# O fiel João

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/o-fiel-joao)
Autoria original: Jacob Grimm e Wilhelm Grimm
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: d177ec36-fef2-41a8-aaf9-d455841ef63f
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Ao morrer, um rei confia seu filho aos cuidados do fiel João e proíbe que lhe mostre o retrato de uma princesa. O jovem insiste em vê-lo e se apaixona. Para ajudá-lo, João organiza uma viagem e depois ouve três corvos anunciarem perigos que só poderá evitar à custa de sua própria vida.

## Conto integral

Era uma vez um velho rei que estava doente e pensava: “Este deve ser o leito de morte em que estou deitado.” Então disse:

— Mandem chamar o fiel João.

O fiel João era seu servidor mais querido. Tinha esse nome porque lhe fora fiel a vida inteira. Quando chegou diante da cama, o rei lhe disse:

— Meu fidelíssimo João, sinto que meu fim se aproxima, e minha única preocupação é meu filho. Ele ainda é jovem e nem sempre sabe o que fazer. Se você não me prometer ensinar-lhe tudo o que precisa saber e cuidar dele como um pai, não poderei fechar os olhos em paz.

O fiel João respondeu:

— Não vou abandoná-lo. Vou servi-lo com fidelidade, mesmo que isso me custe a vida.

— Assim morro tranquilo e em paz — disse o velho rei.

E continuou:

— Depois da minha morte, mostre a ele o castelo inteiro, todos os aposentos, salões e câmaras abobadadas, e todos os tesouros que há neles. Mas não lhe mostre o último quarto do longo corredor, onde está guardado o retrato da princesa do telhado de ouro. Se vir o retrato, sentirá por ela um amor violento, cairá desmaiado e, por causa dela, correrá grandes perigos. Você deve protegê-lo disso.

Quando o fiel João voltou a apertar a mão do velho rei, dando sua palavra, este ficou quieto, pousou a cabeça no travesseiro e morreu.

Depois que o velho rei foi enterrado, o fiel João contou ao jovem rei o que prometera a seu pai no leito de morte e disse:

— Vou cumprir minha promessa e ser fiel a você como fui a ele, ainda que isso me custe a vida.

Passou o luto, e o fiel João lhe disse:

— Agora é hora de conhecer sua herança. Vou mostrar o castelo que foi de seu pai.

Levou-o por toda parte, para cima e para baixo, e deixou que visse todas as riquezas e os magníficos aposentos. Só não abriu o quarto onde estava o retrato perigoso. O quadro fora colocado de tal maneira que, ao abrir a porta, os olhos davam diretamente nele. Era tão bem-feito que parecia vivo em carne e osso, e nada no mundo parecia mais encantador e belo. Mas o jovem rei percebeu que o fiel João sempre passava diante de uma porta sem abri-la e perguntou:

— Por que você nunca abre esta porta para mim?

— Há uma coisa aí dentro que vai assustá-lo — respondeu ele.

Mas o rei disse:

— Vi o castelo inteiro, e quero saber também o que há aí dentro.

Foi até a porta e quis abri-la à força. O fiel João o conteve e disse:

— Prometi a seu pai, antes de ele morrer, que você não veria o que há nesse quarto. Isso poderia trazer uma grande desgraça para nós dois.

— Ah, não! — respondeu o jovem rei. — Se eu não entrar, será minha perdição certa. Não terei sossego de dia nem de noite até ver com meus próprios olhos. Não saio daqui enquanto você não abrir.

O fiel João viu que não havia mais como evitar aquilo. Com o coração pesado e muitos suspiros, procurou a chave no grande molho. Quando abriu a porta, entrou primeiro, pensando em cobrir o retrato para que o rei não o visse por trás dele. Mas de que adiantou? O rei ficou na ponta dos pés e olhou por cima de seu ombro. Quando viu o retrato da moça, tão magnífico, resplandecente de ouro e pedras preciosas, caiu desmaiado no chão. O fiel João o levantou, levou-o para a cama e pensou, aflito: “A desgraça aconteceu. Senhor Deus, o que será disso?” Depois o reanimou com vinho, até que recuperasse os sentidos. As primeiras palavras que o rei disse foram:

— Ah! Quem é a bela mulher do retrato?

