AsVerdadeiras HistóriasOs contos originais, em nossa língua

EK 8

A Pequena Sereia

Hans Christian Andersen

Den lille Havfrue

Sobre este conto

A filha mais nova do rei do mar deseja conhecer o mundo dos homens. Quando finalmente pode subir à superfície, vê um príncipe num navio e o salva durante um naufrágio, sem que ele descubra quem o resgatou. De volta ao fundo do mar, procura saber como vivem os humanos e o que acontece com suas almas. O desejo de estar com o príncipe e de obter uma alma imortal a leva à bruxa do mar.

Personagens e estrutura
Personagens
Pequena sereia, sem nome próprio na impressão, Rei do mar, pai da sereia, Avó, rainha-viúva do mar, Cinco irmãs da pequena sereia, Jovem príncipe, Princesa vizinha, moça do templo e noiva do príncipe, Bruxa do mar, Filhas do ar, Pais reais do príncipe, Rei vizinho, Escravas cantoras e dançarinas, Marinheiros, timoneiro e grumete, Sacerdotes e bispo, Crianças mencionadas no epílogo
Onde se passa
Palácio e jardins no fundo do mar; superfície, navios, costa com igreja ou convento, palácio do príncipe e terras do rei vizinho. A bruxa vive além de redemoinhos, numa floresta de pólipos e casa de ossos. O final se passa no mar e no ar, entre nuvens. Países e cidades não recebem nomes.
Acontecimentos
  1. A pequena sereia sobe do mar, vê a festa do príncipe, enfrenta um naufrágio e o leva vivo à praia. Uma moça do templo o encontra; ele não sabe que foi salvo pela sereia.
  2. Ao saber sobre alma imortal, ela procura a bruxa. Recebe uma poção para ganhar pernas, pagando com a língua e a voz. Aceita dores a cada passo e o risco de virar espuma se o príncipe se casar com outra.
  3. O príncipe a acolhe como pequena enjeitada. Ela dança, cavalga e escala apesar da dor e do sangue nos pés. Ele ama a moça que acredita tê-lo salvo, sem saber que a sereia fez o resgate.
  4. O príncipe reconhece a moça do templo na princesa vizinha e se casa com ela. A sereia segura a cauda do vestido da noiva e volta ao navio, esperando morrer ao nascer do sol.
  5. As irmãs lhe dão uma faca obtida em troca dos cabelos: matar o príncipe permitiria voltar ao mar. Ela lança a faca às ondas, salta do navio e sente o corpo se dissolver em espuma.
  6. Ela se ergue entre as filhas do ar, que ainda não têm alma eterna e podem obtê-la após trezentos anos de boas ações. Sente lágrimas pela primeira vez, beija invisivelmente a testa da noiva e sobe com elas.
Desfecho
A sereia se torna uma das filhas do ar. Elas explicam que ainda não têm alma eterna: podem criá-la por boas ações ao longo de trezentos anos. A sereia ergue os braços ao sol de Deus e sente lágrimas pela primeira vez; invisível, beija a testa da noiva e sorri para o príncipe. O epílogo diz que, a cada dia em que encontram uma criança boa e sorriem de alegria, Deus retira um ano do tempo de prova; cada lágrima por uma criança malcriada e má acrescenta um dia. A narrativa termina com essa explicação, sem mostrar a obtenção futura da alma.

Longe, no mar, a água é azul como as pétalas da mais bela centáurea e transparente como o vidro mais puro. Mas é muito profunda, mais do que alcança qualquer cabo de âncora. Seria preciso empilhar muitas torres de igreja para chegar do fundo até acima da água. É lá embaixo que vive o povo do mar.

Não se deve pensar que ali só existe o chão nu de areia branca. Não: crescem as mais extraordinárias árvores e plantas, de caules e folhas tão flexíveis que se movem ao menor movimento da água, como se estivessem vivas. Todos os peixes, pequenos e grandes, deslizam entre os ramos, como aqui em cima os pássaros no ar. No lugar mais profundo fica o palácio do rei do mar. As paredes são de coral, as longas janelas pontudas, do âmbar mais transparente, e o telhado, de conchas que se abrem e fecham conforme a água se move. É lindo de ver, pois em cada uma há pérolas reluzentes; uma só delas seria um grande enfeite na coroa de uma rainha.

O rei do mar era viúvo havia muitos anos, mas sua velha mãe cuidava da casa. Era uma mulher sábia, porém orgulhosa de sua nobreza; por isso usava doze ostras na cauda, enquanto os outros nobres só podiam usar seis. Fora isso, merecia muitos elogios, sobretudo por gostar tanto das pequenas princesas do mar, suas netas, filhas do rei. Eram seis lindas crianças, mas a mais nova era a mais bonita de todas. Sua pele era clara e delicada como uma pétala de rosa, seus olhos eram azuis como o mar mais profundo, mas, como todas as outras, não tinha pés: seu corpo terminava numa cauda de peixe.

Podiam passar o dia inteiro brincando no palácio, nos grandes salões onde flores vivas cresciam das paredes. As grandes janelas de âmbar eram abertas, e os peixes entravam, como entre nós as andorinhas voam para dentro quando abrimos as janelas. Mas os peixes nadavam direto até as pequenas princesas, comiam em suas mãos e se deixavam acariciar.

Fora do palácio havia um grande jardim com árvores vermelhas como fogo e azuis-escuras. Os frutos reluziam como ouro, e as flores, como fogo ardente, sempre movendo caules e folhas. O chão era da areia mais fina, mas azul como chama de enxofre. Sobre tudo ali embaixo pairava um extraordinário brilho azul: seria mais fácil pensar que se estava no alto do ar, vendo apenas céu por cima e por baixo, do que no fundo do mar. Quando tudo estava imóvel, podia-se avistar o sol. Parecia uma flor de púrpura, de cujo cálice saía toda a luz.

Cada princesinha tinha um pequeno pedaço do jardim onde podia cavar e plantar como quisesse. Uma deu a seu canteiro o formato de uma baleia; outra preferiu que o seu parecesse uma pequena sereia. Mas a mais nova fez o seu inteiramente redondo como o sol e só plantou flores que brilhavam vermelhas como ele. Era uma criança estranha, quieta e pensativa. Enquanto as outras irmãs enfeitavam seus canteiros com as coisas mais extraordinárias que conseguiam de navios naufragados, ela só queria, além das flores cor-de-rosa que lembravam o sol lá no alto, uma bela estátua de mármore. Era um lindo rapaz, talhado na pedra branca e límpida, que chegara ao fundo do mar num naufrágio. Junto da estátua plantou um salgueiro-chorão cor-de-rosa. Ele cresceu magnificamente, estendendo seus ramos frescos sobre ela e até a areia azul, onde a sombra aparecia violeta e se movia como os ramos. Parecia que a copa e as raízes brincavam de se beijar.

Nada lhe dava mais alegria do que ouvir falar do mundo dos homens lá em cima. A velha avó precisava contar tudo o que sabia sobre navios e cidades, pessoas e animais. A pequena achava especialmente maravilhoso que as flores na terra tivessem perfume — as do fundo do mar não tinham —, que as florestas fossem verdes e que os peixes vistos entre os ramos cantassem tão alto e tão lindamente. Eram os passarinhos que a avó chamava de peixes, pois de outro modo elas não a entenderiam, já que nunca tinham visto um pássaro.

— Quando completarem quinze anos — disse a avó —, terão permissão para subir do mar, sentar-se ao luar nas rochas e ver os grandes navios que passam. Verão florestas e cidades! — No ano seguinte, uma das irmãs faria quinze anos; as outras tinham um ano de diferença entre si. A mais nova, portanto, ainda precisava esperar cinco anos inteiros antes de poder subir do fundo do mar e ver como eram as coisas entre nós. Mas cada uma prometeu contar às outras o que tivesse visto e achado mais belo no primeiro dia, pois a avó não contava o bastante: havia tanta coisa que precisavam saber!

Ninguém ansiava tanto quanto a mais nova, justamente ela, que tinha mais tempo para esperar e era tão quieta e pensativa. Muitas noites ficava à janela aberta, olhando para cima através da água azul-escura, onde os peixes batiam as barbatanas e a cauda. Podia ver a lua e as estrelas. Seu brilho era bem pálido, mas através da água pareciam muito maiores do que aos nossos olhos. Quando algo como uma nuvem negra deslizava por baixo delas, sabia que era uma baleia nadando acima de sua cabeça ou um navio com muitas pessoas. Elas certamente não imaginavam que uma linda sereiazinha estava lá embaixo, estendendo as mãos brancas para a quilha.

Por fim, a princesa mais velha completou quinze anos e pôde subir acima da superfície.

Quando voltou, tinha cem coisas para contar. Mas o mais lindo, dizia, era deitar ao luar num banco de areia, no mar tranquilo, e ver perto da costa a grande cidade, cujas luzes piscavam como cem estrelas. Ouvir a música e o barulho das carruagens e das pessoas, ver tantas torres de igreja e agulhas e ouvir os sinos repicarem! Justamente por não poder ir até lá, era o que mais desejava.

Ah, como a irmã mais nova escutava! Depois, à noite, quando ficava à janela aberta e olhava para cima através da água azul-escura, pensava na grande cidade, com todo aquele movimento e barulho, e parecia ouvir os sinos das igrejas repicarem até ela.

No ano seguinte, a segunda irmã teve permissão para subir pela água e nadar para onde quisesse. Emergiu bem quando o sol se punha, e achou aquela visão a mais bela de todas. O céu inteiro parecia ouro, dizia. E as nuvens! Não conseguia descrever toda a sua beleza. Vermelhas e violetas, tinham passado flutuando sobre ela. Muito mais depressa que elas, porém, um bando de cisnes selvagens voou como um longo véu branco sobre a água, em direção ao sol. Ela nadou para lá, mas ele se pôs, e o brilho cor-de-rosa se apagou da superfície do mar e das nuvens.

No ano seguinte, foi a vez da terceira irmã subir. Era a mais ousada de todas, por isso nadou rio acima por um largo rio que desaguava no mar. Viu belas colinas verdes cobertas de videiras, castelos e fazendas que apareciam entre florestas magníficas. Ouviu todos os pássaros cantarem, e o sol brilhava tão quente que muitas vezes precisava mergulhar para refrescar o rosto ardente. Numa pequena enseada encontrou um grupo de criancinhas humanas. Corriam inteiramente nuas e chapinhavam na água. Ela quis brincar com elas, mas fugiram assustadas. Então apareceu um pequeno animal preto: era um cachorro, mas ela nunca tinha visto um. Ele latiu tanto que a assustou, e ela voltou ao mar aberto. Nunca mais, porém, esqueceu aquelas florestas magníficas, as colinas verdes e as lindas crianças que sabiam nadar na água apesar de não terem cauda de peixe.

A quarta irmã não era tão ousada. Ficou no meio do mar bravio e contou que ali era o lugar mais belo de todos. Podia-se enxergar por muitas milhas ao redor, e o céu por cima parecia uma grande campânula de vidro. Tinha visto navios, mas muito longe, parecendo gaivotas. Os divertidos golfinhos davam cambalhotas, e as grandes baleias lançavam água pelas narinas, como se houvesse cem fontes por toda parte.

Chegou a vez da quinta irmã. Seu aniversário era justamente no inverno, por isso viu coisas que as outras não tinham visto na primeira vez. O mar parecia inteiramente verde, e por toda parte flutuavam grandes icebergs. Cada um parecia uma pérola, dizia, embora fosse muito maior que as torres de igreja construídas pelos homens. Tinham as formas mais extraordinárias e brilhavam como diamantes. Ela se sentara num dos maiores, e todos os navegantes passavam assustados ao largo do lugar onde estava, deixando o vento brincar com seus longos cabelos. Ao anoitecer, porém, o céu se cobriu de nuvens. Relampejava e trovejava, enquanto o mar negro erguia os grandes blocos de gelo e os fazia brilhar sob os relâmpagos vermelhos. Todos os navios recolheram as velas. Havia medo e terror, mas ela permanecia tranquila em seu iceberg flutuante, vendo o relâmpago azul descer em zigue-zague até o mar reluzente.

Na primeira vez que cada irmã subia acima da água, ficava encantada com tudo o que via de novo e belo. Mas agora que, já crescidas, podiam subir quando quisessem, aquilo lhes ficou indiferente. Voltavam a sentir saudade de casa e, depois de um mês, diziam que o lugar mais bonito era mesmo lá embaixo, onde se estava tão bem, em casa.

