AsVerdadeiras HistóriasOs contos originais, em nossa língua

KHM 179

A pastora de gansos junto à fonte

Irmãos Grimm

Die Gänsehirtin am Brunnen

Sobre este conto

Um jovem conde ajuda uma velha a transportar uma carga pela montanha e recebe uma caixinha de esmeralda. A pérola que há dentro dela leva uma rainha a contar o desaparecimento de sua filha mais nova.

Personagens e estrutura
Personagens
A velha que vive entre montanhas e cuida de gansos., O jovem conde, filho de um conde rico., A pastora de gansos, princesa expulsa pelo pai., O rei, a rainha e as duas filhas mais velhas., Os gansos e a coruja., O narrador e sua avó, mencionada no final.
Onde se passa
Uma floresta e um ermo entre montanhas, a casa da velha, uma fonte junto de três carvalhos e um castelo real.
Acontecimentos
  1. O conde carrega capim, frutas e a própria velha até a casa dela; depois recebe uma caixinha de esmeralda.
  2. Ao ver a pérola da caixa, a rainha relata que o rei expulsou a filha por ela comparar seu amor ao sal.
  3. A princesa vive há três anos com a velha e esconde a beleza sob uma pele; à noite, lava-se junto da fonte.
  4. O conde vê a pastora retirar a pele e reencontra os pais dela; os três chegam à casa da velha.
  5. A velha reúne a princesa aos pais, dá-lhe as pérolas e a casinha e desaparece; a casa se transforma num palácio.
Desfecho
O narrador diz que a avó esquecera o restante. Supõe que a princesa se casou com o conde e que os gansos eram moças acolhidas pela velha, mas distingue essas suposições da certeza de que ela era uma mulher sábia. Atribui-lhe provavelmente o dom das pérolas e observa que hoje isso já não acontece.

Era uma vez uma velhinha muito, muito velha, que vivia com seu bando de gansos num lugar deserto entre montanhas, onde tinha uma casinha. O lugar era cercado por uma grande floresta, e todas as manhãs a velha pegava sua muleta e ia cambaleando para o mato. Mas a velhinha era muito ativa, mais do que se poderia esperar de sua idade avançada: colhia capim para os gansos, apanhava as frutas silvestres que conseguia alcançar com as mãos e levava tudo para casa nas costas. Era de imaginar que aquela carga pesada a derrubasse, mas ela sempre a levava para casa sem problemas. Quando encontrava alguém, cumprimentava com muita gentileza:

— Bom dia, meu caro conterrâneo, hoje o tempo está bonito. Sim, vocês estranham que eu carregue este capim, mas cada um precisa levar sua carga nas costas.

As pessoas, porém, não gostavam de encontrá-la e preferiam dar uma volta. E, quando um pai passava por ela com seu menino, dizia baixinho:

— Cuidado com a velha, ela é muito mais esperta do que parece: é uma bruxa.

Certa manhã, um belo rapaz caminhava pela floresta. O sol brilhava, os pássaros cantavam e uma brisa fresca passava pela folhagem; ele estava cheio de alegria e de satisfação. Ainda não encontrara ninguém quando, de repente, avistou a velha bruxa, que estava ajoelhada no chão, cortando capim com uma foice. Já tinha enfiado uma carga inteira em seu pano de carregar, e ao lado havia dois cestos cheios de peras e maçãs silvestres.

— Mas, avozinha — disse ele —, como pode levar tudo isso?

— Preciso carregar, meu caro senhor — respondeu ela. — Os filhos dos ricos não precisam. Mas, para o camponês, vale o dito:

Não olhe para trás,
as costas tortas você traz.

— Quer me ajudar? — disse ela, quando ele ficou parado ao seu lado. — Suas costas ainda são retas e suas pernas são jovens; será fácil para o senhor. Além disso, minha casa não fica muito longe: está numa charneca, atrás daquela montanha. Num instante o senhor sobe até lá.

O rapaz sentiu pena da velha.

— Meu pai não é camponês — respondeu —, é um conde rico; mas, para que veja que não são só os camponeses que sabem carregar, vou levantar sua trouxa.

— Se quiser tentar — disse ela —, ficarei contente. É verdade que terá de caminhar uma hora, mas o que isso representa para o senhor? Também precisa levar aquelas maçãs e peras.

O jovem conde ficou um pouco apreensivo ao ouvir falar em uma hora de caminho, mas a velha não o largou mais: pôs-lhe o pano de carregar nas costas e pendurou os dois cestos em seu braço.

