EK 130
O duende e a senhora
Nissen og Madamen
Sobre este conto
Na casa de um jardineiro, sua esposa conversa sobre poesia com um normalista, enquanto um duende ressentido a espreita.
Personagens e estrutura
- Personagens
- A senhora, esposa do jardineiro Klemmensen, O jardineiro Klemmensen, O normalista senhor Kisserup, O duende doméstico, O gato preto
- Onde se passa
- A casa e o jardim do jardineiro, com cozinha, despensa e quarto do normalista; o duende também relata uma noite junto à casinha do cachorro.
- Acontecimentos
- O jardineiro manda a esposa cuidar da panela, enquanto ela e o normalista conversam sobre poesia e os dons do espírito.
- O duende se irrita por ela negar sua existência e não lhe oferecer mingau na véspera de Natal.
- Ele faz a panela transbordar, planeja estragar meias e mexer nos pertences do normalista e oferece nata ao gato.
- A senhora mostra um caderno de poemas e explica que, em Pequeno duende, imagina a si mesma como a casa e a poesia como o duende que a governa.
- O duende ouve a leitura, interpreta o poema como louvor pessoal e muda de atitude para com a senhora.
- Ele decide impedir o gato de beber a nata para bebê-la sozinho, alegando que um bebe menos que dois e que isso será uma economia.
- Desfecho
- O gato diz que o duende é humano e considera a senhora matreira. O narrador afirma que ela não era matreira: era o duende que era humano; recomenda perguntar sobre a história a alguém que não seja o duende nem a senhora.
O duende você conhece, mas conhece a senhora, a senhora do jardineiro? Era mulher de leituras, sabia versos de cor e até os escrevia com facilidade; só as rimas, o “tilintar”, como ela dizia, lhe davam um pouco de trabalho. Tinha o dom da escrita e o dom da palavra; bem poderia ter sido pastor, ou pelo menos esposa de pastor.
— A Terra é bela em seu vestido de domingo! — dizia ela, e dera àquela ideia estilo e “tilintar”, pusera-a numa canção tão bela e comprida.
O normalista senhor Kisserup — o nome não vem ao caso — era primo e estava de visita na casa do jardineiro. Ouviu o poema da senhora, e aquilo lhe fez bem, dizia ele, um bem profundo.
— A senhora tem espírito! — disse.
— Conversa fiada! — disse o jardineiro. — Não lhe meta essas coisas na cabeça! Uma mulher deve ser corpo, um corpo decente, e cuidar de sua panela para que o mingau não queime.
— O queimado eu tiro com uma brasa de lenha! — disse a senhora. — E o queimado eu tiro de você com um beijinho. Até parece que você só pensa em couves e batatas; no entanto, ama as flores!
E então o beijou.
— As flores são o espírito! — disse ela.
— Cuide de sua panela! — disse ele, e foi para o jardim, que era a sua panela, e dela ele cuidava.
Mas o normalista ficou sentado com a senhora e conversou com ela; sobre aquelas belas palavras, “A Terra é bela”, fez à sua maneira quase um sermão inteiro.
— A Terra é bela; “submetei-a a vós”, foi dito, e nos tornamos os senhores. Um o é pelo espírito, outro pelo corpo; um foi posto no mundo como um ponto de exclamação de espanto, outro como um travessão, de modo que bem se pode perguntar o que veio fazer aqui. Um se torna bispo, outro apenas um pobre normalista, mas tudo é sábio. A Terra é bela e está sempre de vestido de domingo! O poema da senhora dá o que pensar, cheio de sentimento e geografia.
— O senhor tem espírito, senhor Kisserup! — disse a senhora. — Muito espírito, eu lhe garanto! Quando se conversa com o senhor, a gente fica mais esclarecida sobre si mesma.
E assim continuaram a conversar, com a mesma beleza e a mesma excelência; mas lá na cozinha também havia alguém falando: era o duende, o duendezinho de roupa cinza e gorro vermelho; você o conhece! Estava sentado na cozinha, espiando as panelas; falava, mas ninguém o ouvia, a não ser o grande gato preto, o “ladrão de nata”, como a senhora o chamava.
O duende estava muito zangado com ela, pois sabia que ela não acreditava em sua existência. Era verdade que nunca o tinha visto, mas, com todas aquelas leituras, devia saber que ele existia e lhe dar alguma atenção. Na véspera de Natal, nunca lhe ocorria pôr diante dele nem uma colherada de mingau. Todos os seus antepassados o haviam recebido, e de senhoras que nem sequer eram mulheres de leituras; o mingau nadava em manteiga e nata. O gato ficou com os bigodes bem molhados só de ouvir falar daquilo.
— Ela me chama de conceito! — disse o duende. — Isso ultrapassa todos os meus conceitos. Ela nega a minha existência! Descobri isso espreitando, e agora espreitei de novo: ela está lá, chiando para o espancador de meninos, o normalista. Digo o mesmo que o dono da casa: “Cuide de sua panela!” Ela não cuida; pois agora vou fazê-la transbordar!
E o duende soprou o fogo, que crepitou e ardeu. “Surre-rurre-rup!” A panela transbordou.
— Agora vou lá fazer buracos nas meias do dono da casa! — disse o duende. — Vou desfiar um buraco grande na ponta e no calcanhar; assim haverá o que cerzir, em vez de ela ir fazer poesia. Senhora poetisa, remende as meias do marido!
Nisso o gato espirrou; estava resfriado, embora andasse sempre de casaco de pele.
