AsVerdadeiras HistóriasOs contos originais, em nossa língua

KHM 193

O tamborileiro

Irmãos Grimm

Der Trommler

Sobre este conto

Um jovem tamborileiro devolve a uma princesa enfeitiçada a camisa que lhe permite voar e decide libertá-la de uma bruxa no monte de vidro. Para chegar até ela e enfrentar os trabalhos exigidos, ele encontra gigantes e objetos capazes de realizar desejos.

Personagens e estrutura
Personagens
O tamborileiro: jovem que enfrenta o perigo para libertar uma princesa., A princesa: prisioneira de uma bruxa, ajuda o jovem com um anel dos desejos., A bruxa: exige três trabalhos e mantém tesouros no monte de vidro., Três gigantes: transportam o tamborileiro até o pé do monte., Dois homens: disputam uma sela que transporta quem nela faz um desejo., Os pais do tamborileiro: usam as pedras preciosas para construir um castelo e escolhem uma noiva para o filho., A outra noiva: deseja os vestidos da princesa e faz o tamborileiro dormir com uma poção.
Onde se passa
Um lago, uma floresta habitada por gigantes, o monte de vidro com uma casa de pedra, viveiro e floresta, e a cidade natal do tamborileiro. Três dias no monte correspondem a três anos fora dele.
Acontecimentos
  1. O tamborileiro devolve a camisa de uma princesa e promete ajudá-la. Engana gigantes para ser levado ao monte e toma uma sela mágica enquanto seus donos correm.
  2. A bruxa exige que ele esvazie um viveiro com um dedal e separe os peixes; uma moça resolve a tarefa com um anel dos desejos enquanto ele dorme.
  3. A moça também derruba e empilha a floresta e reúne a madeira para queimar. Ele tira um toco das chamas; o toco se torna a princesa. O jovem lança a bruxa ao fogo.
  4. Os dois prometem fidelidade e voltam com pedras preciosas. Ele beija os pais na face direita, apesar do aviso, e se esquece da princesa; os pais lhe escolhem outra noiva.
  5. A princesa troca três vestidos, brilhantes como sol, lua e estrelas, por três noites diante do quarto dele. Canta a mesma cantiga; nas primeiras noites uma poção o impede de ouvi-la.
  6. Avisado pelas pessoas da casa, ele derrama o vinho da terceira noite. Ouve a cantiga e recupera a memória.
Desfecho
O tamborileiro apresenta a princesa como sua verdadeira noiva aos pais, que concordam quando ouvem o ocorrido. A festa é retomada e o verdadeiro casamento se celebra com grande alegria. A primeira noiva fica com os três belos vestidos como compensação e se dá por satisfeita.

Uma noite, um jovem tamborileiro caminhava sozinho pelo campo e chegou a um lago; ali viu na margem três pedacinhos de linho branco.

— Que linho fino! — disse, e meteu um deles no bolso.

Foi para casa, não pensou mais no que encontrara e se deitou. Quando estava prestes a adormecer, pareceu-lhe que alguém chamava seu nome. Prestou atenção e ouviu uma voz baixinha que lhe dizia:

— Tamborileiro, tamborileiro, acorde!

Como a noite estava escura, não conseguia ver ninguém, mas parecia-lhe que uma figura pairava, subindo e descendo diante de sua cama.

— O que você quer? — perguntou.

— Devolva minha camisinha — respondeu a voz —, aquela que você me tirou ontem à noite junto do lago.

— Vai tê-la de volta — disse o tamborileiro —, se me disser quem é.

— Ah! — respondeu a voz. — Sou filha de um rei poderoso, mas caí nas mãos de uma bruxa e estou enfeitiçada no monte de vidro. Todos os dias tenho de me banhar no lago com minhas duas irmãs, mas sem minha camisinha não posso voltar a voar para longe. Minhas irmãs foram embora, mas eu tive de ficar. Peço-lhe que devolva minha camisinha.

— Fique sossegada, pobre menina — disse o tamborileiro. — Eu a devolverei de bom grado.

Tirou-a do bolso e a estendeu à moça na escuridão. Ela a agarrou depressa e quis ir embora com ela.

— Espere um instante — disse ele. — Talvez eu possa ajudá-la.

