KHM 187
A lebre e o ouriço
Der Hase und der Igel
Sobre este conto
Numa manhã de domingo, uma lebre caçoa das pernas tortas de um ouriço. Ele a desafia para uma corrida e chama sua mulher para ajudá-lo.
Personagens e estrutura
- Personagens
- O ouriço, que propõe a corrida., A lebre arrogante, que zomba das pernas do ouriço., A mulher do ouriço, que se parece com ele e participa do plano., O narrador e seu avô, que lhe contou a história.
- Onde se passa
- Os campos e a charneca de Buxtehude, numa manhã de domingo na época da colheita.
- Acontecimentos
- A lebre aceita apostar um luís de ouro e uma garrafa de aguardente numa corrida.
- O ouriço deixa a mulher numa extremidade do campo e fica na outra.
- Ele corre apenas três passos e se esconde; quando a lebre chega ao fim, sua mulher diz que já está ali.
- A lebre corre de volta e encontra o ouriço; as corridas e o anúncio da chegada se repetem.
- Na septuagésima quarta vez, a lebre cai no meio do campo, sangra pela garganta e morre.
- Desfecho
- O ouriço e a mulher levam o prêmio para casa. Nenhuma lebre volta a apostar corrida com o ouriço de Buxtehude. O narrador enuncia as duas lições originais sobre não caçoar dos humildes e escolher cônjuge da mesma condição e aparência.
Esta história parece mentira de se contar, meninos, mas é verdadeira, sim, pois meu avô, de quem a ouvi, sempre costumava dizer, quando me contava a história com todo o gosto:
— Verdadeira ela tem de ser, meu filho, senão não se poderia contá-la.
Mas a história aconteceu assim.
Era uma manhã de domingo na época da colheita, justamente quando o trigo-sarraceno estava em flor. O sol tinha nascido brilhante no céu, o vento da manhã soprava morno sobre o restolho, as cotovias cantavam no ar, as abelhas zumbiam entre as flores do trigo-sarraceno e as pessoas iam à igreja em seus trajes de domingo. Todas as criaturas estavam contentes, e o ouriço também.
O ouriço estava diante de sua porta, de braços cruzados, olhando para fora, ao vento da manhã, e cantarolava uma cantiguinha para si, tão bem e tão mal quanto um ouriço costuma cantar numa bela manhã de domingo. Enquanto ainda cantava baixinho, ocorreu-lhe que, enquanto sua mulher lavava e vestia as crianças, ele bem podia dar um passeio pelo campo e ver como estavam seus nabos suecos. Esses nabos suecos eram os que ficavam mais perto de sua casa e, como ele e sua família costumavam comê-los, considerava-os seus. Dito e feito. O ouriço fechou a porta de casa atrás de si e tomou o caminho do campo. Ainda não estava muito longe de casa e ia justamente contornar o arbusto de abrunheiro que havia diante do campo, para subir à plantação de nabos suecos, quando encontrou a lebre, que saíra com intenção parecida: ir ver suas couves. Ao avistá-la, o ouriço lhe deu um amistoso bom-dia. A lebre, porém, que a seu modo era uma grande senhora, e além disso terrivelmente arrogante, não respondeu à saudação do ouriço; em vez disso, disse-lhe, com uma expressão de grande escárnio:
— Como é que você já anda pelo campo tão cedo assim?
— Estou passeando — disse o ouriço.
— Passeando? — riu a lebre. — Acho que você bem podia usar essas pernas para coisa melhor.
Essa resposta aborreceu enormemente o ouriço, pois ele podia suportar tudo, mas não admitia que falassem mal de suas pernas, justamente porque eram tortas por natureza.
— Você deve imaginar — disse então o ouriço à lebre — que consegue fazer mais com as suas pernas, não é?
— Acho que sim — disse a lebre.
— Isso depende de uma prova — opinou o ouriço. — Aposto que, se disputarmos uma corrida, eu passo na sua frente.
— É de dar risada, com essas suas pernas tortas — disse a lebre —, mas por mim pode ser, se você tem tanta vontade. Quanto vale a aposta?
— Um luís de ouro e uma garrafa de aguardente — disse o ouriço.
— Aceito — falou a lebre. — Dê cá a mão, e podemos começar agora mesmo.
— Não, não há tanta pressa — respondeu o ouriço. — Ainda estou em jejum; primeiro vou para casa tomar um pouco de café da manhã. Daqui a meia hora estarei aqui outra vez.
