# O Filho da Viúva

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/o-filho-da-viuva-moe)
Autoria original: Jørgen Engebretsen Moe
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 1a31f236-bff6-4a95-9f31-296345b77f1e
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

O filho de uma viúva pobre aceita servir um desconhecido que o proíbe de entrar em quatro quartos. Ao desobedecer, encontra objetos e um cavalo que lhe oferece ajuda para fugir.

## Conto integral

Era uma vez uma viúva muito, muito pobre, que só tinha um filho. Ela trabalhou duramente para criar o menino até ele terminar a instrução com o pastor para a confirmação; então lhe disse que já não podia sustentá-lo: ele precisava sair e trabalhar para ganhar seu pão. O rapaz partiu pelo mundo e, depois de caminhar um dia, mais ou menos, encontrou um desconhecido.

— Aonde você vai? — perguntou o homem.

— Vou pelo mundo tentar arranjar um emprego — disse o rapaz.

— Quer trabalhar para mim?

— Ah, sim, tanto faz trabalhar para você como para outro — respondeu o rapaz.

— Pois você vai passar bem comigo — disse o homem. — Só precisa me fazer companhia e, de resto, não fazer coisa alguma.

O rapaz foi com ele e viveu bem, com comida e bebida, tendo pouco ou nada para fazer; mas também nunca via outra pessoa na casa do homem.

Um dia o homem lhe disse:

— Agora vou viajar por oito dias; nesse tempo você terá de ficar sozinho aqui, mas não pode entrar em nenhum destes quatro quartos! Se fizer isso, tiro sua vida quando voltar.

Não, disse o rapaz, isso ele não faria. Mas, depois que o homem estava fora havia uns três ou quatro dias, o rapaz já não conseguiu se conter e entrou num dos quartos. Olhou em volta, mas não viu nada além de uma prateleira sobre a porta, onde havia um chicote de espinheiro. “Ora, aí está uma coisa para ele me proibir com tanto rigor de ver!”, pensou o rapaz. Passados os oito dias, o homem voltou para casa.

— Você não entrou em nenhum dos quartos, não é? — disse ele.

— Não, não entrei de jeito nenhum — disse o rapaz.

— Pois logo vou ver.

E entrou no quarto em que o rapaz estivera.

— Entrou, sim, apesar de tudo — disse ele. — E agora vai perder a vida.

O rapaz chorou e implorou pela própria vida; assim escapou com vida, mas levou uma boa surra. Depois disso, voltaram a ser tão amigos quanto antes.

Algum tempo depois, o homem tornou a viajar; dessa vez ficaria fora catorze dias, mas antes proibiu de novo o rapaz de entrar em qualquer quarto em que ainda não tivesse estado; naquele em que já entrara, podia entrar outra vez à vontade. Pois aconteceu exatamente o mesmo que da primeira vez, só que agora o rapaz se conteve durante oito dias antes de entrar. Também nesse quarto não viu nada além de uma prateleira sobre a porta, com uma pedra grande e um jarro de água em cima. “Aí está uma coisa de que ter tanto medo!”, pensou outra vez. Quando o homem voltou, perguntou se ele estivera em algum dos quartos; não, imagine, o rapaz não estivera lá.

— Pois logo vou ver — disse o homem; e, ao ver que ele entrara apesar de tudo, disse: — Agora não vou poupar você! Agora vai perder a vida!

Mas o rapaz tornou a chorar e implorar, e mais uma vez escapou com uma surra; dessa vez, porém, levou todas as pancadas que lhe podiam caber. Quando se recuperou, voltou a viver tão bem quanto antes, e ele e o homem continuaram tão amigos quanto antes. Algum tempo depois, o homem precisava viajar novamente e dessa vez ficaria fora três semanas; tornou a proibir o rapaz de entrar no terceiro quarto: se entrasse, podia se preparar para perder a vida naquele mesmo instante. Ao fim de catorze dias, o rapaz não conseguiu mais se conter e entrou de mansinho; mas não viu absolutamente nada lá dentro além de um alçapão no chão. Ao levantá-lo e olhar para baixo, viu um grande caldeirão de cobre que borbulhava e fervia lá embaixo; mas não viu fogo algum debaixo dele. “Seria interessante sentir se está quente”, pensou o rapaz, e enfiou o dedo lá dentro. Quando o tirou, estava inteiramente dourado. O rapaz raspou e lavou o dedo, mas o dourado não saía; então amarrou um trapo em volta dele e, quando o homem voltou para casa e perguntou o que havia de errado com seu dedo, disse que se cortara muito feio. Mas o homem arrancou o trapo e viu muito bem o que havia de errado com o dedo. Primeiro quis matar o rapaz; mas, como ele tornou a chorar e implorar, apenas o espancou, de modo que ficou de cama por três dias. Depois pegou um pote na parede e passou no rapaz o que havia nele; o rapaz ficou bom de novo na mesma hora.