Em muitas noites, as cinco irmãs se davam os braços e subiam em fila pela água. Tinham vozes lindas, mais belas que as de qualquer pessoa. Quando uma tempestade se aproximava e achavam que os navios poderiam naufragar, nadavam à frente deles, cantando tão lindamente sobre a beleza do fundo do mar e pedindo aos marinheiros que não tivessem medo de descer até lá. Mas eles não entendiam as palavras: pensavam que era a tempestade. Tampouco chegavam a ver a beleza lá embaixo, pois, quando o navio afundava, as pessoas se afogavam e só chegavam mortas ao palácio do rei do mar.

Quando as irmãs subiam assim à noite, de braços dados, a pequena ficava sozinha, olhando atrás delas. Parecia que ia chorar, mas a sereia não tem lágrimas, e por isso sofre muito mais.

— Ah, se eu já tivesse quinze anos! — dizia. — Sei que vou amar muito aquele mundo lá em cima e as pessoas que constroem suas casas e vivem nele!

Finalmente, completou quinze anos.

— Agora também estamos livres de você — disse sua avó, a velha rainha-viúva. — Venha, deixe-me enfeitá-la como suas irmãs! — Pôs-lhe nos cabelos uma grinalda de lírios brancos, mas cada pétala da flor era metade de uma pérola. Depois fez oito grandes ostras se prenderem à cauda da princesa, para mostrar sua elevada posição.

— Isso dói tanto! — disse a pequena sereia.

— Sim, é preciso sofrer um pouco pelo luxo! — disse a velha.

Ah, como ela queria sacudir de si todo aquele esplendor e tirar a pesada grinalda! Suas flores vermelhas do jardim lhe ficavam muito melhor, mas agora não se atrevia a mudar nada. — Adeus! — disse, e subiu pela água tão leve e transparente como uma bolha.

O sol tinha acabado de se pôr quando ela ergueu a cabeça acima do mar. Mas todas as nuvens ainda brilhavam como rosas e ouro, e no meio do ar rosado e pálido a estrela da tarde reluzia clara e bela. O ar estava ameno e fresco, e o mar, inteiramente imóvel. Ali havia um grande navio de três mastros, com uma única vela erguida, pois não soprava vento algum. Marinheiros estavam sentados por toda parte nas cordas e nas vergas. Havia música e canto, e, à medida que escurecia, acendiam-se cem lanternas coloridas. Pareciam bandeiras de todas as nações tremulando no ar. A pequena sereia nadou até a janela da cabine e, sempre que a água a erguia, podia olhar pelos vidros límpidos como espelhos. Havia ali muitas pessoas bem vestidas, mas a mais bonita era o jovem príncipe, de grandes olhos negros. Não devia ter muito mais de dezesseis anos. Era seu aniversário, e por isso havia toda aquela festa. Os marinheiros dançavam no convés. Quando o jovem príncipe apareceu, mais de cem foguetes subiram ao ar, iluminando tudo como em pleno dia. A pequena sereia ficou tão assustada que mergulhou, mas logo pôs a cabeça para fora outra vez, e pareceu que todas as estrelas do céu caíam até ela. Nunca tinha visto fogos assim. Grandes sóis giravam; magníficos peixes de fogo se moviam pelo ar azul, e tudo se refletia no mar claro e tranquilo. No próprio navio havia tanta luz que se enxergava cada cordinha, quanto mais as pessoas! Ah, como o jovem príncipe era bonito! Apertava as mãos das pessoas, ria e sorria, enquanto a música soava na bela noite.

Ficou tarde, mas a pequena sereia não conseguia desviar os olhos do navio e do belo príncipe. As lanternas coloridas foram apagadas; já não subiam foguetes nem se ouviam tiros de canhão. Mas, no fundo do mar, havia um zumbido e um rumor. Ela continuava sobre a água, subindo e descendo para poder olhar a cabine. O navio começou a andar mais depressa; uma vela após a outra se abriu. As ondas ficaram mais fortes, grandes nuvens se formaram e relâmpagos brilharam ao longe. Ah, viria um temporal terrível! Por isso os marinheiros recolheram as velas. O grande navio balançava velozmente no mar bravio. A água se erguia como enormes montanhas negras, prontas para desabar sobre o mastro. Mas o navio mergulhava como um cisne entre as ondas altas e depois se deixava erguer sobre aquelas torres de água. A pequena sereia achava a viagem divertida; os marinheiros, não. O navio rangia e estalava, as grossas tábuas se curvavam sob os golpes violentos, e o mar se lançava contra ele. O mastro se partiu ao meio como um junco, e o navio tombou de lado enquanto a água entrava no porão. Só então a pequena sereia percebeu que estavam em perigo. Ela mesma precisava tomar cuidado com as vigas e os destroços que flutuavam na água. Num instante, tudo ficava tão escuro que não enxergava nada; quando relampejava, porém, era tão claro que reconhecia todos no navio. Cada um lutava como podia. Ela procurava sobretudo o jovem príncipe e, quando o navio se desfez, viu-o afundar no mar profundo. De início ficou contente, pois agora ele desceria até ela. Mas então se lembrou de que os homens não podem viver na água e de que ele só poderia chegar morto ao palácio de seu pai. Não, ele não podia morrer! Nadou entre as vigas e tábuas que flutuavam, esquecendo completamente que poderiam esmagá-la. Mergulhou fundo e tornou a subir entre as ondas, até alcançar o jovem príncipe, que já quase não conseguia nadar naquele mar tempestuoso. Seus braços e pernas começavam a fraquejar, os belos olhos se fechavam: teria morrido se a pequena sereia não tivesse chegado. Ela sustentou sua cabeça acima da água e deixou as ondas levá-los para onde quisessem.

Pela manhã, o temporal tinha passado. Não se via uma lasca sequer do navio. O sol se ergueu vermelho e reluzente da água; parecia dar vida às faces do príncipe, mas seus olhos continuavam fechados. A sereia beijou sua bela testa alta e afastou-lhe os cabelos molhados. Achava que ele se parecia com a estátua de mármore de seu pequeno jardim. Beijou-o de novo e desejou que vivesse.

Viu então à frente a terra firme, altas montanhas azuis, com neve branca brilhando nos cumes, como cisnes ali pousados. Perto da costa havia belas florestas verdes e, diante delas, uma igreja ou um convento; não sabia ao certo, mas era um edifício. No jardim cresciam limoeiros e laranjeiras, e diante do portão havia altas palmeiras. Ali o mar formava uma pequena enseada, imóvel mas muito profunda, até junto da rocha onde se acumulara a areia branca e fina. Ela nadou até lá com o belo príncipe e o deitou na areia, cuidando especialmente para que a cabeça ficasse erguida ao sol quente.

Os sinos começaram a tocar no grande edifício branco, e muitas moças vieram pelo jardim. A pequena sereia nadou para mais longe e se escondeu atrás de grandes pedras que saíam da água. Pôs espuma do mar sobre os cabelos e o peito, para que ninguém visse seu pequeno rosto, e ficou observando quem chegaria ao pobre príncipe.

Não demorou para uma moça aparecer. Pareceu se assustar muito, mas apenas por um instante; logo buscou outras pessoas. A sereia viu o príncipe voltar à vida e sorrir para todos ao redor. Para ela, porém, ele não sorriu: nem sabia que tinha sido salvo por ela. Ficou tão triste! Quando o levaram para dentro do grande edifício, mergulhou pesarosa e voltou ao palácio de seu pai.

Sempre fora quieta e pensativa, mas agora ficou muito mais. As irmãs lhe perguntavam o que tinha visto na primeira vez lá em cima, mas ela não contava nada.

Em muitas manhãs e noites, subia ao lugar onde tinha deixado o príncipe. Viu os frutos do jardim amadurecerem e serem colhidos, viu a neve derreter nas altas montanhas, mas não viu o príncipe; por isso voltava para casa cada vez mais triste. Seu único consolo era sentar-se no pequeno jardim e abraçar a bela estátua de mármore que se parecia com ele. Mas não cuidava das flores, que cresciam como numa mata selvagem, invadindo os caminhos e enredando seus longos caules e folhas nos ramos das árvores, até tudo ficar escuro.

Por fim não aguentou mais e contou a uma das irmãs. Logo todas as outras souberam, mas ninguém mais, além delas e de duas outras sereias, que só contaram às amigas mais próximas. Uma delas sabia quem era o príncipe: também tinha visto a festa no navio e sabia de onde ele vinha e onde ficava seu reino.

— Venha, irmãzinha! — disseram as outras princesas. Com os braços nos ombros umas das outras, subiram do mar numa longa fila, diante do lugar onde sabiam que ficava o palácio do príncipe.

Era construído de uma pedra brilhante, amarelo-clara, com grandes escadarias de mármore, uma das quais descia direto ao mar. Magníficas cúpulas douradas se erguiam acima do telhado. Entre as colunas que rodeavam todo o edifício havia estátuas de mármore que pareciam vivas. Pelos vidros transparentes das altas janelas podiam ver salões esplêndidos, onde pendiam cortinas de seda e tapetes preciosos. Todas as paredes estavam enfeitadas com grandes pinturas, que era um prazer admirar. No meio do maior salão jorrava uma grande fonte, cujos jatos subiam até a cúpula de vidro do teto. Por ela o sol iluminava a água e as belas plantas que cresciam na grande bacia.

Agora sabia onde ele morava e voltava muitas noites. Nadava muito mais perto da terra do que qualquer das outras tinha ousado. Chegava a entrar no canal estreito, debaixo da magnífica varanda de mármore, que lançava uma longa sombra sobre a água. Ali ficava olhando o jovem príncipe, que se julgava inteiramente só ao luar.

Em muitas noites, via-o navegar com música em seu magnífico barco, de bandeiras tremulando. Ela espiava entre os juncos verdes. Se o vento agitava seu longo véu branco-prateado e alguém o via, pensava que era um cisne erguendo as asas.

Muitas noites ouvia os pescadores, que estavam no mar com fachos de luz, contarem tantas coisas boas sobre o jovem príncipe. Isso a alegrava, pois lhe salvara a vida quando ele flutuava quase morto nas ondas. Lembrava como sua cabeça tinha repousado firmemente em seu peito e com que ternura o beijara. Ele nada sabia daquilo; nem sequer podia sonhar com ela.

Gostava cada vez mais dos homens e desejava cada vez mais subir para o meio deles. Seu mundo lhe parecia muito maior que o dela. Podiam voar sobre o mar em navios, subir às altas montanhas muito acima das nuvens, e as terras que possuíam se estendiam, com florestas e campos, para além de onde ela conseguia enxergar. Havia tanta coisa que queria saber! Mas as irmãs não sabiam responder a tudo. Então perguntava à velha avó, que conhecia bem o mundo superior, como ela chamava, com muita razão, as terras acima do mar.

— Quando os homens não se afogam — perguntou a pequena sereia —, podem viver para sempre? Não morrem, como nós aqui embaixo no mar?

— Morrem, sim! — disse a velha. — Também têm de morrer, e sua vida é ainda mais curta que a nossa. Podemos chegar aos trezentos anos. Mas, quando deixamos de existir aqui, viramos apenas espuma na água, sem ter sequer uma sepultura entre nossos entes queridos. Não temos alma imortal, nunca mais voltamos a viver. Somos como o junco verde: depois de cortado, não pode reverdecer! Os homens, porém, têm uma alma que vive para sempre, mesmo depois de o corpo virar terra. Ela sobe pelo ar límpido, até todas aquelas estrelas reluzentes! Assim como nós subimos do mar para ver as terras dos homens, eles sobem para lugares desconhecidos e belos, que nunca veremos.

— Por que não recebemos uma alma imortal? — disse a pequena sereia, triste. — Eu daria todas as centenas de anos que tenho para viver por um único dia como ser humano e depois poder participar do mundo celestial!

— Não fique pensando nisso! — disse a velha. — Somos muito mais felizes e vivemos melhor que os homens lá em cima!

— Então vou morrer e flutuar como espuma no mar, sem ouvir a música das ondas, ver as belas flores e o sol vermelho! Não posso fazer nada para ganhar uma alma eterna?

— Não! — disse a velha. — Só se um ser humano a amasse tanto que você fosse para ele mais que pai e mãe; se todos os seus pensamentos e seu amor estivessem presos a você, e ele deixasse o sacerdote pôr sua mão direita na sua, com uma promessa de fidelidade aqui e por toda a eternidade, a alma dele passaria ao seu corpo, e você também participaria da felicidade dos homens. Ele lhe daria uma alma e ainda conservaria a própria. Mas isso nunca pode acontecer! O que aqui no mar é tão bonito, sua cauda de peixe, os homens lá em cima acham feio. Não entendem mais do que isso: para ser bonito, é preciso ter dois apoios desajeitados, que eles chamam de pernas!

