# Os Dois Irmãos

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/os-dois-irmaos-adolfo-coelho)
Autoria original: Adolfo Coelho
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 5a83ae22-5f41-4002-94a0-d23f6485624d
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Dois irmãos servem num regimento francês onde são maltratados e passam fome. O mais novo foge e entra numa quinta para comer laranjas, mas uma voz o impede de sair.

## Conto integral

Eram de uma vez dois irmãos que eram soldados de um regimento francês, mas que eram tão maltratados que até fome passavam. Um dia disse o mais novo para o mais velho: — «Irmão, isto não se pode sofrer; é melhor nós fugirmos e irmos correr esse mundo de Cristo.» Respondeu o mais velho: — «Não, que nos podem apanhar e matar-nos.» O mais novo, porém, não o quis atender e um belo dia fugiu. Caminhou, caminhou sem encontrar o que comer até que foi ter à porta de uma grande quinta, onde avistou um formoso pomar em que as laranjeiras vergavam ao peso das laranjas. Bateu à porta e tornou a bater e, como não viessem abri-la, resolveu escalar o muro para ir comer laranjas. Como não lhe aparecesse ninguém, ele comeu a fartar e escondeu entre a roupa as laranjas que pôde, para continuar sua jornada; mas, ao chegar ao muro por onde tinha entrado, por mais esforços que fez, não lhe foi possível subir e ouviu uma voz que lhe dizia: — «Para fora não, para dentro sim.» Ele respondeu: — «Se é pelas laranjas, elas aí ficam.» E, dito isto, deitou no chão as laranjas que levava consigo.

Passaram-se muitas horas e ele, vendo que não conseguia sair, foi passear pela quinta e então se lhe depararam vistosos jardins, lindos pomares e verdes hortas.

Estava já cansado de tanto andar, até que chegou a um lindo palácio e entrou e foi dizendo: — «Com licença, com licença.» Ninguém lhe respondia. Afinal foi ter a uma sala onde encontrou uma linda menina que estava bordando. Ele se desfez em desculpas e lhe contou o que lhe tinha sucedido; ela então lhe respondeu que não tinha nada a desculpar, antes estimava muito vê-lo e que, se ele quisesse, podia ficar naquele palácio. Como se decidisse a ficar, ela o levou a uma varanda e lhe mostrou os jardins, hortas e pomares e, como ele se mostrasse maravilhado de tudo quanto via, ela lhe perguntou o que, de tudo quanto tinha visto desde que entrava no palácio, lhe tinha mais agradado. O rapaz, como a fome apertasse, respondeu que o que mais lhe agradava eram as couves que ele via na horta. À ceia, a menina mandou que lhe apresentassem na mesa um prato de couves e combinou com a criada que, quando estivessem à mesa, ela apagasse a luz. Estavam, pois, a menina e o rapaz para cear e a criada, fingindo que ia espivitar a luz, apagou-a; então a menina se levantou e disse: — «Cada qual se agarre à coisa de que mais gostar.» E o soldado se agarrou ao prato das couves. A menina despeitada lhe disse: — «Visto que gostas tanto de couves, é bom que eu vos mostre as que ainda não vistes.» E, nisto, o conduziu a uma varanda que dava para um curral de porcos e o atirou para lá.

Por mais que o pobre soldado pedisse à menina que o tirasse dali, ela não o quis atender e lá o deixou até o dia seguinte.

O irmão mais velho do rapaz, quando deu pela falta dele, fugiu também; seguiu os mesmos caminhos que o irmão seguira e lhe sucederam as mesmas aventuras; quando, porém, a menina do palácio lhe disse que se agarrasse àquilo de que mais gostasse, ele se agarrou a ela e lhe disse que, de tudo que vira no palácio e na quinta, era ela que mais lhe agradara. Então a menina lhe respondeu que estava encantada naquele palácio até que lá fosse ter um homem que gostasse mais dela do que das riquezas que a cercavam; que era filha de um rei, o qual determinara que houvesse umas justas para ela escolher entre os cavaleiros o que devia ser seu esposo e, portanto, que ele se apresentasse muito bem vestido, que entre todos só havia de escolhê-lo.

À noite, a princesa mandou preparar uma rica cama em um quarto em frente ao dela; mas ele, quando ia se deitar, em vez de ir para o quarto que lhe destinaram, foi para o da princesa. Esta, quando o viu lá, lhe disse: — «Enganaste-te, que não era este o quarto que te estava destinado, mas fica, pois vais em breve ser meu esposo.» Depois lhe contou o que sucedera com o outro soldado e ele, logo de madrugada, pediu para ir vê-lo e, ao reconhecer seu irmão, pediu à princesa que lhe desse a liberdade, o que ela fez, dando-lhe muitas riquezas e mandando que seguisse seu caminho.

No dia seguinte, disse ao seu escolhido que era preciso que ele saísse do palácio e fosse para tal hospedaria, que, em sendo o dia das justas, iria avisá-lo, pois convinha que o rei seu pai não soubesse o que se tinha passado. Depois de se abraçarem, separaram-se.

O soldado foi ter à tal hospedaria e, como a dona da casa tivesse uma filha muito linda e como ela percebesse que o soldado tinha muito dinheiro, tais artes empregaram para prender o rapaz na hospedaria que até lhe deram de beber água com dormideiras, a ponto de ele não poder acordar e dormir de noite e de dia.

Como se aproximasse o dia das justas, a princesa foi procurar o soldado e lhe responderam que estava dormindo. A princesa, para não o acordar, voltou no dia seguinte e lhe deram a mesma resposta. Ela então foi ter ao quarto onde ele estava e lhe escreveu no punho da camisa: — «Tal dia são as justas.» Ele, quando acordou, reparou no que estava escrito no punho da camisa, lembrou-se do ajuste e se levantou da mesa sem atender às donas da casa, que lhe pediam que, antes de partir, bebesse uma gota de água.

Chegado o dia das justas, o soldado vestiu uma roupa mais rica ainda do que as dos fidalgos que iam às justas; montou um rico cavalo e foi passear debaixo da janela da princesa, mas ela não o reconheceu. Então o rei perguntou à princesa qual era o seu escolhido, ao que ela respondeu que o seu escolhido não aparecera.

Findas as justas, o rei convidou todos os cavaleiros para jantar. O soldado foi sentar-se perto da princesa e lhe mostrou a manga da camisa e então ela se levantou e disse, indicando o soldado: — «Eis aqui o escolhido do meu coração; é este o único homem que me preferiu às riquezas que me cercam.» Casaram e viveram no meio das maiores felicidades.

*(Coimbra.)*


## Créditos

- producer: Marcelo Castro Barbosa, assistido por IA (https://marcelocastrobarbosa.com.br/)
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/)

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