu amor estivessem presos a você, e ele deixasse o sacerdote pôr sua mão direita na sua, com uma promessa de fidelidade aqui e por toda a eternidade, a alma dele passaria ao seu corpo, e você também participaria da felicidade dos homens. Ele lhe daria uma alma e ainda conservaria a própria. Mas isso nunca pode acontecer! O que aqui no mar é tão bonito, sua cauda de peixe, os homens lá em cima acham feio. Não entendem mais do que isso: para ser bonito, é preciso ter dois apoios desajeitados, que eles chamam de pernas!

A pequena sereia suspirou e olhou tristemente para sua cauda de peixe.

— Vamos ficar contentes — disse a velha. — Vamos saltar e brincar durante os trezentos anos que temos para viver; já é um bom tempo! Depois poderemos descansar ainda mais satisfeitos em nossa sepultura. Esta noite teremos um baile na corte!

Era um esplendor que nunca se vê na Terra. As paredes e o teto do grande salão de baile eram de vidro grosso, mas transparente. Centenas de conchas colossais, cor-de-rosa e verdes como a grama, se alinhavam dos dois lados, com fogo azul ardendo dentro delas. Iluminavam o salão inteiro e brilhavam através das paredes, clareando o mar lá fora. Podiam-se ver os incontáveis peixes, grandes e pequenos, nadando em direção à parede de vidro. Em alguns, as escamas brilhavam vermelho-púrpura; em outros, pareciam prata e ouro. Pelo meio do salão corria uma larga correnteza, e sobre ela os homens e as mulheres do mar dançavam ao som de seu belo canto. Os seres humanos na Terra não têm vozes tão bonitas. A pequena sereia cantava melhor que todos, e bateram palmas para ela. Por um instante sentiu alegria no coração, pois sabia que tinha a voz mais bela de todas, na Terra e no mar! Mas logo voltou a pensar no mundo acima de sua cabeça. Não conseguia esquecer o belo príncipe e a tristeza de não possuir, como ele, uma alma imortal. Escapou do palácio do pai e, enquanto lá dentro tudo era canto e alegria, sentou-se triste em seu pequeno jardim. Então ouviu trompas soarem através da água e pensou: “Agora ele certamente navega lá em cima, aquele a quem amo mais que pai e mãe, a quem meus pensamentos estão presos e em cujas mãos eu poria a felicidade de minha vida. Arriscarei tudo para ganhá-lo e ganhar uma alma imortal! Enquanto minhas irmãs dançam no palácio de meu pai, irei à bruxa do mar. Sempre tive tanto medo dela, mas talvez possa me aconselhar e ajudar!”

A pequena sereia saiu do jardim e foi em direção aos redemoinhos ruidosos, atrás dos quais morava a bruxa. Nunca tinha percorrido aquele caminho. Não cresciam flores nem ervas marinhas; apenas a areia cinzenta e nua se estendia até os redemoinhos. Ali a água girava como rodas de moinho e arrastava para o fundo tudo o que apanhava. Era preciso passar no meio daqueles turbilhões esmagadores para chegar ao território da bruxa do mar. Depois, por um longo trecho, só havia caminho sobre lodo quente e borbulhante, que a bruxa chamava de sua turfeira. Atrás dele ficava sua casa, no meio de uma floresta estranha. Todas as árvores e arbustos eram pólipos, metade animal e metade planta, parecendo serpentes de cem cabeças que cresciam do chão. Todos os ramos eram longos braços viscosos, com dedos como vermes flexíveis. Moviam-se articulação por articulação, da raiz à última ponta. Tudo o que conseguiam agarrar no mar era envolvido por eles e nunca mais solto. A pequena sereia parou muito assustada diante da floresta. Seu coração batia de medo; quase voltou atrás. Mas então pensou no príncipe e na alma humana e tomou coragem. Prendeu seus longos cabelos em volta da cabeça para que os pólipos não a agarrassem por eles, juntou as mãos sobre o peito e avançou, veloz como um peixe na água, entre os horríveis pólipos que lhe estendiam braços e dedos flexíveis. Viu que cada um segurava alguma coisa: cem bracinhos a prendiam como fortes cintas de ferro. Pessoas que tinham morrido no mar e afundado até ali apareciam como esqueletos brancos nos braços dos pólipos. Eles seguravam lemes de navios e baús, esqueletos de animais terrestres e uma pequena sereia que tinham apanhado e estrangulado. Aquilo quase foi o que mais a aterrorizou.