Passado algum tempo, o homem viajou novamente e só voltaria dali a um mês. Mas dessa vez disse ao rapaz que, se entrasse no quarto quarto, nunca devia pensar em conservar a vida. O rapaz se conteve por duas ou três semanas; depois já não conseguiu se conter, tinha de entrar no quarto de qualquer jeito, e lá entrou de fininho. Havia ali um grande cavalo preto preso por uma corda, com um cocho de brasas junto à cabeça e um cesto de feno junto à cauda. O rapaz achou aquilo estranho, trocou as coisas de lugar e pôs o cesto de feno junto à cabeça. Então o cavalo disse:

— Já que você tem um coração tão bom que quer me dar comida, eu vou salvar você. Se o troll voltar agora e encontrar você, vai matá-lo. Mas agora suba ao quarto que fica logo acima deste e pegue uma das armaduras que estão penduradas lá; e não vá pegar nenhuma das reluzentes: pegue a mais enferrujada que vir. Escolha a espada e a sela da mesma maneira.

O rapaz fez isso; mas foi pesado para ele carregar tudo aquilo.

Quando voltou, o cavalo lhe disse que agora devia ficar nu, descer ao caldeirão que estava fervendo no segundo quarto e tomar ali um bom banho. “Devo sair esfolado”, pensou o rapaz, mas fez assim mesmo. Depois do banho, ficou tão bonito e bem constituído, tão vermelho e branco como leite e sangue, e muito mais forte que antes.

— Sente alguma mudança? — perguntou o cavalo.

— Sim! — disse o rapaz.

— Experimente me levantar — disse o cavalo.

Pois sim, ele conseguiu, e também manejou a espada como se não fosse nada.

— Agora ponha a sela em mim — disse o cavalo — e vista a armadura; depois leve o chicote de espinheiro, a pedra, a garrafa de água e o pote de unguento, e vamos embora.

Mal o rapaz montou no cavalo, saíram tão depressa que ele nem sabia como avançavam. Já havia cavalgado por algum tempo quando o cavalo disse:

— Acho que estou ouvindo um estrondo. Olhe para trás! Consegue ver alguma coisa?

— Vem muita, muita gente atrás de nós, umas vinte pessoas! — disse o rapaz.

— Sim, é o troll — disse o cavalo. — Agora ele vem com os seus.

Cavalgaram ainda por algum tempo, até que os perseguidores começaram a se aproximar.

— Jogue agora o chicote de espinhos por cima do ombro — disse o cavalo —, mas jogue bem longe de mim!

O rapaz fez isso, e naquele mesmo instante cresceu ali uma enorme e densa floresta de espinheiros. O rapaz tornou a cavalgar um longo, longo trecho, enquanto o troll precisou voltar para casa para buscar alguma coisa com que abrir caminho pela floresta. Mas, passado algum tempo, o cavalo tornou a dizer:

— Olhe para trás! Consegue ver alguma coisa agora?

— Sim, uma multidão — disse o rapaz —, como uma grande fila de gente indo à igreja.

— Sim, é o troll; agora ele traz mais gente consigo. Jogue a pedra grande, mas jogue bem longe de mim!

Assim que o rapaz fez o que o cavalo dissera, surgiu atrás dele uma montanha enorme, enorme, de grandes pedras. O troll teve de voltar para casa para buscar alguma coisa com que abrir passagem pela montanha; enquanto ele fazia isso, o rapaz tornou a cavalgar um bom trecho. Mas o cavalo pediu outra vez que olhasse para trás; dessa vez viu uma multidão como um exército inteiro: reluziam tanto que deles saía um brilho.

— Sim — disse o cavalo —, é o troll; agora ele traz todos os seus consigo. Despeje a garrafa de água atrás de você, mas tome muito cuidado para não derramar nada em mim!

O rapaz fez isso, mas, de algum modo, acabou derramando uma gota sobre o lombo. Surgiu um lago enorme, enorme, e, por causa das gotas que derramara, o cavalo ficou muito para dentro da água; mesmo assim, conseguiu nadar até a margem. Quando os trolls chegaram ao lago, deitaram-se para bebê-lo até esvaziar, e foram engolindo água até estourarem.

— Agora estamos livres deles — disse o cavalo.

