AC 007
A Raposa e o Lobo
A raposa e o lobo
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Texto do conto
Era uma raposa e viu uns cães de caça, e eles disseram-lhe:
— Ó comadre, anda aqui para onde a nós; veio agora uma ordem dos bichos não fazerem mal uns aos outros.
Ela disse-lhe:
— Eu venho logo, que vou ver se aquele meu compadre se quer utilizar da mesma ordem e vir para aqui onde a nós.
O compadre era um galo. Nisto passou aí um caçador e disse-lhe:
— Ó raposa, queres tu galinhas?
— Eu quero.
— Pois então anda à tarde a minha casa, que eu tenho lá uma capoeira delas.
O caçador tinha uma dúzia de cães de caça metidos numa corte e soltou os cães à raposa. Nisto ela deitou a correr, e o galo estava em cima de uma parede e gritava-lhe:
— Mostra-lhes a ordem, mostra-lhes a ordem.
A raposa escapou-se dos cães e foi a um campo que tinha o tal caçador e que era de milho; saltava para dentro — alagava uma pedra; saltava para fora — alagava outra, até que fez um portelo por onde podia passar o gado. Viu um burro e disse-lhe:
— Ó compadre, queres milho?
— Quero.
— Então entra para dentro, que eu hei de pagar ao caçador o engano que ele me fez.
O burro comeu tanto milho que lhe saiu o sesso de fora; depois veio um corvelho, e a raposa disse-lhe:
— Ó compadre, queres tu carne?
— Eu quero, sim.
— Pois então vai ali.
E indicou-lhe o sesso do burro, onde ele foi picar, e o burro enganou-o aos coices. Depois a raposa encontrou um lobo e disse-lhe:
— Ó compadre, queres tu? Vamos tomar um afilhado.
Foram para diante e encontraram uma gente que estava a fazer um molho de centeio, e vai ela disse-lhe:
— Olha, ó compadre, chega-te ali para o pé daqueles homens da malha, que eles dão atrás de ti e, no entanto, pilho-lhes eu a panela do arroz.
Assim fizeram; os homens deram atrás do lobo, e a raposa meteu a cabeça dentro da panela, comeu o que pôde e quebrou a panela; chegou ao pé do lobo:
— Como passaste, compadre?
— Ora; deram com as malhas atrás de mim, que estou morto de cansaço.
— Olha para mim; quebraram-me a cabeça, que até estou com os miolos fora.
Os miolos eram os grelos do arroz que tinha na cabeça.
O lobo disse-lhe que lhe deixasse lamber os miolos, que eram muito bons. Depois ela disse-lhe:
— Deitemo-nos agora aqui um pouco, que eu venho muito enfadada.
Ela deixou adormecer o lobo e foi tomar o afilhado, que era comer um cabrito.
Depois toparam um velho numa cozinha e disseram-lhe:
— Ó velhote, queres que nós vamos fazer uma boda?
Depois juntaram-se o lobo, a raposa e um coelho; o lobo devia de levar um cabrito, a raposa uma galinha e o coelho a salsa. Assim fizeram. O velho foi o primeiro que chegou com um raminho de salsa e o velho atirou-lhe com um pau e matou-o; ao lobo meteu-lhe um espeto pelo c... e à raposa pegou-lhe pelo rabo e arrastou-a pelo borralho. Fugiram a raposa e o lobo e, quando estavam longe, disse o lobo:
— Não vamos lá; o diabo do velho meteu-me um dedo tão quente, tão quente pelo c... acima que parecia um espeto quente.
Depois disse a raposa:
— Eu vou ver o que o velho faz; se ele estiver a dormir, ainda lhe vamos pilhar a boda.
Chegou lá à porta, e o velho, que tinha acabado de comer, estava a limpar as barbas com um pano. Ela chegou ao lobo e disse:
— Olha, compadre; vamo-nos embora, que o velho está a puxar pelas barbas, que nós que lha havemos de pagar, que nos há de matar.
— Pois vamo-nos embora.
Vinham para casa e anoiteceu-lhes no caminho e viram a sombra da lua num poço. Disse então a raposa:
— Olha que ali naquele poço está uma broa dentro; vamos tirá-la.
— Nós como é que havemos de fazer?
— Olha; bebemos a água; enchemos a barriga e depois vamos mijar e assim tiramos a água do poço.
Foram beber, mas a raposa não bebia quase nada porque, apenas tinha bebido alguma água, dizia:
— Ai, tenho a minha barriga tão cheia.
Mas o pobre do lobo bebia muito e tanto bebeu que arrebentou e morreu.
Depois a raposa juntou-se e mais a garça para fazerem um caldo de farinha; a garça fez o caldo numa almotolia; meteu o bico e bebeu tudo, porque a raposa não podia bebê-lo pela almotolia. Depois a garça disse-lhe:
— Tu já me convidaste para a tua boda; agora vou-te eu convidar para uma boda que há no céu.
— Eu como hei de ir?
— Vais nas minhas asas.
Foi; a garça, assim que estava mais enfadada, disse-lhe:
— Tem-te, comadre, enquanto eu escupo (1) em mão.
Larga a raposa, e esta, quando vinha a cair, dizia:
“Isto vai de déo em déo;
Se eu desta escapo
Não torno às bodas ao céu.”
Estava da banda de baixo um penedo grande e ela disse:
— Arreda, laje, que te parto.
Nisto caiu sobre a fraga e arrebentou. (2)
(Ourilhe.)
(1) Corrupção por cuspo.
(2) Quase todos os episódios que formam o conto anterior se encontram separados em contos independentes ou ligados a outros diferentes; as variantes oferecem-se em grande número, mais ou menos curiosas. O ciclo popular do Renard é talvez mais vasto no meu país do que se pode julgar pelo que dele tenho colhido. Os contos seguintes, conquanto ofereçam apenas variantes de episódios do antecedente, julgamos dever publicá-los por inteiro.
Sobre esta edição
- Obra
- A raposa e o lobo
- Autoria original
- Adolfo Coelho
- Texto em português
- Texto original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Produção
- Codex · edição textual por IA (Coelho)
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 03/11/2026
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A Raposa e o Lobo
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