A pequena sereia suspirou e olhou tristemente para sua cauda de peixe.

— Vamos ficar contentes — disse a velha. — Vamos saltar e brincar durante os trezentos anos que temos para viver; já é um bom tempo! Depois poderemos descansar ainda mais satisfeitos em nossa sepultura. Esta noite teremos um baile na corte!

Era um esplendor que nunca se vê na Terra. As paredes e o teto do grande salão de baile eram de vidro grosso, mas transparente. Centenas de conchas colossais, cor-de-rosa e verdes como a grama, se alinhavam dos dois lados, com fogo azul ardendo dentro delas. Iluminavam o salão inteiro e brilhavam através das paredes, clareando o mar lá fora. Podiam-se ver os incontáveis peixes, grandes e pequenos, nadando em direção à parede de vidro. Em alguns, as escamas brilhavam vermelho-púrpura; em outros, pareciam prata e ouro. Pelo meio do salão corria uma larga correnteza, e sobre ela os homens e as mulheres do mar dançavam ao som de seu belo canto. Os seres humanos na Terra não têm vozes tão bonitas. A pequena sereia cantava melhor que todos, e bateram palmas para ela. Por um instante sentiu alegria no coração, pois sabia que tinha a voz mais bela de todas, na Terra e no mar! Mas logo voltou a pensar no mundo acima de sua cabeça. Não conseguia esquecer o belo príncipe e a tristeza de não possuir, como ele, uma alma imortal. Escapou do palácio do pai e, enquanto lá dentro tudo era canto e alegria, sentou-se triste em seu pequeno jardim. Então ouviu trompas soarem através da água e pensou: “Agora ele certamente navega lá em cima, aquele a quem amo mais que pai e mãe, a quem meus pensamentos estão presos e em cujas mãos eu poria a felicidade de minha vida. Arriscarei tudo para ganhá-lo e ganhar uma alma imortal! Enquanto minhas irmãs dançam no palácio de meu pai, irei à bruxa do mar. Sempre tive tanto medo dela, mas talvez possa me aconselhar e ajudar!”

A pequena sereia saiu do jardim e foi em direção aos redemoinhos ruidosos, atrás dos quais morava a bruxa. Nunca tinha percorrido aquele caminho. Não cresciam flores nem ervas marinhas; apenas a areia cinzenta e nua se estendia até os redemoinhos. Ali a água girava como rodas de moinho e arrastava para o fundo tudo o que apanhava. Era preciso passar no meio daqueles turbilhões esmagadores para chegar ao território da bruxa do mar. Depois, por um longo trecho, só havia caminho sobre lodo quente e borbulhante, que a bruxa chamava de sua turfeira. Atrás dele ficava sua casa, no meio de uma floresta estranha. Todas as árvores e arbustos eram pólipos, metade animal e metade planta, parecendo serpentes de cem cabeças que cresciam do chão. Todos os ramos eram longos braços viscosos, com dedos como vermes flexíveis. Moviam-se articulação por articulação, da raiz à última ponta. Tudo o que conseguiam agarrar no mar era envolvido por eles e nunca mais solto. A pequena sereia parou muito assustada diante da floresta. Seu coração batia de medo; quase voltou atrás. Mas então pensou no príncipe e na alma humana e tomou coragem. Prendeu seus longos cabelos em volta da cabeça para que os pólipos não a agarrassem por eles, juntou as mãos sobre o peito e avançou, veloz como um peixe na água, entre os horríveis pólipos que lhe estendiam braços e dedos flexíveis. Viu que cada um segurava alguma coisa: cem bracinhos a prendiam como fortes cintas de ferro. Pessoas que tinham morrido no mar e afundado até ali apareciam como esqueletos brancos nos braços dos pólipos. Eles seguravam lemes de navios e baús, esqueletos de animais terrestres e uma pequena sereia que tinham apanhado e estrangulado. Aquilo quase foi o que mais a aterrorizou.

Chegou a uma grande clareira viscosa, onde enormes cobras-d'água gordas se revolviam, mostrando suas feias barrigas branco-amareladas. No meio havia uma casa erguida com os ossos brancos de náufragos. Ali estava a bruxa do mar, deixando um sapo comer de sua boca, como as pessoas deixam um canarinho comer açúcar. Chamava as horríveis cobras gordas de seus pintinhos e deixava que rolassem sobre seu grande peito esponjoso.

— Sei muito bem o que você quer! — disse a bruxa do mar. — É uma tolice sua! Mesmo assim terá o que deseja, pois isso lhe trará desgraça, minha bela princesa. Quer se livrar da cauda de peixe e ganhar em seu lugar dois tocos para andar como os homens, para que o jovem príncipe se apaixone por você e você consiga ficar com ele e ganhar uma alma imortal! — A bruxa riu tão alto e tão horrivelmente que o sapo e as cobras caíram no chão e ficaram se revirando. — Veio na hora certa — disse ela. — Amanhã, quando o sol nascer, não poderei ajudá-la até passar mais um ano. Vou preparar uma bebida. Antes de o sol nascer, deverá nadar com ela até a terra, sentar-se na praia e bebê-la. Então sua cauda se dividirá e encolherá até formar o que os homens chamam de lindas pernas. Mas vai doer: será como uma espada afiada atravessando seu corpo. Todos que a virem dirão que é a mais bela criatura humana que já viram! Conservará seu andar flutuante; nenhuma dançarina poderá se mover como você. Mas cada passo será como pisar numa faca afiada, fazendo seu sangue correr. Se está disposta a sofrer tudo isso, eu a ajudarei!

— Sim! — disse a pequena sereia com voz trêmula, pensando no príncipe e em ganhar uma alma imortal.

— Mas lembre-se — disse a bruxa —: depois de ganhar forma humana, nunca mais poderá voltar a ser sereia! Nunca mais poderá descer pela água até suas irmãs e o palácio de seu pai. E, se não conquistar o amor do príncipe a ponto de ele esquecer pai e mãe por você, prender-se a você com todos os seus pensamentos e deixar que o sacerdote una suas mãos para que se tornem marido e mulher, não receberá uma alma imortal! Na primeira manhã depois de ele se casar com outra, seu coração terá de se partir, e você virará espuma na água.

— Eu quero! — disse a pequena sereia, pálida como uma morta.

— Mas também precisa me pagar! — disse a bruxa. — E não é pouco o que peço. Você tem a voz mais linda de todas aqui no fundo do mar. Certamente pensa em encantá-lo com ela, mas terá de me dar essa voz. Quero o melhor que possui em troca de minha preciosa bebida! Afinal, preciso pôr nela meu próprio sangue para que fique cortante como uma espada de dois gumes!

— Mas, se tirar minha voz — disse a pequena sereia —, o que me restará?

— Sua bela figura — disse a bruxa —, seu andar flutuante e seus olhos que falam. Com eles poderá fascinar um coração humano. Então, perdeu a coragem? Estenda sua pequena língua; vou cortá-la como pagamento, e você receberá a bebida poderosa!

— Assim seja! — disse a pequena sereia. A bruxa pôs o caldeirão a aquecer para ferver a poção. — Limpeza é uma boa coisa! — disse, esfregando o caldeirão com as cobras, que amarrou num nó. Depois arranhou o próprio peito e deixou seu sangue negro pingar lá dentro. O vapor formava figuras tão extraordinárias que enchiam de medo e pavor quem as visse. A todo instante a bruxa punha coisas novas no caldeirão. Quando a fervura ficou forte, era como quando o crocodilo chora. Por fim a bebida ficou pronta: parecia a água mais transparente!

— Aqui está! — disse a bruxa, e cortou a língua da pequena sereia, que ficou muda, sem poder cantar nem falar.

— Se os pólipos tentarem agarrá-la quando voltar pela minha floresta — disse a bruxa —, jogue neles uma única gota desta bebida, e seus braços e dedos se partirão em mil pedaços! — Mas a pequena sereia não precisou fazer isso. Os pólipos recuavam assustados ao ver a bebida reluzente em sua mão, brilhando como uma estrela cintilante. Assim atravessou depressa a floresta, o pântano e os redemoinhos ruidosos.

Podia ver o palácio de seu pai. As luzes do grande salão de baile estavam apagadas; certamente todos dormiam. Mas não se atreveu a procurá-los, agora que estava muda e os deixaria para sempre. Parecia que seu coração ia se partir de tristeza. Entrou de mansinho no jardim, colheu uma flor de cada canteiro das irmãs, lançou com o dedo mil beijos em direção ao palácio e subiu pelo mar azul-escuro.

O sol ainda não tinha aparecido quando ela avistou o palácio do príncipe e subiu a magnífica escadaria de mármore. A lua brilhava clara e bela. A pequena sereia bebeu a poção ardente e cortante. Foi como se uma espada de dois gumes atravessasse seu corpo delicado. Desmaiou e ficou deitada como morta. Quando o sol brilhou sobre o mar, acordou sentindo uma dor em brasa. Bem à sua frente estava o belo jovem príncipe, com os olhos negros como carvão fixos nela. Ela baixou os seus e viu que a cauda de peixe desaparecera e que tinha as mais lindas perninhas brancas que uma menina poderia ter. Mas estava inteiramente nua, por isso se envolveu em seus longos e abundantes cabelos. O príncipe perguntou quem era e como tinha chegado ali. Ela o olhou com doçura e, ao mesmo tempo, com tanta tristeza em seus olhos azul-escuros! Não podia falar. Então ele a tomou pela mão e a levou para dentro do palácio. Cada passo era como a bruxa tinha avisado: como pisar em sovelas pontudas e facas afiadas. Mas suportava aquilo de boa vontade. Pela mão do príncipe, avançava leve como uma bolha, e ele e todos admiravam seu andar gracioso e flutuante.

Vestiram-na com roupas preciosas de seda e musselina. Era a mais bela de todas no palácio, mas estava muda, sem poder cantar nem falar. Belas escravas vestidas de seda e ouro vieram cantar para o príncipe e seus pais reais. Uma cantava melhor que as outras. O príncipe bateu palmas e sorriu para ela; então a pequena sereia ficou triste, pois sabia que cantara muito melhor! Pensou: “Ah, se ele soubesse que, para estar ao seu lado, entreguei minha voz por toda a eternidade!”

As escravas começaram a dançar, com movimentos belos e flutuantes, ao som da música mais maravilhosa. A pequena sereia ergueu os lindos braços brancos, ficou na ponta dos pés e deslizou pelo chão, dançando como ninguém jamais dançara. A cada movimento sua beleza se tornava mais visível, e seus olhos falavam mais fundo ao coração do que o canto das escravas.

Todos ficaram encantados, sobretudo o príncipe, que a chamava de sua pequena enjeitada. Ela dançava cada vez mais, embora cada vez que seu pé tocasse o chão fosse como pisar em facas afiadas. O príncipe disse que ela devia ficar sempre ao seu lado, e deram-lhe permissão para dormir do lado de fora de sua porta, numa almofada de veludo.

Mandou costurar para ela um traje masculino, para que pudesse acompanhá-lo a cavalo. Cavalgavam pelas florestas perfumadas, onde os ramos verdes lhe tocavam os ombros e os passarinhos cantavam atrás das folhas frescas. Ela escalava com o príncipe as altas montanhas. Embora seus delicados pés sangrassem de modo que os outros pudessem ver, ria daquilo e o seguia, até avistarem as nuvens passando lá embaixo, como um bando de pássaros que partisse para terras estrangeiras.

Em casa, no palácio do príncipe, quando os outros dormiam, saía à larga escadaria de mármore. Ficar na água fria do mar refrescava seus pés ardentes, e então pensava nos que estavam lá embaixo, nas profundezas.

Uma noite vieram suas irmãs de braços dados, cantando com tristeza enquanto nadavam sobre a água. Ela acenou, e elas a reconheceram e contaram como tinha deixado todos tristes. Depois passaram a visitá-la todas as noites. Numa delas, viu bem longe a velha avó, que havia muitos anos não subia à superfície, e o rei do mar com sua coroa. Estendiam as mãos para ela, mas não se atreviam a chegar tão perto da terra como as irmãs.

Dia após dia, tornava-se mais querida para o príncipe. Ele gostava dela como se gosta de uma criança boa e querida, mas não lhe passava pela cabeça torná-la sua rainha. E ela precisava ser sua esposa; de outro modo, não receberia uma alma imortal e viraria espuma no mar na manhã de seu casamento.

“Você não gosta mais de mim do que de todas as outras?”, pareciam dizer os olhos da pequena sereia quando ele a abraçava e beijava sua bela testa.

