# Os cisnes selvagens

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/os-cisnes-selvagens)
Autoria original: Hans Christian Andersen
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: fc7a4673-3c00-4fc5-9955-8ea0f5dfa83a
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Elisa é separada dos onze irmãos quando a madrasta os transforma em cisnes selvagens. Ao reencontrá-los, descobre que só recuperam a forma humana depois do pôr do sol. Uma fada lhe mostra como desfazer o encanto: colher urtigas que queimam, preparar com elas onze cotas e permanecer em silêncio até concluir o trabalho. Numa terra do outro lado do mar, Elisa começa a tarefa.

## Conto integral

Muito longe daqui, para onde voam as andorinhas quando temos inverno, vivia um rei que tinha onze filhos e uma filha, Elisa. Os onze irmãos eram príncipes e iam à escola com uma estrela no peito e um sabre ao lado. Escreviam em lousas de ouro com lápis de diamante e liam tão bem de cor quanto com o livro aberto; logo se percebia que eram príncipes. A irmã, Elisa, sentava-se num banquinho de vidro espelhado e tinha um livro de figuras que fora comprado por metade do reino.

Ah, aquelas crianças viviam tão bem! Mas não seria assim para sempre.

O pai, que era rei de todo o país, casou-se com uma rainha malvada, que não tinha bondade alguma com as pobres crianças. Elas perceberam isso já no primeiro dia. Havia uma grande festa no castelo inteiro, e as crianças brincavam de receber visitas. Mas, em vez de lhes dar todos os bolos e maçãs assadas que costumavam receber, ela só lhes deu areia numa xícara de chá e disse que podiam fazer de conta que era alguma coisa.

Na semana seguinte, mandou a pequena Elisa para o campo, para a casa de uns camponeses. E não demorou a encher a cabeça do rei com tantas histórias sobre os pobres príncipes que ele deixou de se importar com eles.

“Voem pelo mundo e cuidem de si mesmos!”, disse a rainha malvada. “Voem como grandes aves, sem voz!” Mas ela não conseguiu tornar a coisa tão ruim quanto desejava: eles se transformaram em onze belos cisnes selvagens. Com um grito estranho, voaram pelas janelas do castelo, por cima do parque e da floresta.

Ainda era bem cedo quando passaram pelo lugar em que Elisa dormia na casa do camponês. Pairaram sobre o telhado, viraram os longos pescoços e bateram as asas, mas ninguém ouviu nem viu aquilo. Tiveram de partir de novo, bem alto, em direção às nuvens, para longe, pelo vasto mundo. Voaram até uma grande floresta escura que se estendia até a praia.

A pobre Elisa ficava na casa do camponês e brincava com uma folha verde; não tinha outro brinquedo. Fazia um furo na folha, olhava o sol através dele e então era como se visse os olhos claros dos irmãos. Cada vez que os raios quentes do sol brilhavam em seu rosto, pensava em todos os beijos deles.

Um dia passava igual ao outro. Quando o vento soprava pelas grandes cercas de roseiras do lado de fora da casa, elas sussurravam às rosas: “Quem pode ser mais belo que vocês?” Mas as rosas balançavam a cabeça e diziam: “Elisa.” E, quando a velha se sentava à porta aos domingos e lia seu livro de salmos, o vento virava as páginas e perguntava ao livro: “Quem pode ser mais piedoso que você?” “Elisa!”, dizia o livro de salmos. E era a pura verdade o que as rosas e o livro diziam.

Quando completou quinze anos, ela deveria voltar para casa. Ao ver como estava bonita, a rainha sentiu raiva e ódio dela. Bem que gostaria de transformá-la num cisne selvagem, como os irmãos, mas não ousava fazê-lo logo, pois o rei queria ver a filha.

Bem cedo, a rainha foi até a sala de banho, construída em mármore e enfeitada com almofadas macias e os mais belos tapetes. Pegou três sapos, beijou-os e disse ao primeiro: “Ponha-se sobre a cabeça de Elisa quando ela entrar no banho, para que fique indolente como você! Ponha-se na testa dela”, disse ao segundo, “para que fique feia como você e seu pai não a reconheça! Repouse junto ao coração dela”, sussurrou ao terceiro, “e dê a ela um coração mau, para que sofra por isso!” Então pôs os sapos na água clara, que imediatamente ganhou uma cor esverdeada, chamou Elisa, despiu-a e a fez entrar na água. Quando a menina mergulhou, um sapo se pôs em seus cabelos, outro na testa e o terceiro no peito, mas Elisa pareceu nem perceber. Assim que se ergueu, três papoulas vermelhas flutuavam na água. Se os animais não fossem venenosos e não tivessem sido beijados pela bruxa, teriam se transformado em rosas vermelhas; mas ao menos se tornaram flores por repousar sobre a cabeça e junto ao coração dela. Elisa era piedosa e inocente demais para que a feitiçaria tivesse poder sobre ela.

