# A Pulga

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/a-pulga-giambattista-basile)
Autoria original: Giambattista Basile
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 34354323-040c-4556-85c9-847ee55a1800
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

O rei de Automonte cria uma pulga até ela ficar maior que um carneiro e promete a filha a quem identificar a pele do animal.

## Conto integral

# A Pulga

## Quinto entretenimento da primeira jornada

Um rei de pouco juízo cria uma pulga grande como um carneiro castrado. Manda esfolá-la e oferece a filha como prêmio a quem reconhecer a pele. Um ogro a identifica pelo cheiro e fica com a princesa; mas sete filhos de uma velha, com outras tantas proezas, a libertam.

O príncipe e a escrava riram a mais não poder da ignorância de Vardiello e louvaram o juízo da mãe, que soubera prever e remediar as bestialidades dele. Instada Popa a falar, todas as outras trancaram a matraca, e ela começou a contar.

As decisões sem juízo sempre trazem ruínas sem remédio. Quem se governa como louco se lamenta como sábio, como aconteceu ao rei de Automonte: por um disparate de quatro solas, fez uma loucura de arromba, pondo em perigo desmedido a filha e a honra.

Era uma vez o rei de Automonte, que foi mordido por uma pulga. Apanhou-a com muita destreza e a achou tão bonita e bem nutrida que teve escrúpulo de sentenciá-la no cadafalso da unha. Por isso a pôs numa garrafa e, alimentando-a todos os dias com o sangue do próprio braço, fez com que crescesse tanto que, ao cabo de sete meses, precisando mudar de lugar, se tornara maior que um carneiro castrado. Vendo isso, o rei mandou esfolá-la e, curtida a pele, lançou um edital: quem reconhecesse de que animal era aquele couro receberia sua filha por esposa. Publicado o anúncio, as pessoas acorreram em bandos; vieram do cu do mundo para se apresentar àquele exame e tentar a sorte. Um dizia que era de gato-maimão; outro, de lobo-cerval; outro, de crocodilo; outro, de um animal, outro, de outro. Mas todos estavam a cem milhas de distância, e ninguém acertava no prego. Por fim chegou àquela anatomia um ogro, a criatura mais disforme do mundo, que, só de ser visto, fazia vir tremedeira, revolvimento das entranhas, verminose e calafrios ao rapaz mais atrevido que houvesse. Mal chegou, zumbindo e farejando a pele, acertou bem no meio, dizendo:

— Esse couro é do arquifanfarrão das pulgas.

Vendo que o enxerto pegara no milo-shiuoccolo, o rei, para não faltar à palavra, mandou chamar Porziella, sua filha, que só mostrava leite e sangue. Meu bem, você via uma libélula e a desmanchava com os olhos, tamanha era sua beleza! O rei lhe disse:

— Minha filha, você conhece o edital que lancei e sabe quem sou eu. Afinal, não posso voltar atrás na promessa: rei ou casca de choupo, a palavra está dada, é preciso cumpri-la, ainda que me parta o coração. Quem poderia imaginar que esse prêmio da sorte tocaria a um ogro? Mas, como nenhuma folha se move sem a vontade do Céu, é preciso crer que este casamento se fez primeiro lá em cima e depois cá embaixo. Tenha, pois, paciência e, se é filha abençoada, não replique ao seu pai. Meu coração diz que ficará contente, pois muitas vezes se encontraram tesouros dentro de um jarro de pedra grosseira.

Ao ouvir aquela amarga decisão, os olhos de Porziella se toldaram, o rosto amareleceu, os lábios caíram e as pernas tremeram; esteve a um passo de soltar o falcão da alma atrás da codorna da dor. Por fim, rompendo em pranto e disparando a voz, disse ao pai:

— Que mau serviço prestei à casa para receber essa pena? Que maus modos tive com o senhor para ser entregue a esse bicho-papão? Ó desgraçada Porziella! Eis que vou de boa vontade, como doninha, à garganta do sapo; eis uma ovelha desventurada levada por um lobisomem. É essa a afeição que tem pelo seu sangue? É esse o amor que mostra a quem chamava de menina da sua alma? Assim fecha fora do coração quem é parte do seu sangue? Assim tira de diante dos olhos quem é a menina dos seus olhos? Ó pai, pai cruel, certamente não nascido de carne humana: as orcas marinhas lhe deram o sangue, as gatas selvagens lhe deram o leite! Mas por que digo animais do mar e da terra? Todo animal ama a sua raça. Só o senhor tem aversão e desafeto à própria semente; só o senhor sente asco da filha! Ah, antes minha mãe me tivesse sufocado; antes o berço tivesse sido leito de tormento, a teta da ama uma bexiga de veneno, as faixas, laços de enforcar, e o apito que me penduraram ao pescoço, uma pedra de afogar! Pois havia de me caber essa desgraça: ver junto de mim esse dia infeliz, ver-me acariciada por uma mão de harpia, abraçada por duas canelas de urso, beijada por duas presas de porco!