— É a princesa do telhado de ouro — respondeu o fiel João.

O rei continuou:

— Meu amor por ela é tão grande que, se todas as folhas das árvores fossem línguas, não conseguiriam exprimi-lo. Arrisco minha vida para conquistá-la. Você é meu fidelíssimo João e precisa me ajudar.

O fiel servidor pensou por muito tempo em como começar, pois já era difícil conseguir chegar à presença da princesa. Por fim, teve uma ideia e disse ao rei:

— Tudo o que ela tem ao redor é de ouro: mesas, cadeiras, travessas, taças, tigelas e todos os utensílios da casa. Em seu tesouro há cinco tonéis de ouro. Mande os ourives do reino transformar um deles em toda espécie de recipientes e utensílios, em aves, animais de caça e animais extraordinários. Isso vai agradá-la. Vamos viajar até lá com essas coisas e tentar a sorte.

O rei mandou chamar todos os ourives. Eles tiveram de trabalhar dia e noite, até ficarem prontos os mais magníficos objetos. Quando tudo foi carregado num navio, o fiel João vestiu roupas de mercador, e o rei teve de fazer o mesmo para ficar inteiramente irreconhecível. Atravessaram o mar e viajaram até chegar à cidade onde morava a princesa do telhado de ouro.

O fiel João mandou o rei ficar no navio e esperá-lo.

— Talvez eu traga a princesa comigo — disse. — Por isso, cuide para que tudo esteja em ordem. Mande expor os objetos de ouro e enfeitar o navio inteiro.

Depois juntou no avental alguns daqueles objetos, desembarcou e foi direto ao castelo real. Quando chegou ao pátio, havia junto ao poço uma bela moça, com dois baldes de ouro nas mãos, tirando água. Quando ela se virou para levar a água cintilante, viu o estrangeiro e perguntou quem era.

— Sou um mercador — respondeu ele.

Abriu o avental e a deixou olhar.

— Ah, que belas peças de ouro! — exclamou ela.

Pousou os baldes e examinou uma por uma. Então disse:

— A princesa precisa ver isso. Ela gosta tanto de objetos de ouro que vai comprar tudo do senhor.

Pegou-o pela mão e o levou para cima, pois era a camareira. Quando viu as mercadorias, a princesa ficou encantada e disse:

— São tão bem-feitas que quero comprar tudo.

Mas o fiel João respondeu:

— Sou apenas o criado de um rico mercador. O que tenho aqui não é nada perto do que meu senhor tem em seu navio. São as peças mais primorosas e preciosas que já se fizeram em ouro.

Ela quis que trouxessem tudo para o castelo, mas ele disse:

— Seriam necessários muitos dias, tamanha é a quantidade, e tantos salões para expor tudo que sua casa não teria espaço suficiente.

A curiosidade e a vontade dela aumentaram tanto que, por fim, disse:

— Leve-me ao navio. Quero ir pessoalmente ver os tesouros de seu senhor.

O fiel João, muito contente, levou-a até o navio. Quando o rei a viu, percebeu que sua beleza era ainda maior do que o retrato mostrava, e sentiu como se o coração fosse arrebentar. Ela embarcou, e o rei a conduziu para dentro. O fiel João ficou junto ao timoneiro e mandou afastar o navio da costa.

— Abram todas as velas, para que ele voe como um pássaro no ar!

Lá dentro, o rei mostrava a ela cada peça de ouro: as travessas, as taças, as tigelas, as aves, os animais de caça e os animais extraordinários. Muitas horas se passaram enquanto ela examinava tudo. Em sua alegria, não percebeu que o navio seguia viagem. Depois de olhar o último objeto, agradeceu ao mercador e quis voltar para casa. Mas, quando chegou à borda do navio, viu que ele já estava longe da terra, em alto-mar, avançando a toda vela.

— Ah! — gritou, assustada. — Fui enganada, fui raptada e caí em poder de um mercador! Preferia morrer!