Com isso, o ouriço foi embora, pois a lebre concordara. Pelo caminho, pensou consigo: “A lebre confia nas pernas compridas, mas vou dar um jeito nela. Pode ser uma grande senhora, mas não passa de uma tola e terá de pagar.” Quando o ouriço chegou em casa, disse à mulher:
— Mulher, vista-se depressa, você precisa ir comigo ao campo.
— O que aconteceu? — perguntou ela.
— Apostei com a lebre um luís de ouro e uma garrafa de aguardente. Vou disputar uma corrida com ela, e você vai estar lá comigo.
— Ó meu Deus, homem! — começou a gritar a mulher do ouriço. — Você está maluco? Perdeu completamente o juízo? Como pode querer disputar uma corrida com a lebre?
— Cale a boca, mulher — disse o ouriço. — Isso é assunto meu. Não se meta em negócios de homem. Vamos, vista-se e venha comigo.
O que a mulher do ouriço poderia fazer? Tinha de obedecer, quisesse ou não.
Quando os dois iam pelo caminho, o ouriço disse à mulher:
— Agora preste atenção no que vou dizer. Está vendo aquele campo comprido? É lá que vamos disputar a corrida. A lebre vai correr num sulco, e eu no outro; começaremos lá em cima. Você não tem mais nada a fazer a não ser ficar aqui embaixo, no sulco. Quando a lebre chegar do outro lado, grite para ela: “Já estou aqui!”
Assim chegaram ao campo. O ouriço mostrou à mulher o lugar dela e subiu pelo campo. Quando chegou lá em cima, a lebre já estava lá.
— Podemos começar? — perguntou a lebre.
— Sim, senhor — disse o ouriço.
— Então vamos!
E cada qual se pôs em seu sulco. A lebre contou: “Um, dois, três!” e disparou campo abaixo como uma ventania. O ouriço, porém, correu apenas uns três passos, depois se abaixou no sulco e ficou quieto, sentado.
Quando a lebre chegou a toda velocidade à parte de baixo do campo, a mulher do ouriço gritou para ela:
— Já estou aqui!
A lebre estacou, nada pouco admirada; estava convencida de que quem lhe gritava aquilo era o próprio ouriço, pois, como se sabe, a mulher do ouriço é igualzinha ao marido.
A lebre, porém, pensou: “Isso não é coisa natural.” E gritou:
— Vamos correr outra vez, de volta!
E lá foi ela outra vez como uma ventania, com as orelhas batendo na cabeça. A mulher do ouriço, porém, ficou quieta em seu lugar. Quando a lebre chegou lá em cima, o ouriço gritou para ela:
— Já estou aqui!
A lebre, completamente fora de si de raiva, berrou:
— Vamos correr outra vez, de volta!
— Para mim não é difícil — respondeu o ouriço. — Por mim, quantas vezes você quiser.
Assim a lebre correu mais setenta e três vezes, e o ouriço sempre aguentou firme com ela. Cada vez que a lebre chegava embaixo ou em cima, o ouriço ou a mulher dele dizia:
— Já estou aqui!
Na septuagésima quarta vez, porém, a lebre não chegou ao fim. No meio do campo, caiu por terra, o sangue lhe jorrou da garganta e ela ficou morta ali mesmo. O ouriço pegou o luís de ouro e a garrafa de aguardente que ganhara, chamou a mulher para fora do sulco e os dois voltaram juntos, contentes, para casa; e, se não morreram, ainda estão vivos.
Foi assim que aconteceu de o ouriço fazer a lebre correr até morrer na charneca de Buxtehude, e desde então nenhuma lebre voltou a ter a ideia de apostar corrida com o ouriço de Buxtehude.
A lição desta história, porém, é, primeiro, que ninguém, por mais distinto que se julgue, deve se atrever a caçoar de um homem humilde, mesmo que ele seja apenas um ouriço. E, segundo, que é aconselhável, quando alguém se casa, escolher uma mulher de sua própria condição e que seja igualzinha a ele. Quem for ouriço, portanto, deve tratar de que sua mulher também seja ouriço, e assim por diante.
Sobre esta edição
- Obra
- Der Hase und der Igel
- Autoria original
- Irmãos Grimm
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Codex · tradução assistida por IA
- Revisão
- Codex · revisão independente por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 30/10/2026
Edições e fontes
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