AsVerdadeiras HistóriasOs contos originais, em nossa língua

KHM 178

Mestre Pfriem

Irmãos Grimm

Meister Pfriem

Sobre este conto

O sapateiro Pfriem censura todas as pessoas e se julga sempre certo. Certa noite, sonha que chega ao céu, onde o apóstolo Pedro o adverte para não criticar o que encontrar.

Personagens e estrutura
Personagens
Mestre Pfriem, sapateiro inquieto e censurador., A mulher, as criadas, o aprendiz e os oficiais de Pfriem., A moça com o balde, pedreiros, carpinteiros e um camponês., O apóstolo Pedro, anjos e habitantes do céu., O homem cuja carroça leva desejos piedosos e quatro cavalos alados.
Onde se passa
A casa e oficina de Pfriem, a rua e, durante um sonho, os portões e espaços do céu.
Acontecimentos
  1. Pfriem critica empregados e trabalhadores, bate no aprendiz e provoca acidentes enquanto censura os outros.
  2. Um aprendiz mostra que o sapato que o mestre condena foi feito pelo próprio Pfriem.
  3. No sonho, Pedro o deixa entrar no céu sob a advertência de não censurar nada.
  4. Pfriem vê anjos carregando uma viga atravessada e despejando água num barril furado para regar a terra.
  5. Ele protesta ao ver cavalos atrelados atrás de uma carroça e é expulso; então percebe que os quatro cavalos têm asas.
Desfecho
Pfriem acorda e continua criticando a disposição dos cavalos e a existência de suas asas. Decide levantar-se para impedir erros em casa e se alegra por não ter morrido de verdade.

Mestre Pfriem era um homem pequeno, magro, mas cheio de vida, que não sossegava um instante. Seu rosto, do qual só se projetava o nariz arrebitado, era marcado pela varíola e pálido como o de um morto; tinha cabelos grisalhos e desgrenhados, e olhos pequenos que não paravam de lançar olhares para a direita e para a esquerda. Percebia tudo, censurava tudo, sabia fazer tudo melhor e tinha razão em tudo. Quando andava pela rua, agitava violentamente os dois braços, como quem rema; certa vez, bateu tão forte no balde de uma moça que carregava água que o lançou bem alto e acabou levando um banho.

— Cabeça de carneiro! — gritou para ela, sacudindo-se. — Não podia ver que eu vinha atrás de você?

Era sapateiro de ofício e, quando trabalhava, puxava o fio com tanta força que enfiava o punho na barriga de qualquer um que não se mantivesse suficientemente longe. Nenhum oficial ficava com ele mais de um mês, pois sempre tinha algo a censurar até no melhor trabalho. Ora os pontos não eram iguais, ora um sapato era mais comprido ou um salto mais alto que o outro, ora o couro não fora batido o bastante.

— Espere — dizia ao aprendiz —, vou lhe mostrar como se amacia a pele na pancada.

Pegava a correia e lhe dava algumas chicotadas nas costas. Chamava todos de preguiçosos. Ele próprio, porém, não produzia grande coisa, pois não ficava sentado, quieto, nem um quarto de hora. Se a mulher se levantava bem cedo e acendia o fogo, ele pulava da cama e corria descalço para a cozinha.

— Querem incendiar minha casa? — gritava. — Isso é fogo para assar um boi! Ou a lenha não custa dinheiro?

Se as criadas estavam junto da tina de lavar, rindo e contando o que sabiam, ele ralhava com elas:

— Lá estão as gansas, grasnando e esquecendo o trabalho por causa da conversa. E para que sabão novo? Um desperdício sem tamanho e, ainda por cima, uma preguiça vergonhosa: querem poupar as mãos e não esfregar a roupa como se deve.

Saía de um salto, mas derrubava um balde cheio de lixívia, inundando a cozinha inteira. Se estavam construindo uma casa nova, corria à janela e ficava olhando.

— Lá estão eles usando de novo aquele arenito vermelho — gritava —, que nunca seca; ninguém ficará saudável nessa casa. E vejam como os oficiais assentam mal as pedras. A argamassa também não presta: precisa levar cascalho, não areia. Ainda vou ver a casa desabar sobre a cabeça dessa gente.

Sentava-se e dava alguns pontos; depois pulava de novo, soltava o avental de couro e exclamava:

— Só vou sair para ver se ponho juízo na cabeça dessa gente.

Mas acabou encontrando os carpinteiros.

— O que é isso? — gritou. — Vocês não estão cortando pelo cordel. Acham que as vigas vão ficar retas? Um dia tudo isso sai das juntas.

Arrancou o machado da mão de um carpinteiro e quis mostrar como devia cortar. Mas, quando se aproximou uma carroça carregada de barro, jogou o machado de lado e correu até o camponês que andava ao lado dela.

