# Claus Pequeno e Claus Grande

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/claus-pequeno-e-claus-grande)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 0f9db908-c397-4f93-902a-98e00c4731e0
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Dois homens chamados Claus vivem no mesmo povoado. Um tem quatro cavalos; o outro, apenas um, que precisa emprestar durante a semana. Quando Claus Grande mata o único cavalo de Claus Pequeno, este parte para vender o couro. Perdido na floresta ao anoitecer, procura abrigo numa fazenda e observa pela janela uma refeição preparada pela dona da casa para o sacristão.

## Conto integral

Havia num povoado dois homens que tinham exatamente o mesmo nome: ambos se chamavam Claus. Mas um possuía quatro cavalos, e o outro, apenas um. Para distingui-los, chamavam o dono dos quatro cavalos de Claus Grande e o que só tinha um de Claus Pequeno. Agora vamos ouvir o que aconteceu com os dois, pois esta é uma história de verdade!

A semana inteira, Claus Pequeno precisava arar para Claus Grande e lhe emprestar seu único cavalo. Em troca, Claus Grande o ajudava com seus quatro cavalos, mas apenas uma vez por semana, aos domingos. Eia! Como Claus Pequeno estalava o chicote sobre os cinco cavalos! Naquele dia, eram praticamente seus. O sol brilhava tão bonito, todos os sinos da torre da igreja chamavam para o culto, e as pessoas, bem-arrumadas, passavam com o livro de hinos debaixo do braço para ouvir os pastores pregarem. Olhavam para Claus Pequeno, que arava com cinco cavalos. Ele ficava tão contente que estalava o chicote outra vez e gritava: “Eia, todos os meus cavalos!”

“Você não pode dizer isso”, disse Claus Grande. “Só um desses cavalos é seu!”

Mas, quando outras pessoas passaram a caminho da igreja, Claus Pequeno se esqueceu da proibição e gritou: “Eia, todos os meus cavalos!”

“Agora estou pedindo que pare!”, disse Claus Grande. “Se disser isso mais uma vez, bato na testa do seu cavalo, e ele cai morto na hora. Aí será o fim dele!”

“Não vou dizer mais, de verdade!”, disse Claus Pequeno. Mas outras pessoas passaram e lhe deram bom-dia com a cabeça. Ele ficou tão contente e achou tão bonito ter cinco cavalos arando seu campo que estalou o chicote e gritou: “Eia, todos os meus cavalos!”

“Vou dar um eia nesses seus cavalos!”, disse Claus Grande. Pegou o malho de cravar estacas e bateu na testa do único cavalo de Claus Pequeno, que caiu no chão, completamente morto.

“Ah, agora não tenho mais cavalo nenhum!”, disse Claus Pequeno, desatando a chorar. Depois esfolou o cavalo, deixou o couro secar bem ao vento e o guardou num saco. Pôs o saco nas costas e partiu para a cidade, para vender o couro de seu cavalo.

O caminho era muito longo e passava por uma grande floresta escura. O tempo ficou terrível, e ele se perdeu por completo. Quando encontrou a estrada certa, já era tarde demais para chegar à cidade ou voltar para casa antes de anoitecer.

Perto da estrada havia uma grande fazenda. Os postigos externos estavam afastados das janelas, mas a luz conseguia escapar pela parte de cima. Ali certamente me deixarão passar a noite, pensou Claus Pequeno, e foi bater à porta.

A mulher do camponês abriu. Mas, quando soube o que ele queria, mandou-o embora: o marido não estava em casa, e ela não recebia estranhos.

“Bem, então terei de dormir lá fora”, disse Claus Pequeno. A mulher fechou-lhe a porta.

Ali perto havia um grande monte de feno. Entre ele e a casa, tinham construído um pequeno abrigo com um telhado de palha plano.

“Posso dormir ali em cima!”, disse Claus Pequeno ao ver o telhado. “É uma bela cama! A cegonha não vai descer para me bicar as pernas, vai?” Pois havia uma cegonha viva sobre o telhado, junto de seu ninho.

Claus Pequeno subiu no abrigo e ficou se virando para se acomodar bem. Os postigos de madeira não fechavam inteiramente na parte de cima, e dali ele podia olhar diretamente para dentro da sala.

