# O companheiro de viagem

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/o-companheiro-de-viagem)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 71ef7bd2-679c-4fe1-b82d-02dd5c91ebf2
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Após a morte do pai, Johannes parte pelo mundo com sua herança. Numa igreja onde busca abrigo, encontra dois homens que querem jogar para fora o corpo de um devedor e oferece seu dinheiro para que o deixem em paz. Mais adiante, conhece um viajante experiente que se torna seu companheiro. Juntos atravessam florestas e montanhas e chegam a uma cidade cuja princesa impõe provas perigosas aos pretendentes.

## Conto integral

O pobre Johannes estava muito triste, pois seu pai estava muito doente e não podia continuar vivendo. Não havia ninguém além dos dois naquele pequeno quarto. A lamparina sobre a mesa estava quase se apagando, e já era bem tarde da noite.

— Você foi um bom filho, Johannes! — disse o pai doente. — Nosso Senhor certamente o ajudará a seguir seu caminho pelo mundo! — Olhou para ele com olhos sérios e bondosos, respirou bem fundo e morreu. Parecia estar dormindo. Mas Johannes chorava: agora não tinha ninguém no mundo inteiro, nem pai nem mãe, nem irmã nem irmão. Pobre Johannes! Ficou de joelhos diante da cama, beijando a mão do pai morto e derramando tantas lágrimas salgadas! Por fim seus olhos se fecharam, e ele adormeceu com a cabeça apoiada na tábua dura da cama.

Então teve um sonho estranho. Viu o sol e a lua se curvarem diante dele e viu seu pai vivo e saudável outra vez, ouvindo-o rir como sempre ria quando estava realmente contente. Uma linda moça, com uma coroa de ouro sobre os longos e belos cabelos, estendia a mão a Johannes, e seu pai dizia: — Está vendo que noiva você ganhou? É a mais linda do mundo inteiro. — Então ele acordou, e toda aquela beleza tinha desaparecido. O pai estava morto e frio na cama, e não havia ninguém com eles. Pobre Johannes!

Na semana seguinte, o morto foi enterrado. Johannes caminhava bem atrás do caixão e nunca mais poderia ver o bom pai que tanto o amara. Ouviu a terra cair sobre o caixão; ainda via seu último canto, mas a pá de terra seguinte também o cobriu. Parecia que seu coração ia se partir, de tanta tristeza. Ao redor cantavam um hino. Era tão bonito que os olhos de Johannes se encheram de lágrimas; ele chorou, e aquilo aliviou sua dor. O sol brilhava sobre as árvores verdes, como se quisesse dizer: — Não fique tão triste, Johannes! Está vendo como o céu é bonito e azul? Seu pai está lá em cima, pedindo ao bom Deus que tudo sempre lhe corra bem!

— Serei sempre bom! — disse Johannes. — Assim também irei para o Céu, para junto de meu pai. Que alegria será quando nos encontrarmos de novo! Terei tantas coisas para lhe contar, e ele voltará a me mostrar tantas coisas, a me ensinar tanto sobre todas as maravilhas do Céu, como me ensinava aqui na Terra. Ah, que alegria será!

Johannes imaginou aquilo com tanta clareza que sorriu, enquanto as lágrimas ainda lhe corriam pelo rosto. Os passarinhos estavam nos castanheiros, gorjeando “qvi vit, qui vit!”. Estavam muito contentes, embora também estivessem no enterro, pois sabiam que o morto agora estava no Céu, tinha asas muito maiores e mais bonitas que as deles e era feliz por ter sido bom aqui na Terra. Era por isso que estavam contentes. Johannes viu como voavam das árvores verdes para longe, pelo mundo, e também sentiu vontade de voar com eles. Mas primeiro talhou uma grande cruz de madeira para pôr na sepultura do pai. Quando a levou até lá, à noite, a sepultura estava enfeitada com areia e flores. Pessoas que ele não conhecia tinham feito aquilo, pois todas gostavam muito do querido pai que agora estava morto.

Bem cedo, na manhã seguinte, Johannes arrumou sua pequena trouxa e guardou no cinto toda a sua herança: cinquenta rigsdalers e um par de skillings de prata. Com aquilo partiria pelo mundo. Mas primeiro foi ao cemitério, à sepultura do pai, rezou seu Pai-Nosso e disse: — Adeus, querido pai! Serei sempre uma boa pessoa; então o senhor poderá pedir ao bom Deus que tudo me corra bem!

No campo por onde Johannes caminhava, todas as flores estavam frescas e belas sob o sol quente. Acenavam ao vento, como se quisessem dizer: — Bem-vindo ao verde! Não é lindo aqui? — Johannes, porém, voltou-se mais uma vez para ver a velha igreja onde fora batizado quando pequeno e onde, todos os domingos, tinha ido com seu velho pai cantar seu hino. Então viu, bem no alto, numa das aberturas da torre, o duende da igreja, com seu pequeno gorro vermelho e pontudo. Protegia o rosto com o braço dobrado, para que o sol não lhe ferisse os olhos. Johannes acenou-lhe um adeus com a cabeça. O pequeno duende agitou o gorro vermelho, pôs a mão no coração e beijou os dedos muitas vezes, para mostrar quanto lhe desejava o bem e uma viagem feliz.