— Você só pode me ajudar se subir ao monte de vidro e me libertar do poder da bruxa. Mas não chegará ao monte de vidro e, mesmo que estivesse bem perto, não poderia subir.

— O que eu quero, eu consigo — disse o tamborileiro. — Tenho pena de você e não tenho medo de nada. Mas não sei o caminho que leva ao monte de vidro.

— O caminho passa pela grande floresta onde moram os comedores de gente — respondeu ela. — Não posso lhe dizer mais nada.

Então ele ouviu o ruído de seu voo ao partir.

Ao romper do dia, o tamborileiro se pôs a caminho, pendurou o tambor no corpo e entrou sem medo, direto na floresta. Depois de andar um pouco e não avistar gigante nenhum, pensou: “Preciso acordar esses dorminhocos.” Pôs o tambor à sua frente e tocou um rufar que fez os pássaros voarem das árvores aos gritos. Não demorou para que se erguesse também um gigante, que estivera deitado na relva, dormindo, e era tão grande quanto um abeto.

— Seu anão! — gritou ele. — Por que está tocando tambor aqui e me acordando do melhor do sono?

— Toco — respondeu ele — porque muitos milhares vêm atrás de mim, para que saibam o caminho.

— O que eles querem aqui na minha floresta? — perguntou o gigante.

— Querem acabar com você e limpar a floresta de um monstro como você.

— Ora! — disse o gigante. — Esmago vocês com os pés, como formigas.

— Acha que poderia fazer alguma coisa contra eles? — disse o tamborileiro. — Quando você se abaixar para pegar um, ele saltará para longe e se esconderá; mas, assim que se deitar e dormir, eles sairão de todos os arbustos e subirão pelo seu corpo. Cada um tem um martelo de aço preso no cinto, e com eles vão arrebentar seu crânio.

O gigante ficou aborrecido e pensou: “Se eu me meter com essa gente astuta, isso ainda pode acabar mal para mim. Aperto a garganta de lobos e ursos, mas não posso me defender dessas minhocas.”

— Escute, baixinho — disse ele. — Vá embora; prometo deixar você e seus companheiros em paz daqui por diante. E, se ainda tem algum desejo, diga: farei alguma coisa para agradá-lo.

— Você tem pernas compridas — disse o tamborileiro — e pode andar mais depressa que eu. Leve-me ao monte de vidro, e darei aos meus o sinal de retirada; desta vez eles o deixarão em paz.

— Venha cá, verme — disse o gigante. — Sente-se no meu ombro; vou levá-lo aonde quiser.

O gigante o ergueu, e o tamborileiro começou lá em cima a rufar o tambor à vontade. O gigante pensou: “Deve ser o sinal para o resto da gente voltar.” Depois de algum tempo, havia um segundo gigante no caminho; tirou o tamborileiro do primeiro e o enfiou na casa de seu botão. O tamborileiro agarrou o botão, que era grande como uma tigela, segurou-se nele e olhou alegremente ao redor. Então chegaram a um terceiro, que o tirou da casa do botão e o pôs na aba de seu chapéu; ali o tamborileiro andava de um lado para outro e enxergava por cima das árvores. Quando avistou uma montanha na distância azulada, pensou: “Aquele certamente é o monte de vidro.” E era mesmo. O gigante deu apenas mais alguns passos, e chegaram ao pé do monte, onde o pôs no chão. O tamborileiro pediu que também o levasse ao cume, mas o gigante sacudiu a cabeça, resmungou alguma coisa entre a barba e voltou para a floresta.

Agora o pobre tamborileiro estava diante do monte, que era tão alto como três montanhas postas umas sobre as outras e tão liso quanto um espelho, e não sabia como subir. Começou a escalar, mas em vão: sempre escorregava de volta. “Quem me dera ser um pássaro!”, pensou; mas de que adiantava desejar? Não lhe cresciam asas. Enquanto estava ali sem saber o que fazer, avistou, não muito longe, dois homens que discutiam com violência. Aproximou-se e viu que brigavam por uma sela, que estava no chão diante deles e que ambos queriam ter.

— Que tolos vocês são! — disse ele. — Brigam por uma sela e não têm cavalo para ela.