Havia uma grande mesa posta, com vinho, carne assada e um peixe delicioso. Só a mulher do camponês e o sacristão estavam à mesa. Ela lhe servia vinho, e ele espetava o peixe, de que gostava muito.

“Quem me dera poder participar!”, disse Claus Pequeno, esticando a cabeça até a janela. Meu Deus, que belo bolo havia lá dentro! Aquilo sim era uma festa!

Ouviu então alguém se aproximar da casa a cavalo pela estrada. Era o marido da camponesa, que voltava para casa.

Era um bom homem, mas sofria de uma doença muito estranha: não suportava ver sacristãos. Bastava aparecer um sacristão diante de seus olhos para que ficasse furioso. Por isso mesmo o sacristão fora cumprimentar a mulher, sabendo que o marido estava fora, e a boa mulher lhe servira a melhor comida que tinha. Ao ouvirem o marido chegar, assustaram-se muito. Ela mandou o sacristão entrar num grande baú vazio que estava num canto. Ele obedeceu, pois sabia que o pobre homem não suportava ver sacristãos. A mulher escondeu depressa toda aquela comida e o vinho no forno de assar pão. Se o marido os visse, certamente perguntaria o que aquilo significava.

“Ah, sim!”, suspirou Claus Pequeno lá de cima, ao ver toda a comida desaparecer.

“Tem alguém aí em cima?”, perguntou o camponês, olhando para Claus Pequeno. “Por que está deitado aí? Venha para dentro!”

Claus Pequeno contou que se perdera e perguntou se poderia passar a noite ali.

“É claro!”, disse o camponês. “Mas primeiro vamos comer alguma coisa!”

A mulher recebeu os dois com muita gentileza, preparou uma mesa comprida e lhes serviu uma grande travessa de mingau. O camponês estava com fome e comeu com bastante apetite. Claus Pequeno, porém, não parava de pensar no assado, no peixe e no bolo que sabia estarem dentro do forno.

Pusera debaixo da mesa, junto aos pés, o saco com o couro do cavalo, pois já sabemos que fora para vendê-lo na cidade que saíra de casa. O mingau não lhe agradava nem um pouco. Pisou então no saco, e o couro seco lá dentro rangeu bem alto.

“Psiu!”, disse Claus Pequeno ao saco. Mas, ao mesmo tempo, pisou nele outra vez, e o rangido foi muito mais forte.

“Ora! O que você tem nesse saco?”, perguntou o camponês.

“Ah, é um feiticeiro!”, disse Claus Pequeno. “Ele diz que não devemos comer mingau: enfeitiçou o forno e o encheu de carne assada, peixe e bolo.”

“O quê?”, disse o camponês. Abriu depressa o forno e viu toda a comida que a mulher escondera. Agora acreditava que o feiticeiro do saco a fizera aparecer para eles. A mulher não se atreveu a dizer nada: pôs imediatamente a comida na mesa, e os dois comeram peixe, carne assada e bolo. Claus Pequeno pisou outra vez no saco, fazendo o couro ranger.

“O que ele está dizendo agora?”, perguntou o camponês.

“Está dizendo”, respondeu Claus Pequeno, “que também fez aparecer para nós três garrafas de vinho. Estão ali no canto, junto ao forno!” A mulher precisou tirar o vinho do esconderijo. O camponês bebeu e ficou tão alegre que desejou muito possuir um feiticeiro como aquele que Claus Pequeno tinha no saco.

“Ele também pode fazer o Diabo aparecer?”, perguntou o camponês. “Gostaria de vê-lo, agora que estou alegre!”

“Sim”, disse Claus Pequeno, “meu feiticeiro pode fazer tudo o que eu pedir. Não é verdade?” Pisou no saco, que rangeu. “Ouviu? Ele está dizendo que sim! Mas o Diabo é tão feio que não vale a pena vê-lo!”

“Ah, não tenho medo nenhum. Que aparência ele pode ter?”

“Pois ele vai aparecer exatamente como um sacristão!”