Johannes pensava em quanta beleza iria ver naquele grande e magnífico mundo e caminhava cada vez mais longe, como nunca tinha caminhado antes. Não conhecia as cidades por onde passava nem as pessoas que encontrava. Agora estava bem longe, entre desconhecidos.

Na primeira noite, teve de dormir num monte de feno no campo; não tinha outra cama. Mas achou aquilo lindo: nem o rei poderia estar melhor instalado. O campo inteiro, com o rio, o monte de feno e o céu azul por cima, era um belo quarto. A grama verde, com suas pequenas flores vermelhas e brancas, era o tapete. Os sabugueiros e as sebes de rosas silvestres eram buquês de flores. Como bacia, tinha o rio inteiro, com sua água clara e fresca, onde os juncos se curvavam e davam boa-noite e bom-dia. A lua era uma grande lamparina noturna, bem no alto, debaixo do teto azul, e não punha fogo nas cortinas. Johannes podia dormir tranquilo, e foi o que fez. Só acordou quando o sol nasceu e todos os passarinhos ao redor cantaram: — Bom dia! Bom dia! Você ainda não se levantou?

Os sinos chamavam para a igreja; era domingo. As pessoas iam ouvir o pastor, e Johannes as acompanhou, cantou um hino e ouviu a Palavra de Deus. Sentia-se como se estivesse em sua própria igreja, onde fora batizado e cantara hinos com seu pai.

No cemitério havia muitas sepulturas, e em algumas a grama crescia alta. Johannes pensou na sepultura de seu pai, que também acabaria assim, agora que ele não podia limpá-la e enfeitá-la. Então se abaixou, arrancou a grama, levantou as cruzes de madeira que tinham caído e pôs de volta as coroas que o vento tinha arrancado das sepulturas, pensando: “Talvez alguém faça o mesmo pela sepultura do meu pai, agora que eu não posso fazer!”

Fora do portão do cemitério, um velho mendigo se apoiava numa muleta. Johannes lhe deu os skillings de prata que tinha e continuou feliz e contente, adiante, pelo vasto mundo.

Ao anoitecer, caiu um temporal terrível. Johannes se apressou para encontrar abrigo, mas logo a noite ficou escura. Por fim chegou a uma pequena igreja, inteiramente solitária no alto de uma colina. Por sorte, a porta estava entreaberta, e ele entrou. Ficaria ali até o temporal passar.

— Vou me sentar aqui num canto! — disse. — Estou muito cansado e preciso mesmo descansar um pouco. — Sentou-se, juntou as mãos e rezou sua oração da noite. Antes que percebesse, já dormia e sonhava, enquanto lá fora relampejava e trovejava.

Quando acordou, era o meio da noite, mas o temporal tinha passado, e a lua entrava pelas janelas. No meio da igreja havia um caixão aberto com um homem morto, que ainda não tinha sido enterrado. Johannes não tinha medo algum, pois sua consciência estava tranquila. Sabia que os mortos não fazem mal a ninguém: são as pessoas vivas e más que fazem mal. Duas dessas pessoas, vivas e malvadas, estavam junto do morto que tinha sido posto na igreja antes de ir para a sepultura. Queriam maltratá-lo, não o deixar no caixão, mas jogá-lo para fora da porta da igreja, o pobre morto.

— Por que querem fazer isso? — perguntou Johannes. — É uma maldade! Deixem-no dormir em nome de Jesus!

— Ora, bobagens! — disseram os dois homens horríveis. — Ele nos enganou! Deve-nos dinheiro que não pôde pagar e agora, além de tudo, morreu. Não receberemos nem um skilling! Por isso vamos nos vingar de verdade: ele ficará como um cachorro do lado de fora da igreja!

— Não tenho mais de cinquenta rigsdalers! — disse Johannes. — É toda a minha herança, mas eu a darei de boa vontade se prometerem honestamente deixar esse pobre morto em paz. Vou me arranjar sem o dinheiro; tenho braços e pernas fortes e saudáveis, e Nosso Senhor sempre me ajudará!

— Sim — disseram aqueles homens horríveis. — Se você vai pagar a dívida dele, não lhe faremos mal nenhum, pode ter certeza! — Pegaram o dinheiro que Johannes lhes deu, riram bem alto de sua bondade e foram embora. Mas Johannes ajeitou o corpo de novo no caixão, juntou-lhe as mãos, despediu-se e prosseguiu satisfeito pela grande floresta.