— A sela merece que se brigue por ela — respondeu um dos homens. — Quem se senta nela e deseja ir a algum lugar, ainda que seja no fim do mundo, chega no mesmo instante em que pronuncia o desejo. A sela pertence a nós dois; é minha vez de montá-la, mas o outro não quer deixar.

— Vou resolver logo essa disputa — disse o tamborileiro.

Afastou-se um trecho e fincou uma vara branca na terra. Depois voltou e disse:

— Agora corram até o alvo; quem chegar primeiro monta primeiro.

Os dois começaram a correr, mas mal se haviam afastado alguns passos quando o tamborileiro saltou sobre a sela, desejou estar no monte de vidro e, antes que se pudesse virar a mão, já estava lá. No alto do monte havia uma planície, onde ficava uma velha casa de pedra; diante da casa havia um grande viveiro de peixes e, atrás, uma floresta escura. Não viu pessoas nem animais; tudo estava quieto, só o vento farfalhava nas árvores, e as nuvens passavam bem perto de sua cabeça. Foi à porta e bateu. Quando bateu pela terceira vez, uma velha de rosto moreno e olhos vermelhos abriu a porta; tinha óculos sobre o nariz comprido e o olhou com atenção, depois perguntou o que desejava.

— Entrada, comida e pouso — respondeu o tamborileiro.

— Terá isso — disse a velha —, se em troca quiser fazer três trabalhos.

— Por que não? — respondeu ele. — Não receio trabalho algum, por mais difícil que seja.

A velha o deixou entrar, deu-lhe comida e, à noite, uma boa cama. De manhã, depois que ele dormiu o suficiente, ela tirou um dedal de seu dedo magro, estendeu-o ao tamborileiro e disse:

— Agora vá trabalhar e esvazie o viveiro lá fora com este dedal. Mas precisa terminar antes de anoitecer, e todos os peixes que estão na água devem ser separados por espécie e tamanho e postos lado a lado.

— É um trabalho estranho — disse o tamborileiro, mas foi até o viveiro e começou a tirar a água.

Trabalhou a manhã inteira; mas o que se pode fazer com um dedal diante de tanta água, mesmo que se passe mil anos tirando-a? Ao meio-dia pensou: “É tudo inútil, tanto faz eu trabalhar ou não.” Parou e se sentou. Então uma moça saiu da casa, pôs diante dele uma cestinha com comida e disse:

— Você está aí tão triste, o que lhe falta?

Ele olhou para ela e viu que era belíssima.

— Ah! — disse. — Não consigo terminar o primeiro trabalho; como será com os outros? Saí em busca de uma princesa que deve morar aqui, mas não a encontrei; vou seguir adiante.

— Fique aqui — disse a moça. — Vou ajudá-lo a sair dessa aflição. Você está cansado; ponha a cabeça em meu colo e durma. Quando acordar, o trabalho estará feito.

O tamborileiro não precisou ouvir duas vezes. Assim que seus olhos se fecharam, ela girou um anel dos desejos e disse:

— Água, para cima; peixes, para fora!

Logo a água subiu como uma névoa branca e se foi com as outras nuvens; os peixes estalaram, saltaram para a margem e se puseram lado a lado, cada um segundo seu tamanho e espécie. Quando o tamborileiro acordou, viu espantado que tudo estava terminado. Mas a moça disse:

— Um dos peixes não está junto dos de sua espécie, mas sozinho. Quando a velha vier esta noite e vir que tudo o que exigiu está feito, perguntará: “Por que este peixe está sozinho?” Então atire o peixe no rosto dela e diga: “Este é para você, velha bruxa.”

À noite a velha veio; quando fez a pergunta, ele lhe atirou o peixe no rosto. Ela fingiu não perceber e ficou calada, mas o olhou com olhos maldosos. Na manhã seguinte disse:

— Ontem você teve facilidade demais; preciso lhe dar um trabalho mais difícil. Hoje terá de derrubar a floresta inteira, rachar a madeira em achas e empilhá-la em braças; à noite tudo deve estar pronto.

Deu-lhe um machado, um malho e duas cunhas. Mas o machado era de chumbo, e o malho e as cunhas eram de lata. Quando ele começou a golpear, o machado se dobrou, e o malho e as cunhas se amassaram. Não sabia o que fazer, mas ao meio-dia a moça voltou com a comida e o consolou.