Depois de viajarem por muito, muito tempo, chegaram a uma clareira verde numa floresta.

— Agora tire toda a armadura e vista apenas suas roupas esfarrapadas — disse o cavalo. — Depois tire minha sela, solte-me e pendure tudo dentro desta grande tília oca! Faça uma peruca de líquen de abeto e vá ao palácio do rei, que fica aqui perto; lá peça trabalho. Quando precisar de mim, venha aqui e sacuda o freio, que eu apareço.

O rapaz fez o que o cavalo dissera; quando pôs a peruca de líquen, ficou com uma aparência tão miserável, pálida e lastimável que ninguém podia reconhecê-lo. Foi ao palácio e primeiro pediu para ficar na cozinha e carregar água e lenha para o cozinheiro; mas a criada da cozinha perguntou:

— Por que você está com essa peruca horrível? Tire-a! Não quero ninguém tão feio aqui dentro!

— Não posso — respondeu o rapaz. — Minha cabeça não está muito limpa.

— Acha que vou deixar você aqui perto da comida, sendo assim? — disse o cozinheiro. — Vá lá para o mestre das cavalariças; você serve melhor para tirar esterco dos estábulos.

Mas, quando o mestre das cavalariças lhe pediu que tirasse a peruca, recebeu a mesma resposta e também não o quis.

— Pode ir procurar o jardineiro — disse ele. — Você serve melhor para cavar a terra!

O jardineiro deixou que ficasse; mas nenhum dos outros criados queria dormir com ele; por isso teve de dormir sozinho debaixo da escada do pavilhão do jardim. O pavilhão era erguido sobre postes e tinha uma escada alta. Ali embaixo lhe deram um pouco de musgo para fazer de cama, e ele dormiu como pôde.

Depois de estar no palácio por algum tempo, aconteceu que uma manhã, bem quando o sol nascia, o rapaz tirara a peruca de líquen e estava se lavando; e era tão bonito que dava gosto vê-lo. A princesa viu da janela o belo ajudante do jardineiro e achou que nunca vira ninguém tão bonito. Perguntou ao jardineiro por que ele dormia lá fora, debaixo da escada.

— Ah, nenhum dos outros criados quer dormir com ele — disse o jardineiro.

— Esta noite deixe que venha dormir junto à porta, dentro do meu quarto; depois disso, os outros não vão se recusar a deixá-lo dormir dentro de casa com eles — disse a princesa.

O jardineiro contou isso ao rapaz.

— Você acha que vou fazer isso? — disse o rapaz. — Vão dizer que há alguma coisa entre mim e a princesa.

— É, você tem mesmo motivo para temer uma suspeita dessas! — respondeu o jardineiro. — Você, que é tão bonito!

— Pois bem, se o senhor manda, acho que tenho de fazer — disse o rapaz.

Quando subiu a escada à noite, pisou e bateu os pés com tanta força que tiveram de lhe pedir que andasse devagar, para o rei não ficar sabendo. Entrou, deitou-se e logo começou a dormir roncando. A princesa disse imediatamente à sua aia:

— Agora vá lá de mansinho e tire a peruca de líquen dele!

A aia fez isso; mas, no instante em que ia puxar a peruca, ele a segurou com as duas mãos e disse que ela não a levaria de jeito nenhum. Então tornou a se deitar e a roncar. A princesa fez outro sinal à aia; dessa vez ela conseguiu arrancar a peruca. Lá estava o rapaz, tão belo, vermelho e branco, como a princesa o vira ao sol da manhã. Daí em diante o rapaz passou a dormir todas as noites no quarto da princesa.

Mas não demorou para o rei saber que o ajudante do jardineiro dormia todas as noites no quarto da princesa; ficou tão furioso que por pouco não mandou matar o rapaz. Não fez isso, porém; jogou-o na torre da prisão e trancou a própria filha no quarto dela, sem jamais deixá-la sair, nem de dia nem de noite. Por mais que ela chorasse e implorasse por si e pelo rapaz, de nada adiantava; aquilo só deixava o rei ainda mais furioso.

Algum tempo depois, houve guerra e conflito no país, e o rei teve de se armar contra outro rei, que queria lhe tomar o reino. Quando o rapaz soube disso, pediu ao carcereiro que fosse ao rei por ele e pedisse uma armadura, uma espada e permissão para ir à guerra. Todos os outros riram quando o carcereiro deu o recado e pediram ao rei que deixasse o rapaz pegar alguma velharia como armadura, para terem o divertimento de ver aquele desgraçado na guerra. Deram-lhe isso e, além disso, uma velha e miserável pileca, que pulava sobre três pernas e arrastava a quarta.