Ao ver aquilo, a rainha malvada esfregou Elisa com suco de nozes até deixá-la inteiramente castanho-escura, cobriu seu belo rosto com um unguento fedorento e deixou que seus lindos cabelos se embaraçassem. Era impossível reconhecer a bela Elisa.

Por isso, quando o pai a viu, ficou assustado e disse que aquela não era sua filha. Ninguém quis reconhecê-la, a não ser o cão de corrente e as andorinhas; mas eram pobres animais e não tinham voz naquelas decisões.

A pobre Elisa chorou e pensou nos onze irmãos, que estavam todos longe. Triste, saiu do castelo às escondidas e andou o dia inteiro por campos e pântanos até entrar na grande floresta. Não sabia para onde ir, mas sentia tanta tristeza e tanta saudade dos irmãos! Certamente também haviam sido expulsos para o mundo, como ela. Iria procurá-los e encontrá-los.

Fazia pouco tempo que estava na floresta quando a noite caiu. Perdera completamente os caminhos e as trilhas. Deitou-se no musgo macio, fez sua oração da noite e apoiou a cabeça num toco de árvore. Tudo estava tão quieto, o ar era tão suave! Em volta, na relva e no musgo, mais de cem vaga-lumes brilhavam como um fogo verde. Quando tocou de leve num dos galhos, os insetos luminosos caíram perto dela como estrelas cadentes.

A noite inteira sonhou com os irmãos. Brincavam outra vez, como crianças, escreviam com lápis de diamante nas lousas de ouro e olhavam o belo livro de figuras que custara metade do reino. Mas nas lousas já não escreviam apenas zeros e traços, como antes: escreviam as mais audaciosas proezas que tinham realizado, tudo o que haviam vivido e visto. E no livro de figuras tudo tinha vida. Os pássaros cantavam, as pessoas saíam do livro e falavam com Elisa e os irmãos; mas, quando ela virava a página, saltavam imediatamente de volta para não desarranjar as figuras.

Quando acordou, o sol já ia alto. Ela não conseguia vê-lo, pois as árvores altas estendiam os ramos numa cobertura fechada; mas lá em cima os raios brincavam como um véu dourado ao vento. Havia um perfume de folhagem, e os pássaros quase pousavam em seus ombros. Ouviu a água espirrar: eram muitas nascentes grandes que desaguavam numa lagoa de belo fundo arenoso. Havia arbustos cerrados em volta, mas, num lugar, os cervos tinham escavado uma grande abertura. Elisa foi até a água. Era tão clara que, se o vento não tivesse movido os galhos e arbustos, ela teria pensado que estavam pintados no fundo: cada folha se refletia com tanta nitidez, tanto a atravessada pelo sol quanto a inteiramente na sombra.

Assim que viu o próprio rosto, assustou-se com o quanto estava escuro e feio. Mas molhou a mãozinha e esfregou os olhos e a testa, e a pele branca voltou a aparecer. Então tirou toda a roupa e entrou na água fresca. Não havia no mundo uma filha de rei mais bela que ela.

Depois de se vestir e trançar os longos cabelos, foi até a nascente borbulhante, bebeu com a mão em concha e seguiu mais para dentro da floresta, sem saber para onde. Pensava nos irmãos e no bom Deus, que certamente não a abandonaria. Ele fazia crescer as maçãs silvestres para saciar os famintos; mostrou-lhe uma árvore dessas, com os galhos vergados de frutas. Ali ela almoçou, pôs escoras debaixo dos ramos e depois entrou na parte mais escura da floresta. Tudo estava tão quieto que ouvia os próprios passos e cada folhinha seca se dobrando debaixo de seus pés. Não se via um pássaro, nem um raio de sol conseguia atravessar os galhos grandes e cerrados. Os troncos altos ficavam tão próximos que, ao olhar para a frente, era como se uma grade de vigas após a outra a cercasse. Ah, ali havia uma solidão que ela nunca conhecera!