Por toda parte onde a lua penetrava entre as árvores, ele via pequenos e lindos elfos brincando alegremente. Não se deixavam perturbar, pois sabiam que ele era uma pessoa boa e inocente; só às pessoas más não é permitido ver os elfos. Alguns não eram maiores que um dedo e tinham os longos cabelos louros presos com pentes de ouro. De dois em dois, balançavam sobre as grandes gotas de orvalho nas folhas e na grama alta. Às vezes a gota rolava, e eles caíam entre as longas hastes de capim, provocando risadas e barulho nos outros pequeninos. Era divertidíssimo! Cantavam, e Johannes reconhecia com toda a clareza as belas canções que tinha aprendido quando menino. Grandes aranhas coloridas, com coroas de prata na cabeça, tinham de tecer de uma sebe a outra longas pontes suspensas e palácios. Quando o fino orvalho caía sobre eles, pareciam vidro reluzente ao luar. Assim continuaram até o sol nascer. Então os pequenos elfos se esconderam nos botões das flores, e o vento levou suas pontes e castelos pelos ares, como grandes teias de aranha.

Johannes tinha acabado de sair da floresta quando uma voz forte de homem gritou atrás dele: — Olá, companheiro! Para onde vai a viagem?

— Para o vasto mundo! — disse Johannes. — Não tenho pai nem mãe, sou um pobre rapaz, mas Nosso Senhor certamente me ajudará!

— Eu também vou pelo vasto mundo! — disse o desconhecido. — Vamos viajar juntos?

— Vamos, sim! — disse Johannes. E seguiram juntos. Logo passaram a gostar muito um do outro, pois ambos eram boas pessoas. Mas Johannes percebia que o desconhecido era muito mais sábio do que ele: tinha andado por quase todo o mundo e sabia contar sobre tudo o que existia.

O sol já estava alto quando se sentaram debaixo de uma grande árvore para tomar o desjejum. Nesse instante apareceu uma velha. Ah, como era velha e curvada! Apoiava-se num bordão e carregava nas costas um feixe de lenha que tinha recolhido na floresta. Seu avental estava preso para cima, e Johannes viu saírem dele três grandes feixes de samambaias e ramos de salgueiro. Quando ela já estava bem perto, um de seus pés escorregou. Caiu e deu um grande grito, pois tinha quebrado uma perna, a pobre velha.

Johannes quis logo que a levassem para casa, mas o desconhecido abriu sua mochila, tirou um pote e disse que ali tinha um unguento capaz de deixar sua perna imediatamente sã e inteira. Assim ela poderia ir para casa sozinha, como se nunca tivesse quebrado a perna. Em troca, porém, queria que ela lhe desse os três feixes que trazia no avental.

— É um bom pagamento! — disse a velha, acenando com a cabeça de um jeito estranho. Não queria muito se desfazer de seus feixes, mas também não era agradável ficar ali com a perna quebrada. Então lhe deu os ramos. Assim que ele esfregou o unguento na perna, a velhota se levantou e andou muito melhor do que antes. Era isso que aquele unguento podia fazer. Mas também não se encontrava dele na farmácia.

— O que você quer com esses feixes? — perguntou Johannes ao companheiro de viagem.

— São três belas vassourinhas de ervas! — respondeu ele. — Gosto delas porque sou um sujeito esquisito!

Caminharam ainda um bom trecho.

— Nossa, que tempo está se formando! — disse Johannes, apontando para a frente. — Que nuvens terrivelmente grossas!

— Não — disse o companheiro de viagem. — Não são nuvens; são as montanhas. Aquelas belas e grandes montanhas onde se chega acima das nuvens, no ar fresco! É maravilhoso, pode acreditar! Amanhã certamente já estaremos tão longe pelo mundo!

Não era tão perto como parecia. Levaram um dia inteiro caminhando até chegar às montanhas, onde as florestas escuras cresciam até o céu e havia pedras do tamanho de uma cidade inteira. Atravessar tudo aquilo seria uma jornada difícil; por isso Johannes e o companheiro de viagem entraram na hospedaria, para descansar bem e reunir forças para a marcha do dia seguinte.

Na grande sala de bebidas da hospedaria havia muita gente reunida, pois um homem apresentava teatro de bonecos. Tinha acabado de montar seu pequeno palco, e as pessoas se sentavam ao redor para assistir à peça. Bem na frente, no melhor lugar de todos, sentara-se um velho açougueiro gordo. Seu grande cão de presa — ui, como parecia feroz! — estava ao lado dele, olhando como todos os outros.

A peça começou. Era uma bela peça, com um rei e uma rainha sentados no mais lindo trono, com coroas de ouro na cabeça e longas caudas nas roupas, pois podiam pagar por elas. Lindos bonecos de madeira, com olhos de vidro e grandes bigodes, guardavam todas as portas, abrindo-as e fechando-as para que entrasse ar fresco na sala. Era uma bela peça e não tinha nada de triste, mas, no instante em que a rainha se levantou e atravessou o chão, então... bem, só Deus sabe o que o grande cão de presa pensou! Como o gordo açougueiro não o segurava, saltou direto para o palco e agarrou a rainha bem no meio da cintura fina, fazendo “cric, crac!”. Foi terrível!