“Ui!”, disse o camponês. “Isso é horrível! Você precisa saber que não suporto ver sacristãos! Mas não faz mal: sabendo que é o Diabo, talvez eu aguente melhor. Agora tenho coragem! Só não deixe que ele chegue muito perto de mim.”

“Vou perguntar ao meu feiticeiro”, disse Claus Pequeno. Pisou no saco e encostou o ouvido nele.

“O que ele diz?”

“Diz que o senhor pode abrir o baú que está ali no canto e verá o Diabo escondido lá dentro. Mas precisa segurar a tampa, para que ele não escape.”

“Ajude-me a segurar!”, disse o camponês. Foi até o baú onde a mulher escondera o verdadeiro sacristão, que estava muito assustado.

O camponês levantou um pouco a tampa e espiou por baixo dela. “Ui!”, gritou, saltando para trás. “Agora eu o vi! Era igualzinho ao nosso sacristão! Que coisa assustadora!”

Era preciso beber por causa daquilo. E continuaram bebendo até bem tarde da noite.

“Você precisa me vender esse feiticeiro”, disse o camponês. “Peça o que quiser por ele! Dou-lhe agora mesmo um alqueire inteiro de dinheiro!”

“Não, não posso!”, disse Claus Pequeno. “Pense em tudo o que esse feiticeiro pode fazer por mim!”

“Ah, eu queria tanto ficar com ele!”, disse o camponês, insistindo no pedido.

“Pois bem”, disse Claus Pequeno por fim. “Já que foi tão bom em me dar abrigo esta noite, aceito. Pode ficar com o feiticeiro por um alqueire de dinheiro. Mas quero o alqueire bem cheio, com um monte por cima.”

“É o que vai receber”, disse o camponês. “Mas leve também aquele baú! Não quero que fique nem mais uma hora em casa. Nunca se sabe se ele ainda está lá dentro.”

Claus Pequeno deu ao camponês o saco com o couro seco e recebeu em troca um alqueire inteiro de dinheiro, cheio até formar um monte. O camponês lhe deu até um grande carrinho de mão, para transportar o dinheiro e o baú.

“Adeus!”, disse Claus Pequeno. Partiu com o dinheiro e o grande baú, onde o sacristão ainda estava.

Do outro lado da floresta havia um rio grande e profundo. A água corria com tanta força que mal se podia nadar contra a corrente. Tinham construído uma grande ponte nova sobre ele. Claus Pequeno parou no meio da ponte e falou bem alto, para que o sacristão dentro do baú pudesse ouvi-lo:

“Ora, o que vou fazer com este baú idiota? É tão pesado que parece cheio de pedras! Estou cansado de empurrá-lo. Vou jogá-lo no rio. Se for boiando até minha casa, ótimo; se não for, tanto faz.”

Segurou o baú com uma das mãos e o ergueu um pouco, como se fosse atirá-lo na água.

“Não faça isso!”, gritou o sacristão lá de dentro. “Deixe-me sair!”

“Ui!”, disse Claus Pequeno, fingindo um susto. “Ele ainda está lá dentro! Preciso jogar o baú depressa no rio, para que ele se afogue!”

“Ah, não, não!”, gritou o sacristão. “Dou-lhe um alqueire inteiro de dinheiro se não fizer isso!”

“Assim é outra história!”, disse Claus Pequeno, abrindo o baú. O sacristão saiu imediatamente, empurrou o baú vazio para dentro da água e foi para casa. Ali Claus Pequeno recebeu um alqueire inteiro de dinheiro. Já ganhara um do camponês; agora seu carrinho de mão estava cheio de dinheiro!

“Até que recebi um bom preço por aquele cavalo!”, disse consigo mesmo ao chegar à sua sala e despejar o dinheiro numa grande pilha no meio do chão. “Claus Grande vai ficar furioso quando souber como fiquei rico com meu único cavalo. Mas não vou lhe contar a história toda!”

Mandou então um menino à casa de Claus Grande, para pedir emprestada uma medida de um alqueire.

“Para que será que ele quer isso?”, pensou Claus Grande. Passou piche por baixo do fundo da medida, para que um pouco do que fosse medido ficasse grudado. E assim aconteceu: quando recebeu o alqueire de volta, havia três moedas novas de prata, de oito skillings, coladas nele.

