# Os Três Coroados

Fonte: [As Verdadeiras Histórias](https://verdadeirashistorias.com.br/contos/os-tres-coroados-silvio-romero)
Autoria original: Sílvio Romero
Idioma: pt-BR
Edição: 1.0.0
Revisão: 474434d5-bd41-43d5-86b9-79198b0ea510
Patrocínio: [Bons Filhos](https://bonsfilhos.com.br/)

## Sobre este conto

Três irmãs órfãs imaginam o que fariam se casassem com o rei. A mais nova promete dar à luz três coroados, e o rei a escolhe como esposa, despertando a inveja das outras duas.

## Conto integral

(Sergipe)

Foi um dia, havia três moças já órfãs de pai e mãe. Uma vez, elas estavam todas três na sacada de seu sobrado, quando viram passar o rei. A mais velha disse:

— Se eu me casasse com aquele rei, fazia-lhe uma camisa como ele nunca viu.

A do meio disse:

— Se eu me casasse com ele, lhe fazia uma ceroula como ele nunca teve.

A caçula disse:

— E eu, se me casasse com ele, paria três coroados.

O rei ouviu perfeitamente a conversa e, quando foi no dia seguinte, foi à casa das moças e lhes disse:

— Apareça a moça que disse que, se se casasse comigo, paria três coroados.

A moça apareceu, e o rei a levou e se casou com ela. As irmãs ficaram com muita inveja e fingiram não tê-la. Quando a moça apareceu grávida, as irmãs se meteram dentro do palácio, com aparências de ajudá-la em seus trabalhos. Aproximando-se o tempo de a rainha dar à luz, suas irmãs se ofereceram para servi-la e dispensar a parteira. Chegado o dia, elas se muniram de um *sapo*, uma *cobra* e um *gato*. Quando nasceram os *três coroados*, elas os esconderam dentro de uma *boceta* e mandaram largar no mar. Apresentaram, então, ao rei os três bichos, dizendo:

— Aí estão os coroados que aquela impostora pariu.

O rei ficou muito desgostoso e mandou enterrar a mulher até os peitos, perto da escada do palácio, dando ordem a quem por ali passasse para cuspir-lhe no rosto. Assim se fez. Mas um velho pescador encontrou no mar a boceta, apanhou-a, abriu-a e encontrou os três meninos ainda vivos e muito lindinhos. Ficou muito alegre e os levou para casa para criar. A velha, sua mulher, se desvelou muito no trato das crianças. Quando estas cresceram a ponto de poderem ir para a escola, foram e passavam sempre pelo palácio do rei. As cunhadas dele viram, por vezes, passar os meninos e os reconheceram.

Um dia os chamaram e se puseram com muitos agrados com eles, e lhes deram de presente três frutas envenenadas, a cada um a sua.

Os meninos comeram as frutas e viraram todos três em pedra. Os velhos ficaram muito aflitos com aquilo, e toda a cidade falou no caso.

Mas a velha, que era adivinha, disse ao marido:

— Não tem nada; eu vou à casa do Sol buscar um remédio para as três pedras virarem outra vez em gente.

Partiu montada a cavalo.

Depois de andar muito tempo, encontrou um rio muito grande e bonito. O rio lhe disse:

— Ó minha avó, aonde vai?

A velha respondeu:

— Vou à casa do Sol para ele me ensinar que remédio se deve dar a quem virou para pedra para tornar a virar para gente.

O rio lhe disse:

— Pois então pergunte também a ele a razão por que, sendo eu um rio tão bonito, grande e fundo, nunca criei peixe.

A velha seguiu. Adiante encontrou um pé de fruta muito copado e bonito, mas sem uma só fruta. Ao avistar a velha, a árvore disse:

— Onde vai, minha velhinha?

— Vou à casa do Sol buscar uma mezinha para gente que virou pedra.

— Pois pergunte a ele a razão por que, sendo eu tão grande, tão verde e tão copada, nunca dei um só fruto...

A caminheira seguiu. Depois de andar muito, passou pela casa de três moças, todas três solteiras e já passando da idade de casar. As moças lhe disseram:

— Onde vai, minha avó?

A velha contou onde ia. Elas lhe pediram para indagar do Sol o motivo por que, sendo elas tão formosas, ainda não tinham se casado. A velha partiu e continuou a caminhar. Ainda depois de muito tempo é que chegou à casa da mãe do Sol. A dona da casa a recebeu muito bem; ouviu toda a sua história e as encomendas que levava, e a escondeu porque seu filho não queria estranhos em sua casa, e, quando vinha, era muito zangado e queimando tudo. Quando o Sol chegou, vinha desesperado e estragando tudo o que achava:

— Fum... aqui me fede a sangue real!... aqui me fede a sangue real!...