— Sim, você é a mais querida! — disse o príncipe. — Porque tem o melhor coração de todas, é a mais dedicada a mim e se parece com uma moça que vi uma vez, mas certamente nunca mais encontrarei. Eu estava num navio que naufragou. As ondas me levaram à praia, junto de um templo sagrado onde várias moças serviam. A mais nova me encontrou na areia e salvou minha vida. Só a vi duas vezes. Era a única pessoa que eu poderia amar neste mundo, mas você se parece com ela, quase afasta sua imagem de minha alma. Ela pertence ao templo sagrado; por isso minha boa sorte me mandou você. Nunca nos separaremos! — “Ah, ele não sabe que fui eu quem salvou sua vida!”, pensou a pequena sereia. “Eu o carreguei pelo mar até a floresta onde fica o templo. Fiquei atrás da espuma, esperando para ver se alguém chegava. Vi a bela moça, a quem ele ama mais do que a mim!” A sereia suspirou profundamente; chorar, não podia. “Ele disse que a moça pertence ao templo sagrado. Ela nunca sairá pelo mundo; eles não voltarão a se encontrar. Eu estou com ele e o vejo todos os dias. Vou cuidar dele, amá-lo, sacrificar-lhe minha vida!”

Mas agora o príncipe ia se casar com a bela filha do rei vizinho, diziam. Era por isso que preparava um navio tão magnífico. Falava-se que viajaria para conhecer as terras do rei vizinho, mas era para ver a filha dele; levaria uma grande comitiva. A pequena sereia, porém, balançava a cabeça e ria. Conhecia os pensamentos do príncipe muito melhor que todos os outros. — Preciso viajar! — dissera ele. — Preciso ver a bela princesa; meus pais exigem. Mas não vão me obrigar a trazê-la para casa como minha noiva! Não posso amá-la! Ela não se parece com a bela moça do templo, como você se parece. Se um dia eu tivesse de escolher uma noiva, seria antes você, minha enjeitadinha muda de olhos que falam! — E beijou sua boca vermelha, brincou com seus longos cabelos e apoiou a cabeça junto ao coração dela, que sonhou com a felicidade humana e uma alma imortal.

— Você não tem medo do mar, minha criança muda? — perguntou ele quando estavam no magnífico navio que o levaria às terras do rei vizinho. Contou-lhe sobre tempestades e calmarias, sobre os peixes estranhos das profundezas e o que o mergulhador tinha visto ali. Ela sorria de suas histórias, pois conhecia o fundo do mar melhor que qualquer outra pessoa.

Na noite de luar, enquanto todos dormiam, menos o timoneiro ao leme, ela se sentava junto à amurada e olhava pela água transparente. Parecia ver o palácio de seu pai e, lá no alto, a velha avó com uma coroa de prata, olhando através das correntes fortes em direção à quilha do navio. Então suas irmãs apareceram na superfície, olhando para ela com tristeza e torcendo as mãos brancas. Ela lhes acenou, sorriu e quis contar que tudo lhe corria bem e feliz. Mas o grumete se aproximou, e as irmãs mergulharam. Ele ficou pensando que aquilo branco que tinha visto era espuma no mar.

Na manhã seguinte, o navio entrou no porto da magnífica cidade do rei vizinho. Todos os sinos das igrejas repicavam; do alto das torres soavam trombetas, enquanto os soldados se alinhavam com bandeiras tremulando e baionetas reluzentes. Havia uma festa a cada dia. Bailes e recepções se sucediam, mas a princesa ainda não chegara. Diziam que era educada longe dali, num templo sagrado, onde aprendia todas as virtudes reais. Finalmente chegou.

A pequena sereia esperava ansiosa para ver sua beleza e teve de reconhecê-la: nunca tinha visto figura mais graciosa. A pele era tão delicada e clara, e atrás dos longos cílios escuros sorria um par de olhos azul-negros e fiéis!

— É você! — disse o príncipe. — Você, que me salvou quando eu estava como morto junto à costa! — Abraçou a noiva corada. — Ah, sou feliz demais! — disse à pequena sereia. — O melhor, o que nunca ousei esperar, se realizou para mim. Você se alegrará com minha felicidade, porque é quem mais gosta de mim! — A pequena sereia beijou sua mão e já pareceu sentir o coração se partir. A manhã de seu casamento lhe traria a morte e a transformaria em espuma no mar.

Todos os sinos das igrejas tocavam. Os arautos cavalgavam pelas ruas anunciando o noivado. Em todos os altares ardia óleo perfumado em preciosas lâmpadas de prata. Os sacerdotes agitavam incensários, os noivos deram as mãos e receberam a bênção do bispo. A pequena sereia estava vestida de seda e ouro e segurava a cauda do vestido da noiva. Mas seus ouvidos não ouviam a música festiva, seus olhos não viam a cerimônia sagrada. Pensava na noite de sua morte, em tudo o que tinha perdido neste mundo.

Naquela mesma noite, os noivos embarcaram. Os canhões soaram, todas as bandeiras tremularam e, no meio do navio, tinha sido erguida uma preciosa tenda de ouro e púrpura, com as mais belas almofadas. Ali o casal dormiria na noite tranquila e fresca.

As velas se enfunaram ao vento, e o navio deslizou leve, sem grande balanço, pelo mar límpido.

Quando escureceu, acenderam-se lâmpadas coloridas, e os marinheiros dançaram alegremente no convés. A pequena sereia teve de pensar na primeira vez em que subira do mar e vira aquele mesmo esplendor e alegria. Entrou no rodopio da dança, leve como a andorinha quando é perseguida. Todos a aclamavam com admiração; nunca tinha dançado tão maravilhosamente! Era como facas afiadas cortando seus pés delicados, mas não sentia aquilo: o corte em seu coração doía mais. Sabia que era a última noite em que veria aquele por quem abandonara sua família e sua casa, dera sua linda voz e sofrera tormentos sem fim todos os dias, sem que ele soubesse. Era a última noite em que respirava o mesmo ar que ele, via o mar profundo e o céu azul de estrelas. Uma noite eterna, sem pensamento nem sonho, esperava por ela, que não tinha alma nem conseguira ganhá-la. Tudo no navio era alegria e divertimento até muito depois da meia-noite. Ela ria e dançava com a ideia da morte no coração. O príncipe beijou sua bela noiva, que brincou com seus cabelos negros, e, de braços dados, foram repousar na magnífica tenda.

O navio ficou quieto e silencioso. Só o timoneiro permanecia ao leme. A pequena sereia apoiou os braços brancos na amurada e olhou para o leste, à espera da aurora. Sabia que o primeiro raio de sol a mataria. Então viu suas irmãs subirem do mar, pálidas como ela. Seus longos e belos cabelos já não voavam ao vento: tinham sido cortados.

— Nós os demos à bruxa, para que trouxesse ajuda e você não morresse esta noite! Ela nos deu uma faca; aqui está! Está vendo como é afiada? Antes de o sol nascer, precisa cravá-la no coração do príncipe. Quando o sangue quente dele respingar em seus pés, eles crescerão juntos e formarão uma cauda de peixe. Você será sereia de novo, poderá descer até nós e viver seus trezentos anos antes de se tornar a espuma morta e salgada do mar. Depressa! Ele ou você precisa morrer antes de o sol nascer! Nossa velha avó sofre tanto que seus cabelos brancos caíram, como os nossos caíram sob a tesoura da bruxa. Mate o príncipe e volte! Depressa, está vendo a faixa vermelha no céu? Daqui a poucos minutos o sol nascerá, e então você terá de morrer! — Soltaram um suspiro extraordinariamente profundo e desapareceram nas ondas.

A pequena sereia afastou a cortina de púrpura da tenda e viu a bela noiva dormindo com a cabeça junto ao peito do príncipe. Inclinou-se, beijou-o na bela testa, olhou para o céu, onde a aurora brilhava cada vez mais, olhou para a faca afiada e tornou a fixar os olhos no príncipe. Em sonho ele dizia o nome de sua noiva; só ela ocupava seus pensamentos. A faca tremia na mão da sereia, mas então ela a lançou para longe, nas ondas. Elas brilharam vermelhas onde a faca caiu; parecia que gotas de sangue brotavam da água. Olhou mais uma vez para o príncipe, com o olhar já se apagando, lançou-se do navio ao mar e sentiu seu corpo se dissolver em espuma.

O sol se ergueu do mar. Seus raios caíram suaves e quentes sobre a espuma gelada de morte, e a pequena sereia não sentiu a morte. Viu o sol luminoso e, acima dela, cem belas criaturas transparentes flutuando. Através delas podia ver as velas brancas do navio e as nuvens vermelhas do céu. Suas vozes eram melodia, mas tão espirituais que nenhum ouvido humano podia ouvi-las, assim como nenhum olho terreno podia vê-las. Sem asas, flutuavam no ar por sua própria leveza. A pequena sereia viu que tinha um corpo como o delas, que se erguia cada vez mais para fora da espuma.

— Para junto de quem estou indo? — perguntou. Sua voz soava como a dos outros seres, tão espiritual que nenhuma música terrena poderia reproduzi-la.

— Para junto das filhas do ar! — responderam. — A sereia não tem alma imortal; nunca pode recebê-la sem conquistar o amor de um ser humano. Sua existência eterna depende de um poder alheio. As filhas do ar também não têm alma eterna, mas podem criar uma para si por meio de boas ações. Voamos até as terras quentes onde o ar pestilento e abafado mata os homens; ali espalhamos frescor. Levamos o perfume das flores pelo ar e enviamos alívio e cura. Depois de trezentos anos procurando fazer todo o bem que podemos, recebemos uma alma imortal e participamos da felicidade eterna dos homens. Você, pobre pequena sereia, buscou de todo o coração o mesmo que nós. Sofreu e suportou, elevou-se ao mundo dos espíritos do ar. Agora, por suas boas ações, poderá criar para si uma alma imortal dentro de trezentos anos.

A pequena sereia ergueu seus braços transparentes em direção ao sol de Deus e, pela primeira vez, sentiu lágrimas. No navio havia de novo movimento e vida. Viu o príncipe e sua bela noiva procurarem por ela. Olhavam com tristeza para a espuma borbulhante, como se soubessem que ela se lançara às ondas. Invisível, beijou a testa da noiva, sorriu para ele e subiu com os outros filhos do ar até a nuvem cor-de-rosa que flutuava.

— Dentro de trezentos anos entraremos assim, flutuando, no Reino de Deus!

— Também podemos chegar antes! — sussurrou uma delas. — Entramos invisíveis nas casas dos homens onde há crianças. A cada dia em que encontramos uma criança boa, que dá alegria a seus pais e merece seu amor, Deus encurta nosso tempo de prova. A criança não sabe quando voamos pela sala; se então sorrimos de alegria por ela, tira-se um ano dos trezentos. Mas, se vemos uma criança malcriada e má, precisamos chorar lágrimas de tristeza, e cada lágrima acrescenta um dia ao nosso tempo de prova!


Sobre esta edição

Obra
Den lille Havfrue
Autoria original
Hans Christian Andersen
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

Conheça as edições desta história e consulte os textos de origem.

Den lille Havfrue

Eventyr, fortalte for Børn · Tredie Hefte · 1837 · Dinamarquês · Tredie Hefte · terceiro fascículo
Volume Tredie Hefte. Página 5–51. Consultar esta edição ↗
Ler o original em dinamarquês

Fonte deste texto ↗

Langt ude i Havet er Vandet saa blaat, som Bladene paa den deiligste Kornblomst og saa klart, som det reneste Glas, men det er meget dybt, dybere end noget Ankertoug naaer, mange Kirketaarne maatte stilles ovenpaa hinanden, for at række fra Bunden op over Vandet. Dernede boe Havfolkene.

Nu maa man slet ikke troe, at der kun er den nøgne hvide Sandbund; nei, der voxe de forunderligste Træer og Planter, som ere saa smidige i Stilk og Blade, at de ved den mindste Bevægelse af Vandet røre sig, ligesom om de vare levende. Alle Fiskene, smaae og store, smutte imellem Grenene, ligesom heroppe Fuglene i Luften. Paa det allerdybeste Sted ligger Havkongens Slot, Murene ere af Coraller og de lange spidse Vinduer af det allerklareste Rav, men Taget er Muslingskaller, der aabne og lukke sig, eftersom Vandet gaaer; det seer deiligt ud; thi i hver ligge straalende Perler, een eneste vilde være stor Stads i en Dronnings Krone.