O pobre homem que apresentava toda a peça ficou assustadíssimo e muito triste por sua rainha, pois era a boneca mais bonita que tinha, e agora aquele cão repugnante lhe tinha arrancado a cabeça com os dentes. Mas, depois que as pessoas foram embora, o desconhecido que chegara com Johannes disse que poderia consertá-la. Tirou seu pote e passou na boneca o mesmo unguento com que tinha ajudado a pobre velha quando ela quebrara a perna. Assim que recebeu o unguento, a boneca ficou inteira outra vez. Podia até mover sozinha todos os seus membros, sem que fosse preciso puxar o cordão. Era como uma pessoa viva, só não podia falar. O dono do pequeno teatro ficou muito contente: já não precisava segurar aquela boneca; ela dançava sozinha. Nenhuma das outras sabia fazer isso.

Mais tarde, quando anoiteceu e todos na hospedaria já tinham ido para a cama, alguém começou a suspirar tão profundamente, e continuou por tanto tempo, que todos se levantaram para ver quem era. O homem da peça foi até seu pequeno teatro, pois os suspiros vinham dali. Todos os bonecos de madeira estavam deitados uns entre os outros, o rei e todos os guardas. Eram eles que suspiravam lastimosamente, olhando fixamente com seus grandes olhos de vidro, pois queriam receber um pouco de unguento, como a rainha, para também poderem se mover sozinhos. A rainha se ajoelhou e ergueu sua linda coroa de ouro, suplicando: — Pode ficar com ela, mas passe o unguento em meu esposo e em meus cortesãos! — O pobre dono da peça e dos bonecos não conseguiu deixar de chorar, de tanta pena. Prometeu imediatamente ao companheiro de viagem todo o dinheiro que ganhasse com a peça na noite seguinte, se ele passasse unguento em quatro ou cinco de seus bonecos mais bonitos. Mas o companheiro de viagem disse que só queria o grande sabre que o homem trazia ao lado do corpo. Quando o recebeu, passou o unguento em seis bonecos. Eles começaram a dançar tão lindamente que todas as moças, as moças de carne e osso que assistiam, também se puseram a dançar. Dançavam o cocheiro e a cozinheira, o criado e a camareira, todos os hóspedes e até a pá de brasas e a tenaz! Mas estas duas caíram assim que deram os primeiros saltos. Ah, que noite alegre!

Na manhã seguinte, Johannes e seu companheiro de viagem se despediram de todos e subiram pelas altas montanhas, atravessando as grandes florestas de abetos. Chegaram tão alto que as torres das igrejas lá embaixo pareciam pequenas bagas vermelhas no meio de tanto verde. Podiam enxergar para muito longe, por muitas e muitas milhas, lugares onde nunca tinham estado. Johannes nunca tinha visto de uma só vez tanta beleza do mundo. O sol brilhava quente no ar azul e fresco. Ele também ouvia, entre as montanhas, os caçadores tocarem suas trompas, num som tão belo e abençoado que seus olhos se encheram de lágrimas de alegria, e não pôde deixar de dizer: — Meu bom Senhor! Eu poderia beijá-lo, porque é tão bom para todos nós e nos deu toda a beleza que existe no mundo!

O companheiro de viagem também estava de mãos juntas, olhando a floresta e as cidades ao sol quente. Nesse instante, um som maravilhosamente belo veio de cima de suas cabeças. Olharam para o alto: um grande cisne branco pairava no ar. Era lindo e cantava como nunca tinham ouvido pássaro algum cantar. Mas o canto foi ficando cada vez mais fraco. Ele curvou a cabeça e desceu lentamente até os pés deles, onde ficou morto, a bela ave.

— Duas asas tão lindas — disse o companheiro de viagem —, tão grandes e brancas como as dessa ave, valem dinheiro. Vou levá-las! Está vendo como foi bom eu ter conseguido um sabre? — E, com um único golpe, cortou as duas asas do cisne morto. Queria ficar com elas.

Viajaram por muitas e muitas milhas através das montanhas, até que por fim viram à frente uma grande cidade, com mais de cem torres que reluziam como prata ao sol. No meio dela havia um magnífico palácio de mármore, coberto de ouro vermelho. Ali morava o rei.

Johannes e o companheiro de viagem não quiseram entrar logo na cidade. Ficaram na hospedaria do lado de fora para se arrumar, pois queriam estar bem apresentados quando saíssem à rua. O hospedeiro contou que o rei era um homem muito bom, que nunca fazia mal a ninguém, de modo algum. Mas sua filha... Deus nos livre! Era uma princesa malvada. Beleza não lhe faltava: ninguém podia ser tão linda e graciosa quanto ela. Mas de que adiantava? Era uma bruxa malvada e cruel, culpada pela morte de tantos belos príncipes. Permitira que todos os homens a pedissem em casamento: qualquer um podia vir, fosse príncipe ou mendigo, tanto fazia. Bastava adivinhar três coisas que ela lhe perguntasse. Se conseguisse, ela se casaria com ele, e ele seria rei de todo o país quando seu pai morresse. Mas, se não adivinhasse as três coisas, ela o mandava enforcar ou decapitar. Assim era malvada e cruel a bela princesa. Seu pai, o velho rei, sofria muito com aquilo, mas não podia proibi-la de ser tão má, porque certa vez dissera que nunca se meteria com seus pretendentes; ela poderia fazer como quisesse. Sempre que chegava um príncipe para tentar adivinhar e ganhar a princesa, não conseguia resolver o enigma e acabava enforcado ou decapitado. Tinham-no avisado a tempo; podia ter desistido de pedir sua mão. O velho rei estava tão triste com toda aquela dor e desgraça que, um dia inteiro por ano, se ajoelhava com todos os seus soldados e rezava para que a princesa se tornasse boa. Mas ela não queria de modo algum. As velhas que bebiam aguardente a tingiam de preto antes de beber: assim demonstravam seu luto, e mais não podiam fazer.