A noite ficou tão escura! Nem um único vaga-lume brilhava no musgo. Triste, ela se deitou para dormir. Então lhe pareceu que os galhos acima dela se afastavam e Nosso Senhor olhava para baixo com olhos bondosos, enquanto anjinhos espiavam por cima da cabeça dele e por baixo de seus braços.

Quando acordou pela manhã, não sabia se tinha sonhado aquilo ou se acontecera de verdade.

Deu alguns passos e encontrou uma velha com bagas no cesto. A velha lhe deu algumas. Elisa perguntou se não vira onze príncipes passarem a cavalo pela floresta.

“Não”, disse a velha, “mas ontem vi onze cisnes com coroas de ouro na cabeça nadando pelo rio aqui perto!”

E levou Elisa um pouco mais adiante, até uma encosta. Lá embaixo serpenteava um rio. As árvores de suas margens estendiam os longos ramos cheios de folhas umas em direção às outras; onde não conseguiam se alcançar com o crescimento natural, haviam arrancado as raízes da terra e se inclinavam sobre a água, com os galhos entrelaçados.

Elisa se despediu da velha e seguiu o rio até onde ele desaguava na grande praia aberta.

Todo o belo mar se estendia diante da jovem, mas não se via um veleiro lá fora, nem um barco. Como poderia ir mais longe? Observou as incontáveis pedrinhas da margem: a água as polira até ficarem redondas. Vidro, ferro, pedras, tudo o que as ondas haviam lançado ali tomara forma pela ação da água, que era muito mais macia que sua mão delicada. “Ela não se cansa de rolar, e assim o que é duro se alisa. Eu serei igualmente incansável! Obrigada pela lição, ondas claras que rolam! Um dia, meu coração me diz, vocês me levarão aos meus queridos irmãos!”

Sobre as algas trazidas pelas ondas havia onze penas brancas de cisne. Elisa as juntou num buquê. Havia gotas de água sobre elas; ninguém podia dizer se eram orvalho ou lágrimas. A praia era solitária, mas ela não sentia a solidão, pois o mar oferecia mudanças sem fim: em poucas horas, mais do que os lagos de água doce conseguem mostrar num ano inteiro. Quando vinha uma nuvem grande e negra, era como se o mar dissesse: eu também posso parecer escuro. Então o vento soprava, e as ondas mostravam seu lado branco. Mas, quando as nuvens brilhavam vermelhas e os ventos dormiam, o mar era como uma pétala de rosa. Ora ficava verde, ora branco. E, por mais quieto que repousasse, havia sempre um movimento suave junto à margem: a água se erguia de leve, como o peito de uma criança adormecida.

Quando o sol estava prestes a se pôr, Elisa viu onze cisnes selvagens com coroas de ouro na cabeça voando em direção à terra. Vinham um atrás do outro, como uma longa fita branca. Elisa subiu a encosta e se escondeu atrás de um arbusto. Os cisnes pousaram perto dela e bateram as grandes asas brancas.

No instante em que o sol ficou sob a água, a plumagem de cisne caiu de repente, e ali estavam onze belos príncipes, os irmãos de Elisa. Ela soltou um grito. Embora tivessem mudado muito, sabia que eram eles, sentia que tinham de ser eles. Saltou para seus braços e os chamou pelo nome. Eles ficaram tão felizes quando viram e reconheceram a irmãzinha, agora tão crescida e bonita! Riram e choraram, e logo cada um soube como a madrasta havia sido má com todos.