Havkongen dernede havde i mange Aar været Enkemand, men hans gamle Moder holdt Huus for ham, hun var en klog Kone, men stolt af sin Adel, derfor gik hun med tolv Østers paa Halen, de andre Fornemme maatte kun bære sex. — Ellers fortjente hun megen Roes, især fordi hun holdt saa meget af de smaa Havprindsesser, hendes Sønnedøttre. De vare 6 deilige Børn, men den yngste var den smukkeste af dem allesammen, hendes Hud var saa klar og skjær som et Rosenblad, hendes Øine saa blaa, som den dybeste Sø, men ligesom alle de andre havde hun ingen Fødder, Kroppen endte i en Fiskehale.

Hele den lange Dag kunde de lege nede i Slottet, i de store Sale, hvor levende Blomster voxte ud af Væggene. De store Rav-Vinduer bleve lukkede op, og saa svømmede Fiskene ind til dem, ligesom hos os Svalerne flyve ind, naar vi lukke op, men Fiskene svømmede lige hen til de smaae Prindsesser, spiste af deres Haand og lode sig klappe.

Udenfor Slottet var en stor Have med ildrøde og mørkeblaae Træer, Frugterne straalede som Guld, og Blomsterne som en brændende Ild, i det de altid bevægede Stilk og Blade. Jorden selv var det fineste Sand, men blaat, som Svovl-Lue. Over det Hele dernede laae et forunderligt blaat Skjær, man skulde snarere troe, at man stod høit oppe i Luften og kun saae Himmel over og under sig, end at man var paa Havets Bund. I Blikstille kunde man øine Solen, den syntes en Purpur-Blomst, fra hvis Bæger det hele Lys udstrømmede.

Hver af de smaa Prindsesser havde sin lille Plet i Haven, hvor hun kunde grave og plante, som hun selv vilde; een gav sin Blomsterplet Skikkelse af en Hvalfisk, en anden syntes bedre om, at hendes lignede en lille Havfrue, men den yngste gjorde sin ganske rund ligesom Solen, og havde kun Blomster, der skinnede røde som den. Hun var et underligt Barn, stille og eftertænksom, og naar de andre Søstre pyntede op med de forunderligste Ting de havde faaet fra strandede Skibe, vilde hun kun, foruden de rosenrøde Blomster, som lignede Solen der høit oppe, have en smuk Marmorstøtte, en deilig Dreng var det, hugget ud af den hvide, klare Steen og ved Stranding kommet ned paa Havbunden. Hun plantede ved Støtten en rosenrød Grædepiil, den voxte herligt, og hang med sine friske Grene udover den, ned mod den blaa Sandbund, hvor Skyggen viste sig violet og var i Bevægelse, ligesom Grenene; det saae ud, som om Top og Rødder legede at kysse hinanden.

Ingen Glæde var hende større, end at høre om Menneskeverdenen derovenfor; den gamle Bedstemoder maatte fortælle alt det hun vidste om Skibe og Byer, Mennesker og Dyr, især syntes det hende forunderligt deiligt, at oppe paa Jorden duftede Blomsterne, det gjorde ikke de paa Havets Bund, og at Skovene vare grønne og de Fisk, som der saaes mellem Grenene, kunde synge saa høit og deiligt, saa det var en Lyst; det var de smaa Fugle, som Bedstemoderen kaldte Fisk, for ellers kunde de ikke forstaae hende, da de ikke havde seet en Fugl.

»Naar I fylde Eders 15 Aar,« sagde Bedstemoderen, »saa skulle I faae Lov til at dykke op af Havet, sidde i Maaneskin paa Klipperne og see de store Skibe, som seile forbi, Skove og Byer skulle I see!« I Aaret, som kom, var den ene af Søstrene 15 Aar, men de andre, — ja den ene var et Aar mere end den anden, den yngste af dem havde altsaa endnu hele fem Aar før hun turde komme op fra Havets Bund og see, hvorledes det saae ud hos os. Men den ene lovede den anden at fortælle, hvad hun havde seet og fundet deiligst den første Dag; thi deres Bedstemoder fortalte dem ikke nok, der var saa meget de maatte have Besked om.

Ingen var saa længselsfuld, som den yngste, just hun, som havde længst Tid at vente og som var saa stille og tankefuld. Mangen Nat stod hun ved det aabne Vindue og saae op igjennem det mørkeblaae Vand, hvor Fiskene sloge med deres Finner og Hale. Maane og Stjerner kunde hun see, rigtignok skinnede de ganske blege, men gjennem Vandet saae de meget større ud end for vore Øine; gled der da ligesom en sort Sky hen under dem, da vidste hun, at det enten var en Hvalfisk, som svømmede over hende, eller ogsaa et Skib med mange Mennesker; de tænkte vist ikke paa, at en deilig lille Havfrue stod nedenfor og rakte sine hvide Hænder op imod Kjølen.

Nu var da den ældste Prindsesse 15 Aar og turde stige op over Havfladen.

Da hun kom tilbage, havde hun hundrede Ting at fortælle, men det deiligste, sagde hun, var at ligge i Maaneskin paa en Sandbanke i den rolige Sø, og see tæt ved Kysten den store Stad, hvor Lysene blinkede, ligesom hundrede Stjerner, høre Musikken og den Larm og Støi af Vogne og Mennesker, see de mange Kirketaarne og Spiir, og høre hvor Klokkerne ringede; just fordi hun ikke kunde komme derop, længtes hun allermeest efter Alt dette.

O! hvor hørte ikke den yngste Søster efter, og naar hun siden om Aftenen stod ved det aabne Vindue og saae op igjennem det mørkeblaae Vand, tænkte hun paa den store Stad med al den Larm og Støi, og da syntes hun at kunne høre Kirkeklokkerne ringe ned til sig.

Aaret efter fik den anden Søster Lov til at stige op gjennem Vandet og svømme hvorhen hun vilde. Hun dykkede op, just i det Solen gik ned, og det Syn fandt hun var det deiligste. Hele Himlen havde seet ud som Guld, sagde hun, og Skyerne, ja, deres Deilighed kunde hun ikke nok beskrive! røde og violette havde de seilet hen over hende, men langt hurtigere, end de, fløi, som et langt hvidt Slør, en Flok af vilde Svaner hen over Vandet hvor Solen stod; hun svømmede henimod den, men den sank og Rosenskjæret slukkedes paa Havfladen og Skyerne.

Aaret efter kom den tredie Søster derop, hun var den dristigste af dem Alle, derfor svømmede hun op ad en bred Flod, der løb ud i Havet. Deilige grønne Høie med Viinranker saae hun, Slotte og Gaarde tittede frem mellem prægtige Skove; hun hørte, hvor alle Fuglene sang og Solen skinnede saa varmt, at hun tidt maatte dykke under Vandet, for at kjøle sit brændende Ansigt. I en lille Bugt traf hun en heel Flok smaa Menneskebørn; ganske nøgne løb de og plaskede i Vandet, hun vilde lege med dem, men de løbe forskrækkede deres Vei, og der kom et lille sort Dyr, det var en Hund, men hun havde aldrig før seet en Hund, den gjøede saa forskrækkeligt af hende, at hun blev angst og søgte ud i den aabne Sø, men aldrig kunde hun glemme de prægtige Skove, de grønne Høie og de nydelige Børn, som kunde svømme paa Vandet, skjøndt de ingen Fiskehale havde.

Den fjerde Søster var ikke saa dristig, hun blev midt ude paa det vilde Hav, og fortalte, at der var just det deiligste; man saae mange Mile bort rundt omkring sig, og Himlen ovenover stod ligesom en stor Glasklokke. Skibe havde hun seet, men langt borte, de saae ud som Strandmaager, de morsomme Delphiner havde slaaet Kolbøtter, og de store Hvalfiske havde sprøitet Vand op af deres Næseboer, saa at det havde seet ud, som hundrede Vandspring rundt om.

Nu kom Touren til den femte Søster; hendes Geburtsdag var just om Vinteren og derfor saae hun, hvad de andre ikke havde seet første Gang. Søen tog sig ganske grøn ud og rundt om svømmede der store Iisbjerge, hvert saae ud som en Perle, sagde hun, og var dog langt større end de Kirketaarne, Menneskene byggede. I de forunderligste Skikkelser viste de sig og glimrede som Diamanter. Hun havde sat sig paa et af de største og alle Seilere krydsede forskrækkede uden om, hvor hun sad og lod Blæsten flyve med sit lange Haar; men ud paa Aftenen blev Himlen overtrukket med Skyer, det lynede og tordnede, medens den sorte Sø løftede de store Iisblokke høit op og lod dem skinne ved de røde Lyn. Paa alle Skibe tog man Seilene ind, der var en Angst og Gru, men hun sad rolig paa sit svømmende Iisbjerg og saae den blaae Lynstraale slaae i Zikzak ned i den skinnende Sø.

Den første Gang en af Søstrene kom over Vandet, var enhver altid henrykt over det Nye og Smukke hun saae, men da de nu, som voxne Piger, havde Lov at stige derop naar de vilde, blev det dem ligegyldigt, de længtes igjen efter Hjemmet, og efter en Maaneds Forløb sagde de, at nede hos dem var dog allersmukkest, og der var man saa rart hjemme.

Mangen Aftenstund toge de fem Søstre hinanden i Armene og steeg i Række op over Vandet; deilige Stemmer havde de, smukkere, end noget Menneske, og naar det da trak op til en Storm, saa de kunde troe, at Skibe maatte forlise, svømmede de foran Skibene og sang saa deiligt, om hvor smukt der var paa Havets Bund, og bade Søfolkene, ikke være bange for at komme der ned; men disse kunde ikke forstaae Ordene, de troede, at det var Stormen, og de fik heller ikke Deiligheden dernede at see, thi naar Skibet sank, druknede Menneskene, og kom kun som døde til Havkongens Slot.

Naar Søstrene saaledes om Aftenen, Arm i Arm, steeg høit op gjennem Havet, da stod den lille Søster ganske alene tilbage og saae efter dem, og det var som om hun skulde græde, men Havfruen har ingen Taarer, og saa lider hun meget mere.

»Ak, var jeg dog 15 Aar!« sagde hun, »jeg veed, at jeg ret vil komme til at holde af den Verden deroven for og af Menneskene, som bygge og boe deroppe!«

Endelig var hun da de 15 Aar.

»See nu have vi dig fra Haanden,« sagde hendes Bedstemoder, den gamle Enkedronning. »Kom nu, lad mig pynte dig, ligesom dine andre Søstre!« og hun satte hende en Krands af hvide Lillier paa Haaret, men hvert Blad i Blomsten var det halve af en Perle; og den Gamle lod 8 store Østers klemme sig fast ved Prindsessens Hale, for at vise hendes høie Stand.

»Det gjør saa ondt!« sagde den lille Havfrue.

»Ja man maa lide noget for Stadsen!« sagde den Gamle.

O! hun vilde saa gjerne have rystet hele denne Pragt af sig og lagt den tunge Krands; hendes røde Blomster i Haven klædte hende meget bedre, men hun turde nu ikke gjøre det om. »Farvel!« sagde hun og steg saa let og klar, som en Boble, op gjennem Vandet.

Solen var lige gaaet ned, idet hun løftede sit Hoved op over Havet, men alle Skyerne skinnede endnu som Roser og Guld, og midt i den blegrøde Luft straalede Aftenstjernen saa klart og deiligt, Luften var mild og frisk og Havet blikstille. Der laae et stort Skib med tre Master, et eneste Seil var kun oppe, thi ikke en Vind rørte sig og rundt om i Tougværket og paa Stængerne sad Matroser. Der var Musik og Sang, og alt som Aftenen blev mørkere, tændtes hundrede brogede Lygter; de saae ud, som om alle Nationers Flag vaiede i Luften. Den lille Havfrue svømmede lige hen til Kahytvinduet, og hver Gang Vandet løftede hende i Veiret, kunde hun see ind af de speilklare Ruder, hvor saa mange pyntede Mennesker stode, men den smukkeste var dog den unge Prinds med de store sorte Øine, han var vist ikke meget over 16 Aar, det var hans Fødselsdag, og derfor skete al denne Stads. Matroserne dandsede paa Dækket, og da den unge Prinds traadte derud, steg over hundrede Raketter op i Luften, de lyste, som den klare Dag, saa den lille Havfrue blev ganske forskrækket og dukkede ned under Vandet, men hun stak snart Hovedet igjen op, og da var det ligesom om alle Himmelens Stjerner faldt ned til hende. Aldrig havde hun seet saadanne Ildkunster. Store Sole snurrede rundt, prægtige Ildfisk svingede sig i den blaae Luft og alting skinnede tilbage fra den klare, stille Sø. Paa Skibet selv var saa lyst, at man kunde see hvert lille Toug, sagtens Menneskerne. O hvor dog den unge Prinds var smuk, og han trykkede Folkene i Haanden, loe og smilte, mens Musikken klang i den deilige Nat.

