# A Raposinha

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/a-raposinha-silvio-romero)
Autoria original: Sílvio Romero
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 98fee163-a4d3-4cfa-be4f-5d4cb4d7c8e4
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Um príncipe viaja à procura de um remédio para a cegueira do pai e encontra uma raposinha que lhe indica o caminho por reinos com papagaios, espadas e cavalos.

## Conto integral

Foi um dia, saiu um príncipe a correr terras atrás de arranjar um remédio para seu pai que estava cego. Depois de muito andar, o príncipe passou por uma cidade e viu uns homens estarem dando de cacete num defunto. Chegou perto e perguntou por que faziam aquilo. Responderam-lhe que aquele homem tinha-lhes ficado a dever, e que por isso estava apanhando, depois de morto, segundo o costume da terra. O príncipe, que ouvia isto, pegou e pagou todas as dívidas do defunto e o mandou enterrar. Seguiu sua viagem. Adiante encontrou uma raposinha, que lhe disse: «Aonde vai, meu príncipe honrado?» O moço respondeu: «Ando caçando uma mezinha para meu pai que ficou cego.» A raposinha então lhe disse: «Para isto só há agora um remédio, que é botar nos olhos do rei um pouquinho de *sujidade* de um papagaio do *reino dos papagaios*. Meu príncipe, vá ao *reino dos papagaios*, entre, à meia-noite, no lugar onde eles estão, deixe os papagaios bonitos e faladores que estão em gaiolas muito ricas, e pegue num papagaio triste e velho que está lá num canto, numa gaiola de pau, velha e feia.»

O príncipe seguiu. Quando chegou no *reino dos papagaios*, ficou esbabacado de ver tantas e tão ricas gaiolas de diamantes, de ouro e de prata; nem procurou o papagaio velho e sujo que estava lá num canto; agarrou na gaiola mais bonita que viu, e partiu para trás. Quando ia saindo o papagaio deu um grito, acordaram os guardas, e o perseguiram, até pegá-lo. «O que queres com este papagaio?! Hás de morrer,» disseram os guardas. O príncipe, com muito medo, lhes contou a história de seu pai; então eles disseram: «Pois bem; só te damos o papagaio se tu fores ao *reino das espadas*, e trouxeres de lá uma espada.» O moço, muito triste, aceitou e partiu. Chegando adiante lhe apareceu a mesma raposinha, e lhe disse: «Então, meu príncipe honrado, o que tem, que vai tão triste?» O moço lhe contou o que lhe tinha acontecido; e a raposa respondeu: «Eu não lhe disse!? Você para que foi pegar num papagaio bonito, deixando o velho e feio? Apois bem; vá ao *reino das espadas*; entre à meia-noite. Você lá há de ver muitas espadas de todas as qualidades, de ouro, de brilhante e de prata, não pegue em nenhuma. Lá num canto tem uma espada velha e enferrujada; pegue nessa.»

O moço seguiu. Quando chegou ao *reino das espadas*, ficou esbabacado, vendo tantas espadas e tão ricas. De teimoso, disse: «Ora tanta espada rica, e eu hei de pegar numa ferrugenta!» Pegou logo na mais bonita que viu. Quando ia saindo, a espada deu um *trinco* tão forte que os guardas acordaram, pegaram o moço e o quiseram levar ao rei. O príncipe contou então a sua história, e os guardas, com pena, disseram: «Nós só lhe damos uma espada se você for ao *reino dos cavalos* e trouxer de lá um cavalo.» O moço seguiu muito desapontado. Adiante numa encruzilhada encontrou a raposinha: «Aonde vai, meu príncipe honrado?» O moço contou tudo. «Ah! eu não lhe disse!? Para que não seguiu o meu conselho? Vá no *reino dos cavalos*, e entre à meia-noite. Você lá há de encontrar muitos cavalos gordos e de todas as cores, todos aparelhados, não pegue em nenhum. Lá num canto está um cavalo velho e feio, pegue nesse.»

O moço seguiu. Quando entrou no *reino dos cavalos* caiu-lhe o queixo no chão: «Ora tantos cavalos bonitos, e eu hei de ficar com um diabo velho e magro!» E pegou num dos mais gordos e lindos. O cavalo deu um rincho tão grande que os guardas acordaram e prenderam o príncipe. Ele, com muito susto, contou toda a sua história. Os guardas responderam: «Apois sim; nós lhe damos um cavalo se você for furtar a filha do rei.» Aí o moço disse: «Então me deem um cavalo para ir montado.» Eles concederam. O moço seguiu; quando ia adiante, lhe apareceu outra vez a raposinha: «Onde vai, meu príncipe honrado?» Ele contou tudo. A raposa disse: «Pois veja: eu sou a alma daquele homem que estava apanhando de cacete depois de morto e de que você pagou as dívidas; ando-lhe protegendo, mas você não quer fazer caso dos meus conselhos, e, por isso, tem andado sempre em perigo... Vá montado neste cavalo; chegue à meia-noite no palácio do rei, pegue a moça e bote na garupa, largue a rédea a toda a brida; passe pelo *reino dos cavalos* para lhe darem o seu, pelo das espadas para lhe darem a sua, e pelo dos *papagaios* para levar também o seu, e vá voando para casa de seu pai, que ele vai mal. Nunca entre por *veredas*, nem preste ouvidos a ninguém até à casa. Adeus, que é esta a última vez que lhe apareço.»

O príncipe partiu. Chegando no palácio, furtou a moça; chegando no *reino dos cavalos*, recebeu o seu; no das espadas, a sua, e no dos papagaios, o seu. Seguiu sempre na carreira. Adiante encontrou uns moços que andavam à sua procura, e eram seus irmãos que vinham buscar novas dele. Os irmãos, quando o viram com objetos tão ricos, ficaram com inveja e formaram o plano de o matar para roubá-lo. — Começaram a convencê-lo de que deviam deixar a estrada real e seguir por uns atalhos para os ladrões não lhe fazerem mal vendo-o com aquelas coisas tão belas e ricas. Ele caiu na esparrela, e os irmãos o tiraram de dentro de uma gruta no mato onde ele tinha ido beber água. Tomaram-lhe a moça, o cavalo, a espada e o papagaio. Largaram-se para a casa muito alegres, pensando que o irmão estava morto. Mas tudo aquilo chegando a palácio, entrou a marear-se, e a ficar estragado. A moça não quis mais comer nem falar; meteu a cabeça debaixo da asa e não quis mais falar; a espada ficou enferrujada, e o cavalo começou a emagrecer. Quando o moço estava quase a morrer na furna, apareceu a raposinha, que o tirou para fora, e o botou outra vez no caminho. Ele seguiu e chegou até ao palácio de seu pai. Quando já ia chegando a espada deu um *trinco*, e começou logo a brilhar, o papagaio voou e foi cair-lhe no ombro, a moça deu uma gargalhada e falou, e o cavalo engordou de repente. O príncipe entrou e foi logo botando um pouco de sujidade do papagaio nos olhos do pai, que ficou logo vendo, e muito alegre. O príncipe se casou com a princesa que tinha furtado, e os seus irmãos foram castigados por causa de sua falsidade.


## Créditos

- producer: Codex · edição textual por IA (Romero)
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