Queria dizer mais, quando o rei, todo enfurecido, lhe disse:

— Sem cólera, que o açúcar custa caro! Devagar, que os escudos são de choupo! Tampe, que sai borra! Quieta, não pie, que é muito mordaz, linguaruda e bifurcada! O que eu faço está bem feito. Não ensine seu pai a fazer filhos. Acabe com isso e enfie essa língua no traseiro! Não faça a mostarda me subir, porque, se eu lhe puser estas garras em cima, não deixo uma mecha inteira e faço você morder este chão! Veja só, fedor do meu cu, querendo dar uma de homem e ditar lei ao pai! Desde quando uma que ainda tem a boca cheirando a leite há de replicar aos meus desejos? Depressa, dê-lhe a mão e, neste mesmo passo, trate de ir para a casa dele. Não quero ter diante dos olhos, nem mais um quarto de hora, essa cara desavergonhada e atrevida!

A pobre Porziella, vendo-se em tal aperto, com cara de condenada à morte, olhos de endemoninhada, boca de quem tomou o Domene Agostino e coração de quem está entre a lâmina e o cepo, pegou o ogro pela mão. Sem companhia, foi arrastada por ele a um bosque onde as árvores faziam palácio sobre o prado, para que o sol não o descobrisse; os rios se queixavam de que, por caminharem no escuro, batiam nas pedras; e os animais selvagens, sem pagar taxa de pastagem, desfrutavam um Benevento e andavam seguros por aquelas matas, aonde homem algum chegava, a menos que tivesse perdido o caminho. Naquele lugar negro como chaminé entupida, medonho como a face do inferno, ficava a casa do ogro, toda forrada e enfeitada ao redor com ossos dos homens que ele devorara.

Considere agora, quem é cristão, a tremedeira, o sobressalto, o aperto do coração, o revolvimento das entranhas, o pavor, uma quarta de vermes e a caganeira que teve a pobre moça; faça de conta que não lhe restou sangue no corpo. Mas isso não foi nada, não valia um nada ao lado do resto do carlino: antes da refeição teve grão-de-bico, e depois, favas com casca. Pois, tendo saído para caçar, o ogro voltou para casa carregado de quartos de gente morta, dizendo:

— Agora não pode se queixar, minha mulher, de que eu não a sustento! Aqui está um bom estoque de mistura: pegue e se farte, e queira-me bem, pois pode cair o Céu que não lhe deixo faltar o que mastigar.

A desgraçada Porziella, cuspindo como mulher grávida, virou o rosto para o outro lado. Vendo aquele gesto, o ogro disse:

— Isso é dar confeitos aos porcos! Mas não importa. Tenha um pouco de paciência até amanhã de manhã: fui convidado para uma caçada de porcos selvagens, e deles lhe trarei um par. Faremos bodas em caldeirão com os parentes, para consumar com mais gosto o parentesco.

Dito isso, embrenhou-se pelo bosque. Ela ficou sofrendo à janela. Por desventura, passou por aquela casa uma velhinha que, sentindo-se desfalecer de fome, lhe pediu algum refresco. A desgraçada jovem respondeu:

— Minha boa mulher, Deus sabe o meu coração! Estou em poder de um demônio que não me traz para casa senão quartos de homens e pedaços de gente morta. Nem sei como tenho estômago só para ver essas nojeiras, de modo que levo a vida mais miserável que já levou uma alma batizada! E sou filha de rei! E fui criada com pão e toucinho! E já me vi em meio à fartura!

Dizendo isso, começou a chorar como uma menininha de quem tiram a merenda. Enternecido o coração da velha, ela lhe disse:

— Anime-se, minha linda filha, não estrague essa beleza chorando: encontrou a sua sorte! Estou aqui para ajudá-la com albarda e sela. Agora escute: tenho sete filhos homens, que são, veja só, sete joias, sete carvalhos, sete gigantes: Mase, Narde, Cola, Micco, Petrullo, Ascauddeo e Ceccone. Têm mais virtudes que o alecrim. Em particular, Mase, sempre que põe a orelha no chão, escuta e ouve tudo o que se faz a trinta milhas de distância. Nardo, sempre que cospe, faz um grande mar de sabão. Cola, sempre que atira um ferrinho, faz um campo de navalhas afiadas. Micco, toda vez que joga um palitinho, faz um bosque emaranhado. Petrullo, sempre que joga no chão uma gota de água, faz um rio terrível. Ascaddeo, toda vez que atira uma pedrinha, faz nascer uma torre fortíssima. E Ceccone atira tão certeiro com uma besta que acerta, a uma milha de distância, o olho de uma galinha. Agora, com a ajuda deles, que são todos corteses, todos afetuosos e todos terão compaixão do seu estado, quero ver se a tiro das garras desse ogro. Pois esse belo bocado apetitoso não é para o cano da garganta desse bicho-papão.