O rei, porém, pegou sua mão e disse:

— Não sou um mercador. Sou um rei, e minha origem não é inferior à sua. Se a raptei por meio de um ardil, foi por um amor imenso. Na primeira vez em que vi seu retrato, caí desmaiado no chão.

Ao ouvir isso, a princesa do telhado de ouro se consolou, e seu coração se inclinou para ele. Assim, consentiu de boa vontade em tornar-se sua esposa.

Enquanto viajavam em alto-mar, aconteceu de o fiel João, que estava sentado na proa fazendo música, avistar três corvos que voavam pelo ar. Parou de tocar e escutou o que diziam uns aos outros, pois entendia sua linguagem. Um deles gritou:

— Vejam, lá vai ele levando para casa a princesa do telhado de ouro!

— Sim — respondeu o segundo —, mas ainda não a tem.

— Tem, sim — disse o terceiro. — Ela está sentada ao lado dele no navio.

O primeiro tornou a falar:

— De que adianta? Quando chegarem à terra, um cavalo alazão virá saltando ao seu encontro. Ele vai querer montá-lo. Se fizer isso, o cavalo disparará com ele, subirá pelos ares, e nunca mais ele tornará a ver sua moça.

— Não há salvação? — perguntou o segundo.

— Há, sim. Se outra pessoa montar depressa, tirar a arma de fogo que deve estar nos coldres e matar o cavalo com um tiro, o jovem rei estará salvo. Mas quem sabe disso? E quem souber e contar a ele se transformará em pedra, dos dedos dos pés até os joelhos.

O segundo disse:

— Sei de mais uma coisa. Mesmo que o cavalo seja morto, o jovem rei não conservará sua noiva. Quando chegarem juntos ao castelo, haverá numa travessa uma camisa de casamento pronta, que parecerá tecida de ouro e prata, mas não será nada além de enxofre e piche. Se ele a vestir, ela o queimará até a medula e os ossos.

— Não há salvação? — perguntou o terceiro.

— Há, sim — respondeu o segundo. — Se alguém pegar a camisa com luvas e a jogar no fogo para que queime, o jovem rei estará salvo. Mas de que adianta? Quem souber disso e contar a ele terá metade do corpo transformada em pedra, dos joelhos até o coração.

O terceiro disse:

— Sei de mais uma coisa. Mesmo que a camisa de casamento seja queimada, o jovem rei ainda não terá sua noiva. Quando a dança começar depois do casamento e a jovem rainha estiver dançando, ela de repente ficará pálida e cairá como morta. Se ninguém a levantar, extrair três gotas de sangue de seu seio direito e cuspi-las, ela morrerá. Mas, se alguém que sabe disso o revelar, terá o corpo inteiro transformado em pedra, do alto da cabeça até os dedos dos pés.

Depois dessa conversa, os corvos seguiram voando. O fiel João entendera tudo muito bem, mas, desde então, ficou calado e triste. Se escondesse de seu senhor o que ouvira, ele seria infeliz. Se revelasse, teria de dar a própria vida. Por fim, disse a si mesmo:

— Vou salvar meu senhor, mesmo que eu próprio pereça por isso.

Quando chegaram à terra, aconteceu como o corvo previra: um magnífico cavalo alazão veio galopando ao encontro deles.

— Muito bem — disse o rei —, ele me levará ao meu castelo.

Quis montar, mas o fiel João se adiantou, saltou depressa sobre o cavalo, tirou a arma dos coldres e o matou com um tiro. Os outros criados do rei, que não gostavam do fiel João, gritaram:

— Que vergonha matar o belo animal que deveria levar o rei ao castelo!

Mas o rei disse:

— Calem-se e deixem-no! É meu fidelíssimo João. Quem sabe para que isso serve?

Foram então para o castelo. No salão havia uma travessa com a camisa de casamento pronta, que parecia mesmo ser de ouro e prata. O jovem rei se aproximou e quis pegá-la, mas o fiel João o afastou, agarrou a camisa com luvas, levou-a depressa ao fogo e a deixou queimar. Os outros criados tornaram a resmungar:

— Vejam, agora ele está queimando até a camisa de casamento do rei!