“Nós, irmãos”, disse o mais velho, “voamos como cisnes selvagens enquanto o sol está no céu. Quando ele se põe, recuperamos nossa forma humana. Por isso, ao pôr do sol, precisamos sempre ter onde apoiar os pés. Se estivermos voando lá no alto, perto das nuvens, cairemos como homens no abismo. Não moramos aqui. Do outro lado do mar há uma terra tão bela quanto esta, mas o caminho é longo. Precisamos atravessar o grande oceano, e não há nenhuma ilha no trajeto em que possamos passar a noite. Só uma pequena rocha solitária se ergue no meio dele; é apenas grande o bastante para repousarmos lado a lado. Quando o mar está agitado, a água espirra bem acima de nós, mas ainda assim agradecemos a Deus por essa rocha. Passamos a noite ali em nossa forma humana. Sem ela, nunca poderíamos visitar nossa querida pátria, pois levamos dois dos dias mais longos do ano para voar até aqui. Só nos é permitido visitar nossa terra natal uma vez por ano. Podemos ficar onze dias aqui, voar sobre a grande floresta e avistar o castelo onde nascemos e onde nosso pai mora, ver a torre alta da igreja em que nossa mãe está enterrada. Aqui nos parece que as árvores e os arbustos são nossos parentes. Aqui os cavalos selvagens correm pelas planícies, como os víamos na infância. Aqui o carvoeiro canta as velhas canções que dançávamos quando crianças. Aqui é nossa pátria, para cá somos atraídos, e aqui encontramos você, querida irmãzinha! Podemos ficar mais dois dias, depois teremos de atravessar o mar para uma terra bela, mas que não é nossa pátria. Como levaremos você? Não temos navio nem barco!”

“Como poderei salvar vocês?”, perguntou a irmã.

Conversaram quase a noite inteira; só cochilaram por algumas horas.

Elisa acordou com o ruído das asas dos cisnes passando sobre ela. Os irmãos haviam se transformado novamente e voavam em grandes círculos, até se afastarem. Mas um deles, o mais novo, ficou. O cisne pousou a cabeça no colo dela, e Elisa acariciou suas asas brancas. Passaram o dia todo juntos. Os outros voltaram ao anoitecer e, quando o sol se pôs, estavam em sua forma natural.

“Amanhã partiremos daqui e só poderemos voltar daqui a um ano inteiro. Mas não podemos abandonar você assim! Tem coragem de nos acompanhar? Meu braço é forte o bastante para carregá-la pela floresta. Será que, juntos, não teremos asas fortes o bastante para voar com você sobre o mar?”

“Sim, levem-me!”, disse Elisa.

Passaram a noite inteira trançando uma rede com a casca flexível do salgueiro e os juncos resistentes. A rede ficou grande e forte. Elisa se deitou nela e, quando o sol apareceu e os irmãos se transformaram em cisnes selvagens, eles agarraram a rede com os bicos e voaram alto, em direção às nuvens, com a querida irmã, que ainda dormia. Os raios de sol caíam diretamente em seu rosto; por isso, um dos cisnes voava por cima de sua cabeça para lhe dar sombra com as asas largas.

Já estavam longe da terra quando Elisa acordou. Ainda achava que sonhava, de tão estranho que lhe parecia ser carregada sobre o mar, no alto, pelo ar. Ao seu lado havia um ramo de belas bagas maduras e um feixe de raízes saborosas. O irmão mais novo as havia colhido e deixado para ela. Elisa lhe sorriu agradecida, pois reconhecia que era ele quem voava sobre sua cabeça, fazendo sombra com as asas.

Estavam tão alto que o primeiro navio que viram abaixo deles parecia uma gaivota branca pousada na água. Atrás havia uma grande nuvem, uma montanha inteira. Nela Elisa viu a própria sombra e as dos onze cisnes, que voavam ali como gigantes. Era um quadro mais magnífico do que qualquer outro que já vira. Mas, conforme o sol subia e a nuvem ficava mais para trás, aquela imagem flutuante de sombras desapareceu.

Voaram o dia inteiro como uma flecha zunindo pelo ar, mas mais devagar que de costume: agora tinham a irmã para carregar. O tempo piorava, a noite se aproximava. Angustiada, Elisa via o sol descer, e ainda não se avistava a rocha solitária no mar. Parecia-lhe que os cisnes batiam as asas com mais força. Ah, era culpa dela que não conseguissem avançar depressa o bastante! Quando o sol se pusesse, virariam homens, cairiam no mar e se afogariam. Do mais fundo do coração, fez uma oração a Nosso Senhor, mas ainda não avistava rocha alguma. A nuvem negra se aproximava; as rajadas fortes anunciavam uma tempestade. As nuvens formavam uma única onda grande e ameaçadora que avançava compacta como chumbo. Um relâmpago se seguia ao outro.

