# O jardim do paraíso

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/o-jardim-do-paraiso)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 5875f70a-7c78-49b4-a47c-045747474572
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Um príncipe de dezessete anos, fascinado pelo jardim do paraíso, acredita que não repetiria a desobediência de Adão e Eva. Perdido numa tempestade, abriga-se na caverna da mãe dos quatro ventos e ouve as viagens de seus filhos. O Vento Leste lhe oferece uma passagem até o jardim, onde uma fada lhe apresenta as maravilhas do lugar e as condições para permanecer ali.

## Conto integral

Havia um príncipe; ninguém tinha tantos livros nem tão belos quanto ele. Tudo o que acontecera neste mundo ele podia conhecer pela leitura e ver representado em magníficas imagens. Podia informar-se sobre cada povo e cada país, mas não havia uma palavra sobre onde encontrar o jardim do paraíso; e era nele, justamente nele, que mais pensava.

Sua avó lhe contara, quando ele ainda era bem pequeno, mas estava para começar os estudos, que cada flor do jardim do paraíso era o mais doce dos bolos, e os estames, o mais fino vinho. Em uma estava escrita a história, em outra a geografia ou as tabuadas; bastava comer bolo para saber a lição. Quanto mais se comia, mais se aprendia de história, geografia e tabuadas.

Naquele tempo, ele acreditava nisso. Mas, à medida que crescia, aprendia mais e ficava muito mais instruído, compreendia que a beleza do jardim do paraíso devia ser de uma natureza muito diferente.

— Ah, por que Eva colheu da árvore do conhecimento? Por que Adão comeu do fruto proibido? Se fosse eu, isso não teria acontecido! Nunca o pecado teria entrado no mundo!

Era o que dizia naquele tempo, e continuava a dizê-lo aos dezessete anos! O jardim do paraíso ocupava todos os seus pensamentos.

Um dia, foi à floresta. Ia sozinho, pois esse era seu maior prazer.

A noite caiu, as nuvens se juntaram, e desabou uma chuva como se o céu inteiro fosse uma única comporta por onde a água se precipitava. Estava tão escuro quanto costuma ficar, à noite, no fundo do poço mais profundo. Ora ele escorregava na grama molhada, ora tropeçava nas pedras nuas que sobressaíam do chão rochoso. Tudo escorria água; não restava um fio seco na roupa do pobre príncipe. Precisava subir por grandes blocos de pedra, de onde a água escorria por entre o musgo alto. Estava prestes a cair sem forças quando ouviu um estranho rumor e viu, à sua frente, uma grande caverna iluminada. Lá dentro ardia uma fogueira capaz de assar um cervo, e era justamente o que estava acontecendo: um cervo magnífico, com sua alta galhada, fora posto no espeto e girava lentamente entre dois pinheiros derrubados. Uma mulher já de certa idade, alta e forte, como se fosse um homem disfarçado, estava sentada junto ao fogo e atirava nele um pedaço de lenha depois do outro.

— Chegue mais perto! — disse ela. — Sente-se junto ao fogo para secar suas roupas!

— Há uma corrente de ar terrível aqui! — disse o príncipe, sentando-se no chão.

— Vai piorar ainda mais quando meus filhos chegarem! — respondeu a mulher. — Você está na caverna dos ventos. Meus filhos são os quatro ventos do mundo, compreende?

— Onde estão seus filhos? — perguntou o príncipe.

— Bem, é difícil responder a uma pergunta tola — disse a mulher. — Meus filhos andam por conta própria, jogam bola com as nuvens lá em cima, no salão! — E apontou para o alto.

— Ah, é assim! — disse o príncipe. — A senhora fala com bastante dureza e não é tão delicada quanto as mulheres que costumo ver à minha volta!

— É, elas provavelmente não têm outra coisa para fazer! Preciso ser dura para manter meus rapazes na linha! E consigo, apesar de serem teimosos! Está vendo os quatro sacos pendurados na parede? Eles têm tanto medo deles quanto você já teve da vara de castigo atrás do espelho. Posso dobrar os rapazes, fique sabendo, e então vão para o saco. Não fazemos cerimônia! Ficam lá dentro e não saem para suas andanças até eu achar conveniente. Mas aí vem um deles!