“O quê?”, disse Claus Grande. Correu imediatamente até o Pequeno. “De onde você tirou todo esse dinheiro?”

“Ah, foi pelo couro do meu cavalo. Eu o vendi ontem à noite!”

“Até que recebeu um bom preço!”, disse Claus Grande. Correu para casa, pegou um machado e golpeou na testa cada um de seus quatro cavalos. Tirou-lhes o couro e o levou para vender na cidade.

“Couros! Couros! Quem quer comprar couros?”, gritava pelas ruas.

Todos os sapateiros e curtidores vieram correndo perguntar quanto ele queria por eles.

“Um alqueire de dinheiro por cada um”, disse Claus Grande.

“Você está louco?”, perguntaram todos. “Acha que temos dinheiro aos alqueires?”

“Couros, couros! Quem quer comprar couros?”, gritou de novo. A todos os que perguntavam o preço, respondia: “Um alqueire de dinheiro.”

“Ele quer zombar de nós!”, disseram todos. Os sapateiros pegaram suas correias, e os curtidores, seus aventais de couro, e começaram a espancar Claus Grande.

“Couros, couros!”, repetiam, zombando dele. “Pois vamos lhe dar um couro que vai cuspir porcos vermelhos! Ponham-no para fora da cidade!”, gritavam. Claus Grande precisou fugir o mais depressa que pôde. Nunca levara uma surra daquelas.

“Pois bem!”, disse ao chegar em casa. “Claus Pequeno vai me pagar por isso. Vou matá-lo!”

Mas, na casa de Claus Pequeno, a velha avó morrera. Ela fora muito zangada e má com ele, mas ainda assim ele estava bastante triste. Pegou o corpo da velha e o pôs em sua cama quente, para ver se ela não voltava à vida. Ela ficaria ali a noite inteira; ele se sentaria num canto e dormiria numa cadeira, como já fizera antes.

Enquanto estava sentado ali de noite, a porta se abriu, e Claus Grande entrou com o machado. Sabia bem onde ficava a cama de Claus Pequeno. Foi direto até ela e golpeou a testa da avó morta, pensando que fosse Claus Pequeno.

“Pronto!”, disse ele. “Agora você não vai me enganar mais!” E voltou para casa.

“Que homem malvado!”, disse Claus Pequeno. “Queria me matar! Ainda bem que a velha já estava morta, senão ele lhe teria tirado a vida!”

Vestiu a velha avó com a roupa de domingo, pediu um cavalo emprestado ao vizinho, atrelou-o à carroça e acomodou a avó no banco de trás, de modo que ela não caísse quando ele começasse a andar. Partiram pela floresta. Ao nascer do sol, estavam diante de uma grande estalagem. Claus Pequeno parou e entrou para comer alguma coisa.

O estalajadeiro tinha muito, muito dinheiro. Era também um homem muito bom, mas irritadiço, como se tivesse pimenta e tabaco por dentro.

“Bom dia!”, disse a Claus Pequeno. “Vestiu a roupa de festa bem cedo hoje!”

“Sim”, disse Claus Pequeno. “Vou à cidade com minha velha avó. Ela está sentada lá fora, na carroça, e não consigo trazê-la para a sala. Poderia levar-lhe um copo de hidromel? Mas fale bem alto, porque ela não ouve direito.”

“É claro!”, disse o estalajadeiro. Encheu um grande copo de hidromel e o levou à avó morta, acomodada na carroça.

“Aqui está um copo de hidromel de seu filho!”, disse o estalajadeiro. Mas a mulher morta não disse uma palavra: ficou completamente imóvel!

“Não está ouvindo?”, gritou o estalajadeiro o mais alto que pôde. “Aqui está um copo de hidromel de seu filho!”

Gritou a mesma coisa mais uma vez, e depois outra. Como ela não se movia, ficou furioso e lhe atirou o copo bem no rosto. O hidromel escorreu pelo nariz dela, e ela tombou para trás na carroça, pois estava apenas acomodada ali, sem estar amarrada.

“Ora essa!”, gritou Claus Pequeno. Saltou pela porta e agarrou o estalajadeiro pelo peito. “Você matou minha avó! Veja só: há um grande buraco na testa dela!”