Agora o sol estava bem na borda do mar. O coração de Elisa tremia. Os cisnes mergulharam para baixo tão depressa que ela pensou que estava caindo, mas logo voltaram a planar. Metade do sol já estava na água quando ela finalmente avistou a pequena rocha abaixo de si. Parecia não ser maior que uma foca com a cabeça para fora da água. O sol descia tão depressa! Agora era apenas uma estrela; então o pé de Elisa tocou o chão firme. O sol se apagou como a última fagulha num papel em chamas. De braços dados, ela viu os irmãos em pé à sua volta; não havia espaço além do estritamente necessário para eles e para ela. O mar batia na rocha e passava sobre todos como uma chuva torrencial. O céu brilhava num fogo que não cessava, e os trovões ribombavam um após o outro. Mas a irmã e os irmãos seguravam as mãos uns dos outros e cantavam um salmo, do qual recebiam consolo e coragem.

Ao amanhecer, o ar estava limpo e quieto. Assim que o sol nasceu, os cisnes partiram da ilha com Elisa. O mar ainda estava agitado. Lá do alto, a espuma branca sobre o mar verde-escuro parecia milhões de cisnes flutuando na água.

Quando o sol subiu mais, Elisa viu à sua frente, como que flutuando no ar, uma terra de montanhas, com massas de gelo brilhantes nos picos. No meio se estendia um castelo que parecia ter uma milha de comprimento, com uma ousada colunata sobre a outra. Abaixo ondulavam bosques de palmeiras e flores magníficas, grandes como rodas de moinho. Perguntou se era aquela a terra para onde iam, mas os cisnes balançaram a cabeça: o que ela via era o belo castelo de nuvens de Fata Morgana, sempre mudando. Não podiam levar ser humano algum até lá. Elisa continuou olhando. Então montanhas, florestas e castelo desabaram juntos, e surgiram vinte igrejas imponentes, todas iguais, com torres altas e janelas pontudas. Pareceu-lhe ouvir um órgão, mas era o mar que ouvia. Agora estava bem perto das igrejas quando elas se tornaram uma frota inteira, que navegava debaixo dela. Olhou para baixo: era apenas a névoa do mar correndo sobre a água. As imagens se sucediam sem parar diante de seus olhos, até que viu a terra verdadeira para onde iam. Ali se erguiam belas montanhas azuis com florestas de cedros, cidades e castelos. Muito antes do pôr do sol, estava sentada na montanha diante de uma grande caverna coberta de finas trepadeiras verdes, que pareciam tapetes bordados.

“Agora vamos ver com o que você sonha aqui esta noite!”, disse o irmão mais novo, mostrando-lhe o lugar onde dormiria.

“Quem me dera sonhar como salvar vocês!”, disse ela. Esse pensamento a ocupava tão intensamente! Pediu a ajuda de Deus com todo o fervor; mesmo dormindo, continuou a oração. Então lhe pareceu que voava bem alto até o castelo de nuvens de Fata Morgana. A fada veio ao seu encontro, tão bela e resplandecente, embora se parecesse inteiramente com a velha que lhe dera bagas na floresta e falara dos cisnes com coroas de ouro.

“Seus irmãos podem ser salvos!”, disse ela. “Mas você tem coragem e perseverança? O mar é mais macio que suas mãos delicadas e, ainda assim, transforma as pedras duras. Mas ele não sente a dor que seus dedos sentirão; não tem coração e não sofre a angústia e o tormento que você terá de suportar. Está vendo esta urtiga que tenho na mão? Há muitas desta espécie em volta da caverna onde você dorme. Só as de lá e as que brotam nas sepulturas do cemitério servem; lembre-se disso. Você deve colhê-las, embora queimem sua pele e façam bolhas. Quebre as urtigas com os pés, e obterá linho. Com ele deverá fiar e tricotar onze cotas de mangas compridas. Jogue-as sobre os onze cisnes selvagens, e o feitiço estará desfeito. Mas lembre-se bem: desde o instante em que começar este trabalho até terminá-lo, mesmo que se passem anos, você não poderá falar. A primeira palavra que disser atravessará o coração de seus irmãos como um punhal mortal. A vida deles depende da sua língua. Guarde tudo isso!”

Naquele instante a fada tocou a mão dela com a urtiga. Foi como um fogo ardente, e Elisa acordou. Já era dia claro, e perto do lugar em que dormira havia uma urtiga igual à que vira no sonho. Elisa caiu de joelhos, agradeceu a Nosso Senhor e saiu da caverna para começar o trabalho.

Com as mãos delicadas, agarrou as terríveis urtigas, que eram como fogo. Grandes bolhas lhe queimavam as mãos e os braços, mas sofreria de bom grado, se assim pudesse salvar os queridos irmãos. Quebrou cada urtiga com os pés descalços e fiou o linho verde.