Partiram então contra o inimigo, mas não tinham ido longe do palácio quando o rapaz ficou atolado com sua pileca num pântano. Ali ficou, sacudindo-se e balançando a cabeça.

— Eia, vai sair daí? Eia, vai sair daí? — dizia à pileca.

Todos os outros se divertiam muito, rindo e caçoando dele enquanto passavam a cavalo. Mas, assim que desapareceram, ele correu até a tília, vestiu a armadura e sacudiu o freio; o cavalo apareceu imediatamente e disse:

— Faça o melhor que puder, que eu farei o mesmo!

Quando o rapaz chegou, a batalha já começara e o rei estava em grande aperto; mas, antes que percebessem, o rapaz pusera o inimigo em fuga. O rei e seus homens se perguntavam, muito espantados, quem seria aquele que viera ajudá-los; mas ninguém chegava perto o bastante para falar com ele e, quando a batalha acabou, ele desaparecera. Na volta, o rapaz ainda estava no pântano, sacudindo-se e balançando a cabeça em cima da pileca de três pernas. Tornaram a rir.

— Ora, vejam só, aquele idiota ainda está ali! — diziam.

No segundo dia em que partiram, o rapaz ainda estava lá; tornaram a rir e caçoar dele; mas, assim que passaram a cavalo, ele correu outra vez à tília, e tudo aconteceu como no dia anterior. Todos se perguntavam, espantados, quem seria o guerreiro desconhecido que os ajudara; mas ninguém chegava perto o bastante para lhe falar; e, naturalmente, ninguém suspeitava do rapaz.

Quando voltaram para casa à noite e viram o rapaz ainda em cima da pileca, tornaram a zombar dele; um deles lhe atirou uma flecha e o atingiu na perna. Ele começou a gritar e a se lamentar de um jeito horrível; então o rei lhe jogou seu lenço, para que o amarrasse em volta da perna.

Quando partiram na terceira manhã, o rapaz estava de novo no pântano.

— Eia, vai sair daí? Eia, vai sair daí? — dizia à pileca.

— Não, não! Ele vai ficar aí até morrer de fome! — diziam os homens do rei enquanto passavam a cavalo; e riam tanto dele que quase caíam dos cavalos. Depois que desapareceram, ele correu de novo à tília e chegou à batalha no momento decisivo. Naquele dia matou o rei inimigo, e a guerra terminou naquele mesmo instante.

Quando a batalha acabou, o rei viu seu lenço amarrado na perna do guerreiro desconhecido e assim teve facilidade para reconhecê-lo. Com grande alegria, levaram-no entre eles ao palácio; a princesa, que o viu de sua janela lá em cima, ficou tão contente que nem se pode acreditar.

— Lá vem também o meu amado! — disse ela.

Ele pegou o pote de unguento e passou primeiro na própria perna e depois em todos os feridos; todos ficaram bons de novo na mesma hora. Casou-se então com a princesa; mas, quando foi ao estábulo ver o cavalo no dia em que se realizaria o casamento, ele estava lá tão tristonho, de orelhas caídas, sem querer comer nada. Quando o jovem rei — pois agora se tornara rei e recebera metade do reino — falou com ele e perguntou o que lhe faltava, o cavalo disse:

— Agora ajudei você a progredir, e não quero mais viver. Pegue a espada e corte minha cabeça!

— Não, isso não vou fazer de jeito nenhum — disse o jovem rei. — Mas você terá tudo o que quiser e poderá ficar descansando para sempre!

— Pois, se não fizer o que estou dizendo, vou saber muito bem como tirar sua vida! — disse o cavalo.

O rei teve então de fazer aquilo; mas, ao erguer a espada para dar o golpe, estava tão triste que precisou virar o rosto, pois não queria ver o corte. Mal acabara de cortar a cabeça, porém, ali estava o mais belo dos príncipes, no lugar onde estivera o cavalo.

— De onde você veio, afinal? — perguntou o rei.

— Eu era o cavalo — respondeu o príncipe. — Antes eu era rei no país de onde veio aquele rei que você matou na batalha de ontem; foi ele que me enfeitiçou e me vendeu ao troll. Agora que ele foi morto, vou recuperar meu reino, e você e eu seremos reis vizinhos; mas certamente nunca faremos guerra um ao outro.

E de fato nunca fizeram; foram amigos enquanto viveram, e um ia visitar o outro com muita frequência.


## Créditos

- translator: Marcelo Castro Barbosa, assistido por IA (https://marcelocastrobarbosa.com.br/)
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/)

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