Era o Vento Norte, que entrou trazendo um frio glacial. Grandes pedras de granizo saltavam pelo chão, e flocos de neve rodopiavam por toda parte. Ele usava calças e casaco de pele de urso; um capuz de pele de foca lhe cobria as orelhas. Longas pontas de gelo pendiam de sua barba, e uma pedra de granizo depois da outra escorregava pela gola do casaco.

— Não vá direto para o fogo! — disse o príncipe. — Seu rosto e suas mãos podem facilmente sofrer queimaduras de frio!

— Frio! — disse o Vento Norte, soltando uma grande gargalhada. — Frio! Esse é justamente meu maior prazer! Mas que magricela é você? Como veio parar na caverna dos ventos?

— Ele é meu hóspede! — disse a velha. — E, se essa explicação não lhe agradar, pode ir para o saco! Agora já conhece meu poder de julgar!

Isso funcionou, e o Vento Norte contou de onde vinha e onde passara quase um mês inteiro.

— Venho do mar Polar — disse ele. — Estive na ilha dos Ursos com os caçadores russos de morsas. Estava sentado, dormindo no leme, quando partiram do cabo Norte! Quando eu acordava um pouco, de vez em quando, a ave das tempestades voava ao redor das minhas pernas! É um pássaro curioso: dá uma rápida batida de asas e depois as mantém estendidas, imóveis, e assim já tem velocidade suficiente.

— Não se alongue tanto! — disse a mãe dos ventos. — E então chegou à ilha dos Ursos!

— Lá é uma beleza! É um chão próprio para dançar, liso como um prato! Havia neve meio derretida com um pouco de musgo, pedras pontiagudas e esqueletos de morsas e ursos-polares. Pareciam braços e pernas de gigantes, cobertos de um verde bolorento. Era de imaginar que o sol nunca os tivesse iluminado. Soprei um pouco a névoa para que se pudesse ver o abrigo: era uma casa feita de madeira de naufrágios e revestida de peles de morsa, com o lado da carne voltado para fora, cheio de vermelho e verde. No telhado havia um urso-polar vivo, rosnando. Fui à praia, olhei os ninhos das aves, olhei os filhotes nus que gritavam de bico aberto; então soprei pelas mil gargantas, e eles aprenderam a fechar a boca. Lá embaixo, as morsas se revolviam como entranhas vivas ou larvas gigantescas, com cabeças de porco e dentes de um côvado de comprimento!

— Você conta bem, meu rapaz! — disse a mãe. — Ouvi-lo me dá água na boca!

— Então começou a caça! O arpão foi cravado no peito da morsa, e um jato de sangue fumegante se ergueu como uma fonte sobre o gelo. Aí também pensei na minha brincadeira! Soprei com força e fiz meus navegantes, os blocos de gelo altos como rochedos, apertarem os barcos entre si. Ui, como assobiavam e como gritavam, mas eu assobiava mais alto! Tiveram de descarregar sobre o gelo as carcaças das baleias mortas, os baús e as cordas! Sacudi os flocos de neve ao redor deles e deixei que, com a caça, fossem levados para o sul nos barcos presos entre os gelos, para provar água salgada. Nunca mais voltarão à ilha dos Ursos!

— Então você fez maldades! — disse a mãe dos ventos.

— O que fiz de bom, os outros podem contar! — disse ele. — Mas aí vem meu irmão do oeste, de quem mais gosto entre todos: tem sabor de mar e traz consigo um frio abençoado!

— É o pequeno Zéfiro? — perguntou o príncipe.

— É Zéfiro, sim! — disse a velha. — Mas já não é tão pequeno assim. Antigamente era um rapaz bonito, mas isso acabou!

Parecia um selvagem, mas usava um gorro de proteção para não se machucar. Na mão segurava um porrete de mogno, cortado nas florestas de mogno americanas. Não podia ser menos!

— De onde vem? — perguntou sua mãe.

— Das florestas desertas! — disse ele. — Lá os cipós espinhosos fazem uma cerca entre cada árvore, a cobra-d'água fica na grama molhada, e os seres humanos parecem desnecessários!

— O que fez por lá?

— Olhei o rio profundo, vi onde ele se precipitava do rochedo, virava poeira e voava rumo às nuvens para sustentar o arco-íris. Vi o búfalo selvagem nadando no rio, mas a correnteza o arrastou. Foi levado com o bando de patos selvagens, que levantaram voo onde a água despencava. O búfalo teve de cair; gostei disso e soprei uma tempestade, de modo que as árvores antiquíssimas saíram navegando e se partiram em lascas.