Quando o sol se pôs, os irmãos voltaram e se assustaram ao encontrá-la tão calada. Pensaram que fosse um novo feitiço da madrasta malvada. Mas, ao verem suas mãos, compreenderam o que fazia por eles. O irmão mais novo chorou; onde suas lágrimas caíam, ela não sentia dor e as bolhas ardentes desapareciam.

Ela passou a noite trabalhando, pois não teria sossego antes de salvar os queridos irmãos; durante todo o dia seguinte, enquanto os cisnes estavam longe, ficou em sua solidão, mas nunca o tempo havia voado tão depressa. Uma cota já estava pronta; agora começou a seguinte.

Então soaram trompas de caça entre as montanhas; ela ficou muito aflita; o som se aproximava; ouviu cães latindo; assustada, refugiou-se na gruta, amarrou num feixe as urtigas que havia colhido e penteado e sentou-se sobre elas.

No mesmo instante, um cão grande saltou do matagal, logo depois outro e mais outro; latiam alto, voltavam para trás e tornavam a avançar. Não passaram muitos minutos, e todos os caçadores estavam diante da gruta; o mais belo deles era o rei daquele país. Ele se aproximou de Elisa; nunca havia visto uma moça mais bonita.

— Como você veio parar aqui, linda criança? — perguntou ele. Elisa sacudiu a cabeça; não ousava falar, pois estavam em jogo a salvação e a vida dos irmãos; e escondeu as mãos sob o avental para que o rei não visse o que ela tinha de sofrer.

— Venha comigo! — disse ele. — Você não pode ficar aqui! Se for tão boa quanto é bonita, vou vesti-la de seda e veludo, pôr a coroa de ouro em sua cabeça, e você viverá em meu castelo mais rico! — E a ergueu para seu cavalo; ela chorava, torcia as mãos, mas o rei disse: — Só quero a sua felicidade! Um dia você ainda vai me agradecer! — E partiu a galope entre as montanhas, segurando-a à sua frente no cavalo, com os caçadores correndo atrás.

Quando o sol se pôs, surgiu diante deles a magnífica cidade real, com igrejas e cúpulas, e o rei a conduziu ao castelo, onde grandes fontes jorravam nos altos salões de mármore, onde paredes e tetos resplandeciam de pinturas; mas ela não tinha olhos para aquilo; chorava e se afligia. De boa vontade deixou que as mulheres lhe vestissem os trajes reais, entrelaçassem pérolas em seus cabelos e enfiassem luvas finas sobre seus dedos queimados.

Quando se apresentou com todo aquele esplendor, estava tão deslumbrante que a corte se inclinou ainda mais fundo diante dela, e o rei a escolheu como noiva; embora o arcebispo sacudisse a cabeça e sussurrasse que a bela moça da floresta certamente era uma bruxa: ela lhes ofuscava os olhos e enfeitiçava o coração do rei.

Mas o rei não lhe deu ouvidos; mandou tocar música, trazer os pratos mais requintados, dançar ao redor dela as moças mais encantadoras, e ela foi conduzida por jardins perfumados a salões magníficos; mas nenhum sorriso lhe passou pelos lábios nem surgiu nos olhos; a tristeza permanecia ali, como herança e propriedade eternas. Então o rei abriu um pequeno quarto, perto de onde ela dormiria; estava enfeitado com preciosas tapeçarias verdes e parecia exatamente a gruta em que ela estivera. No chão estava o feixe de linho que ela havia fiado das urtigas, e junto ao teto pendia a cota já tricotada; um dos caçadores havia recolhido tudo aquilo como uma curiosidade.

— Aqui você pode sonhar que está de volta à sua antiga casa! — disse o rei. — Aqui está o trabalho que a ocupava lá; agora, em meio a todo o seu esplendor, será agradável pensar naquele tempo.

Quando Elisa viu aquilo, que lhe era tão caro ao coração, um sorriso brincou em sua boca e o sangue lhe voltou às faces; pensou na salvação dos irmãos, beijou a mão do rei, e ele a apertou contra o coração e mandou que todos os sinos das igrejas anunciassem a festa de casamento. A bela moça muda da floresta era a rainha do país.