— Está vendo? É bem fácil — disse ela.

— Não, não está fácil — respondeu o conde, fazendo uma careta de dor. — A trouxa pesa como se estivesse cheia de pedras, e as maçãs e peras pesam como se fossem de chumbo; mal consigo respirar.

Teve vontade de pôr tudo no chão outra vez, mas a velha não deixou.

— Vejam só — disse ela, zombando —, o jovem senhor não quer carregar o que eu, uma velha, já carreguei tantas vezes. Para falar bonito, estão sempre prontos, mas, quando a coisa fica séria, querem dar o fora. Por que fica aí parado — continuou —, hesitando? Levante as pernas. Ninguém vai tirar essa trouxa das suas costas.

Enquanto caminhava em terreno plano, ainda podia aguentar; mas, quando chegaram à montanha e tiveram de subir, e as pedras rolavam atrás de seus pés como se estivessem vivas, aquilo excedeu suas forças. As gotas de suor surgiram em sua testa e lhe escorriam pelas costas, ora quentes, ora frias.

— Avozinha — disse ele —, não posso continuar, quero descansar um pouco.

— Nada disso — respondeu a velha. — Quando chegarmos, poderá descansar, mas agora precisa seguir em frente. Quem sabe para que isso lhe servirá!

— Velha, você está ficando atrevida — disse o conde, tentando jogar fora o pano de carregar; mas esforçou-se em vão: estava tão preso às costas como se tivesse crescido ali. Ele se virava e revirava, mas não conseguia se livrar daquilo.

A velha ria e saltitava alegremente em sua muleta.

— Não se zangue, meu caro senhor — disse ela —, seu rosto está ficando tão vermelho quanto o de um galo pago como tributo. Carregue sua trouxa com paciência; quando chegarmos em casa, vou lhe dar uma boa gorjeta.

O que podia fazer? Teve de se conformar com seu destino e arrastar-se pacientemente atrás da velha. Ela parecia cada vez mais ágil, e a carga dele, cada vez mais pesada. De repente, ela deu um pulo, saltou sobre o pano de carregar e sentou-se em cima; por mais seca que fosse, pesava mais do que a mais gorda das camponesas. Os joelhos do rapaz tremiam, mas, se ele não continuava a andar, a velha lhe batia nas pernas com uma vara e com urtigas. Gemendo sem parar, ele subiu a montanha e por fim chegou à casa da velha, quando estava prestes a desabar.

Ao avistarem a velha, os gansos ergueram as asas, esticaram o pescoço, correram ao seu encontro e gritaram: “Ule, ule!” Atrás do bando vinha uma mulher já de idade, forte e alta, mas feia como a noite, com uma vara na mão.

— Senhora minha mãe — disse à velha —, aconteceu alguma coisa? A senhora demorou tanto!

— Deus me livre, minha filhinha — respondeu ela —, não me aconteceu nada de ruim; pelo contrário, aquele bom senhor carregou minha carga. Imagine: quando fiquei cansada, ele me levou também nas costas. O caminho nem nos pareceu comprido; ficamos alegres e fizemos brincadeiras o tempo todo.

Por fim a velha escorregou para o chão, tirou a trouxa das costas do rapaz e os cestos de seu braço, olhou para ele com muita gentileza e disse:

— Agora sente-se no banco diante da porta e descanse. Ganhou honestamente seu pagamento, e não ficará sem ele.

Depois disse à pastora de gansos:

— Entre em casa, minha filhinha; não fica bem você estar sozinha com um jovem senhor. Não se deve pôr óleo no fogo; ele poderia se apaixonar por você.

O conde não sabia se havia de chorar ou de rir. “Uma belezinha dessas”, pensou, “mesmo que fosse trinta anos mais jovem, não poderia comover meu coração.” Enquanto isso, a velha mimava e acariciava seus gansos como crianças, depois entrou em casa com a filha. O rapaz se estendeu no banco debaixo de uma macieira silvestre. O ar era morno e suave; ao redor se estendia um prado verde, salpicado de prímulas, tomilho silvestre e mil outras flores; pelo meio corria, murmurando, um riacho límpido em que o sol cintilava. Os gansos brancos passeavam de um lado para outro ou chapinhavam na água.

— É muito agradável aqui — disse ele —, mas estou tão cansado que não consigo manter os olhos abertos; vou dormir um pouco. Só espero que não venha uma rajada de vento e me arranque as pernas do corpo, pois estão frágeis como isca de fogo.

Depois que ele dormiu um pouco, a velha veio e o sacudiu até acordá-lo.