Chegou a uma grande clareira viscosa, onde enormes cobras-d'água gordas se revolviam, mostrando suas feias barrigas branco-amareladas. No meio havia uma casa erguida com os ossos brancos de náufragos. Ali estava a bruxa do mar, deixando um sapo comer de sua boca, como as pessoas deixam um canarinho comer açúcar. Chamava as horríveis cobras gordas de seus pintinhos e deixava que rolassem sobre seu grande peito esponjoso.

— Sei muito bem o que você quer! — disse a bruxa do mar. — É uma tolice sua! Mesmo assim terá o que deseja, pois isso lhe trará desgraça, minha bela princesa. Quer se livrar da cauda de peixe e ganhar em seu lugar dois tocos para andar como os homens, para que o jovem príncipe se apaixone por você e você consiga ficar com ele e ganhar uma alma imortal! — A bruxa riu tão alto e tão horrivelmente que o sapo e as cobras caíram no chão e ficaram se revirando. — Veio na hora certa — disse ela. — Amanhã, quando o sol nascer, não poderei ajudá-la até passar mais um ano. Vou preparar uma bebida. Antes de o sol nascer, deverá nadar com ela até a terra, sentar-se na praia e bebê-la. Então sua cauda se dividirá e encolherá até formar o que os homens chamam de lindas pernas. Mas vai doer: será como uma espada afiada atravessando seu corpo. Todos que a virem dirão que é a mais bela criatura humana que já viram! Conservará seu andar flutuante; nenhuma dançarina poderá se mover como você. Mas cada passo será como pisar numa faca afiada, fazendo seu sangue correr. Se está disposta a sofrer tudo isso, eu a ajudarei!

— Sim! — disse a pequena sereia com voz trêmula, pensando no príncipe e em ganhar uma alma imortal.

— Mas lembre-se — disse a bruxa —: depois de ganhar forma humana, nunca mais poderá voltar a ser sereia! Nunca mais poderá descer pela água até suas irmãs e o palácio de seu pai. E, se não conquistar o amor do príncipe a ponto de ele esquecer pai e mãe por você, prender-se a você com todos os seus pensamentos e deixar que o sacerdote una suas mãos para que se tornem marido e mulher, não receberá uma alma imortal! Na primeira manhã depois de ele se casar com outra, seu coração terá de se partir, e você virará espuma na água.

— Eu quero! — disse a pequena sereia, pálida como uma morta.

— Mas também precisa me pagar! — disse a bruxa. — E não é pouco o que peço. Você tem a voz mais linda de todas aqui no fundo do mar. Certamente pensa em encantá-lo com ela, mas terá de me dar essa voz. Quero o melhor que possui em troca de minha preciosa bebida! Afinal, preciso pôr nela meu próprio sangue para que fique cortante como uma espada de dois gumes!

— Mas, se tirar minha voz — disse a pequena sereia —, o que me restará?

— Sua bela figura — disse a bruxa —, seu andar flutuante e seus olhos que falam. Com eles poderá fascinar um coração humano. Então, perdeu a coragem? Estenda sua pequena língua; vou cortá-la como pagamento, e você receberá a bebida poderosa!

— Assim seja! — disse a pequena sereia. A bruxa pôs o caldeirão a aquecer para ferver a poção. — Limpeza é uma boa coisa! — disse, esfregando o caldeirão com as cobras, que amarrou num nó. Depois arranhou o próprio peito e deixou seu sangue negro pingar lá dentro. O vapor formava figuras tão extraordinárias que enchiam de medo e pavor quem as visse. A todo instante a bruxa punha coisas novas no caldeirão. Quando a fervura ficou forte, era como quando o crocodilo chora. Por fim a bebida ficou pronta: parecia a água mais transparente!