— O senhor não está no seu juízo! — gritou. — Quem atrela cavalos novos a uma carroça tão carregada? Os pobres animais vão cair aí mesmo.

O camponês não lhe respondeu, e Pfriem voltou furioso para a oficina. Quando ia se sentar outra vez para trabalhar, o aprendiz lhe entregou um sapato.

— O que é isso agora? — gritou para ele. — Não disse que não deviam recortar os sapatos tão abertos? Quem vai comprar um sapato que não tem quase nada além da sola? Exijo que minhas ordens sejam cumpridas sem falhas.

— Mestre — respondeu o aprendiz —, o senhor pode ter razão quando diz que o sapato não presta, mas é o mesmo que o senhor cortou e começou a fazer. Quando se levantou de um salto, há pouco, jogou-o da mesa no chão, e eu apenas o apanhei. Nem um anjo do céu conseguiria fazer algo a seu gosto.

Certa noite, mestre Pfriem sonhou que tinha morrido e estava a caminho do céu. Ao chegar, bateu com força no portão.

— É de admirar — disse — que não tenham uma argola na porta; a gente acaba ferindo os nós dos dedos de tanto bater.

O apóstolo Pedro abriu e quis ver quem pedia entrada com tanta impetuosidade.

— Ah, é o senhor, mestre Pfriem — disse. — Posso deixá-lo entrar, mas aviso que precisa abandonar seu costume e não censurar nada do que vir no céu; isso poderia acabar mal para o senhor.

— Podia ter poupado a advertência — respondeu Pfriem. — Já sei o que convém; e aqui, graças a Deus, tudo é perfeito e não há o que censurar, como há na terra.

Entrou, então, e passeou pelos amplos espaços do céu. Olhava ao redor, para a direita e para a esquerda, mas às vezes sacudia a cabeça ou resmungava alguma coisa consigo. Nisso avistou dois anjos que levavam uma viga. Era a viga que alguém tivera no olho enquanto procurava o cisco nos olhos dos outros. Mas eles não a levavam no sentido do comprimento, e sim atravessada.

“Já se viu tamanha falta de juízo?”, pensou mestre Pfriem. Ficou calado, porém, e se conformou: “No fundo, tanto faz levar a viga reta ou atravessada, desde que se consiga passar; e, de fato, vejo que eles não esbarram em lugar nenhum.”

Pouco depois avistou dois anjos que tiravam água de uma fonte e a despejavam num barril. Ao mesmo tempo, percebeu que o barril estava furado e a água saía por todos os lados. Eles regavam a terra com chuva.

— Raios e trovões! — escapou-lhe; por sorte, porém, lembrou-se a tempo e pensou: “Talvez seja apenas um passatempo; se alguém gosta, pode fazer coisas inúteis assim, sobretudo aqui no céu, onde, como já percebi, só se fica à toa.”

Seguiu adiante e viu uma carroça atolada num buraco fundo.

— Não é de admirar — disse ao homem que estava ao lado. — Quem põe uma carga dessas, sem pensar? O que tem aí?

— Desejos piedosos — respondeu o homem. — Não consegui chegar ao caminho certo com eles, mas ainda consegui empurrar a carroça até aqui em cima, e aqui não vão me deixar atolado.

De fato, veio um anjo e atrelou dois cavalos à carroça.

“Muito bem”, pensou Pfriem, “mas dois cavalos não tiram a carroça daí; é preciso pôr pelo menos quatro.”

Veio outro anjo, trazendo mais dois cavalos, mas os atrelou atrás, e não na frente. Aquilo foi demais para mestre Pfriem.

— Atrapalhado! — explodiu. — O que está fazendo? Desde que o mundo é mundo, já se viu tirar uma carroça desse jeito? Mas, na sua arrogância presunçosa, eles pensam que sabem tudo melhor.

Quis continuar a falar, mas um dos habitantes do céu o agarrara pelo colarinho e o empurrava para fora com uma força irresistível. Debaixo do portão, o mestre ainda virou a cabeça para a carroça e viu que quatro cavalos alados a tinham erguido no ar.

Nesse instante, mestre Pfriem acordou.

— É verdade que no céu as coisas se passam de modo um pouco diferente do que na terra — disse consigo —, e muita coisa se pode desculpar; mas quem consegue assistir com paciência a alguém atrelar cavalos ao mesmo tempo atrás e na frente? É verdade que tinham asas, mas quem poderia saber? Aliás, é uma enorme estupidez pôr um par de asas em cavalos que já têm quatro pernas para correr. Mas preciso me levantar, senão vão fazer tudo errado lá em casa. Ainda bem que eu não morri de verdade.


Sobre esta edição

Obra
Meister Pfriem
Autoria original
Irmãos Grimm
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

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Kinder- und Hausmärchen · 1857 · Alemão · 7. Große Ausgabe
Volume II. Página 358–361. Consultar esta edição ↗

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As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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