Det blev silde, men den lille Havfrue kunde ikke vende sine Øine bort fra Skibet og fra den deilige Prinds. De brogede Lygter bleve slukkede, Raketterne stege ikke mere i Veiret, der løde heller ingen flere Kanonskud, men dybt nede i Havet summede og brummede det, hun sad imedens paa Vandet og gyngede op og ned, saa at hun kunde see ind i Kahytten; men Skibet tog stærkere Fart, det ene Seil bredte sig ud efter det andet, nu gik Bølgerne stærkere, store Skyer trak op, det lynede langtborte. O, det vilde blive et skrækkeligt Veir! derfor toge Matroserne Seilene ind. Det store Skib gyngede i flyvende Fart paa den vilde Sø, Vandet reiste sig, ligesom store sorte Bjerge, der vilde vælte over Masten, men Skibet dykkede, som en Svane, ned imellem de høie Bølger og lod sig igjen løfte op paa de taarnende Vande. Det syntes den lille Havfrue just var en morsom Fart, men det syntes Søfolkene ikke, Skibet knagede og bragede, de tykke Planker bugnede ved de stærke Stød, Søen gjorde ind mod Skibet, Masten knak midt over, ligesom den var et Rør, og Skibet slangrede paa Siden, mens Vandet trængte ind i Rummet. Nu saae den lille Havfrue, at de vare i Fare, hun maatte selv tage sig i Agt for Bjelker og Stumper af Skibet, der dreve paa Vandet. Eet Øieblik var det saa kullende mørkt, at hun ikke kunde øine det mindste, men naar det saa lynede, blev det igjen saa klart, at hun kjendte dem alle paa Skibet; hver tumlede sig det bedste han kunde; den unge Prinds søgte hun især efter, og hun saae ham, da Skibet skiltes ad, synke ned i den dybe Sø. Ligestrax blev hun ganske fornøiet, for nu kom han ned til hende, men saa huskede hun, at Menneskene ikke kunne leve i Vandet, og at han ikke, uden som død, kunde komme ned til hendes Faders Slot. Nei døe, det maatte han ikke; derfor svømmede hun hen mellem Bjelker og Planker, der dreve paa Søen, glemte reent, at de kunde have knust hende, hun dykkede dybt under Vandet og steg igjen høit op imellem Bølgerne, og kom saa tilsidst hen til den unge Prinds, som næsten ikke kunde svømme længer i den stormende Sø, hans Arme og Been begyndte at blive matte, de smukke Øine lukkede sig, han havde maattet døe, var ikke den lille Havfrue kommet til. Hun holdt hans Hoved op over Vandet, og lod saa Bølgerne drive hende med ham, hvorhen de vilde.

I Morgenstunden var det onde Veir forbi; af Skibet var ikke en Spaan at see, Solen steg saa rød og skinnende op af Vandet, det var ligesom om Prindsens Kinder fik Liv derved, men Øinene bleve lukkede; Havfruen kyssede hans høie smukke Pande og strøg hans vaade Haar tilbage; hun syntes, han lignede Marmorstøtten nede i hendes lille Have, hun kyssede ham igjen, og ønskede, at han dog maatte leve.

Nu saae hun foran sig det faste Land, høie blaae Bjerge, paa hvis Top den hvide Snee skinnede, som var det Svaner, der laae; nede ved Kysten vare deilige grønne Skove, og foran laae en Kirke eller et Kloster, det vidste hun ikke ret, men en Bygning var det. Citron- og Apelsintræer voxte der i Haven, og foran Porten stode høie Palmetræer. Søen gjorde her en lille Bugt, der var blikstille, men meget dybt, lige hen til Klippen, hvor det hvide fine Sand var skyllet op, her svømmede hun hen med den smukke Prinds, lagde ham i Sandet, men sørgede især for, at Hovedet laae høit i det varme Solskin.

Nu ringede Klokkerne i den store hvide Bygning, og der kom mange unge Piger gjennem Haven. Da svømmede den lille Havfrue længer ud bag nogle høie Stene, som ragede op af Vandet, lagde Sø-Skum paa sit Haar og sit Bryst, saa at ingen kunde see hendes lille Ansigt, og da passede hun paa, hvem der kom til den stakkels Prinds.

Det varede ikke længe, før en ung Pige kom derhen, hun syntes at blive ganske forskrækket, men kun et Øieblik, saa hentede hun flere Mennesker, og Havfruen saae, at Prindsen fik Liv, og at han smilte til dem alle rundt omkring, men ud til hende smilte han ikke, han vidste jo ikke heller, at hun havde reddet ham, hun følte sig saa bedrøvet, og da han blev ført ind i den store Bygning, dykkede hun sorrigfuld ned i Vandet og søgte hjem til sin Faders Slot.

Altid havde hun været stille og tankefuld, men nu blev hun det meget mere. Søstrene spurgte hende, hvad hun havde seet den første Gang deroppe, men hun fortalte ikke noget.

Mangen Aften og Morgen steeg hun op der, hvor hun havde forladt Prindsen. Hun saae, hvor Havens Frugter modnedes og bleve afplukkede, hun saae, hvor Sneen smeltede paa de høie Bjerge, men Prindsen saae hun ikke, og derfor vendte hun altid endnu mere bedrøvet hjem. Der var det hendes eneste Trøst, at sidde i sin lille Have og slynge sine Arme om den smukke Marmorstøtte, som lignede Prindsen, men sine Blomster passede hun ikke, de voxte, som i et Vildnis, ud over Gangene og flettede deres lange Stilke og Blade ind i Træernes Grene, saa der var ganske dunkelt.

Tilsidst kunde hun ikke længer holde det ud, men sagde det til een af sine Søstre, og saa fik strax alle de andre det at vide, men heller ingen flere, end de og et Par andre Havfruer, som ikke sagde det uden til deres nærmeste Veninder. Een af dem vidste Besked, hvem Prindsen var hun havde ogsaa seet Stadsen paa Skibet, vidste, hvorfra han var, og hvor hans Kongerige laae.

»Kom lille Søster!« sagde de andre Prindsesser, og med Armene om hinandens Skuldre stege de i en lang Række op af Havet foran, hvor de vidste Prindsens Slot laae.

Dette var opført af en lyseguul glindsende Steenart, med store Marmortrapper, een gik lige ned i Havet. Prægtige forgyldte Kupler hævede sig over Taget, og mellem Søilerne, som gik rundt om hele Bygningen, stode Marmorbilleder, der saae ud, som levende. Gjennem det klare Glas i de høie Vinduer saae man ind i de prægtigste Sale, hvor kostelige Silkegardiner og Tepper vare ophængte, og alle Væggene pyntede med store Malerier, som det ret var en Fornøielse at see paa. Midt i den største Sal pladskede et stort Springvand, Straalerne stode høit op mod Glaskuppelen i Loftet, hvorigjennem Solen skinnede paa Vandet og paa de deilige Planter, der voxte i det store Bassin.

Nu vidste hun, hvor han boede, og der kom hun mangen Aften og Nat paa Vandet; hun svømmede meget nærmere Land, end nogen af de andre havde vovet, ja hun gik heelt op i den smalle Canal, under den prægtige Marmor Altan, der kastede en lang Skygge hen over Vandet. Her sad hun og saae paa den unge Prinds, der troede, han var ganske ene i det klare Maaneskin.

Hun saae ham mangen Aften seile med Musik i sin prægtige Baad, hvor Flaggene vaiede; hun tittede frem mellem de grønne Siv, og tog Vinden i hendes lange sølvhvide Slør og Nogen saae det, tænkte de, det var en Svane, som løftede Vingerne.

Hun hørte mangen Nat, naar Fiskerne laae med Blus paa Søen, at de fortalte saa meget godt om den unge Prinds, og det glædede hende, at hun havde frelst hans Liv, da han halvdød drev om paa Bølgerne, og hun tænkte paa, hvor fast hans Hoved havde hvilet paa hendes Bryst, og hvor inderligt hun da kyssede ham; han vidste slet intet derom, kunde ikke engang drømme om hende.

Meer og meer kom hun til at holde af Menneskerne, meer og meer ønskede hun at kunne stige op imellem dem; deres Verden syntes hun var langt større, end hendes; de kunde jo paa Skibe flyve hen over Havet, stige paa de høie Bjerge høit over Skyerne, og Landene, de eiede, strakte sig, med Skove og Marker, længer, end hun kunde øine. Der var saa meget hun gad vide, men Søstrene vidste ikke at give Svar paa Alt, derfor spurgte hun den gamle Bedstemoder og hun kjendte godt til den høiere Verden, som hun meget rigtigt kaldte Landene ovenfor Havet.

»Naar Menneskene ikke drukne,« spurgte den lille Havfrue, »kunne de da altid leve, døe de ikke, som vi hernede paa Havet?«

»Jo!« sagde den gamle, »de maae ogsaa døe, og deres Levetid er endogsaa kortere end vor. Vi kunne blive tre hundrede Aar, men naar vi saa høre op at være til her, blive vi kun Skum paa Vandet, have ikke engang en Grav hernede mellem vore Kjære. Vi have ingen udødelig Sjæl, vi faae aldrig Liv mere, vi ere ligesom det grønne Siv, er det engang skaaret over, kan det ikke grønnes igjen! Menneskene derimod have en Sjæl, som lever altid, lever, efter at Legemet er blevet Jord; den stiger op igjennem den klare Luft, op til alle de skinnende Stjerner! ligesom vi dykke op af Havet og see Menneskenes Lande, saaledes dykke de op til ubekjendte deilige Steder, dem vi aldrig faae at see.«

»Hvorfor fik vi ingen udødelig Sjæl?« sagde den lille Havfrue bedrøvet, »jeg vilde give alle mine hundrede Aar, jeg har at leve i, for blot een Dag at være et Menneske og siden faae Deel i den himmelske Verden!«

»Det maa Du ikke gaae og tænke paa!« sagde den Gamle, »vi have det meget lykkeligere og bedre, end Menneskene deroppe!«

»Jeg skal altsaa døe og flyde som Skum paa Søen, ikke høre Bølgernes Musik, see de deilige Blomster og den røde Sol! Kan jeg da slet intet gjøre, for at vinde en evig Sjæl!« —

»Nei!« sagde den Gamle, »kun naar et Menneske fik dig saa kjær, at du var ham meer, end Fader og Moder; naar han med hele sin Tanke og Kjærlighed hang ved dig, og lod Præsten lægge sin høire Haand i din med Løfte om Troskab her og i al Evighed, da flød hans Sjæl over i dit Legeme og du fik ogsaa Deel i Menneskenes Lykke. Han gav dig Sjæl og beholdt dog sin egen. Men det kan aldrig skee! Hvad der just er deiligt her i Havet, din Fiskehale, finde de hæsligt deroppe paa Jorden, de forstaae sig nu ikke bedre paa det, man maa der have to klodsede Støtter, som de kalde Been, for at være smuk!«

Da sukkede den lille Havfrue og saae bedrøvet paa sin Fiskehale.