— Ponha a cabeça em meu colo — disse ela — e durma; quando acordar, o trabalho estará feito.

Ela girou seu anel dos desejos; no mesmo instante a floresta inteira caiu com estrondo, a madeira se rachou sozinha e se empilhou em braças; era como se gigantes invisíveis fizessem o trabalho. Quando ele acordou, a moça disse:

— Veja, a madeira está medida e empilhada; só resta um único galho. Mas, quando a velha vier esta noite e perguntar para que serve o galho, dê-lhe uma pancada com ele e diga: “Este é para você, sua bruxa.”

A velha veio.

— Veja — disse ela — como o trabalho foi fácil! Mas para quem ficou aquele galho?

— Para você, sua bruxa — respondeu ele, e lhe deu uma pancada com o galho.

Mas ela fingiu não sentir, riu com escárnio e disse:

— Amanhã cedo, você deve juntar toda a madeira num monte, acendê-la e queimá-la.

Ele se levantou ao romper do dia e começou a trazer a madeira; mas como pode um só homem reunir uma floresta inteira? O trabalho não avançava. A moça, porém, não o abandonou na aflição: trouxe-lhe a refeição ao meio-dia e, depois que ele comeu, pôs a cabeça no colo dela e adormeceu. Quando acordou, toda a pilha de madeira ardia numa chama imensa, que estendia suas línguas até o céu.

— Escute — disse a moça. — Quando a bruxa vier, vai lhe dar toda espécie de ordens; se fizer sem medo o que ela exige, não poderá lhe fazer mal; mas, se tiver medo, o fogo o agarrará e devorará. Por fim, quando tiver feito tudo, agarre-a com as duas mãos e atire-a bem no meio das brasas.

A moça se foi, e a velha chegou sorrateiramente.

— Uh! Estou com frio! — disse ela. — Mas que fogo, como arde, como aquece meus velhos ossos! Agora me sinto bem. Mas ali há um toco que não quer queimar; tire-o de lá para mim. Depois de fazer mais isso, estará livre e poderá ir aonde quiser. Vamos, entre sem medo!

O tamborileiro não pensou muito: saltou para o meio das chamas, mas elas não lhe fizeram mal, não puderam sequer chamuscar seus cabelos. Trouxe o toco para fora e o pôs no chão. Mal a madeira tocou a terra, transformou-se, e diante dele estava a bela moça que o ajudara na aflição; e pelas roupas de seda com brilho de ouro que ela vestia percebeu que era a princesa. Mas a velha riu venenosa e disse:

— Você pensa que a tem, mas ainda não a tem.

Já ia avançar sobre a moça e arrastá-la quando ele agarrou a velha com as duas mãos, ergueu-a e a lançou à goela das chamas, que se fecharam sobre ela, como se se alegrassem por devorar uma bruxa.

A princesa então olhou para o tamborileiro e, vendo que era um belo jovem e pensando que arriscara a vida para libertá-la, estendeu-lhe a mão e disse:

— Você arriscou tudo por mim, mas também quero fazer tudo por você. Se me prometer fidelidade, será meu marido. Não nos faltam riquezas: temos o bastante no que a bruxa acumulou aqui.

Levou-o para dentro da casa, onde havia arcas e caixas cheias dos tesouros dela. Deixaram o ouro e a prata e levaram apenas as pedras preciosas. Ela não queria ficar mais tempo no monte de vidro; então ele lhe disse:

— Sente-se comigo na sela, e voaremos para baixo como pássaros.

— Não gosto dessa sela velha — disse ela. — Basta girar meu anel dos desejos, e estaremos em casa.

— Pois bem — respondeu o tamborileiro. — Então deseje que estejamos diante do portão da cidade.

Num instante estavam lá, mas o tamborileiro disse:

— Quero primeiro ir à casa de meus pais para lhes dar a notícia; espere por mim aqui no campo, logo voltarei.

— Ah! — disse a princesa. — Peço-lhe, tome cuidado: ao chegar, não beije seus pais na face direita, pois então esquecerá tudo, e ficarei sozinha e abandonada aqui no campo.

