AC 002

História da Carochinha

Adolfo Coelho

Historia da carochinha

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Era uma vez uma carochinha que estava varrendo a casa e achou cinco réis. Foi logo procurar uma vizinha e perguntou:

— Ó vizinha, que hei de fazer com estes cinco réis?

A vizinha respondeu:

— Compre doces.

— Nada, nada, que é lambarice.

Foi procurar outra vizinha, que lhe disse o mesmo. Depois foi ainda procurar outra, que lhe disse:

— Compre fitas, flores, braceletes e brincos, vá se pôr à janela e diga:

Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?

A carochinha foi comprar muitas fitas, rendas, flores, braceletes de ouro e brincos; enfeitou-se muito enfeitada e foi se pôr à janela, dizendo:

«Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?»

Passou um boi e disse:

— Quero eu.

— Como é a sua fala?

— Ú, ú...

— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.

Depois tornou outra vez a dizer:

«Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?»

Passou um burro e disse:

— Quero eu.

— Como é a sua fala?

— En ó... en ó...

— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.

Depois passou um porco e a carochinha lhe disse:

— Deixe-me ouvir a sua fala.

— On, on, on.

— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.

Passou um cão e a carochinha lhe disse:

— Deixe-me ouvir a sua fala.

— Béu, béu.

— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.

Passou um gato.

— Como é a sua fala?

— Miau, miau.

— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.

Passou um ratinho e disse:

— Quero eu.

— Como é a sua fala?

— Chi, chi, chi.

— Você sim, você sim; quero casar com você — disse a carochinha.

Então o ratinho casou com a carochinha e ficou se chamando João Ratão. Viveram alguns dias muito felizes, mas, quando chegou o domingo, a carochinha disse a João Ratão que ficasse tomando conta da panela que estava ao fogo, cozinhando uns feijões para o jantar. João Ratão foi para junto do fogo e, para ver se os feijões já estavam cozidos, meteu a mão na panela, e a mão ficou lá; meteu a outra, que também ficou lá; meteu um pé, e aconteceu o mesmo. Assim, em seguida, foi caindo todo na panela e cozinhou-se com os feijões.

A carochinha voltou da missa e, como não visse João Ratão, procurou-o por todos os buracos. Não o encontrou e disse consigo:

— Ele virá quando quiser, e deixe-me ir comer os meus feijões.

Mas, ao despejar os feijões no prato, encontrou João Ratão morto e cozido com eles. Então a carochinha começou a chorar aos gritos, e uma tripeça que ela tinha em casa lhe perguntou:

«Que tens, carochinha,
Que estás aí a chorar?»

«Morreu o João Ratão
E por isso estou a chorar.»

«E eu que sou tripeça
Ponho-me a dançar.»

Disse então uma porta:

«Que tens tu, tripeça,
Que estás a dançar?»

«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
E eu que sou tripeça
Pus-me a dançar.»

«E eu que sou porta
Ponho-me a abrir e a fechar.»

Disse então uma trave:

«Que tens tu, porta,
Que estás a abrir e a fechar?»

«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
E eu que sou porta
Pus-me a abrir e a fechar.»

«E eu que sou trave
Quebro-me.»

Disse então um pinheiro:

«Que tens, trave,
Que te quebraste?»

«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
E eu quebrei-me.»

«E eu que sou pinheiro
Arranco-me.»

Vieram os passarinhos descansar no pinheiro e, vendo-o arrancado, disseram:

«Que tens, pinheiro,
Que estás no chão?»

«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
E eu arranquei-me.»

«E nós que somos passarinhos
Vamos tirar os nossos olhinhos.»

Os passarinhos tiraram os olhinhos e depois foram à fonte beber água. A fonte lhes disse:

«Por que foi, passarinhos,
Que tirastes os olhinhos?»

«Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
E nós, passarinhos,
Tiramos os olhinhos.»

«E eu que sou fonte
Seco-me.»

Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levar água da fonte; acharam-na seca e disseram:

«Que tens, fonte,
Que secaste?»

«Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
E eu sequei-me.»

«E nós quebramos os cantarinhos.»

Os meninos foram para o palácio e a rainha lhes perguntou:

«Que tendes, meninos,
Que quebrastes os cantarinhos?»

«Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
A fonte secou-se,
E nós quebramos os cantarinhos.»

«Pois eu que sou rainha
Andarei em fralda pela cozinha.»

Disse então o rei:

«E eu vou arrastar o c...
Pelas brasas.»

(Coimbra.)


Sobre esta edição

Obra
Historia da carochinha
Autoria original
Adolfo Coelho
Texto em português
Texto original
Edição publicada
1.0.0
Produção
Codex · edição textual por IA (Coelho)
Produção
Bons Filhos Educação
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Publicação
03/11/2026

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