AC 007

A Raposa e o Lobo

Adolfo Coelho

A raposa e o lobo

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Era uma raposa e viu uns cães de caça, e eles disseram-lhe:

— Ó comadre, anda aqui para onde a nós; veio agora uma ordem dos bichos não fazerem mal uns aos outros.

Ela disse-lhe:

— Eu venho logo, que vou ver se aquele meu compadre se quer utilizar da mesma ordem e vir para aqui onde a nós.

O compadre era um galo. Nisto passou aí um caçador e disse-lhe:

— Ó raposa, queres tu galinhas?

— Eu quero.

— Pois então anda à tarde a minha casa, que eu tenho lá uma capoeira delas.

O caçador tinha uma dúzia de cães de caça metidos numa corte e soltou os cães à raposa. Nisto ela deitou a correr, e o galo estava em cima de uma parede e gritava-lhe:

— Mostra-lhes a ordem, mostra-lhes a ordem.

A raposa escapou-se dos cães e foi a um campo que tinha o tal caçador e que era de milho; saltava para dentro — alagava uma pedra; saltava para fora — alagava outra, até que fez um portelo por onde podia passar o gado. Viu um burro e disse-lhe:

— Ó compadre, queres milho?

— Quero.

— Então entra para dentro, que eu hei de pagar ao caçador o engano que ele me fez.

O burro comeu tanto milho que lhe saiu o sesso de fora; depois veio um corvelho, e a raposa disse-lhe:

— Ó compadre, queres tu carne?

— Eu quero, sim.

— Pois então vai ali.

E indicou-lhe o sesso do burro, onde ele foi picar, e o burro enganou-o aos coices. Depois a raposa encontrou um lobo e disse-lhe:

— Ó compadre, queres tu? Vamos tomar um afilhado.

Foram para diante e encontraram uma gente que estava a fazer um molho de centeio, e vai ela disse-lhe:

— Olha, ó compadre, chega-te ali para o pé daqueles homens da malha, que eles dão atrás de ti e, no entanto, pilho-lhes eu a panela do arroz.

Assim fizeram; os homens deram atrás do lobo, e a raposa meteu a cabeça dentro da panela, comeu o que pôde e quebrou a panela; chegou ao pé do lobo:

— Como passaste, compadre?

— Ora; deram com as malhas atrás de mim, que estou morto de cansaço.

— Olha para mim; quebraram-me a cabeça, que até estou com os miolos fora.

Os miolos eram os grelos do arroz que tinha na cabeça.

O lobo disse-lhe que lhe deixasse lamber os miolos, que eram muito bons. Depois ela disse-lhe:

— Deitemo-nos agora aqui um pouco, que eu venho muito enfadada.

Ela deixou adormecer o lobo e foi tomar o afilhado, que era comer um cabrito.

Depois toparam um velho numa cozinha e disseram-lhe:

— Ó velhote, queres que nós vamos fazer uma boda?

Depois juntaram-se o lobo, a raposa e um coelho; o lobo devia de levar um cabrito, a raposa uma galinha e o coelho a salsa. Assim fizeram. O velho foi o primeiro que chegou com um raminho de salsa e o velho atirou-lhe com um pau e matou-o; ao lobo meteu-lhe um espeto pelo c... e à raposa pegou-lhe pelo rabo e arrastou-a pelo borralho. Fugiram a raposa e o lobo e, quando estavam longe, disse o lobo:

— Não vamos lá; o diabo do velho meteu-me um dedo tão quente, tão quente pelo c... acima que parecia um espeto quente.

Depois disse a raposa:

— Eu vou ver o que o velho faz; se ele estiver a dormir, ainda lhe vamos pilhar a boda.

Chegou lá à porta, e o velho, que tinha acabado de comer, estava a limpar as barbas com um pano. Ela chegou ao lobo e disse:

— Olha, compadre; vamo-nos embora, que o velho está a puxar pelas barbas, que nós que lha havemos de pagar, que nos há de matar.

— Pois vamo-nos embora.

Vinham para casa e anoiteceu-lhes no caminho e viram a sombra da lua num poço. Disse então a raposa:

— Olha que ali naquele poço está uma broa dentro; vamos tirá-la.

— Nós como é que havemos de fazer?

— Olha; bebemos a água; enchemos a barriga e depois vamos mijar e assim tiramos a água do poço.

Foram beber, mas a raposa não bebia quase nada porque, apenas tinha bebido alguma água, dizia:

— Ai, tenho a minha barriga tão cheia.

Mas o pobre do lobo bebia muito e tanto bebeu que arrebentou e morreu.

Depois a raposa juntou-se e mais a garça para fazerem um caldo de farinha; a garça fez o caldo numa almotolia; meteu o bico e bebeu tudo, porque a raposa não podia bebê-lo pela almotolia. Depois a garça disse-lhe:

— Tu já me convidaste para a tua boda; agora vou-te eu convidar para uma boda que há no céu.

— Eu como hei de ir?

— Vais nas minhas asas.

Foi; a garça, assim que estava mais enfadada, disse-lhe:

— Tem-te, comadre, enquanto eu escupo (1) em mão.

Larga a raposa, e esta, quando vinha a cair, dizia:

“Isto vai de déo em déo;
Se eu desta escapo
Não torno às bodas ao céu.”

Estava da banda de baixo um penedo grande e ela disse:

— Arreda, laje, que te parto.

Nisto caiu sobre a fraga e arrebentou. (2)

(Ourilhe.)


(1) Corrupção por cuspo.

(2) Quase todos os episódios que formam o conto anterior se encontram separados em contos independentes ou ligados a outros diferentes; as variantes oferecem-se em grande número, mais ou menos curiosas. O ciclo popular do Renard é talvez mais vasto no meu país do que se pode julgar pelo que dele tenho colhido. Os contos seguintes, conquanto ofereçam apenas variantes de episódios do antecedente, julgamos dever publicá-los por inteiro.


Sobre esta edição

Obra
A raposa e o lobo
Autoria original
Adolfo Coelho
Texto em português
Texto original
Edição publicada
1.0.0
Produção
Codex · edição textual por IA (Coelho)
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
03/11/2026

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As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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