# As aventuras do cardo

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/as-aventuras-do-cardo)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 47d0507b-eb46-4dd6-8c49-5466b04b3c47
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Um grande cardo cresce fora da cerca de um jardim senhorial e passa a esperar honras depois que uma visitante escocesa escolhe uma de suas flores.

## Conto integral

Junto à rica casa senhorial havia um belo jardim bem cuidado, com árvores e flores raras; os hóspedes da propriedade manifestavam seu encanto por elas, as pessoas dos arredores, do campo e das cidades, vinham aos domingos e feriados pedir licença para ver o jardim; até escolas inteiras apareciam para visitas semelhantes.

Fora do jardim, junto à cerca voltada para o caminho do campo, havia um imenso cardo; era tão grande, com vários ramos desde a raiz, que se espalhava e bem podia ser chamado de um arbusto de cardo. Ninguém olhava para ele, exceto o velho asno que puxava a carroça de leite das leiteiras. Esticava o pescoço em sua direção e dizia:

— Você é bonito! Eu poderia comê-lo!

Mas a corda não era comprida o bastante para o asno alcançá-lo e comê-lo.

Havia uma grande reunião na propriedade, gente da alta nobreza da capital, jovens e encantadoras moças, e entre elas uma senhorita de longe; vinha da Escócia, era de alta linhagem, rica em terras e ouro, uma noiva que bem valia a pena conquistar, diziam mais de um jovem cavalheiro e também as mães.

Os jovens se divertiam no gramado e jogavam croqué; passeavam entre as flores, e cada moça colhia uma flor e a punha na botoeira de um dos rapazes; mas a jovem escocesa olhou em volta por muito tempo, recusando uma após outra; nenhuma das flores parecia agradar-lhe. Então olhou por cima da cerca: lá fora estava o grande arbusto de cardo com suas flores fortes, de um azul avermelhado; ela o viu, sorriu e pediu ao filho da casa que lhe colhesse uma delas.

— É a flor da Escócia! — disse ela. — Que se ostenta no brasão do país; dê-me essa!

Ele foi buscar a mais bonita e espetou os dedos como se ela crescesse na roseira de espinhos mais agudos.

Ela pôs a flor de cardo na botoeira do rapaz, que se sentiu muito honrado. Cada um dos outros jovens teria trocado de bom grado sua flor magnífica por aquela, dada pelas mãos delicadas da senhorita escocesa. E, se o filho da casa se sentia honrado, o que não sentiria o arbusto de cardo? Era como se orvalho e sol o atravessassem.

“Sou mais do que penso!”, disse consigo. “Meu lugar decerto é dentro da cerca, e não fora. Como é estranho o lugar que dão à gente no mundo! Mas agora tenho uma das minhas do outro lado da cerca, e até numa botoeira!”

Contava esse acontecimento a cada botão que surgia e se abria, e poucos dias se passaram até o arbusto de cardo ouvir, não de pessoas nem de cantos de pássaros, mas do próprio ar, que guarda e leva sons para longe, desde as alamedas mais escondidas do jardim e os aposentos da casa com portas e janelas abertas, que o jovem cavalheiro que recebera a flor de cardo da mão da delicada senhorita escocesa agora também recebera sua mão e seu coração. Era um belo casal, um bom casamento.

“Fui eu que os uni!”, pensava o arbusto de cardo, lembrando-se da flor que dera à botoeira. Cada flor que surgia ouvia aquele acontecimento.

“Decerto vou ser transplantado para dentro do jardim!”, pensava o cardo. “Talvez me ponham num vaso, que aperta; isso deve ser a maior das honras!”

O arbusto de cardo pensou nisso tão vivamente que disse, cheio de convicção:

— Vou para um vaso!

Prometeu a cada florzinha de cardo que surgia que ela também iria para um vaso, talvez para uma botoeira; era o máximo a alcançar. Mas nenhuma foi para um vaso, muito menos para uma botoeira; bebiam ar e luz, lambiam o sol de dia e o orvalho à noite, floresciam, recebiam visitas de abelhas e mamangavas que procuravam o dote, o mel na flor; levavam o mel e deixavam a flor onde estava.