— Levante-se — disse ela —, não pode ficar aqui. É verdade que lhe dei bastante trabalho, mas isso não lhe custou a vida. Agora vou lhe dar seu pagamento. Dinheiro e bens não lhe fazem falta; aqui está outra coisa.

Com isso, colocou-lhe na mão uma caixinha talhada numa única esmeralda.

— Guarde-a bem — acrescentou —, ela lhe trará sorte.

O conde se levantou de um salto e, sentindo-se inteiramente revigorado e com as forças recuperadas, agradeceu à velha pelo presente e partiu, sem sequer olhar uma vez para trás, para a bela filhinha. Quando já estava um pouco longe, ainda ouviu ao longe os gritos alegres dos gansos.

O conde teve de vagar três dias pelo ermo antes de conseguir sair. Então chegou a uma grande cidade e, como ninguém o conhecia, foi levado ao castelo real, onde o rei e a rainha estavam sentados no trono. O conde se ajoelhou sobre um joelho, tirou do bolso o recipiente de esmeralda e o pôs aos pés da rainha. Ela mandou que se levantasse, e ele teve de lhe entregar a caixinha. Mas, assim que ela a abriu e olhou para dentro, caiu no chão como morta. Os criados do rei seguraram o conde e iam levá-lo para a prisão quando a rainha abriu os olhos e ordenou que o soltassem e que todos saíssem; queria falar com ele em segredo.

Quando ficou sozinha com ele, a rainha começou a chorar amargamente e disse:

— De que me servem o esplendor e as honras que me cercam? Todas as manhãs acordo com preocupações e tristeza. Eu tive três filhas; a mais nova era tão bela que o mundo inteiro a considerava uma maravilha. Era branca como a neve, rosada como a flor da macieira, e seus cabelos brilhavam como os raios de sol. Quando chorava, não lhe caíam lágrimas dos olhos, mas pérolas e pedras preciosas. Quando ela tinha quinze anos, o rei mandou as três irmãs comparecerem diante de seu trono. O senhor devia ter visto como as pessoas arregalaram os olhos quando a mais nova entrou; foi como se o sol nascesse. O rei disse: “Minhas filhas, não sei quando chegará meu último dia; quero determinar hoje o que cada uma receberá depois da minha morte. Todas me amam, mas aquela que me amar mais receberá o melhor.” Cada uma disse que o amava mais que as outras. “Não podem me dizer quanto me amam?”, respondeu o rei. “Assim verei o que querem dizer.” A mais velha disse: “Amo meu pai como o mais doce açúcar.” A segunda: “Amo meu pai como meu vestido mais bonito.” A mais nova, porém, ficou calada. Então o pai perguntou: “E você, minha filha querida, quanto me ama?” “Não sei”, respondeu ela, “não consigo comparar meu amor com nada.” Mas o pai insistiu que ela precisava dizer alguma coisa. Por fim ela disse: “A melhor comida não me agrada sem sal; por isso amo meu pai como o sal.” Ao ouvir aquilo, o rei se enfureceu e disse: “Se você me ama como o sal, seu amor também será recompensado com sal.” Então dividiu o reino entre as duas mais velhas, mandou amarrar um saco de sal nas costas da mais nova e ordenou a dois criados que a levassem para dentro da floresta selvagem. Todos imploramos e pedimos por ela — disse a rainha —, mas a ira do rei não se deixava abrandar. Como ela chorou quando teve de nos abandonar! O caminho inteiro ficou coberto de pérolas que lhe caíam dos olhos. Logo depois, o rei se arrependeu de sua grande dureza e mandou procurar a pobre menina por toda a floresta, mas ninguém conseguiu encontrá-la. Quando penso que os animais selvagens a devoraram, não sei como conter minha tristeza; às vezes me consolo com a esperança de que ainda esteja viva e tenha se escondido numa caverna ou encontrado abrigo com pessoas piedosas. Mas imagine: quando abri sua caixinha de esmeralda, havia nela uma pérola exatamente como as que caíam dos olhos de minha filha, e pode imaginar como aquela visão comoveu meu coração. O senhor precisa me dizer como conseguiu essa pérola.

O conde contou que a recebera da velha na floresta, que lhe parecera sinistra e devia ser uma bruxa; mas nada tinha ouvido nem visto da filha da rainha. O rei e a rainha resolveram procurar a velha; pensavam que, onde estivera a pérola, também haveriam de encontrar notícias da filha.