»Lad os være fornøiede,« sagde den Gamle, »hoppe og springe ville vi i de trehundrede Aar, vi have at leve i, det er saa mæn en god Tid nok, siden kan man desfornøieligere hvile sig ud i sin Grav. Iaften skal vi have Hofbal!«

Det var ogsaa en Pragt, som man aldrig seer den paa Jorden. Vægge og Loft i den store Dandsesal vare af tykt men klart Glas. Flere hundrede kolossale Muslingskaller, rosenrøde og græsgrønne, stode i Rækker paa hver Side med en blaae brændende Ild, som oplyste den hele Sal og skinnede ud gjennem Væggene, saa at Søen der udenfor var ganske oplyst; man kunde see alle de utallige Fiske, store og smaae, som svømmede henimod Glasmuren, paa nogle skinnede Skjællene purpurrøde, paa andre syntes de Sølv og Guld. — Midt igjennem Salen flød en bred rindende Strøm, og paa denne dandsede Havmænd og Havfruer til deres egen deilige Sang. Saa smukke Stemmer have ikke Menneskene paa Jorden. Den lille Havfrue sang skjønnest af dem alle, og de klappede i Hænderne for hende, og et Øieblik følte hun Glæde i sit Hjerte, thi hun vidste, at hun havde den skjønneste Stemme af alle paa Jorden og i Havet! Men snart kom hun dog igjen til at tænke paa Verden oven over sig; hun kunde ikke glemme den smukke Prinds og sin Sorg over ikke at eie, som han, en udødelig Sjæl. Derfor sneg hun sig ud af sin Faders Slot, og mens Alt derinde var Sang og Lystighed, sad hun bedrøvet i sin lille Have. Da hørte hun Valdhorn klinge ned igjennem Vandet, og hun tænkte, »nu seiler han vist deroppe, ham som jeg holder mere af end Fader og Moder, ham som min Tanke hænger ved og i hvis Haand jeg vilde lægge mit Livs Lykke. Alt vil jeg vove for at vinde ham og en udødelig Sjæl! Mens mine Søstre dandse derinde i min Faders Slot, vil jeg gaae til Havhexen, hende jeg altid har været saa angest for, men hun kan maaskee raade og hjælpe!«

Nu gik den lille Havfrue ud af sin Have hen imod de brusende Malstrømme, bag hvilke Hexen boede. Den Vei havde hun aldrig før gaaet, der voxte ingen Blomster, intet Søegræs, kun den nøgne graae Sandbund strakte sig hen imod Malstrømmene, hvor Vandet, som brusende Møllehjul, hvirvlede rundt og rev alt, hvad de fik fat paa, med sig ned i Dybet; midt imellem disse knusende Hvirvler maatte hun gaae, for at komme ind paa Havhexens Distrikt, og her var et langt Stykke ikke anden Vei, end over varmt boblende Dynd, det kaldte Hexen sin Tørvemose. Bag ved laae hendes Huus midt inde i en sælsom Skov. Alle Træer og Buske vare Polyper, halv Dyr og halv Plante, de saae ud, som hundredhovede Slanger, der voxte ud af Jorden; alle Grene vare lange slimede Arme, med Fingre som smidige Orme, og Leed for Leed bevægede de sig fra Roden til den yderste Spidse. Alt hvad de i Havet kunde gribe fat paa, snoede de sig fast om og gav aldrig mere Slip paa. Den lille Havfrue blev ganske forskrækket staaende der udenfor; hendes Hjerte bankede af Angst, nær havde hun vendt om, men saa tænkte hun paa Prindsen og paa Menneskets Sjæl, og da fik hun Mod. Sit lange flagrende Haar bandt hun fast om Hovedet, for at Polyperne ikke skulde gribe hende deri, begge Hænder lagde hun sammen over sit Bryst, og fløi saa afsted, som Fisken kan flyve gjennem Vandet, ind imellem de hæslige Polyper, der strakte deres smidige Arme og Fingre efter hende. Hun saae, hvor hver af dem havde noget, den havde grebet, hundrede smaa Arme holdt det, som stærke Jernbaand. Mennesker, som vare omkomne paa Søen og sjunkne dybt derned, tittede, som hvide Beenrade frem i Polypernes Arme. Skibsroer og Kister holdte de fast, Skeletter af Landdyr og en lille Havfrue, som de havde fanget og qvalt, det var hende næsten det forskrækkeligste.

Nu kom hun til en stor slimet Plads i Skoven, hvor store, fede Vandsnoge baltrede sig og viste deres stygge hvidgule Bug. Midt paa Pladsen var reist et Huus af strandede Menneskers hvide Been, der sad Havhexen og lod en Skruptudse spise af sin Mund, ligesom Menneskene lader en lille Kanarifugl spise Sukker. De hæslige fede Vandsnoge kaldte hun sine smaae Kyllinger og lod dem vælte sig paa hendes store, svampede Bryst.

»Jeg veed nok, hvad du vil!« sagde Havhexen, »det er dumt gjort af dig! alligevel skal du faae din Villie, for den vil bringe dig i Ulykke, min deilige Prindsesse. Du vil gjerne af med din Fiskehale og istedetfor den have to Stumper at gaae paa ligesom Menneskene, for at den unge Prinds kan blive forliebt i dig og du kan faae ham og en udødelig Sjæl!« idetsamme loe Hexen saa høit og fælt, at Skruptudsen og Snogene faldt ned paa Jorden og væltede sig der. »Du kommer netop i rette Tid,« sagde Hexen, »imorgen, naar Sol staaer op, kunde jeg ikke hjælpe dig, før igjen et Aar var omme. Jeg skal lave dig en Drik, med den skal du, før Sol staaer op, svømme til Landet, sætte dig paa Bredden der og drikke den, da skilles din Hale ad og snerper ind til hvad Menneskene kalde nydelige Been, men det gjør ondt, det er som det skarpe Sværd gik igjennem dig. Alle, som see dig, ville sige, du er det deiligste Menneskebarn de have seet! du beholder din svævende Gang, ingen Dandserinde kan svæve som du, men hvert Skridt du gjør, er som om du traadte paa en skarp Kniv, saa dit Blod maatte flyde. Vil du lide alt dette, saa skal jeg hjælpe dig?«

»Ja!« sagde den lille Havfrue med bævende Stemme, og tænkte paa Prindsen og paa at vinde en udødelig Sjæl.

»Men husk paa,« sagde Hexen, »naar du først har faaet menneskelig Skikkelse, da kan du aldrig mere blive en Havfrue igjen! du kan aldrig stige ned igjennem Vandet til dine Søstre og til din Faders Slot, og vinder du ikke Prindsens Kjærlighed, saa han for dig glemmer Fader og Moder, hænger ved dig med sin hele Tanke og lader Præsten lægge Eders Hænder i hinanden, saa at I blive Mand og Kone, da faaer du ingen udødelig Sjæl! den første Morgen efter at han er gift med en anden, da maa dit Hjerte briste, og du bliver Skum paa Vandet.«

»Jeg vil det!« sagde den lille Havfrue og var bleg, som en Død.

»Men mig maa du ogsaa betale!« sagde Hexen, »og det er ikke Lidet, hvad jeg forlanger. Du har den deiligste Stemme af alle hernede paa Havets Bund, med den troer du nok at skulle fortrylle ham, men den Stemme skal du give mig. Det Bedste du eier vil jeg have for min kostelige Drik! mit eget Blod maa jeg jo give dig deri, at Drikken kan blive skarp, som et tveægget Sværd!«

»Men naar du tager min Stemme,« sagde den lille Havfrue, »hvad beholder jeg da tilbage?«

»Din deilige Skikkelse,« sagde Hexen, »din svævende Gang og dine talende Øine, med dem kan du nok bedaare et Menneskehjerte. Naa, har du tabt Modet! ræk frem din lille Tunge, saa skjærer jeg den af, i Betaling, og du skal faae den kraftige Drik!«

»Det skee!« sagde den lille Havfrue, og Hexen satte sin Kjedel paa, for at koge Trolddrikken. »Reenlighed er en god Ting!« sagde hun og skurede Kjedelen af med Snogene, som hun bandt i Knude; nu ridsede hun sig selv i Brystet og lod sit sorte Blod droppe derned, Dampen gjorde de forunderligste Skikkelser, saa man maatte blive angest og bange. Hvert Øieblik kom Hexen nye Ting i Kjedelen, og da det ret kogte, var det, som naar Crokodillen græder. Tilsidst var Drikken færdig, den saae ud som det klareste Vand!

»Der har du den!« sagde Hexen og skar Tungen af den lille Havfrue, som nu var stum, kunde hverken synge eller tale.

»Dersom Polyperne skulde gribe dig, naar du gaaer tilbage igjennem min Skov,« sagde Hexen, »saa kast kun een eneste Draabe af denne Drik paa dem, da springe deres Arme og Fingre i tusinde Stykker!« men det behøvede den lille Havfrue ikke, Polyperne trak sig forskrækkede tilbage for hende, da de saae den skinnende Drik, der lyste i hendes Haand, ligesom det var en funklende Stjerne. Saaledes kom hun snart igjennem Skoven, Mosen og de brusende Malstrømme.

Hun kunde see sin Faders Slot; Blussene vare slukkede i den store Dandsesal; de sov vist Alle derinde, men hun vovede dog ikke at søge dem, nu hun var stum og vilde for altid gaae bort fra dem. Det var, som hendes Hjerte skulde gaae itu af Sorg. Hun sneeg sig ind i Haven, tog een Blomst af hver af sine Søstres Blomsterbed, kastede med Fingren tusinde Kys henimod Slottet, og steeg op igjennem den mørkeblaa Sø.

Solen var endnu ikke kommet frem, da hun saae Prindsens Slot og besteg den prægtige Marmortrappe. Maanen skinnede deiligt klart. Den lille Havfrue drak den brændende skarpe Drik, og det var, som gik et tveægget Sværd igjennem hendes fine Legeme, hun besvimede derved og laae, som død. Da Solen skinnede hen over Søen, vaagnede hun op, og hun følte en sviende Smerte, men lige for hende stod den deilige unge Prinds, han fæstede sine kulsorte Øine paa hende, saa hun slog sine ned og saae, at hendes Fiskehale var borte, og at hun havde de nydeligste smaae, hvide Been, nogen lille Pige kunde have, men hun var ganske nøgen, derfor svøbte hun sig ind i sit store, lange Haar. Prindsen spurgte, hvem hun var, og hvorledes hun var kommet her, og hun saae mildt og dog saa bedrøvet paa ham med sine mørkeblaae Øine, tale kunde hun jo ikke. Da tog han hende ved Haanden og førte hende ind i Slottet. Hvert Skridt hun gjorde, var, som Hexen havde sagt hende forud, som om hun traadte paa spidse Syle og skarpe Knive, men det taalte hun gjerne; ved Prindsens Haand steeg hun saa let, som en Boble, og han og alle undrede sig over hendes yndige, svævende Gang.

Kostelige Klæder af Silke og Musselin fik hun paa, i Slottet var hun den skjønneste af Alle, men hun var stum, kunde hverken synge eller tale. Deilige Slavinder, klædte i Silke og Guld, kom frem og sang for Prindsen og hans kongelige Forældre; een sang smukkere end alle de andre og Prindsen klappede i Hænderne og smilede til hende, da blev den lille Havfrue bedrøvet, hun vidste, at hun selv havde sjunget langt smukkere! hun tænkte, »O han skulde bare vide, at jeg, for at være hos ham, har givet min Stemme bort i al Evighed!«

Nu dandsede Slavinderne i yndige svævende Dandse til den herligste Musik, da hævede den lille Havfrue sine smukke hvide Arme, reiste sig paa Taaspidsen og svævede hen over Gulvet, dandsede, som endnu ingen havde dandset; ved hver Bevægelse blev hendes Deilighed endnu mere synlig, og hendes Øine talte dybere til Hjertet, end Slavindernes Sang.

Alle vare henrykte derover, især Prindsen, som kaldte hende sit lille Hittebarn, og hun dandsede meer og meer, skjøndt hver Gang hendes Fod rørte Jorden, var det, som om hun traadte paa skarpe Knive. Prindsen sagde, at hun skulde alletider være hos ham, og hun fik Lov at sove udenfor hans Dør paa en Fløiels Pude.

Han lod hende sye en Manddragt, for at hun til Hest kunde følge ham. De rede gjennem de duftende Skove, hvor de grønne Grene sloge hende paa Skulderen og de smaa Fugle sang bag de friske Blade. Hun klattrede med Prindsen op paa de høie Bjerge, og skjønt hendes fine Fødder blødte, saa de Andre kunde see det, loe hun dog deraf og fulgte ham, til de saae Skyerne seile nede under sig, som var det en Flok Fugle, der drog til fremmede Lande.

Hjemme paa Prindsens Slot, naar om Natten de andre sov, gik hun ud paa den brede Marmortrappe, og det kjølede hendes brændende Fødder, at staae i det kolde Søvand, og da tænkte hun paa dem dernede i Dybet.

Een Nat kom hendes Søstre Arm i Arm, de sang saa sorrigfuldt, idet de svømmede over Vandet, og hun vinkede ad dem, og de kjendte hende og fortalte, hvor bedrøvet hun havde gjort dem allesammen. Hver Nat besøgte de hende siden, og een Nat saae hun, langt ude, den gamle Bedstemoder, som i mange Aar ikke havde været over Havet, og Havkongen, med sin Krone paa Hovedet, de strakte Hænderne hen mod hende, men vovede sig ikke saa nær Landet, som Søstrene.

Dag for Dag blev hun Prindsen kjærere, han holdt af hende, som man kan holde af et godt, kjært Barn, men at gjøre hende til sin Dronning, faldt ham slet ikke ind, og hans Kone maatte hun blive, ellers fik hun ingen udødelig Sjæl, men vilde paa hans Bryllups Morgen blive Skum paa Søen.

»Holder du ikke meest af mig, blandt dem allesammen!« syntes den lille Havfrues Øine at sige, naar han tog hende i sine Arme og kyssede hendes smukke Pande.