— Aqui está! — disse a bruxa, e cortou a língua da pequena sereia, que ficou muda, sem poder cantar nem falar.

— Se os pólipos tentarem agarrá-la quando voltar pela minha floresta — disse a bruxa —, jogue neles uma única gota desta bebida, e seus braços e dedos se partirão em mil pedaços! — Mas a pequena sereia não precisou fazer isso. Os pólipos recuavam assustados ao ver a bebida reluzente em sua mão, brilhando como uma estrela cintilante. Assim atravessou depressa a floresta, o pântano e os redemoinhos ruidosos.

Podia ver o palácio de seu pai. As luzes do grande salão de baile estavam apagadas; certamente todos dormiam. Mas não se atreveu a procurá-los, agora que estava muda e os deixaria para sempre. Parecia que seu coração ia se partir de tristeza. Entrou de mansinho no jardim, colheu uma flor de cada canteiro das irmãs, lançou com o dedo mil beijos em direção ao palácio e subiu pelo mar azul-escuro.

O sol ainda não tinha aparecido quando ela avistou o palácio do príncipe e subiu a magnífica escadaria de mármore. A lua brilhava clara e bela. A pequena sereia bebeu a poção ardente e cortante. Foi como se uma espada de dois gumes atravessasse seu corpo delicado. Desmaiou e ficou deitada como morta. Quando o sol brilhou sobre o mar, acordou sentindo uma dor em brasa. Bem à sua frente estava o belo jovem príncipe, com os olhos negros como carvão fixos nela. Ela baixou os seus e viu que a cauda de peixe desaparecera e que tinha as mais lindas perninhas brancas que uma menina poderia ter. Mas estava inteiramente nua, por isso se envolveu em seus longos e abundantes cabelos. O príncipe perguntou quem era e como tinha chegado ali. Ela o olhou com doçura e, ao mesmo tempo, com tanta tristeza em seus olhos azul-escuros! Não podia falar. Então ele a tomou pela mão e a levou para dentro do palácio. Cada passo era como a bruxa tinha avisado: como pisar em sovelas pontudas e facas afiadas. Mas suportava aquilo de boa vontade. Pela mão do príncipe, avançava leve como uma bolha, e ele e todos admiravam seu andar gracioso e flutuante.

Vestiram-na com roupas preciosas de seda e musselina. Era a mais bela de todas no palácio, mas estava muda, sem poder cantar nem falar. Belas escravas vestidas de seda e ouro vieram cantar para o príncipe e seus pais reais. Uma cantava melhor que as outras. O príncipe bateu palmas e sorriu para ela; então a pequena sereia ficou triste, pois sabia que cantara muito melhor! Pensou: “Ah, se ele soubesse que, para estar ao seu lado, entreguei minha voz por toda a eternidade!”

As escravas começaram a dançar, com movimentos belos e flutuantes, ao som da música mais maravilhosa. A pequena sereia ergueu os lindos braços brancos, ficou na ponta dos pés e deslizou pelo chão, dançando como ninguém jamais dançara. A cada movimento sua beleza se tornava mais visível, e seus olhos falavam mais fundo ao coração do que o canto das escravas.

Todos ficaram encantados, sobretudo o príncipe, que a chamava de sua pequena enjeitada. Ela dançava cada vez mais, embora cada vez que seu pé tocasse o chão fosse como pisar em facas afiadas. O príncipe disse que ela devia ficar sempre ao seu lado, e deram-lhe permissão para dormir do lado de fora de sua porta, numa almofada de veludo.

Mandou costurar para ela um traje masculino, para que pudesse acompanhá-lo a cavalo. Cavalgavam pelas florestas perfumadas, onde os ramos verdes lhe tocavam os ombros e os passarinhos cantavam atrás das folhas frescas. Ela escalava com o príncipe as altas montanhas. Embora seus delicados pés sangrassem de modo que os outros pudessem ver, ria daquilo e o seguia, até avistarem as nuvens passando lá embaixo, como um bando de pássaros que partisse para terras estrangeiras.