Então o arcebispo sussurrou palavras maldosas ao ouvido do rei, mas elas não penetraram em seu coração; o casamento se realizaria. O próprio arcebispo teve de lhe pôr a coroa na cabeça e, com má vontade rancorosa, apertou aquele aro estreito contra a testa, causando-lhe dor; mas havia um aro mais pesado ao redor do coração dela: a aflição por seus irmãos; ela não sentia a dor do corpo. Sua boca permanecia muda; uma única palavra tiraria a vida dos irmãos, mas em seus olhos havia um profundo amor pelo rei bom e belo, que fazia tudo para alegrá-la. A cada dia, ela o queria mais, de todo o coração; ah, se ao menos pudesse confiar nele, contar-lhe seu sofrimento! Mas tinha de permanecer muda, muda tinha de concluir seu trabalho. Por isso, à noite, saía de mansinho do lado dele e ia ao pequeno quarto secreto, enfeitado como a gruta, onde tricotava uma cota após a outra; mas, quando começou a sétima, já não tinha linho.

Ela sabia que no cemitério cresciam as urtigas de que precisava, mas tinha de colhê-las com as próprias mãos; como chegaria até lá?

— Ah, o que é a dor em meus dedos diante do tormento que meu coração sofre! — pensou ela. — Preciso me arriscar! Nosso Senhor não vai me abandonar! — Com o coração aflito, como se estivesse prestes a cometer uma má ação, desceu furtivamente ao jardim, na noite de luar, atravessou as longas alamedas, saiu pelas ruas desertas e chegou ao cemitério. Ali viu, sentadas em círculo sobre uma das lápides mais largas, lâmias, bruxas horrendas; tiravam seus farrapos como se fossem se banhar e depois cavavam as sepulturas recentes com seus longos dedos magros, retiravam os cadáveres e lhes devoravam a carne. Elisa teve de passar bem perto delas, e elas cravaram nela seus olhos malignos; mas ela recitou sua oração, colheu as urtigas que queimavam e as levou para casa, ao castelo.

Uma única pessoa a havia visto: o arcebispo. Ele estava acordado quando os outros dormiam; agora tinha afinal a confirmação do que pensava: havia algo de errado com a rainha; ela era uma bruxa, por isso havia enfeitiçado o rei e todo o povo.

No confessionário, contou ao rei o que havia visto e o que temia; e, quando as palavras duras saíram de sua língua, as imagens entalhadas dos santos sacudiram a cabeça, como se quisessem dizer: não é assim, Elisa é inocente! Mas o arcebispo interpretou aquilo de outro modo; achava que elas testemunhavam contra a moça, que sacudiam a cabeça diante de seu pecado. Então duas lágrimas pesadas rolaram pelas faces do rei; ele voltou para casa com a dúvida no coração. À noite, fingiu dormir, mas nenhum sono tranquilo lhe veio aos olhos; percebeu Elisa se levantar, e todas as noites ela repetia aquilo; a cada vez, ele a seguia em silêncio e a via desaparecer em seu quarto secreto.

A cada dia, a expressão dele se tornava mais sombria. Elisa via aquilo, mas não entendia por quê; isso a afligia, e quanto já não sofria seu coração pelos irmãos! Suas lágrimas salgadas escorriam pelo veludo e pela púrpura reais; ali ficavam, como diamantes cintilantes, e todos os que viam aquele rico esplendor desejavam ser a rainha. Entretanto, logo ela se aproximou do fim do trabalho; faltava apenas uma cota, mas também já não havia linho, nem uma única urtiga. Por isso tinha de ir ao cemitério mais uma vez, só aquela última, para colher alguns punhados. Pensava com angústia na caminhada solitária e nas terríveis lâmias; mas sua vontade era firme como sua confiança em Nosso Senhor.

Elisa saiu, mas o rei e o arcebispo a seguiram. Viram-na desaparecer pelo portão de grades do cemitério e, quando se aproximaram dele, as lâmias estavam sentadas sobre a lápide, como Elisa as havia visto. O rei virou o rosto, pois imaginava entre elas aquela cuja cabeça, ainda naquela noite, havia repousado em seu peito.

— O povo deve julgá-la! — disse ele; e o povo julgou: ela seria queimada nas chamas vermelhas.