»Jo, du er mig kjærest!« sagde Prindsen, »thi du har det bedste Hjerte af dem Alle, du er mig meest hengiven, og du ligner en ung Pige jeg engang saae, men vistnok aldrig mere finder. Jeg var paa et Skib, som strandede, Bølgerne dreve mig i Land ved et helligt Tempel, hvor flere unge Piger gjorde Tjeneste, den yngste der fandt mig ved Strandbredden og reddede mit Liv, jeg saae hende kun to Gange; hun var den eneste, jeg kunde elske i denne Verden, men du ligner hende, du næsten fortrænger hendes Billede i min Sjæl, hun hører det hellige Tempel til, og derfor har min gode Lykke sendt mig dig, aldrig ville vi skilles!« — »Ak, han veed ikke, at jeg har reddet hans Liv!« tænkte den lille Havfrue, »jeg bar ham over Søen hen til Skoven, hvor Templet staaer, jeg sad bag Skummet og saae efter, om ingen Mennesker vilde komme. Jeg saae den smukke Pige, som han holder mere af, end mig!« og Havfruen sukkede dybt, græde kunde hun ikke. »Pigen hører det hellige Tempel til, har han sagt, hun kommer aldrig ud i Verden, de mødes ikke mere, jeg er hos ham, seer ham hver Dag, jeg vil pleie ham, elske ham, ofre ham mit Liv!«

Men nu skal Prindsen giftes og have Nabokongens deilige Datter! fortalte man, derfor er det, at han udruster saa prægtigt et Skib. Prindsen reiser for at see Nabokongens Lande, hedder det nok, men det er for at see Nabokongens Datter, et stort Følge skal han have med; men den lille Havfrue rystede med Hovedet og loe; hun kjendte Prindsens Tanker meget bedre, end alle de Andre. »Jeg maa reise!« havde han sagt til hende, »jeg maa see den smukke Prindsesse, mine Forældre forlange det, men tvinge mig til at føre hende her hjem, som min Brud, ville de ikke! jeg kan ikke elske hende! hun ligner ikke den smukke Pige i Templet, som du ligner, skulde jeg engang vælge en Brud, saa blev det snarere dig, mit stumme Hittebarn med de talende Øine!« og han kyssede hendes røde Mund, legede med hendes lange Haar og lagde sit Hoved ved hendes Hjerte, saa det drømte om Menneske-Lykke og en udødelig Sjæl.

»Du er dog ikke bange for Havet, mit stumme Barn!« sagde han, da de stode paa det prægtige Skib, som skulde føre ham til Nabokongens Lande; og han fortalte hende om Storm og Havblik, om sælsomme Fiske i Dybet og hvad Dykkeren der havde seet, og hun smilte ved hans Fortælling, hun vidste jo bedre, end nogen Anden, Besked om Havets Bund.

I den maaneklare Nat, naar de alle sov, paa Styrmanden nær, som stod ved Roret, sad hun ved Relingen af Skibet og stirrede ned igjennem det klare Vand, og hun syntes at see sin Faders Slot, øverst deroppe stod den gamle Bedstemoder med Sølvkronen paa Hovedet og stirrede op igjennem de stride Strømme mod Skibets Kjøl. Da kom hendes Søstre op over Vandet, de stirrede sorrigfuldt paa hende og vrede deres hvide Hænder, hun vinkede ad dem, smilte og vilde fortælle, at Alt gik hende godt og lykkeligt, men Skibsdrengen nærmede sig hende og Søstrene dykkede ned, saa han blev i den Tro, at det Hvide, han havde seet, var Skum paa Søen.

Næste Morgen seilede Skibet ind i Havnen ved Nabokongens prægtige Stad. Alle Kirkeklokker ringede, og fra de høie Taarne blev blæst i Basuner, mens Soldaterne stode med vaiende Faner og blinkende Bajonetter. Hver Dag havde en Fest. Bal og Selskab fulgte paa hinanden, men Prindsessen var der endnu ikke, hun opdroges langtderfra i et helligt Tempel, sagde de, der lærte hun alle kongelige Dyder. Endelig indtraf hun.

Den lille Havfrue stod begjærlig efter at see hendes Skjønhed, og hun maatte erkjende den, en yndigere Skikkelse havde hun aldrig seet. Huden var saa fiin og skjær, og bag de lange mørke Øienhaar smilede et Par sorteblaae trofaste Øine!

»Det er dig!« sagde Prindsen, »dig, som har frelst mig, da jeg laae som et Liig ved Kysten!« og han trykkede sin rødmende Brud i sine Arme. »O jeg er altfor lykkelig!« sagde han til den lille Havfrue. »Det Bedste, det jeg aldrig turde haabe, er blevet opfyldt for mig. Du vil glæde dig ved min Lykke, thi du holder meest af mig blandt dem Alle!« Og den lille Havfrue kyssede hans Haand, og hun syntes alt at føle sit Hjerte briste. Hans Bryllups Morgen vilde jo give hende Døden og forvandle hende til Skum paa Søen.

Alle Kirkeklokker ringede, Herolderne rede om i Gaderne og forkyndte Trolovelsen. Paa alle Altre brændte duftende Olie i kostelige Sølvlamper. Præsterne svingede Røgelsekar og Brud og Brudgom rakte hinanden Haanden og fik Biskoppens Velsignelse. Den lille Havfrue stod i Silke og Guld og holdt Brudens Slæb, men hendes Øre hørte ikke den festlige Musik, hendes Øie saae ikke den hellige Ceremonie, hun tænkte paa sin Dødsnat, paa Alt hvad hun havde tabt i denne Verden.

Endnu samme Aften gik Brud og Brudgom ombord paa Skibet, Kanonerne løde, alle Flagene vaiede, og midt paa Skibet var reist et kosteligt Telt af Guld og Purpur og med de deiligste Hynder, der skulde Brudeparret sove i den stille, kjølige Nat.

Seilene svulmede i Vinden, og Skibet gled let og uden stor Bevægelse hen over den klare Sø.

Da det mørknedes, tændtes brogede Lamper og Søfolkene dandsede lystige Dandse paa Dækket. Den lille Havfrue maatte tænke paa den første Gang hun dykkede op af Havet og saae den samme Pragt og Glæde, og hun hvirvlede sig med i Dandsen, svævede, som Svalen svæver naar den forfølges, og alle tiljublede hende Beundring, aldrig havde hun dandset saa herligt; det skar som skarpe Knive i de fine Fødder, men hun følte det ikke; det skar hende smerteligere i Hjertet. Hun vidste, det var den sidste Aften hun saae ham, for hvem hun havde forladt sin Slægt og sit Hjem, givet sin deilige Stemme og daglig lidt uendelige Qvaler, uden at han havde Tanke derom. Det var den sidste Nat, hun aandede den samme Luft som han, saae det dybe Hav og den stjerneblaae Himmel, en evig Nat uden Tanke og Drøm ventede hende, som ei havde Sjæl, ei kunde vinde den. Og Alt var Glæde og Lystighed paa Skibet til langt over Midnat, hun loe og dandsede med Dødstanken i sit Hjerte. Prindsen kyssede sin deilige Brud, og hun legede med hans sorte Haar, og Arm i Arm gik de til Hvile i det prægtige Telt.

Der blev tyst og stille paa Skibet, kun Styrmanden stod ved Roret, den lille Havfrue lagde sine hvide Arme paa Relingen og saae mod Østen efter Morgenrøden, den første Solstraale, vidste hun, vilde dræbe hende. Da saae hun sine Søstre stige op af Havet, de vare blege, som hun; deres lange smukke Haar flagrede ikke længer i Blæsten, det var afskaaret.

»Vi have givet det til Hexen, for at hun skulde bringe Hjælp, at du ikke denne Nat skal døe! Hun har givet os en Kniv, her er den! seer du hvor skarp? Før Sol staaer op, maa du stikke den i Prindsens Hjerte, og naar da hans varme Blod stænker paa dine Fødder, da voxe de sammen til en Fiskehale og du bliver en Havfrue igjen, kan stige ned i Vandet til os og leve dine tre Hundrede Aar, før du bliver det døde, salte Søeskum. Skynd dig! han eller du maa døe, før Sol staaer op! vor gamle Bedstemoder sørger, saa hendes hvide Haar er faldet af, som vort faldt for Hexens Sax. Dræb Prindsen og kom tilbage! Skynd dig, seer du den røde Stribe paa Himlen? Om nogle Minuter stiger Solen, og da maa du døe!« og de udstødte et forunderligt dybt Suk og sank i Bølgerne.

Den lille Havfrue trak Purpurtæppet bort fra Teltet, og hun saae den deilige Brud sove med sit Hoved ved Prindsens Bryst, og hun bøiede sig ned, kyssede ham paa hans smukke Pande, saae paa Himlen, hvor Morgenrøden lyste meer og meer, saae paa den skarpe Kniv og fæstede igjen Øinene paa Prindsen, der i Drømme nævnede sin Brud ved Navn, hun kun var i hans Tanker, og Kniven zittrede i Havfruens Haand, — men da kastede hun den langt ud i Bølgerne, de skinnede røde, hvor den faldt, det saae ud, som piblede der Blodsdraaber op af Vandet. Endnu engang saae hun med halvbrustne Blik paa Prindsen, styrtede sig fra Skibet ned i Havet, og hun følte, hvor hendes Legeme opløste sig i Skum.

Nu steeg Solen frem af Havet, Straalerne faldt saa mildt og varmt paa det dødskolde Havskum og den lille Havfrue følte ikke til Døden, hun saae den klare Sol, og oppe over hende svævede hundrede gjennemsigtige, deilige Skabninger; hun kunde gjennem dem see Skibets hvide Seil og Himlens røde Skyer, deres Stemme var Melodie, men saa aandig, at intet menneskeligt Øre kunde høre den, ligesom intet jordisk Øie kunde see dem; uden Vinger svævede de ved deres egen Lethed gjennem Luften. Den lille Havfrue saae, at hun havde et Legeme som de, det hævede sig meer og meer op af Skummet.

»Til hvem kommer jeg!« sagde hun, og hendes Stemme klang som de andre Væsners, saa aandigt, at ingen jordisk Musik kan gjengive det.

»Til Luftens Døttre!« svarede de andre. »Havfruen har ingen udødelig Sjæl, kan aldrig faae den, uden hun vinder et Menneskes Kjærlighed! af en fremmed Magt afhænger hendes evige Tilværelse. Luftens Døttre have heller ingen evig Sjæl, men de kunne selv ved gode Handlinger skabe sig een. Vi flyve til de varme Lande, hvor den lumre Pestluft dræber Menneskene; der vifte vi Kjøling. Vi sprede Blomsternes Duft gjennem Luften og sende Vederqvægelse og Lægedom. Naar vi i tre hundred Aar have stræbt at gjøre det Gode, vi kunne, da faae vi en udødelig Sjæl og tage Deel i Menneskenes evige Lykke. Du stakkels lille Havfrue har med hele dit Hjerte stræbt efter det samme, som vi, du har lidt og taalt, hævet dig til Luftaandernes Verden, nu kan du selv gjennem gode Gjerninger skabe dig en udødelig Sjæl om tre hundred Aar.«

Og den lille Havfrue løftede sine klare Arme op mod Guds Sol, og for første Gang følte hun Taarer. — Paa Skibet var igjen Støi og Liv, hun saae Prindsen med sin smukke Brud søge efter hende, veemodig stirrede de paa det boblende Skum, som om de vidste, hun havde styrtet sig i Bølgerne. Usynlig kyssede hun Brudens Pande, smiilte til ham og steeg med de andre Luftens Børn op paa den rosenrøde Sky, som seilede i Luften.

»Om trehundrede Aar svæve vi saaledes ind i Guds Rige!«

»Ogsaa tidligere kunne vi komme der!« hviskede een. »Usynligt svæve vi ind i Menneskenes Huse, hvor der er Børn, og for hver Dag vi finde et godt Barn, som gjør sine Forældre Glæde og fortjener deres Kjærlighed, forkorter Gud vor Prøvetid. Barnet veed ikke, naar vi flyve gjennem Stuen, og maae vi da af Glæde smile over det, da tages et Aar fra de trehundrede, men see vi et uartigt og ondt Barn, da maae vi græde Sorgens Graad, og hver Taare lægger en Dag til vor Prøvetid!« —

A Pequena Sereia

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
Consultar esta edição ↗
Encontrou um erro?

Uma palavra, uma passagem, uma referência: sua observação chega à mesa editorial vinculada à edição 1.0.0 que você leu.