— E não fez mais nada? — perguntou a velha.

— Dei cambalhotas nas savanas, acariciei os cavalos selvagens e sacudi os cocos! Sim, sim, tenho histórias para contar! Mas não se deve dizer tudo o que se sabe. Você bem conhece isso, minha velha! — E beijou a mãe com tanta força que ela quase caiu de costas; era realmente um rapaz selvagem.

Chegou então o Vento Sul, de turbante e manto de beduíno esvoaçante.

— Está um frio danado aqui fora! — disse ele, atirando lenha ao fogo. — Dá para perceber que o Vento Norte chegou primeiro!

— Está tão quente aqui que se pode assar um urso-polar! — disse o Vento Norte.

— Você é que é um urso-polar! — respondeu o Vento Sul.

— Querem ir para o saco? — perguntou a velha. — Sente-se naquela pedra e conte onde esteve.

— Na África, minha mãe! — respondeu ele. — Fui caçar leões com os hotentotes na terra dos cafres! Que grama cresce na planície, verde como uma azeitona! Lá o gnu dançava, e o avestruz apostou corrida comigo, mas minhas pernas são mais rápidas. Fui ao deserto, à areia amarela; parece o fundo do mar. Encontrei uma caravana! Mataram seu último camelo para conseguir água para beber, mas conseguiram bem pouca. O sol queimava por cima, e a areia assava por baixo. Não tinha limites o imenso deserto. Então me esbaldei na areia fina e solta, fazendo-a rodopiar em grandes colunas: que dança! Você devia ter visto o dromedário parado, desanimado, e o mercador puxando o cafetã sobre a cabeça. Ele se prostrou diante de mim como diante de Alá, seu Deus. Agora estão enterrados, há uma pirâmide de areia sobre todos eles. Quando um dia eu a soprar para longe, o sol irá branquear seus ossos brancos, e os viajantes poderão ver que antes houve pessoas ali. De outro modo, não se acredita nisso no deserto!

— Então só fez maldades! — disse a mãe. — Marche para o saco! — E, antes que ele percebesse, ela havia agarrado o Vento Sul pela cintura e o enfiado no saco. O saco rolava pelo chão, mas ela se sentou em cima dele, e então teve de ficar quieto.

— Que rapazes cheios de vida a senhora tem! — disse o príncipe.

— Sim, de fato — respondeu ela. — E sei mantê-los na linha! Aí vem o quarto!

Era o Vento Leste, vestido como um chinês.

— Ah, vem daquele lado! — disse a mãe. — Pensei que tivesse estado no jardim do paraíso.

— Só vou voar para lá amanhã! — disse o Vento Leste. — Amanhã faz cem anos que estive lá! Agora venho da China, onde dancei ao redor da torre de porcelana, fazendo soar todos os sinos. Lá embaixo, na rua, os funcionários apanhavam; varas de bambu se gastavam em seus ombros, e eram pessoas do primeiro ao nono grau. Gritavam: “Muito obrigado, meu paternal benfeitor!” Mas não falavam com sinceridade, e eu tocava os sinos e cantava tsing, tsang, tsu!

— Você anda muito travesso! — disse a velha. — Ainda bem que amanhã vai ao jardim do paraíso, isso sempre melhora sua educação! Beba bastante da fonte da sabedoria e traga para mim uma garrafinha cheia!

— Vou trazer! — disse o Vento Leste. — Mas por que meteu meu irmão do sul no saco? Tire-o de lá! Ele precisa me contar sobre a ave Fênix. A princesa do jardim do paraíso sempre quer ouvir falar dessa ave quando faço minha visita, a cada cem anos. Abra o saco! Assim será minha mãe mais querida, e vou lhe dar dois bolsos cheios de chá, tão verde e fresco quanto o colhi lá mesmo!

— Bem, por causa do chá e porque você é meu queridinho, vou abrir o saco! — Assim fez, e o Vento Sul saiu rastejando, mas parecia muito abatido porque o príncipe estrangeiro tinha visto aquilo.