— Não é nada não, meu filho, é uma galinha que eu matei para nós jantar.

Assim a mãe do Sol o foi enganando, até que ele se aquietou e foi jantar. Na mesa da janta, sua mãe lhe perguntou:

— Meu filho, um rio muito fundo e largo por que é que não dá peixe?

— É porque nunca matou gente.

Passou-se um pouco de tempo e a velha fez outra pergunta:

— E uma árvore muito verde e copada, por que é que não dá fruta?

— Porque tem dinheiro enterrado embaixo.

Pouco tempo depois, outra pergunta:

— E umas moças bonitas e ricas por que não casam?

— Porque costumam mijar para o lado em que eu nasço.

Deixou passar mais um tempinho e perguntou:

— E qual será o remédio para gente que tiver virado pedra?

Aí o Sol se enfadou e disse:

— O que querem dizer hoje estas perguntas?

A mãe respondeu:

— Não é nada, meu filho; eu é que às vezes, porque vivo aqui sozinha, me ponho a imaginar estas tolices.

O Sol foi e respondeu:

— O remédio é tirar da minha boca, quando eu estiver comendo, um bocado e botar em cima da pedra.

A velha, daí a pouco, fingiu um espanto, levou a mão à boca do Sol e tirou o bocado, dizendo:

— Olha, meu filho, um cisquinho na comida!

E guardou o bocado. Daí a pouco, a mesma coisa:

— Olha um cabelo, meu filho!

E escondeu mais um bocado. Numa terceira vez, ela fez o mesmo e o Sol se levantou aborrecido, falando:

— Ora, minha mãe, seu de comer hoje está muito porco; não quero mais.

Deitou-se e, no dia seguinte, foi embora para o mundo. Sua mãe foi à velhinha, que estava escondida, e lhe contou tudo, dando os três bocados. A velha se pôs a caminho de volta. Passando pela casa das moças, ali dormiu, sem querer dizer a razão por que elas não casavam. No dia seguinte, bem cedo, ela se levantou e as moças também. Elas correram logo para o lugar onde costumavam urinar voltadas para o nascer do sol. A velha as repreendeu, dizendo:

— É esta a razão de vocês não casarem; percam este costume de urinar para a banda de onde o sol nasce.

As moças assim fizeram e logo acharam casamento. A andadeira tomou o seu caminho e foi embora a toda a pressa. Chegando à fruteira, pôs-se debaixo dela a cavar sem dizer nada; quando puxou um grande caixão, então disse por que a fruteira não dava frutas. O pé da árvore começou logo a carregar que parecia praga. A velha seguiu. Ao chegar ao rio, ele lhe perguntou pelo seu recado:

— Logo lhe digo.

E a velha foi passando depressa. Quando se viu bem longe, gritou:

— É porque nunca matou gente.

O rio botou logo uma enchente tão grande que por um triz não matou a velha. Afinal, foi ela ter em casa. Sem mais demora, aplicou os três bocados em cima das três pedras, e os meninos se desencantaram. A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos do rei. Ele mandou um dia convidar o velho com os três meninos para jantarem no palácio. O velho não quis ir, nem mandar os meninos; o rei o intimidou até que foram os meninos. Mas a velha ensinou aos meninos:

— Quando vocês lá chegarem, meus filhinhos, que passarem pela escada, se ponham de joelhos e tomem a bênção àquela nobre mulher que lá está enterrada, parecendo um cadáver, porque é a mãe de vocês. Na janta, não queiram ir para a mesa sem que o rei mande desenterrá-la e botá-la também na mesa. Quando ele der a cada um o seu prato, não comam e deem todos três a ela, que os há de devorar num instante, pois está morta de fome. Aí as duas moças que lá tem, que são tias de vocês, hão de dizer: «Que barriga de monstro que cabe três pratos de uma vez!» A isto vocês respondam, tirando os bonés e dizendo: «Não é de admirar que caiba três pratos de comida, quando três coroados!» E mostrem ao rei as cabeças.

Assim foi: os meninos executaram fielmente as recomendações da velha. *(Todas as coisas se repetiram pela forma indicada pela velha adivinha, com grande surpresa para o rei e desapontamento para as duas infames malfeitoras).* Tudo acabado, o rei, que ficou vivendo com sua mulher, que voltou à sua antiga beleza, e os seus filhinhos no palácio, perguntou-lhes o que queriam que ele fizesse às duas danadas. Os meninos responderam que «ele mandasse buscar quatro burros bravos e as amarrasse nos rabos». Assim fizeram, e elas morreram lascadas ao meio.


## Créditos

- producer: Codex · edição textual por IA (Romero)
- producer: Bons Filhos Educação (https://bonsfilhos.com.br/)

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