— Não há hora melhor que agora — respondeu Porziella —, pois a sombra maligna do meu marido saiu para não voltar esta noite. Teríamos tempo de dar o fora e satisfazer esse desejo.

— Esta noite não pode ser — replicou a velha —, pois moro um pouco longe. Basta que amanhã cedo eu e meus filhos estaremos juntos para tirá-la dessa aflição.

Dito isso, partiu. Porziella, com o coração muito, muito aliviado, repousou à noite. Mas, mal os pássaros gritaram “Viva o Sol!”, eis a velha chegando com os sete filhos. Puseram Porziella no meio e se encaminharam para a cidade. Não estavam, porém, a meia milha de distância quando Mase, pondo a orelha no chão, gritou:

— Alerta, olá, acudam, que é raposa! O ogro já voltou para casa e, não encontrando essa moça, vem agora alcançá-los, com a carapuça debaixo do braço!

Ouvindo isso, Nardo cuspiu no chão e fez um mar de sabão. Ao chegar ali e ver aquela ensaboada, o ogro correu para casa, apanhou um saco de farelo e tanto esfregou os pés nele que, a grande custo, passou por aquele atoleiro. Mas Mase, tornando a pôr a orelha no chão, disse:

— Lá vem ele outra vez, companheiro!

Cola atirou o ferrinho no chão, e brotou um campo de navalhas. O ogro, vendo a passagem fechada, correu outra vez para casa, vestiu-se de ferro da cabeça aos pés e, voltando, transpôs aquela vala. Mas Nardo, pondo de novo a orelha no chão, gritou:

— De pé! Vamos! Às armas! Que agora vem aí o ogro numa carreira que voa!

Micco, ligeiro com um palitinho, fez surgir um bosque terribilíssimo, difícil de atravessar. Mas, quando chegou àquele mau passo, o ogro puxou um facão que trazia ao lado e começou a derrubar aqui um choupo, ali um carvalho, de um lado um corniso, de outro um sorveiro peludo. Tanto que, em quatro ou cinco golpes, estendeu o bosque no chão e saiu livre daquele emaranhado. Mase, que tinha as orelhas de lebre, tornou a erguer a voz:

— Não fiquemos como se nos estivessem barbeando! O ogro criou asas, e agora já o verão às nossas costas!

Ouvindo isso, Petrullo tirou um gole de água de uma fontezinha que mijava gota a gota de uma concha de pedra. Borrifou-a no chão, e ali se viu um rio enorme. O ogro, vendo aquele outro empecilho, e que não fazia tantas petições quantos eram os recursos que eles encontravam, despiu-se todo, todo, e passou a nado para a outra margem, com as roupas na cabeça. Mase, que punha a orelha em todo buraco, ouviu o roçar dos calcanhares do ogro e disse:

— Nosso negócio azedou! O ogro já bate os calcanhares de um jeito que o Céu lhes diga por mim! Por isso, fiquemos alertas e nos defendamos dessa tempestade, senão estamos perdidos!

— Não tenha medo — disse Ascaddeo —, que agora eu esclareço esse feio mendigo!

Dizendo isso, atirou uma pedrinha e fez aparecer uma torre, onde logo se enfiaram, trancando a porta. Mas o ogro chegou e, vendo-os a salvo, correu para casa e apanhou uma escada de vindimar. Pôs a escada ao ombro e correu à torre. Mase, de orelhas erguidas, ouviu de longe a vinda do ogro e disse:

— Agora estamos no último toco da vela das esperanças! Em Cercone está o último refúgio da nossa vida, pois o ogro está voltando, e com grande fúria. Ai de mim, que o coração me bate e pressinto o dia ruim!

— Como você caga nas calças! — respondeu Ceccone. — Deixe isso com Menechiello, e veja se acerto bem no ponto com os projéteis!

Assim falando, eis o ogro que apoia a escada e começa a subir. Mas Ceccone tomou-o por mira e, abrindo-lhe uma ferida de lado a lado, fê-lo cair comprido, comprido, como uma pera no chão. Saiu da torre e, com o mesmo facão que trazia, cortou-lhe o pescoço como se fosse de ricota. Levaram-no com grande alegria ao rei, que, jubiloso por recuperar a filha — pois se arrependera cem vezes de a ter dado a um ogro —, dentro de poucos dias lhe encontrou um belo marido. Enriqueceu os sete filhos e a mãe, que tinham livrado a filha de uma vida tão infeliz, e não deixou de mil vezes se confessar culpado perante Porziella: por um capricho de vento a expusera a tamanho perigo, sem pensar no erro que comete quem anda procurando

:::verse
ovos de lobo e pentes de quinze.
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## Créditos

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