A velha estava sentada em seu ermo, fiando à roda de fiar. Já escurecera, e uma lasca de madeira que ardia embaixo, na lareira, dava uma luz fraca. De repente ouviu-se barulho lá fora: os gansos voltavam do pasto, soltando seus gritos roucos. Logo depois entrou também a filha. Mas a velha mal lhe agradeceu e apenas sacudiu um pouco a cabeça. A filha se sentou junto dela, pegou sua roda de fiar e torceu o fio com a agilidade de uma moça. Assim ficaram as duas por duas horas, sem trocar uma palavra. Por fim, alguma coisa roçou na janela, e dois olhos de fogo espiaram para dentro. Era uma velha coruja que piou três vezes: “Uhu!” A velha apenas ergueu um pouco os olhos, depois disse:

— Agora é hora de sair, filhinha; vá fazer seu trabalho.

Ela se levantou e saiu. “Para onde foi?” Atravessou os prados, seguindo sempre adiante, até o vale. Por fim chegou a uma fonte junto da qual havia três velhos carvalhos. A lua, redonda e grande, já se erguera acima da montanha, e estava tão claro que se poderia encontrar um alfinete. Ela tirou uma pele que lhe cobria o rosto, inclinou-se sobre a fonte e começou a se lavar. Quando terminou, mergulhou também a pele na água e depois a pôs no prado, para que voltasse a clarear e secar ao luar. Mas como a moça estava transformada! Vocês nunca viram coisa igual! Quando a trança grisalha caiu, os cabelos dourados jorraram como raios de sol e se espalharam sobre todo o seu corpo como um manto. Só os olhos brilhavam por entre eles, luminosos como as estrelas do céu, e as faces reluziam num suave rosado, como as flores de macieira.

Mas a bela moça estava triste. Sentou-se e chorou amargamente. Uma lágrima após a outra saía de seus olhos e rolava por entre os longos cabelos até o chão. Ficou ali sentada, e teria permanecido por muito tempo se não tivesse ouvido estalos e ruídos nos galhos da árvore próxima. Levantou-se de um salto, como uma corça que ouve o tiro do caçador. Naquele instante uma nuvem negra cobriu a lua, e num momento a moça tornou a vestir a velha pele e desapareceu como uma luz que o vento apaga.

Tremendo como uma folha de álamo, correu de volta à casa. A velha estava à porta, e a moça quis contar o que lhe acontecera, mas a velha riu com gentileza e disse:

— Já sei de tudo.

Levou-a para a sala e acendeu uma nova lasca. Mas não voltou à roda de fiar: pegou uma vassoura e começou a varrer e esfregar.

— Tudo precisa ficar limpo e asseado — disse à moça.

— Mas, mãe — disse a moça —, por que começa a trabalhar a uma hora tão tardia? O que pretende fazer?

— Sabe que horas são? — perguntou a velha.

— Ainda não é meia-noite — respondeu a moça —, mas já passou das onze?

— Não se lembra — continuou a velha — de que hoje faz três anos que veio para minha casa? Seu tempo acabou, não podemos continuar juntas.

A moça se assustou e disse:

— Ah, querida mãe, vai me expulsar? Para onde irei? Não tenho amigos nem uma terra a que possa voltar. Fiz tudo o que pediu, e a senhora sempre esteve satisfeita comigo: não me mande embora.

A velha não quis dizer à moça o que a esperava.

— Não vou mais ficar aqui — disse a ela —, mas, quando eu me mudar, a casa e a sala precisam estar limpas; por isso não me atrapalhe no trabalho. Quanto a você, não se preocupe: encontrará um teto sob o qual morar, e também ficará satisfeita com o pagamento que vou lhe dar.

— Mas me diga o que vai acontecer! — continuou a perguntar a moça.

— Repito: não me atrapalhe no trabalho. Não diga mais uma palavra, vá para seu quarto, tire a pele do rosto, vista o vestido de seda que usava quando veio para minha casa e espere em seu quarto até eu chamá-la.

Mas preciso voltar a contar do rei e da rainha, que tinham partido com o conde para procurar a velha no ermo. Durante a noite, na floresta, o conde se separara deles e precisara continuar sozinho. No dia seguinte, pareceu-lhe que estava no caminho certo. Seguiu sempre adiante até cair a escuridão; então subiu numa árvore para passar a noite ali, pois receava se perder. Quando a lua iluminou a região, avistou uma figura que descia a montanha. Ela não tinha vara na mão, mas ele pôde reconhecer que era a pastora de gansos que vira antes junto da casa da velha.