— Que princesa horrível! — disse Johannes. — Ela merecia mesmo umas varadas; fariam bem a ela. Se eu fosse o velho rei, ela ia aprender a cuspir porcos vermelhos!

Nesse instante ouviram as pessoas lá fora gritarem vivas. A princesa passava, e era tão bela que todos esqueciam sua maldade; por isso gritavam vivas. Doze belas donzelas, todas de vestidos de seda branca e com uma tulipa de ouro na mão, cavalgavam cavalos negros como carvão ao lado dela. A princesa montava um cavalo branco como giz, enfeitado com diamantes e rubis. Seu traje de montar era de ouro puro, e o chicote que trazia na mão parecia um raio de sol. A coroa de ouro em sua cabeça parecia feita de pequenas estrelas do céu, e o manto fora costurado com mais de mil belas asas de borboleta. Ainda assim, ela era muito mais bonita que todas as suas roupas.

Quando Johannes a viu, ficou com o rosto vermelho como sangue a gotejar e mal conseguiu dizer uma palavra. A princesa era igualzinha à linda moça de coroa de ouro com quem sonhara na noite em que seu pai morrera. Achou-a tão bela que não pôde deixar de amá-la muito. Certamente não era verdade, dizia, que pudesse ser uma bruxa cruel, mandando enforcar ou decapitar quem não adivinhasse o que exigia. — Todos têm permissão para pedir sua mão, até o mais pobre mendigo. Vou mesmo ao palácio, porque não consigo resistir!

Todos lhe disseram que não fizesse aquilo: certamente teria o mesmo fim dos outros. O companheiro de viagem também tentou dissuadi-lo. Mas Johannes achava que tudo correria bem. Escovou os sapatos e a casaca, lavou o rosto e as mãos, penteou seus belos cabelos louros e foi sozinho à cidade e ao palácio.

— Entre! — disse o velho rei quando Johannes bateu à porta. Johannes abriu, e o velho rei veio recebê-lo de roupão e chinelos bordados. Tinha a coroa de ouro na cabeça, o cetro numa mão e a maçã de ouro na outra. — Espere um pouco! — disse, prendendo a maçã debaixo do braço para poder estender a mão a Johannes. Mas, assim que soube que era um pretendente, começou a chorar tanto que o cetro e a maçã caíram no chão, e teve de enxugar os olhos no roupão. Pobre velho rei!

— Desista! — disse ele. — Vai acabar mal, como todos os outros. Venha ver! — Levou Johannes ao jardim de recreio da princesa. Que aspecto terrível! Em cada árvore pendiam três ou quatro filhos de reis que tinham pedido a mão da princesa, mas não conseguido adivinhar as coisas que ela lhes dissera. Sempre que ventava, todos aqueles ossos chocalhavam, assustando os passarinhos, que nunca se atreviam a entrar no jardim. Todas as flores estavam amarradas a ossos humanos, e nos vasos havia crânios que arreganhavam os dentes. Era mesmo um jardim para uma princesa!

— Está vendo? — disse o velho rei. — Você vai acabar como todos estes que vê aqui. É melhor desistir! Está me deixando muito infeliz, porque levo isso muito a peito!

Johannes beijou a mão do bom e velho rei e disse que tudo correria bem, pois amava muito a bela princesa.

Nesse instante, a princesa entrou a cavalo no pátio do palácio com todas as suas damas. Os dois foram recebê-la e lhe deram bom-dia. Ela era tão encantadora e estendeu a mão a Johannes, que passou a amá-la ainda mais. Certamente não podia ser uma bruxa malvada e cruel, como todos diziam. Subiram ao salão, e as meninas lhes ofereceram compotas e biscoitinhos de especiarias. O velho rei, porém, estava tão triste que não conseguiu comer nada; além disso, os biscoitinhos eram duros demais para ele.

Ficou decidido que Johannes voltaria ao palácio na manhã seguinte. Os juízes e todo o conselho estariam reunidos para ouvir como se sairia ao adivinhar. Se acertasse, ainda teria de voltar mais duas vezes. Mas ninguém jamais tinha acertado na primeira tentativa, e por isso perdiam a vida.

Johannes não estava preocupado com o que lhe aconteceria. Estava contente, pensava apenas na bela princesa e acreditava firmemente que o bom Deus o ajudaria. Como, não sabia nem queria pensar nisso. Foi dançando pela estrada de volta à hospedaria, onde o companheiro de viagem o esperava.

Johannes não parava de contar como a princesa o tinha tratado bem e como era bela. Já ansiava pelo dia seguinte, quando iria ao palácio tentar a sorte ao adivinhar.