Dos magníficos salões reais, foi levada a um buraco escuro e úmido, onde o vento assobiava pela janela gradeada. Em vez de veludo e seda, deram-lhe o feixe de urtigas que ela havia colhido, para apoiar a cabeça; as cotas duras e ardentes que havia tricotado serviriam de edredom e coberta. Mas não poderiam ter lhe dado nada mais querido: ela retomou seu trabalho e orou a seu Deus. Lá fora, os meninos de rua cantavam canções de escárnio sobre ela; nenhuma alma a consolava com uma palavra afetuosa.

Ao cair da tarde, uma asa de cisne passou zunindo bem junto à grade; era o mais novo dos irmãos, que havia encontrado a irmã. Ela soluçou alto de alegria, embora soubesse que a noite que se aproximava talvez fosse a última de sua vida; mas agora o trabalho também estava quase concluído, e seus irmãos estavam ali.

O arcebispo veio passar com ela sua última hora, como havia prometido ao rei; mas ela sacudiu a cabeça, pedindo com o olhar e os gestos que ele fosse embora. Naquela noite, precisava terminar o trabalho; do contrário, tudo seria inútil: tudo, a dor, as lágrimas e as noites sem dormir! O arcebispo se retirou lançando-lhe palavras maldosas, mas a pobre Elisa sabia que era inocente e continuou seu trabalho.

Os camundonguinhos corriam pelo chão e arrastavam as urtigas até seus pés para ajudar um pouco; e o tordo pousou na grade da janela e cantou a noite inteira, tão alegremente quanto podia, para que ela não perdesse a coragem.

Mal começava a clarear; faltava ainda uma hora para o sol nascer quando os onze irmãos chegaram ao portão do castelo e exigiram ser conduzidos ao rei. Mas responderam que isso não podia acontecer: ainda era noite, o rei dormia e não se podia acordá-lo. Eles suplicaram, ameaçaram; a guarda veio e até o próprio rei saiu e perguntou o que significava aquilo. Nesse mesmo instante, o sol nasceu; já não havia irmãos à vista, mas onze cisnes selvagens voavam sobre o castelo.

Todo o povo saía em multidão pelo portão da cidade; queria ver a bruxa ser queimada. Um cavalo miserável puxava a carroça em que ela estava sentada; haviam lhe vestido uma túnica de pano grosseiro de saco. Seus belos cabelos compridos caíam soltos em torno da cabeça bonita; suas faces estavam pálidas como a morte, seus lábios se moviam suavemente enquanto os dedos torciam o linho verde. Nem a caminho da morte ela largava o trabalho começado: as dez cotas estavam a seus pés, e ela tricotava a décima primeira. A turba a insultava.

— Olhem a bruxa, como resmunga! Não tem um livro de salmos nas mãos; fica aí com sua feitiçaria repugnante! Arranquem isso dela e façam em mil pedaços!

E todos avançaram sobre ela, querendo rasgar o trabalho; então onze cisnes brancos chegaram voando, pousaram ao redor dela na carroça e bateram suas grandes asas. A multidão recuou horrorizada.

— É um sinal do céu! Ela deve ser inocente! — sussurravam muitos, mas não ousavam dizê-lo em voz alta.

Então o carrasco a segurou pela mão; ela lançou depressa as onze camisas sobre os cisnes, e ali estavam onze belos príncipes. Mas o mais novo tinha uma asa de cisne no lugar de um dos braços, porque faltava uma manga em sua cota: ela não havia conseguido terminá-la.

— Agora posso falar! — disse ela. — Sou inocente!

E o povo, vendo o que havia acontecido, inclinou-se diante dela como diante de uma santa; mas ela caiu sem sentidos nos braços dos irmãos, tamanhos haviam sido os efeitos da tensão, da angústia e da dor.

— Sim, ela é inocente! — disse o irmão mais velho, e contou tudo o que havia acontecido. Enquanto ele falava, espalhou-se um perfume como o de milhões de rosas, pois cada pedaço de lenha da fogueira havia criado raízes e lançado ramos; ali estava uma cerca viva perfumada, tão alta e grande, com rosas vermelhas. No alto havia uma única flor, branca e brilhante, que reluzia como uma estrela; o rei a colheu e a pôs no peito de Elisa. Então ela despertou com paz e felicidade no coração.

E todos os sinos das igrejas tocaram sozinhos, e os pássaros chegaram em grandes bandos; formou-se de volta ao castelo um cortejo de casamento como nenhum rei ainda havia visto.

## Créditos

- translator: Codex · tradução assistida por IA
- reviewer: Codex · revisão independente por IA
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/#frente-educacao)

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