“Ah, que desgraça!”, gritou o estalajadeiro, juntando as mãos. “É tudo por causa do meu temperamento! Meu caro Claus Pequeno, dou-lhe um alqueire inteiro de dinheiro e mando enterrar sua avó como se fosse a minha. Mas fique calado, senão cortarão minha cabeça, e isso é tão horrível!”

Claus Pequeno recebeu um alqueire inteiro de dinheiro. O estalajadeiro enterrou a velha avó como se fosse sua própria.

Quando Claus Pequeno voltou para casa com tanto dinheiro, mandou imediatamente seu rapaz à casa de Claus Grande, para perguntar se poderia tomar emprestada a medida de um alqueire.

“O quê?”, disse Claus Grande. “Eu não o matei? Preciso ir ver isso pessoalmente!” E levou ele mesmo o alqueire até Claus Pequeno.

“Mas de onde você tirou todo esse dinheiro?”, perguntou, arregalando os olhos diante de todas as novas moedas.

“Foi minha avó que você matou, não eu!”, disse Claus Pequeno. “Agora a vendi e recebi por ela um alqueire de dinheiro!”

“Até que recebeu um bom preço!”, disse Claus Grande. Correu para casa, pegou um machado e matou imediatamente sua própria avó. Pôs o corpo na carroça, levou-o à cidade, onde morava o boticário, e perguntou se ele queria comprar uma pessoa morta.

“Quem é essa pessoa e onde a conseguiu?”, perguntou o boticário.

“É minha avó!”, disse Claus Grande. “Eu a matei por um alqueire de dinheiro!”

“Deus nos proteja!”, disse o boticário. “O senhor não sabe o que está dizendo! Não diga essas coisas, ou poderá perder a cabeça!” Explicou-lhe então que mal terrível fizera, que pessoa ruim era e que merecia ser castigado. Claus Grande ficou tão assustado que saltou da botica direto para a carroça, chicoteou os cavalos e disparou para casa. O boticário e todos os outros pensaram que ele fosse louco e o deixaram ir para onde quisesse.

“Você vai me pagar por isso!”, disse Claus Grande quando chegou à estrada. “Vai me pagar por isso, Claus Pequeno!” Assim que chegou em casa, pegou o maior saco que pôde encontrar, foi até Claus Pequeno e disse: “Você me enganou de novo! Primeiro matei meus cavalos, depois minha velha avó! É tudo culpa sua! Mas nunca mais vai me enganar!” Agarrou Claus Pequeno pela cintura, enfiou-o no saco, pôs o saco nas costas e gritou: “Agora vou afogá-lo!”

O rio ficava longe, e Claus Pequeno não era tão leve de carregar. A estrada passava bem perto da igreja. O órgão tocava, e as pessoas cantavam tão bonito lá dentro que Claus Grande deixou o saco com Claus Pequeno junto à porta. Pensou que seria bom entrar e ouvir primeiro um hino, antes de prosseguir: Claus Pequeno não podia escapar, e todas as pessoas estavam na igreja. Entrou.

“Ai de mim! Ai de mim!”, suspirava Claus Pequeno dentro do saco. Virava-se de um lado para o outro, mas não conseguia desatar a amarra. Nesse momento chegou um boiadeiro muito, muito velho, de cabelos brancos como giz, com um grande cajado na mão. Conduzia uma boiada de vacas e touros, que esbarraram no saco onde Claus Pequeno estava e o fizeram tombar.

“Ai de mim!”, suspirou Claus Pequeno. “Sou tão jovem e já preciso ir para o Céu!”

“E eu, coitado!”, disse o boiadeiro. “Sou tão velho e ainda não consigo chegar lá!”

“Abra o saco!”, gritou Claus Pequeno. “Entre aqui no meu lugar, e irá direto para o Céu!”

“Eu gostaria muito!”, disse o boiadeiro. Desatou o saco, e Claus Pequeno saltou imediatamente para fora.

“Então cuide do gado”, disse o velho, entrando no saco. Claus Pequeno o amarrou e foi embora com todas as vacas e os touros.