Mas o companheiro de viagem balançava a cabeça, muito triste. — Gosto tanto de você! — disse. — Poderíamos passar tanto tempo juntos, e agora já vou perdê-lo! Meu pobre e querido Johannes, eu bem poderia chorar, mas não quero estragar sua alegria nesta que talvez seja nossa última noite juntos. Vamos nos divertir, divertir de verdade! Amanhã, quando você não estiver mais aqui, poderei chorar!

Todos na cidade logo souberam que chegara um novo pretendente para a princesa, e houve grande tristeza. O teatro foi fechado; todas as vendedoras de bolos amarraram crepe preto em seus porquinhos de açúcar; o rei e os pastores se ajoelharam na igreja. Era uma tristeza só, pois Johannes não poderia ter destino melhor que todos os outros pretendentes.

Já à noite, o companheiro de viagem preparou uma grande tigela de ponche e disse a Johannes que agora se divertiriam de verdade e brindariam à princesa. Mas, depois de beber dois copos, Johannes ficou tão sonolento que não conseguiu manter os olhos abertos e adormeceu. O companheiro de viagem o levantou delicadamente da cadeira e o deitou na cama. Quando a noite ficou escura, pegou as duas grandes asas que tinha cortado do cisne e as amarrou aos ombros. Pôs no bolso o maior dos feixes que recebera da velha que caíra e quebrara as pernas, abriu a janela e voou por cima da cidade até o palácio. Ali se acomodou num canto, bem debaixo da janela do quarto da princesa.

A cidade inteira estava silenciosa. O relógio bateu onze e três quartos, a janela se abriu, e a princesa saiu voando com um grande manto branco e longas asas negras, por cima da cidade, em direção a uma grande montanha. Mas o companheiro de viagem se tornou invisível, de modo que ela não pudesse vê-lo, voou atrás e a açoitou com seu feixe de ramos, fazendo o sangue sair onde batia. Ui, que corrida pelos ares! O vento enfunava o manto dela para todos os lados, como uma grande vela de navio, e a lua brilhava através dele.

— Como está caindo granizo! Como está caindo granizo! — dizia a princesa a cada golpe dos ramos, e aquilo podia lhe fazer bem. Por fim chegou à montanha e bateu. Houve um estrondo como de trovão, e a montanha se abriu. A princesa entrou, seguida pelo companheiro de viagem, que ninguém conseguia ver, pois estava invisível. Atravessaram um corredor grande e comprido, cujas paredes faiscavam de um jeito extraordinário: eram mais de mil aranhas incandescentes, correndo para cima e para baixo pela parede e brilhando como fogo. Chegaram a um grande salão construído de prata e ouro. Flores vermelhas e azuis, grandes como girassóis, reluziam nas paredes. Mas ninguém podia colhê-las, pois os caules eram serpentes terríveis e venenosas, e as flores eram fogo que saía de suas bocas. O teto inteiro estava coberto de vagalumes luminosos e morcegos azul-celeste, que batiam suas asas finas. Era uma visão extraordinária. No meio do salão havia um trono, sustentado por quatro esqueletos de cavalos com arreios feitos das aranhas vermelhas de fogo. O próprio trono era de vidro branco como leite, e as almofadas para sentar eram pequenos ratos pretos que mordiam o rabo uns dos outros. Acima dele havia um dossel de teia de aranha cor-de-rosa, coberto de lindíssimas mosquinhas verdes que brilhavam como pedras preciosas. No meio do trono estava sentado um velho troll, com uma coroa na cabeça feia e um cetro na mão.

Ele beijou a testa da princesa e a fez sentar-se ao seu lado naquele trono precioso. Então começou a música. Grandes gafanhotos pretos tocavam berimbau de boca, e a coruja batia na própria barriga, pois não tinha tambor. Era um concerto esquisito. Pequenos duendes negros, com um fogo-fátuo no gorro, dançavam pelo salão. Ninguém podia ver o companheiro de viagem, que se colocara bem atrás do trono e ouvia e via tudo. Os cortesãos que entraram também pareciam muito elegantes e distintos, mas quem enxergasse direito percebia como eram: não passavam de cabos de vassoura com cabeças de repolho, aos quais o troll dera vida por feitiçaria e roupas bordadas. Mas aquilo também não importava; só serviam para fazer vista.

Depois de dançarem um pouco, a princesa contou ao troll que tinha recebido um novo pretendente e perguntou em que deveria pensar para lhe perguntar na manhã seguinte, quando ele viesse ao palácio.

— Escute! — disse o troll. — Vou lhe dizer uma coisa! Escolha algo muito fácil, pois assim ele não pensará nisso. Pense num dos seus sapatos. Ele não vai adivinhar. Então mande cortar-lhe a cabeça, mas não esqueça de me trazer os olhos dele quando voltar aqui amanhã à noite, porque quero comê-los!