Em casa, no palácio do príncipe, quando os outros dormiam, saía à larga escadaria de mármore. Ficar na água fria do mar refrescava seus pés ardentes, e então pensava nos que estavam lá embaixo, nas profundezas.

Uma noite vieram suas irmãs de braços dados, cantando com tristeza enquanto nadavam sobre a água. Ela acenou, e elas a reconheceram e contaram como tinha deixado todos tristes. Depois passaram a visitá-la todas as noites. Numa delas, viu bem longe a velha avó, que havia muitos anos não subia à superfície, e o rei do mar com sua coroa. Estendiam as mãos para ela, mas não se atreviam a chegar tão perto da terra como as irmãs.

Dia após dia, tornava-se mais querida para o príncipe. Ele gostava dela como se gosta de uma criança boa e querida, mas não lhe passava pela cabeça torná-la sua rainha. E ela precisava ser sua esposa; de outro modo, não receberia uma alma imortal e viraria espuma no mar na manhã de seu casamento.

“Você não gosta mais de mim do que de todas as outras?”, pareciam dizer os olhos da pequena sereia quando ele a abraçava e beijava sua bela testa.

— Sim, você é a mais querida! — disse o príncipe. — Porque tem o melhor coração de todas, é a mais dedicada a mim e se parece com uma moça que vi uma vez, mas certamente nunca mais encontrarei. Eu estava num navio que naufragou. As ondas me levaram à praia, junto de um templo sagrado onde várias moças serviam. A mais nova me encontrou na areia e salvou minha vida. Só a vi duas vezes. Era a única pessoa que eu poderia amar neste mundo, mas você se parece com ela, quase afasta sua imagem de minha alma. Ela pertence ao templo sagrado; por isso minha boa sorte me mandou você. Nunca nos separaremos! — “Ah, ele não sabe que fui eu quem salvou sua vida!”, pensou a pequena sereia. “Eu o carreguei pelo mar até a floresta onde fica o templo. Fiquei atrás da espuma, esperando para ver se alguém chegava. Vi a bela moça, a quem ele ama mais do que a mim!” A sereia suspirou profundamente; chorar, não podia. “Ele disse que a moça pertence ao templo sagrado. Ela nunca sairá pelo mundo; eles não voltarão a se encontrar. Eu estou com ele e o vejo todos os dias. Vou cuidar dele, amá-lo, sacrificar-lhe minha vida!”

Mas agora o príncipe ia se casar com a bela filha do rei vizinho, diziam. Era por isso que preparava um navio tão magnífico. Falava-se que viajaria para conhecer as terras do rei vizinho, mas era para ver a filha dele; levaria uma grande comitiva. A pequena sereia, porém, balançava a cabeça e ria. Conhecia os pensamentos do príncipe muito melhor que todos os outros. — Preciso viajar! — dissera ele. — Preciso ver a bela princesa; meus pais exigem. Mas não vão me obrigar a trazê-la para casa como minha noiva! Não posso amá-la! Ela não se parece com a bela moça do templo, como você se parece. Se um dia eu tivesse de escolher uma noiva, seria antes você, minha enjeitadinha muda de olhos que falam! — E beijou sua boca vermelha, brincou com seus longos cabelos e apoiou a cabeça junto ao coração dela, que sonhou com a felicidade humana e uma alma imortal.

— Você não tem medo do mar, minha criança muda? — perguntou ele quando estavam no magnífico navio que o levaria às terras do rei vizinho. Contou-lhe sobre tempestades e calmarias, sobre os peixes estranhos das profundezas e o que o mergulhador tinha visto ali. Ela sorria de suas histórias, pois conhecia o fundo do mar melhor que qualquer outra pessoa.

Na noite de luar, enquanto todos dormiam, menos o timoneiro ao leme, ela se sentava junto à amurada e olhava pela água transparente. Parecia ver o palácio de seu pai e, lá no alto, a velha avó com uma coroa de prata, olhando através das correntes fortes em direção à quilha do navio. Então suas irmãs apareceram na superfície, olhando para ela com tristeza e torcendo as mãos brancas. Ela lhes acenou, sorriu e quis contar que tudo lhe corria bem e feliz. Mas o grumete se aproximou, e as irmãs mergulharam. Ele ficou pensando que aquilo branco que tinha visto era espuma no mar.