— Abri a porta da despensa — disse o duende. — Há nata fervida lá, grossa como cola de farinha. Se você não quiser lamber, eu quero!
— Se a culpa e as pancadas vão sobrar para mim — disse o gato —, então me deixe lamber a nata também!
— Primeiro a nata, depois a pancada! — disse o duende. — Mas agora vou ao quarto do normalista pendurar os suspensórios dele no espelho e pôr suas meias na bacia de água; assim ele vai achar que o ponche estava forte demais e lhe deixou a cabeça tonta. Esta noite fiquei na pilha de lenha junto à casinha do cachorro; gosto muito de atormentar o cão acorrentado. Deixei minhas pernas penduradas, balançando. O cachorro não as alcançava, por mais alto que saltasse; aquilo o irritava. Ele latia e latia, eu balançava e me embalava; era uma algazarra! O normalista acordou com aquilo, levantou-se três vezes e olhou para fora, mas não me viu, embora estivesse de óculos. Ele sempre dorme de óculos.
— Diga miau quando a senhora chegar! — disse o gato. — Não estou ouvindo bem; hoje estou doente.
— Sua doença é a gulodice! — disse o duende. — Vá lambendo! Lamba até a doença ir embora! Mas limpe os bigodes, para não ficar nata neles. Agora vou espreitar.
E o duende ficou junto à porta, e a porta estava entreaberta. Na sala só estavam a senhora e o normalista. Falavam daquilo que o normalista tão belamente dizia que se devia pôr acima dos potes e das panelas em toda casa: os dons do espírito.
— Senhor Kisserup! — disse a senhora. — Por falar nisso, vou lhe mostrar uma coisa que nunca mostrei a nenhuma alma deste mundo, muito menos a um homem: meus versinhos. Alguns, é verdade, são um tanto compridos; dei-lhes o título de “Tilintares de uma mulher de bem”. Gosto tanto das velhas palavras dinamarquesas!
— Também é preciso conservá-las! — disse o normalista. — É preciso limpar a língua do alemão.
— É o que faço! — disse a senhora. — O senhor nunca me ouvirá dizer “Kleiner” ou “Butterdeig”; eu digo bolinhos de gordura e massa folhada.
E tirou da gaveta um caderno de capa verde-clara, com dois borrões de tinta.
— Há muita seriedade neste livro! — disse ela. — Tenho uma sensibilidade mais forte para as coisas tristes. Aqui estão “O suspiro na noite”, “Meu crepúsculo” e “Quando fiquei com Klemmensen”, meu marido; esse o senhor pode pular, embora seja sentido e pensado. “Os deveres da dona de casa” é o melhor texto! São todos muito tristes; é nisso que tenho talento. Só um é brincalhão: são uns pensamentos alegres, que a gente também pode ter, pensamentos sobre — não ria de mim! — pensamentos sobre ser poetisa. Só eu, minha gaveta e agora o senhor, senhor Kisserup, sabemos disso! Gosto da poesia: ela toma conta de mim, provoca, manda e governa. Expressei isso sob o título “Pequeno duende”. O senhor conhece a velha crença dos camponeses no duende doméstico, que está sempre fazendo travessuras pela casa. Imaginei que eu mesma era a casa, e que a poesia, os sentimentos dentro de mim, eram o duende, o espírito que governa. Cantei seu poder e sua grandeza em “Pequeno duende”! Mas o senhor deve prometer, com a mão e com a boca, nunca revelar isso a meu marido nem a ninguém. Leia em voz alta, para eu ouvir se o senhor entende minha letra.
E o normalista leu, a senhora ouviu e o duendezinho ouviu. Ele estava espreitando, você sabe, e tinha acabado de chegar quando leram o título: “Pequeno duende”.
— Isso é comigo! — disse ele. — O que será que ela escreveu sobre mim? Pois vou beliscá-la, vou surrupiar seus ovos, surrupiar seus pintinhos, tirar a gordura do bezerro de engorda: vejam só essa senhora!
E escutou com a boca em bico e as orelhas compridas. Mas, à medida que ouvia falar da glória e do poder do duende, de seu domínio sobre a senhora — ela se referia à arte da poesia, você sabe, mas o duende tomava tudo ao pé da letra, conforme o título —, o pequenino sorria cada vez mais. Seus olhos brilhavam de alegria, surgia como que um ar distinto nos cantos de sua boca; levantou os calcanhares, ficou na ponta dos pés, tornou-se uma polegada inteira mais alto que antes. Estava encantado com o que se dizia do pequeno duende.
— A senhora tem espírito e grande cultura! Como fui injusto com essa mulher! Ela me pôs em seu “tilintar”, que será impresso e lido! Agora o gato não terá permissão para beber a nata dela; eu mesmo vou fazer isso! Um bebe menos que dois, sempre é uma economia; vou introduzi-la e respeitar e honrar a senhora!
— Como esse duende é humano! — disse o velho gato. — Basta um miau doce da senhora, um miau sobre ele mesmo, e logo muda de ideia. Ela é matreira, essa senhora!
Mas ela não era matreira; era o duende que era humano.
Se você não consegue entender esta história, pergunte; mas não deve perguntar ao duende, nem à senhora.
Sobre esta edição
- Obra
- Nissen og Madamen
- Autoria original
- Hans Christian Andersen
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Codex · tradução assistida por IA
- Revisão
- Codex · revisão independente por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 30/10/2026
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