A princesa fez uma profunda reverência e disse que não esqueceria os olhos. O troll abriu a montanha, e ela voou para casa. Mas o companheiro de viagem a seguiu e bateu-lhe tanto com os ramos que ela suspirava profundamente por causa da forte chuva de granizo e se apressava o quanto podia para entrar pela janela de seu quarto. O companheiro de viagem voltou voando à hospedaria, onde Johannes ainda dormia, soltou as asas e também se deitou, pois bem podia estar cansado.

Era bem cedo quando Johannes acordou. O companheiro de viagem também se levantou e contou que tivera naquela noite um sonho muito estranho sobre a princesa e seu sapato. Por isso insistiu que ele perguntasse se a princesa não tinha pensado no sapato. Era aquilo que ouvira do troll dentro da montanha, mas não queria contar nada a Johannes; apenas lhe pedia que perguntasse se ela tinha pensado no sapato.

— Tanto faz eu perguntar uma coisa ou outra — disse Johannes. — Talvez o que você sonhou esteja certo, pois continuo acreditando que Nosso Senhor vai me ajudar! Mas quero lhe dizer adeus, porque, se eu errar, nunca mais o verei!

Então se beijaram, e Johannes foi à cidade e ao palácio. O salão estava inteiramente cheio de gente. Os juízes estavam sentados em suas poltronas, com edredons de penugem de êider debaixo da cabeça, pois tinham muito em que pensar. O velho rei se levantou e enxugou os olhos num lenço branco. A princesa entrou: estava ainda mais linda do que no dia anterior e cumprimentou todos muito carinhosamente. A Johannes estendeu a mão e disse: — Bom dia, você!

Agora Johannes devia adivinhar em que ela tinha pensado. Meu Deus, como ela o olhava com simpatia! Mas, assim que o ouviu dizer aquela única palavra, “sapato”, ficou com o rosto branco como giz e começou a tremer pelo corpo inteiro. Nada daquilo podia ajudá-la, pois ele tinha acertado!

Nossa, como o velho rei ficou contente! Deu uma cambalhota e tanto, e todos bateram palmas para ele e para Johannes, que tinha acertado na primeira tentativa.

O companheiro de viagem também ficou contente ao saber como tudo correra bem. Mas Johannes juntou as mãos e agradeceu ao bom Deus, que certamente o ajudaria nas outras duas vezes. Já no dia seguinte teria de adivinhar de novo.

A noite correu como a anterior. Enquanto Johannes dormia, o companheiro de viagem seguiu a princesa voando até a montanha e bateu nela ainda mais forte que antes, pois desta vez levara dois feixes de ramos. Ninguém o viu, e ele ouviu tudo. A princesa pensaria em sua luva. Ele contou isso a Johannes como se fosse um sonho. Johannes pôde acertar, e houve tamanha alegria no palácio! A corte inteira deu cambalhotas, como tinha visto o rei fazer na primeira vez. Mas a princesa ficou deitada no sofá e não quis dizer uma palavra. Agora tudo dependia de Johannes acertar na terceira tentativa. Se conseguisse, ganharia a bela princesa e herdaria todo o reino quando o velho rei morresse. Se errasse, perderia a vida, e o troll comeria seus belos olhos azuis.

Na véspera, Johannes foi cedo para a cama, rezou sua oração da noite e dormiu tranquilamente. Mas o companheiro de viagem prendeu as asas às costas, amarrou o sabre ao lado do corpo, levou os três feixes de ramos e voou para o palácio.

A noite estava completamente escura. A tempestade arrancava as telhas das casas, e as árvores do jardim onde pendiam os esqueletos se curvavam como juncos ao vento. Relampejava a todo instante, e o trovão parecia um único estrondo que durava a noite inteira. A janela se abriu com força, e a princesa saiu voando. Estava pálida como um morto, mas ria do temporal, achando que ainda não era forte o bastante. Seu manto branco rodopiava no ar como uma grande vela de navio. O companheiro de viagem, porém, a açoitou tanto com os três feixes que o sangue pingava até o chão, e por fim ela mal conseguia continuar voando. Finalmente chegou à montanha.

— Está caindo granizo e há uma tempestade! — disse ela. — Nunca estive fora num tempo assim.

— Até das coisas boas se pode ter demais — disse o troll. Ela lhe contou que Johannes também tinha acertado na segunda tentativa. Se fizesse o mesmo na manhã seguinte, teria vencido, e ela nunca mais poderia vir à montanha nem fazer as mesmas feitiçarias de antes. Por isso estava muito triste.

— Ele não vai adivinhar! — disse o troll. — Vou pensar numa coisa que nunca lhe passou pela cabeça! Ou então ele deve ser um feiticeiro maior do que eu. Mas agora vamos nos divertir! — Pegou a princesa pelas duas mãos e dançaram pelo salão com todos os pequenos duendes e fogos-fátuos que estavam ali. As aranhas vermelhas também saltavam alegremente para cima e para baixo pela parede, fazendo parecer que as flores de fogo faiscavam. A coruja tocava tambor, os grilos chiavam e os gafanhotos pretos tocavam berimbau de boca. Era um baile animado!

Depois de dançarem bastante, a princesa teve de ir para casa, para que não notassem sua falta no palácio. O troll disse que a acompanharia; assim ainda poderiam ficar juntos por mais algum tempo.