Na manhã seguinte, o navio entrou no porto da magnífica cidade do rei vizinho. Todos os sinos das igrejas repicavam; do alto das torres soavam trombetas, enquanto os soldados se alinhavam com bandeiras tremulando e baionetas reluzentes. Havia uma festa a cada dia. Bailes e recepções se sucediam, mas a princesa ainda não chegara. Diziam que era educada longe dali, num templo sagrado, onde aprendia todas as virtudes reais. Finalmente chegou.

A pequena sereia esperava ansiosa para ver sua beleza e teve de reconhecê-la: nunca tinha visto figura mais graciosa. A pele era tão delicada e clara, e atrás dos longos cílios escuros sorria um par de olhos azul-negros e fiéis!

— É você! — disse o príncipe. — Você, que me salvou quando eu estava como morto junto à costa! — Abraçou a noiva corada. — Ah, sou feliz demais! — disse à pequena sereia. — O melhor, o que nunca ousei esperar, se realizou para mim. Você se alegrará com minha felicidade, porque é quem mais gosta de mim! — A pequena sereia beijou sua mão e já pareceu sentir o coração se partir. A manhã de seu casamento lhe traria a morte e a transformaria em espuma no mar.

Todos os sinos das igrejas tocavam. Os arautos cavalgavam pelas ruas anunciando o noivado. Em todos os altares ardia óleo perfumado em preciosas lâmpadas de prata. Os sacerdotes agitavam incensários, os noivos deram as mãos e receberam a bênção do bispo. A pequena sereia estava vestida de seda e ouro e segurava a cauda do vestido da noiva. Mas seus ouvidos não ouviam a música festiva, seus olhos não viam a cerimônia sagrada. Pensava na noite de sua morte, em tudo o que tinha perdido neste mundo.

Naquela mesma noite, os noivos embarcaram. Os canhões soaram, todas as bandeiras tremularam e, no meio do navio, tinha sido erguida uma preciosa tenda de ouro e púrpura, com as mais belas almofadas. Ali o casal dormiria na noite tranquila e fresca.

As velas se enfunaram ao vento, e o navio deslizou leve, sem grande balanço, pelo mar límpido.

Quando escureceu, acenderam-se lâmpadas coloridas, e os marinheiros dançaram alegremente no convés. A pequena sereia teve de pensar na primeira vez em que subira do mar e vira aquele mesmo esplendor e alegria. Entrou no rodopio da dança, leve como a andorinha quando é perseguida. Todos a aclamavam com admiração; nunca tinha dançado tão maravilhosamente! Era como facas afiadas cortando seus pés delicados, mas não sentia aquilo: o corte em seu coração doía mais. Sabia que era a última noite em que veria aquele por quem abandonara sua família e sua casa, dera sua linda voz e sofrera tormentos sem fim todos os dias, sem que ele soubesse. Era a última noite em que respirava o mesmo ar que ele, via o mar profundo e o céu azul de estrelas. Uma noite eterna, sem pensamento nem sonho, esperava por ela, que não tinha alma nem conseguira ganhá-la. Tudo no navio era alegria e divertimento até muito depois da meia-noite. Ela ria e dançava com a ideia da morte no coração. O príncipe beijou sua bela noiva, que brincou com seus cabelos negros, e, de braços dados, foram repousar na magnífica tenda.

O navio ficou quieto e silencioso. Só o timoneiro permanecia ao leme. A pequena sereia apoiou os braços brancos na amurada e olhou para o leste, à espera da aurora. Sabia que o primeiro raio de sol a mataria. Então viu suas irmãs subirem do mar, pálidas como ela. Seus longos e belos cabelos já não voavam ao vento: tinham sido cortados.