Pouco depois, Claus Grande saiu da igreja e pôs novamente o saco nas costas. Achou que ficara muito leve, pois o velho boiadeiro não pesava mais que a metade do que pesava Claus Pequeno! “Como ficou leve de carregar! Deve ser porque ouvi um hino!” Foi até o rio grande e profundo, jogou na água o saco com o velho boiadeiro e gritou, pensando que fosse Claus Pequeno: “Pronto! Agora você não vai me enganar mais!”

Voltou para casa, mas, ao chegar à encruzilhada, encontrou Claus Pequeno conduzindo todo o seu gado.

“O quê?”, disse Claus Grande. “Eu não afoguei você?”

“Sim!”, disse Claus Pequeno. “Você me jogou no rio há menos de meia hora!”

“Mas onde conseguiu todo esse belo gado?”, perguntou Claus Grande.

“É gado do mar!”, disse Claus Pequeno. “Vou lhe contar a história toda. E também preciso lhe agradecer por ter me afogado: agora estou por cima, estou rico de verdade, pode acreditar! Eu estava com tanto medo dentro do saco! O vento assobiava em meus ouvidos quando você me jogou da ponte na água fria. Afundei direto até o fundo, mas não me machuquei, pois lá embaixo cresce uma grama muito macia e bonita. Caí sobre ela. O saco foi aberto imediatamente, e uma linda donzela, vestida de branco como giz, com uma grinalda verde nos cabelos molhados, me tomou pela mão e disse: ‘Você chegou, Claus Pequeno? Aqui está um pouco de gado para começar! A uma milha adiante na estrada, há outra boiada inteira que quero lhe dar!’ Percebi então que o rio era uma grande estrada do povo do mar. Lá no fundo, eles andavam e passeavam em carros desde o mar até o interior da terra, até onde o rio termina. Havia flores tão bonitas e a grama mais fresca! Os peixes que nadavam na água passavam ligeiros junto aos meus ouvidos, como os pássaros aqui no ar. Como as pessoas eram bonitas! E quanto gado havia, andando sobre valas e cercas!”

“Mas por que voltou logo aqui para cima, para junto de nós?”, perguntou Claus Grande. “Se era tão bonito lá embaixo, eu não teria feito isso!”

“Pois é”, disse Claus Pequeno, “foi uma esperteza minha! Você ouviu o que eu disse: a donzela do mar contou que havia outra boiada inteira para mim uma milha adiante na estrada. E por estrada ela quer dizer o rio, pois não pode ir a outro lugar. Mas eu sei como o rio faz curvas para cá e para lá: é um enorme rodeio. O caminho fica mais curto, quando se pode fazer isso, vindo para terra firme e atravessando diretamente até o rio outra vez. Assim economizo quase meia milha e chego mais depressa ao meu gado do mar!”

“Ah, você é um homem de sorte!”, disse Claus Grande. “Acha que também conseguirei gado do mar quando chegar ao fundo do rio?”

“Sim, creio que sim”, disse Claus Pequeno. “Mas não posso carregá-lo até o rio dentro do saco: você é pesado demais para mim. Se for andando até lá e depois entrar no saco, terei o maior prazer em jogá-lo na água.”

“Obrigado!”, disse Claus Grande. “Mas, se eu não encontrar gado do mar quando chegar lá embaixo, vou dar uma surra em você, pode acreditar!”

“Ah, não! Não seja tão mau!” E foram até o rio. Quando o gado, que estava com sede, viu a água, correu o mais depressa que pôde para beber.

“Veja como se apressa!”, disse Claus Pequeno. “Está com saudade de voltar ao fundo do rio!”

“Mas me ajude primeiro!”, disse Claus Grande. “Senão, vai apanhar!” Entrou então no grande saco que estivera atravessado sobre as costas de um dos touros. “Ponha uma pedra dentro, senão tenho medo de não afundar”, disse Claus Grande.

“Vai dar certo!”, disse Claus Pequeno. Ainda assim, colocou uma grande pedra no saco, amarrou bem a abertura e o empurrou: ploft! Lá estava Claus Grande dentro do rio, afundando imediatamente até o fundo.

“Tenho medo de que ele não encontre o gado!”, disse Claus Pequeno. E foi para casa com o que tinha.

## Créditos

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