— Aqui está uma folha de palmeira para a princesa! — disse o Vento Sul. — Quem me deu esta folha foi a velha ave Fênix, a única que havia no mundo. Com o bico, ela gravou aqui toda a história de sua vida, os cem anos que viveu. Agora a princesa pode ler por si mesma. Vi a ave Fênix atear fogo ao próprio ninho e ficar sentada, queimando até o fim, como a mulher de um hindu. Como os galhos secos estalavam! Que fumaça e que cheiro! Por fim, tudo se ergueu em chamas, a velha ave Fênix virou cinzas, mas seu ovo ficou no fogo, vermelho em brasa. Rachou com um grande estrondo, e o filhote saiu voando. Agora é o soberano de todas as aves e a única ave Fênix do mundo. Ele fez com o bico um furo na folha de palmeira que lhe dei: é sua saudação à princesa!

— Vamos comer alguma coisa! — disse a mãe dos ventos. — Então todos se sentaram para comer do cervo assado. O príncipe ficou ao lado do Vento Leste, e por isso logo se tornaram bons amigos.

— Escute, diga-me uma coisa — disse o príncipe. — Quem é essa princesa de quem tanto se fala, e onde fica o jardim do paraíso?

— Ho, ho! — disse o Vento Leste. — Quer ir até lá? Então voe comigo amanhã! Mas preciso lhe dizer que nenhum ser humano esteve lá desde o tempo de Adão e Eva. Você certamente os conhece de sua história bíblica!

— Claro! — disse o príncipe.

— Quando foram expulsos, o jardim do paraíso afundou na terra, mas conservou seu sol quente, seu ar ameno e toda a sua glória. A rainha das fadas mora lá dentro; lá fica a ilha da bem-aventurança, onde a Morte nunca chega, onde é uma delícia estar! Sente-se nas minhas costas amanhã e eu o levarei. Acho que será possível! Mas agora não fale mais, pois quero dormir!

E todos adormeceram.

Bem cedo, o príncipe acordou e ficou bastante assustado ao perceber que já estava muito acima das nuvens. Estava sentado nas costas do Vento Leste, que o segurava com firmeza. Voavam tão alto que florestas e campos, rios e lagos pareciam parte de um grande mapa colorido.

— Bom dia! — disse o Vento Leste. — Você bem poderia dormir mais um pouco, pois não há muito para ver na terra plana debaixo de nós. A menos que queira contar igrejas! São como pontinhos de giz lá embaixo, na tábua verde. — Era aos campos e prados que ele chamava de tábua verde.

— Foi falta de educação eu não ter me despedido de sua mãe e de seus irmãos! — disse o príncipe.

— Quem está dormindo está desculpado! — disse o Vento Leste, e voaram ainda mais depressa. Podia-se ouvi-los nas copas das florestas: quando passavam por cima delas, todos os galhos e folhas farfalhavam. Podia-se ouvi-los no mar e nos lagos, pois, por onde voavam, as ondas se erguiam mais altas, e os grandes navios se inclinavam profundamente na água, como cisnes nadando.

Ao cair da tarde, quando escureceu, as grandes cidades tinham um aspecto divertido. As luzes ardiam lá embaixo, ora aqui, ora ali, exatamente como quando se queima um pedaço de papel e se veem as muitas faíscas pequeninas, que são crianças saindo da escola! O príncipe bateu palmas, mas o Vento Leste pediu que não fizesse isso, que se segurasse bem, pois, do contrário, poderia facilmente cair e ficar pendurado na ponta de uma torre de igreja.

A águia voava ligeira nas florestas escuras, mas o Vento Leste voava mais ligeiro. O cossaco disparava pelas planícies em seu cavalinho, mas o príncipe disparava de outra maneira.

— Agora pode ver o Himalaia! — disse o Vento Leste. — É a montanha mais alta da Ásia; logo chegaremos ao jardim do paraíso! — Então tomaram uma direção mais ao sul, e logo sentiram cheiro de especiarias e flores. Figos e romãs cresciam espontaneamente, e a videira silvestre tinha uvas azuis e vermelhas. Ali os dois desceram e se estenderam na grama macia, onde as flores acenavam ao vento como se quisessem dizer: “Bem-vindo de volta.”

— Já estamos no jardim do paraíso? — perguntou o príncipe.

— Claro que não! — respondeu o Vento Leste. — Mas logo chegaremos. Está vendo aquele paredão rochoso e a grande caverna, onde as videiras pendem como enormes cortinas verdes? É por ali que precisamos passar! Envolva-se no manto: aqui o sol queima, mas, a um passo, faz um frio glacial. O pássaro que passa rente à caverna tem uma asa aqui fora, no verão quente, e a outra lá dentro, no inverno frio!