Saíram voando no temporal, e o companheiro de viagem gastou seus três feixes de tanto lhes bater nas costas. O troll nunca tinha enfrentado tamanha chuva de granizo. Fora do palácio, despediu-se da princesa e sussurrou: — Pense na minha cabeça. — Mas o companheiro de viagem ouviu. No instante em que a princesa entrou pela janela do quarto e o troll ia voltar, ele o agarrou pela longa barba preta e, com o sabre, cortou-lhe a repugnante cabeça bem junto aos ombros, sem que o troll sequer chegasse a ver aquilo. Jogou o corpo no lago para os peixes, mas só mergulhou a cabeça na água e depois a embrulhou em seu lenço de seda. Levou-a para a hospedaria e foi dormir.

Na manhã seguinte, deu o lenço a Johannes, dizendo que não devia desatá-lo antes de a princesa perguntar em que tinha pensado.

Havia tanta gente no grande salão do palácio que as pessoas ficavam umas sobre as outras, como rabanetes amarrados num feixe. O conselho se sentava nas cadeiras com almofadas macias, e o velho rei estava com roupas novas. A coroa de ouro e o cetro estavam polidos e muito bonitos. Mas a princesa estava pálida e vestia um traje negro como carvão, como se fosse a um enterro.

— Em que pensei? — perguntou a Johannes. Ele desatou imediatamente o lenço e também se assustou ao ver a horrível cabeça do troll. Todos estremeceram, pois era terrível de ver. Mas a princesa permaneceu sentada como uma estátua e não conseguiu dizer uma palavra. Por fim se levantou e estendeu a mão a Johannes, pois ele tinha acertado. Não olhou para ninguém e suspirou profundamente: — Agora você é meu senhor! Esta noite celebraremos nosso casamento!

— Assim é que eu gosto! — disse o velho rei. — É assim que deve ser! — Todos gritaram vivas, a guarda tocou música nas ruas, os sinos repicaram, e as vendedoras de bolos tiraram o crepe preto de seus porquinhos de açúcar, pois agora havia alegria. Três bois inteiros assados, recheados com patos e galinhas, foram postos no meio da praça, onde cada um podia cortar um pedaço. Das fontes jorrava o melhor vinho. Quem comprasse na padaria uma rosca de um skilling ganhava seis grandes pãezinhos de brinde, e ainda por cima com passas!

À noite, a cidade inteira estava iluminada. Os soldados disparavam canhões, e os meninos, estalinhos. No palácio comiam e bebiam, brindavam e saltavam; todos os senhores elegantes e as belas senhoritas dançavam uns com os outros. De muito longe se podia ouvir o que cantavam:

“Aqui há tantas moças bonitas,  
Que querem dar umas voltas,  
Pedem a marcha do tambor,  
Bela moça, dê meia-volta.  
Dancem e batam os pés,  
Que as solas dos sapatos, faldera!”

Mas a princesa ainda era uma bruxa e não amava Johannes. O companheiro de viagem se lembrou disso e por isso lhe deu três penas das asas do cisne e um frasquinho com algumas gotas. Disse que mandasse colocar ao lado da cama nupcial uma grande tina cheia de água. Quando a princesa fosse subir na cama, ele deveria dar-lhe um pequeno empurrão para que caísse na água. Ali devia mergulhá-la três vezes, depois de primeiro ter jogado as penas e as gotas. Assim ela ficaria livre da feitiçaria e passaria a amá-lo muito.

Johannes fez tudo o que o companheiro de viagem aconselhara. A princesa gritou muito alto quando ele a mergulhou na água e se debateu sob suas mãos como um grande cisne negro como carvão, de olhos faiscantes. Quando emergiu pela segunda vez, o cisne estava branco, exceto por um único anel preto em volta do pescoço. Johannes rezou devotamente a Nosso Senhor e deixou a água passar pela terceira vez sobre a ave. No mesmo instante, ela se transformou na mais bela princesa. Estava ainda mais linda do que antes e lhe agradeceu, com lágrimas nos belos olhos, por ele ter desfeito seu encantamento.

Na manhã seguinte, o velho rei veio com toda a corte, e as felicitações continuaram por boa parte do dia. Por último chegou o companheiro de viagem, com o bordão na mão e a mochila às costas. Johannes o beijou muitas vezes e disse que não podia partir: devia ficar com ele, pois lhe devia toda a sua felicidade. Mas o companheiro de viagem balançou a cabeça e disse com muita doçura e bondade: — Não, agora meu tempo acabou. Apenas paguei minha dívida. Lembra-se do morto que os homens maus queriam maltratar? Você deu tudo o que possuía para que ele pudesse descansar em sua sepultura. O morto sou eu!

Nesse instante, tinha desaparecido.

As festas do casamento duraram um mês inteiro. Johannes e a princesa se amavam muito, e o velho rei viveu muitos dias felizes, deixando os filhinhos deles brincarem de cavalinho em seu joelho e com seu cetro. Mas Johannes era rei de todo o reino.

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/#frente-educacao)

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