— Oh! — exclamou. — Lá vem ela; se eu pegar uma das bruxas, a outra também não me escapará.

Mas como se espantou quando ela chegou à fonte, tirou a pele e se lavou, quando os cabelos dourados lhe caíram pelo corpo e ela se mostrou tão bela como ninguém que ele tivesse visto no mundo! Mal ousava respirar; no entanto, esticou o pescoço por entre a folhagem o mais que pôde e ficou olhando para ela sem desviar os olhos. Talvez se tivesse inclinado demais, ou talvez fosse outra a causa: de repente o galho estalou, e no mesmo instante a moça tornou a vestir a pele e saiu correndo como uma corça; como a lua também se encobriu, ele a perdeu de vista.

Assim que ela desapareceu, o conde desceu da árvore e correu atrás dela a passos ágeis. Não tinha andado muito quando viu, na penumbra, duas figuras atravessando o prado. Eram o rei e a rainha, que tinham avistado de longe a luz na casinha da velha e seguido naquela direção. O conde lhes contou as maravilhas que vira junto da fonte, e eles não duvidaram de que aquela fosse a filha perdida. Cheios de alegria, continuaram e logo chegaram à casinha. Os gansos estavam sentados ao redor, tinham enfiado as asas na cabeça e dormiam, sem que nenhum se mexesse. Olharam pela janela: lá estava a velha, muito quieta, fiando; balançava a cabeça e não olhava para trás. A sala estava inteiramente limpa, como se ali morassem os homenzinhos da névoa, que não trazem poeira nos pés. A filha, porém, eles não viram. Ficaram olhando tudo por algum tempo, até que por fim tomaram coragem e bateram de leve na janela.

A velha parecia esperá-los: levantou-se e chamou com muita gentileza:

— Entrem, eu já conheço vocês.

Quando entraram na sala, a velha disse:

— Poderiam ter poupado essa longa viagem se, há três anos, não tivessem expulsado injustamente sua filha, que é tão boa e afetuosa. Isso não lhe fez mal: teve de guardar os gansos durante três anos, mas não aprendeu nada de ruim e conservou seu coração puro. Vocês, porém, foram suficientemente castigados pela angústia em que viveram.

Depois foi até o quarto e chamou:

— Venha, minha filhinha.

A porta se abriu, e a princesa saiu com seu traje de seda, seus cabelos dourados e seus olhos luminosos; era como se um anjo viesse do céu. Correu para o pai e a mãe, abraçou-os pelo pescoço e os beijou; não houve jeito: todos tiveram de chorar de alegria. O jovem conde estava ao lado deles e, quando ela o avistou, seu rosto ficou vermelho como uma rosa musgosa; ela própria não sabia por quê.

O rei disse:

— Minha filha querida, já dei meu reino; o que posso lhe dar?

— Ela não precisa de nada — disse a velha. — Eu lhe dou as lágrimas que chorou por vocês: são pérolas mais belas do que as encontradas no mar, e valem mais do que seu reino inteiro. E, como pagamento por seus serviços, dou-lhe minha casinha.

Assim que disse isso, a velha desapareceu diante de seus olhos. Houve alguns estalos nas paredes e, quando olharam ao redor, a casinha tinha se transformado num magnífico palácio; uma mesa real estava posta, e os criados corriam de um lado para outro.

A história ainda continua, mas minha avó, que me contou tudo isso, já estava com a memória fraca: tinha esquecido o resto. Eu sempre acho que a bela princesa se casou com o conde, que os dois ficaram juntos no castelo e viveram ali na maior felicidade pelo tempo que Deus quis. Se os gansos brancos como a neve, guardados junto da casinha, eram todos moças que a velha tinha acolhido — ninguém precisa levar isso a mal —, e se agora recuperaram sua forma humana e ficaram como criadas da jovem rainha, isso não sei ao certo, mas suponho que sim. Uma coisa é certa: a velha não era uma bruxa, como as pessoas acreditavam, mas uma mulher sábia e bem-intencionada. Provavelmente foi ela também quem deu à princesa, já no nascimento, o dom de chorar pérolas em lugar de lágrimas. Hoje em dia isso não acontece mais; senão os pobres logo poderiam ficar ricos.


Sobre esta edição

Obra
Die Gänsehirtin am Brunnen
Autoria original
Irmãos Grimm
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

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Die Gänsehirtin am Brunnen

Kinder- und Hausmärchen · 1857 · Alemão · 7. Große Ausgabe
Volume II. Página 362–373. Consultar esta edição ↗

A pastora de gansos junto à fonte

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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