AC 002
História da Carochinha
Historia da carochinha
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Texto do conto
Era uma vez uma carochinha que estava varrendo a casa e achou cinco réis. Foi logo procurar uma vizinha e perguntou:
— Ó vizinha, que hei de fazer com estes cinco réis?
A vizinha respondeu:
— Compre doces.
— Nada, nada, que é lambarice.
Foi procurar outra vizinha, que lhe disse o mesmo. Depois foi ainda procurar outra, que lhe disse:
— Compre fitas, flores, braceletes e brincos, vá se pôr à janela e diga:
Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?
A carochinha foi comprar muitas fitas, rendas, flores, braceletes de ouro e brincos; enfeitou-se muito enfeitada e foi se pôr à janela, dizendo:
«Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?»
Passou um boi e disse:
— Quero eu.
— Como é a sua fala?
— Ú, ú...
— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.
Depois tornou outra vez a dizer:
«Quem quer casar com a carochinha
Que é bonita e perfeitinha?»
Passou um burro e disse:
— Quero eu.
— Como é a sua fala?
— En ó... en ó...
— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.
Depois passou um porco e a carochinha lhe disse:
— Deixe-me ouvir a sua fala.
— On, on, on.
— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.
Passou um cão e a carochinha lhe disse:
— Deixe-me ouvir a sua fala.
— Béu, béu.
— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.
Passou um gato.
— Como é a sua fala?
— Miau, miau.
— Nada, nada, não me serve, que me acorda os meninos de noite.
Passou um ratinho e disse:
— Quero eu.
— Como é a sua fala?
— Chi, chi, chi.
— Você sim, você sim; quero casar com você — disse a carochinha.
Então o ratinho casou com a carochinha e ficou se chamando João Ratão. Viveram alguns dias muito felizes, mas, quando chegou o domingo, a carochinha disse a João Ratão que ficasse tomando conta da panela que estava ao fogo, cozinhando uns feijões para o jantar. João Ratão foi para junto do fogo e, para ver se os feijões já estavam cozidos, meteu a mão na panela, e a mão ficou lá; meteu a outra, que também ficou lá; meteu um pé, e aconteceu o mesmo. Assim, em seguida, foi caindo todo na panela e cozinhou-se com os feijões.
A carochinha voltou da missa e, como não visse João Ratão, procurou-o por todos os buracos. Não o encontrou e disse consigo:
— Ele virá quando quiser, e deixe-me ir comer os meus feijões.
Mas, ao despejar os feijões no prato, encontrou João Ratão morto e cozido com eles. Então a carochinha começou a chorar aos gritos, e uma tripeça que ela tinha em casa lhe perguntou:
«Que tens, carochinha,
Que estás aí a chorar?»
«Morreu o João Ratão
E por isso estou a chorar.»
«E eu que sou tripeça
Ponho-me a dançar.»
Disse então uma porta:
«Que tens tu, tripeça,
Que estás a dançar?»
«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
E eu que sou tripeça
Pus-me a dançar.»
«E eu que sou porta
Ponho-me a abrir e a fechar.»
Disse então uma trave:
«Que tens tu, porta,
Que estás a abrir e a fechar?»
«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
E eu que sou porta
Pus-me a abrir e a fechar.»
«E eu que sou trave
Quebro-me.»
Disse então um pinheiro:
«Que tens, trave,
Que te quebraste?»
«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
E eu quebrei-me.»
«E eu que sou pinheiro
Arranco-me.»
Vieram os passarinhos descansar no pinheiro e, vendo-o arrancado, disseram:
«Que tens, pinheiro,
Que estás no chão?»
«Morreu o João Ratão,
Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
E eu arranquei-me.»
«E nós que somos passarinhos
Vamos tirar os nossos olhinhos.»
Os passarinhos tiraram os olhinhos e depois foram à fonte beber água. A fonte lhes disse:
«Por que foi, passarinhos,
Que tirastes os olhinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
E nós, passarinhos,
Tiramos os olhinhos.»
«E eu que sou fonte
Seco-me.»
Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levar água da fonte; acharam-na seca e disseram:
«Que tens, fonte,
Que secaste?»
«Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
E eu sequei-me.»
«E nós quebramos os cantarinhos.»
Os meninos foram para o palácio e a rainha lhes perguntou:
«Que tendes, meninos,
Que quebrastes os cantarinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
A fonte secou-se,
E nós quebramos os cantarinhos.»
«Pois eu que sou rainha
Andarei em fralda pela cozinha.»
Disse então o rei:
«E eu vou arrastar o c...
Pelas brasas.»
(Coimbra.)
Sobre esta edição
- Obra
- Historia da carochinha
- Autoria original
- Adolfo Coelho
- Texto em português
- Texto original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Produção
- Codex · edição textual por IA (Coelho)
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Revisão
- Codex · revisão independente por IA
- Publicação
- 03/11/2026
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