— Nós os demos à bruxa, para que trouxesse ajuda e você não morresse esta noite! Ela nos deu uma faca; aqui está! Está vendo como é afiada? Antes de o sol nascer, precisa cravá-la no coração do príncipe. Quando o sangue quente dele respingar em seus pés, eles crescerão juntos e formarão uma cauda de peixe. Você será sereia de novo, poderá descer até nós e viver seus trezentos anos antes de se tornar a espuma morta e salgada do mar. Depressa! Ele ou você precisa morrer antes de o sol nascer! Nossa velha avó sofre tanto que seus cabelos brancos caíram, como os nossos caíram sob a tesoura da bruxa. Mate o príncipe e volte! Depressa, está vendo a faixa vermelha no céu? Daqui a poucos minutos o sol nascerá, e então você terá de morrer! — Soltaram um suspiro extraordinariamente profundo e desapareceram nas ondas.

A pequena sereia afastou a cortina de púrpura da tenda e viu a bela noiva dormindo com a cabeça junto ao peito do príncipe. Inclinou-se, beijou-o na bela testa, olhou para o céu, onde a aurora brilhava cada vez mais, olhou para a faca afiada e tornou a fixar os olhos no príncipe. Em sonho ele dizia o nome de sua noiva; só ela ocupava seus pensamentos. A faca tremia na mão da sereia, mas então ela a lançou para longe, nas ondas. Elas brilharam vermelhas onde a faca caiu; parecia que gotas de sangue brotavam da água. Olhou mais uma vez para o príncipe, com o olhar já se apagando, lançou-se do navio ao mar e sentiu seu corpo se dissolver em espuma.

O sol se ergueu do mar. Seus raios caíram suaves e quentes sobre a espuma gelada de morte, e a pequena sereia não sentiu a morte. Viu o sol luminoso e, acima dela, cem belas criaturas transparentes flutuando. Através delas podia ver as velas brancas do navio e as nuvens vermelhas do céu. Suas vozes eram melodia, mas tão espirituais que nenhum ouvido humano podia ouvi-las, assim como nenhum olho terreno podia vê-las. Sem asas, flutuavam no ar por sua própria leveza. A pequena sereia viu que tinha um corpo como o delas, que se erguia cada vez mais para fora da espuma.

— Para junto de quem estou indo? — perguntou. Sua voz soava como a dos outros seres, tão espiritual que nenhuma música terrena poderia reproduzi-la.

— Para junto das filhas do ar! — responderam. — A sereia não tem alma imortal; nunca pode recebê-la sem conquistar o amor de um ser humano. Sua existência eterna depende de um poder alheio. As filhas do ar também não têm alma eterna, mas podem criar uma para si por meio de boas ações. Voamos até as terras quentes onde o ar pestilento e abafado mata os homens; ali espalhamos frescor. Levamos o perfume das flores pelo ar e enviamos alívio e cura. Depois de trezentos anos procurando fazer todo o bem que podemos, recebemos uma alma imortal e participamos da felicidade eterna dos homens. Você, pobre pequena sereia, buscou de todo o coração o mesmo que nós. Sofreu e suportou, elevou-se ao mundo dos espíritos do ar. Agora, por suas boas ações, poderá criar para si uma alma imortal dentro de trezentos anos.

A pequena sereia ergueu seus braços transparentes em direção ao sol de Deus e, pela primeira vez, sentiu lágrimas. No navio havia de novo movimento e vida. Viu o príncipe e sua bela noiva procurarem por ela. Olhavam com tristeza para a espuma borbulhante, como se soubessem que ela se lançara às ondas. Invisível, beijou a testa da noiva, sorriu para ele e subiu com os outros filhos do ar até a nuvem cor-de-rosa que flutuava.

— Dentro de trezentos anos entraremos assim, flutuando, no Reino de Deus!

— Também podemos chegar antes! — sussurrou uma delas. — Entramos invisíveis nas casas dos homens onde há crianças. A cada dia em que encontramos uma criança boa, que dá alegria a seus pais e merece seu amor, Deus encurta nosso tempo de prova. A criança não sabe quando voamos pela sala; se então sorrimos de alegria por ela, tira-se um ano dos trezentos. Mas, se vemos uma criança malcriada e má, precisamos chorar lágrimas de tristeza, e cada lágrima acrescenta um dia ao nosso tempo de prova!

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/#frente-educacao)

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