Mas o jovem rei disse:

— Quem sabe para que isso serve? Deixem-no! É meu fidelíssimo João.

Celebraram o casamento. Começou a dança, e a noiva também entrou na roda. O fiel João ficou atento, observando seu rosto. De repente, ela empalideceu e caiu no chão como morta. Ele correu até ela, levantou-a e a levou para um quarto. Ali a deitou, ajoelhou-se, sugou três gotas de sangue de seu seio direito e as cuspiu. Ela logo tornou a respirar e se recuperou. Mas o jovem rei vira tudo sem saber por que o fiel João fizera aquilo. Enfurecido, gritou:

— Joguem-no na prisão!

Na manhã seguinte, o fiel João foi condenado e levado à forca. Quando já estava lá em cima, prestes a ser executado, disse:

— Todo aquele que vai morrer pode falar mais uma vez antes do fim. Terei também esse direito?

— Sim — respondeu o rei. — Isso lhe será permitido.

Então o fiel João disse:

— Fui condenado injustamente e sempre lhe fui fiel.

Contou como ouvira no mar a conversa dos corvos e como tivera de fazer tudo aquilo para salvar seu senhor. O rei gritou:

— Ah, meu fidelíssimo João! Perdão! Perdão! Tirem-no daí!

Mas, ao pronunciar a última palavra, o fiel João caíra sem vida e se transformara em pedra.

O rei e a rainha ficaram profundamente aflitos. O rei disse:

— Ah, como recompensei mal tamanha fidelidade!

Mandou erguer a estátua de pedra e colocá-la em seu quarto, ao lado da cama. Sempre que olhava para ela, chorava e dizia:

— Ah, se eu pudesse devolver a vida a você, meu fidelíssimo João!

Passou algum tempo, e a rainha deu à luz gêmeos, dois meninos, que cresceram e eram sua alegria. Um dia, enquanto a rainha estava na igreja e as duas crianças estavam sentadas junto do pai, brincando, ele tornou a olhar tristemente para a estátua de pedra, suspirou e disse:

— Ah, se eu pudesse devolver a vida a você, meu fidelíssimo João!

Então a pedra começou a falar:

— Sim, você pode me devolver a vida, se quiser sacrificar o que tem de mais querido.

O rei exclamou:

— Tudo o que tenho no mundo, eu daria por você!

A pedra continuou:

— Se, com sua própria mão, você cortar a cabeça de seus dois filhos e me untar com o sangue deles, recuperarei a vida.

O rei se assustou ao ouvir que deveria matar seus queridos filhos. Mas pensou na grande fidelidade de João e em como ele morrera por sua causa. Sacou a espada e, com a própria mão, cortou a cabeça dos filhos. Quando untou a pedra com o sangue deles, a vida retornou, e o fiel João voltou a estar diante dele, vivo e são.

— Sua fidelidade não ficará sem recompensa — disse ao rei.

Pegou as cabeças das crianças, recolocou-as e untou a ferida com o sangue delas. No mesmo instante, elas ficaram curadas, puseram-se a saltar e continuaram brincando como se nada lhes tivesse acontecido. O rei ficou cheio de alegria. Quando viu a rainha se aproximando, escondeu o fiel João e as duas crianças num grande armário. Assim que ela entrou, perguntou:

— Você rezou na igreja?

— Sim — respondeu ela. — Mas pensei o tempo todo no fiel João e na desgraça que sofreu por nossa causa.

Então ele disse:

— Querida esposa, podemos devolver a vida a ele, mas isso nos custará nossos dois filhinhos. Teremos de sacrificá-los.

A rainha empalideceu e se assustou no íntimo, mas disse:

— Devemos isso a ele por sua grande fidelidade.

O rei se alegrou ao ver que ela pensava como ele pensara. Foi abrir o armário, tirou de lá os filhos e o fiel João e disse:

— Louvado seja Deus! Ele está salvo, e temos nossos filhinhos de volta!

Contou a ela como tudo acontecera. E viveram juntos em felicidade até o fim de seus dias.

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/#frente-educacao)

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