— Bando de ladrões! — dizia o arbusto de cardo. — Quem me dera poder espetá-los! Mas não posso.

As flores baixavam a cabeça e definhavam, mas outras vinham em seu lugar.

— Vocês chegam como se tivessem sido chamadas! — dizia o arbusto de cardo. — Espero a qualquer minuto que nos levem para o outro lado da cerca.

Algumas inocentes margaridinhas e tanchagens ouviam com profunda admiração e acreditavam em tudo o que ele dizia.

O velho asno da carroça de leite olhava da beira da estrada para o arbusto de cardo florido, mas a corda era curta demais para alcançá-lo.

O cardo pensou tanto no cardo da Escócia, de cuja família se julgava, que por fim acreditou ter vindo da Escócia e que seus próprios pais tinham crescido dentro do brasão do reino. Era um grande pensamento, mas um grande cardo bem pode ter grandes pensamentos.

— Muitas vezes a gente é de uma família tão distinta que nem ousa saber disso! — disse a urtiga que crescia ali perto; também tinha uma espécie de pressentimento de que poderia tornar-se “tecido de urtiga”, se fosse tratada como devia.

O verão passou, e o outono passou; as folhas caíram das árvores, as flores ganharam cores mais fortes e menos perfume. O aprendiz de jardineiro cantava no jardim, por cima da cerca:

:::verse
Ladeira acima, ladeira abaixo,
é todo o almanaque que eu acho!
:::

Os jovens abetos da floresta começaram a sentir saudades do Natal, mas ainda faltava muito para o Natal.

— Ainda estou aqui! — disse o cardo. — É como se ninguém pensasse em mim, e no entanto fui eu que arranjei o casamento; eles ficaram noivos e já se casaram, faz agora oito dias. Pois bem, não dou um passo, porque não posso.

Passaram-se mais algumas semanas; o cardo tinha sua última e única flor, grande e cheia, que brotara perto da raiz. O vento soprava frio sobre ela, as cores se foram, o esplendor se foi; o cálice, grande como a flor de uma alcachofra, parecia um girassol prateado.

Então veio ao jardim o jovem casal, agora marido e mulher; passearam junto à cerca, e a jovem senhora olhou por cima dela.

— Lá está ainda o grande cardo! — disse ela. — Agora já não tem flor!

— Tem, sim, o fantasma da última! — disse ele, apontando para o resto prateado e brilhante da flor, ele próprio uma flor.

— Mas como é belo! — disse ela. — Um assim deve ser entalhado na moldura de nosso retrato!

O rapaz teve de passar outra vez por cima da cerca e arrancar o cálice do cardo. Ele lhe espetou os dedos; afinal, o rapaz o chamara primeiro de “fantasma”. E o cálice entrou no jardim, foi para a casa e entrou no salão; ali havia um quadro: “Os jovens esposos”. Na botoeira do noivo estava pintada uma flor de cardo. Falaram dela e falaram do cálice que traziam, a última flor de cardo, agora prateada e reluzente, que serviria de modelo para o entalhe na moldura.

O ar levou essa conversa para longe.

— Quanta coisa se pode viver! — disse o arbusto de cardo. — Minha primogênita foi para uma botoeira, minha caçula foi para uma moldura! Para onde vou eu?

O asno estava à beira da estrada, olhando para ele.

— Venha a mim, meu amor docinho! Não posso ir até você, a corda não é comprida o bastante!

Mas o arbusto de cardo não respondeu, ficava cada vez mais pensativo; pensou e pensou até perto do Natal, e então o pensamento deu sua flor.

“Quando os filhos estão bem instalados lá dentro, uma mãe se conforma em ficar do lado de fora da cerca!”

— É um pensamento honrado! — disse o raio de sol. — Também terá um bom lugar!

— Num vaso ou numa moldura? — perguntou o cardo.

— Num conto de encantamento! — disse o raio de sol.

Aqui está ele!

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/#frente-educacao)

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