— Então esse é o caminho para o jardim do paraíso? — perguntou o príncipe.

Entraram na caverna! Ui, que frio glacial! Mas não durou muito. O Vento Sul estendeu as asas, e elas brilharam como o fogo mais luminoso. Que cavernas! Grandes blocos de pedra, de onde pingava água, pendiam sobre eles nas formas mais extraordinárias. Ora a passagem era tão estreita que precisavam rastejar sobre as mãos e os pés, ora era tão alta e ampla quanto o ar livre. Pareciam capelas funerárias, com tubos de órgão mudos e órgãos petrificados.

— Parece que estamos seguindo o caminho da Morte para o jardim do paraíso! — disse o príncipe. Mas o Vento Leste não respondeu uma palavra; apontou para a frente, e a mais bela luz azul brilhou ao encontro deles. Os blocos de pedra acima iam se tornando cada vez mais uma névoa, que por fim ficou clara como uma nuvem branca ao luar. Agora estavam no mais delicioso ar ameno, tão fresco quanto nas montanhas, tão perfumado quanto junto às rosas do vale.

Corria ali um rio tão transparente quanto o próprio ar, e os peixes pareciam de prata e ouro. Enguias vermelho-púrpura, que soltavam faíscas azuis a cada movimento, brincavam lá embaixo na água. As folhas largas dos nenúfares tinham as cores do arco-íris; a própria flor era uma chama ardente vermelho-amarelada, alimentada pela água, como o óleo faz a lâmpada arder sem parar! Uma ponte sólida de mármore, mas tão artística e delicadamente lavrada que parecia feita de rendas e contas de vidro, atravessava a água até a ilha da bem-aventurança, onde florescia o jardim do paraíso.

O Vento Leste tomou o príncipe nos braços e o carregou para o outro lado. Ali, flores e folhas cantavam as mais belas canções de sua infância, mas com uma plenitude tão deliciosa que nenhuma voz humana neste mundo consegue cantar assim.

Eram palmeiras ou plantas aquáticas gigantescas que cresciam ali? O príncipe nunca tinha visto árvores tão viçosas e tão grandes. Em longas grinaldas pendiam as mais extraordinárias trepadeiras, como as que só se veem representadas com cores e ouro nas margens dos antigos livros de santos, ou enroscadas por entre suas letras iniciais. Eram as mais estranhas combinações de pássaros, flores e arabescos. Bem perto, na grama, havia um bando de pavões com as caudas abertas, radiantes! Sim, era isso mesmo! Não: quando o príncipe os tocou, percebeu que não eram animais, mas plantas. Eram grandes plantas de folhas largas que ali brilhavam como a bela cauda do pavão. O leão e o tigre saltavam como gatos ágeis entre as sebes verdes, que cheiravam a flores de oliveira. O leão e o tigre eram mansos; a pomba silvestre, brilhando como a mais bela pérola, batia as asas na juba do leão, e o antílope, que costuma ser tão arisco, balançava a cabeça como se também quisesse brincar.

Chegou então a fada do paraíso. Suas roupas brilhavam como o sol, e seu rosto era suave como o de uma mãe alegre, muito feliz com seu filho. Era tão jovem e bela, e as mais belas moças a seguiam, cada uma com uma estrela luminosa nos cabelos.

O Vento Leste lhe entregou a folha escrita pela ave Fênix, e seus olhos cintilaram de alegria. Ela tomou o príncipe pela mão e o levou ao seu castelo, onde as paredes tinham as cores da mais magnífica pétala de tulipa erguida contra o sol. O próprio teto era uma única flor grande e radiante, e, quanto mais se olhava para ela, mais profundo parecia seu cálice. O príncipe foi até a janela e olhou por uma das vidraças: viu a árvore do conhecimento com a serpente, e Adão e Eva estavam bem ao lado. “Eles não foram expulsos?”, perguntou. A fada sorriu e lhe explicou que, em cada vidraça, o Tempo havia gravado assim sua imagem a fogo; mas não como se costumava ver: havia vida ali. As folhas das árvores se moviam, as pessoas iam e vinham como numa imagem refletida. Ele olhou por outra vidraça, e lá estava o sonho de Jacó, em que a escada chegava diretamente ao céu, e os anjos de grandes asas pairavam subindo e descendo. Sim, tudo o que acontecera neste mundo vivia e se movia nas vidraças. Pinturas tão artísticas, só o Tempo poderia gravar a fogo.

A fada sorriu e o levou a um salão grande e alto. Suas paredes pareciam pinturas transparentes, com um rosto mais belo que o outro: eram milhões de seres felizes que sorriam e cantavam, de modo que tudo se fundia numa única melodia. Os que estavam no alto eram tão pequenos que pareciam menores que o menor botão de rosa, quando desenhado como um pontinho no papel. No meio do salão havia uma grande árvore com ramos pendentes e exuberantes. Maçãs douradas, grandes e pequenas, pendiam como laranjas entre as folhas verdes. Era a árvore do conhecimento, de cujo fruto Adão e Eva haviam comido. De cada folha pingava uma gota de orvalho vermelho e brilhante; era como se a árvore chorasse lágrimas de sangue.

— Vamos entrar no barco! — disse a fada. — Lá tomaremos refrescos sobre a água ondulante! O barco balança, mas não sai do lugar, enquanto todos os países do mundo deslizam diante dos nossos olhos. — Era estranho ver como toda a costa se movia. Vieram os altos Alpes cobertos de neve, com nuvens e pinheiros escuros; a trompa soava profunda e melancólica, e o pastor cantava belamente à tirolesa no vale. Então as bananeiras inclinaram seus longos ramos pendentes sobre o barco, cisnes negros como carvão nadavam na água, e os animais e flores mais estranhos apareciam na margem: era a Nova Holanda, a quinta parte do mundo, que deslizava diante deles com uma vista das montanhas azuis. Ouviam-se os cantos dos sacerdotes e viam-se as danças dos selvagens ao som de tambores e tubos de osso. As pirâmides dos egípcios, que se erguiam até as nuvens, colunas derrubadas e esfinges meio enterradas na areia passavam navegando. As auroras boreais ardiam sobre as geleiras do norte: eram fogos de artifício que ninguém conseguiria imitar. O príncipe estava tão feliz! Sim, via cem vezes mais do que contamos aqui.

— E poderei ficar aqui para sempre? — perguntou.

— Isso depende de você! — respondeu a fada. — Se não se deixar tentar, como Adão, a fazer o que é proibido, poderá ficar aqui para sempre!

— Não tocarei nas maçãs da árvore do conhecimento! — disse o príncipe. — Há aqui mil frutos tão belos quanto esse!

— Ponha-se à prova e, se não for forte o bastante, acompanhe o Vento Leste, que o trouxe. Ele está voltando agora e não virá aqui por cem anos. Aqui, esse tempo passará para você como se fossem apenas cem horas, mas é muito tempo para a tentação e o pecado. Todas as noites, quando me afastar de você, terei de lhe gritar: “Venha comigo!” Terei de acenar com a mão para você, mas fique onde está. Não me acompanhe, pois a cada passo seu desejo aumentará. Você chegará ao salão onde cresce a árvore do conhecimento. Eu dormirei sob seus ramos pendentes e perfumados, você se inclinará sobre mim, e eu terei de sorrir; mas, se me der um beijo na boca, o paraíso afundará nas profundezas da terra e estará perdido para você. O vento cortante do deserto soprará ao seu redor, a chuva fria pingará dos seus cabelos. A tristeza e a aflição serão sua herança.

— Vou ficar aqui! — disse o príncipe. O Vento Leste o beijou na testa e disse: “Seja forte, e nos encontraremos aqui de novo daqui a cem anos! Adeus! Adeus!” Então estendeu suas grandes asas; elas brilhavam como os relâmpagos distantes no tempo da colheita ou como a aurora boreal no inverno frio. “Adeus! Adeus!”, soava das flores e das árvores. Cegonhas e pelicanos voavam em fila, como fitas esvoaçantes, acompanhando-o até o limite do jardim.

— Agora começam nossas danças! — disse a fada. — No fim, quando eu dançar com você, verá, ao pôr do sol, que aceno para você. Vai me ouvir gritar: “Venha comigo!” Mas não faça isso! Durante cem anos, terei de repetir isso todas as noites. A cada vez que esse tempo passar, você ganhará mais força; por fim, nem pensará nisso. Hoje à noite será a primeira vez; agora está avisado!

A fada o levou a um grande salão de lírios brancos e transparentes. Os estames amarelos de cada um eram uma pequena harpa de ouro, que ressoava com sons de cordas e tons de flauta. As mais belas moças, esguias e leves, vestidas de véus ondulantes através dos quais se viam seus belos membros, flutuavam dançando e cantavam sobre como era glorioso viver, que nunca morreriam e que o jardim do paraíso floresceria eternamente.

O sol se pôs, o céu inteiro virou um só ouro, que dava aos lírios o brilho da mais bela rosa. O príncipe bebia do vinho espumante que as moças lhe ofereciam e sentia uma bem-aventurança como nunca antes. Viu abrir-se o fundo do salão, e a árvore do conhecimento surgiu num esplendor que ofuscava seus olhos. O canto que vinha dali era suave e belo como a voz de sua mãe, e era como se ela cantasse: “Meu filho! Meu filho amado!”

Então a fada acenou e chamou com tanto carinho: “Siga-me! Siga-me!” Ele correu ao encontro dela, esqueceu sua promessa, esqueceu-a já na primeira noite, e ela acenava e sorria. O perfume, o perfume de especiarias ao redor, ficou mais intenso, as harpas soaram muito mais belas, e era como se os milhões de rostos sorridentes no salão onde a árvore crescia acenassem e cantassem: “É preciso conhecer tudo! O ser humano é o senhor da Terra.” E já não eram lágrimas de sangue que caíam das folhas da árvore do conhecimento: pareciam-lhe estrelas vermelhas e cintilantes. “Siga-me, siga-me!”, soavam as notas trêmulas, e, a cada passo, as faces do príncipe ardiam mais, seu sangue se agitava com mais força! “Preciso ir!”, disse ele. “Não é pecado, não pode ser! Por que não seguir a beleza e a alegria? Quero vê-la dormir! Nada estará perdido se eu apenas deixar de beijá-la, e não vou fazer isso: sou forte, tenho uma vontade firme!”

A fada tirou sua roupa radiante, afastou os ramos para trás e, um instante depois, estava escondida lá dentro.

— Ainda não pequei! — disse o príncipe. — E também não vou pecar! — Então afastou os ramos: ela já dormia, bela como só a fada do jardim do paraíso poderia ser. Sorria em sonhos; ele se inclinou sobre ela e viu as lágrimas tremerem entre seus cílios!

— Você chora por mim? — sussurrou. — Não chore, bela mulher! Só agora compreendo a felicidade do paraíso: ela corre pelo meu sangue, pelos meus pensamentos; sinto a força e a vida eterna do querubim no meu corpo terreno. Que para mim seja noite para sempre: um minuto como este já é riqueza suficiente! — E beijou a lágrima do olho dela; sua boca tocou a dela…

Então soou um trovão tão profundo e terrível como ninguém jamais ouvira, e tudo desabou: a bela fada, o paraíso florido, afundou, afundou tão fundo, tão fundo! O príncipe o viu afundar na noite escura; como uma pequena estrela luminosa, brilhava muito longe! Um frio de morte atravessou seus membros; ele fechou os olhos e ficou muito tempo deitado, como morto.

A chuva fria caiu em seu rosto, o vento cortante soprou ao redor de sua cabeça, e seus pensamentos voltaram. “O que fiz!”, suspirou. “Pequei como Adão! Pequei, de modo que o paraíso afundou tão profundamente lá embaixo!” Abriu os olhos e ainda viu a estrela ao longe, a estrela que cintilava como o paraíso submerso: era a estrela da manhã no céu.

Levantou-se e estava na grande floresta, perto da caverna dos ventos. A mãe dos ventos estava sentada ao seu lado, com uma expressão zangada, erguendo o braço.

— Já na primeira noite! — disse ela. — Era o que eu pensava! Ah, se fosse meu rapaz, agora iria para o saco!

— É para lá que ele irá! — disse a Morte. Era um velho forte, com uma foice na mão e grandes asas negras. — Será posto no caixão, mas não agora. Só o marco; que ainda caminhe um tempo pelo mundo, expie seu pecado, torne-se bom e melhor! Um dia voltarei. Quando ele menos esperar, vou metê-lo no caixão negro, pô-lo sobre minha cabeça e voar rumo à estrela. Lá também floresce o jardim do paraíso, e, se ele for bom e piedoso, poderá entrar. Mas, se seus pensamentos forem maus e seu coração ainda estiver cheio de pecado, afundará com o caixão mais fundo do que o paraíso afundou. E só a cada mil anos voltarei para buscá-lo, para que possa afundar mais ou permanecer na estrela, a estrela cintilante lá no alto!

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
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