— Como poderia esquecer você? — disse ele, e prometeu-lhe, apertando sua mão, voltar bem depressa.

Quando entrou na casa paterna, ninguém sabia quem era, tanto havia mudado: os três dias que passara no monte de vidro tinham sido três longos anos. Então deu-se a conhecer, e os pais o abraçaram de alegria; seu coração ficou tão comovido que os beijou nas duas faces, sem pensar nas palavras da moça. Mas, assim que lhes deu o beijo na face direita, desapareceu-lhe todo pensamento na princesa. Esvaziou os bolsos e pôs sobre a mesa punhados das maiores pedras preciosas. Os pais nem sabiam o que fazer com aquela riqueza. Então o pai construiu um magnífico castelo, cercado de jardins, florestas e prados, como se fosse morada de um príncipe. Quando ficou pronto, a mãe disse:

— Escolhi uma moça para você; dentro de três dias será o casamento.

O filho concordava com tudo o que os pais queriam.

A pobre princesa ficara muito tempo diante da cidade, esperando a volta do jovem. Quando anoiteceu, disse:

— Certamente beijou os pais na face direita e se esqueceu de mim.

Seu coração estava cheio de tristeza; desejou estar numa casinha solitária na floresta e não quis voltar à corte do pai. Todas as noites ia à cidade e passava diante da casa dele; às vezes ele a via, mas já não a reconhecia. Por fim ouviu as pessoas dizerem: “Amanhã será celebrado seu casamento.” Então disse:

— Vou tentar reconquistar seu coração.

Quando se celebrava o primeiro dia do casamento, girou seu anel dos desejos e disse:

— Um vestido tão brilhante quanto o sol.

Logo o vestido estava diante dela e brilhava como se fosse tecido só de raios de sol. Quando todos os convidados se reuniram, ela entrou no salão. Todos admiraram o belo vestido, sobretudo a noiva, e, como sua maior paixão eram os belos vestidos, foi até a desconhecida e perguntou se queria vendê-lo.

— Por dinheiro, não — respondeu ela. — Mas, se eu puder passar a primeira noite diante da porta de onde dorme o noivo, eu o darei.

A noiva não conseguiu dominar seu desejo e concordou, mas misturou uma poção de dormir no vinho noturno do noivo, que caiu num sono profundo. Quando tudo ficou quieto, a princesa se agachou diante da porta do quarto, abriu-a um pouco e chamou para dentro:

Tamborileiro, tamborileiro, escute-me,
você então me esqueceu por completo?
Não se sentou comigo no monte de vidro?
Não salvei sua vida da bruxa?
Não me deu a mão em promessa de fidelidade?
Tamborileiro, tamborileiro, escute-me.

Mas tudo foi em vão: o tamborileiro não acordou, e, quando amanheceu, a princesa teve de ir embora sem ter conseguido nada. Na segunda noite, girou seu anel dos desejos e disse:

— Um vestido tão prateado quanto a lua.

Quando apareceu na festa com o vestido, tão delicado quanto o luar, despertou de novo o desejo da noiva e o deu em troca da permissão de passar também a segunda noite diante da porta do quarto. Então chamou no silêncio da noite:

Tamborileiro, tamborileiro, escute-me,
você então me esqueceu por completo?
Não se sentou comigo no monte de vidro?
Não salvei sua vida da bruxa?
Não me deu a mão em promessa de fidelidade?
Tamborileiro, tamborileiro, escute-me.

Mas o tamborileiro, entorpecido pela poção de dormir, não podia ser despertado. Triste, ela voltou pela manhã à sua casa na floresta. As pessoas da casa, porém, haviam ouvido o lamento da moça desconhecida e contaram ao noivo; disseram também que não lhe teria sido possível ouvir coisa alguma, porque tinham posto uma poção de dormir em seu vinho. Na terceira noite, a princesa girou o anel dos desejos e disse:

— Um vestido cintilante como estrelas.

Quando apareceu com ele na festa, a noiva ficou fora de si diante da magnificência do vestido, que superava de longe os outros, e disse:

— Quero e preciso tê-lo.

A moça o deu, como os outros, pela permissão de passar a noite diante da porta do noivo. Mas o noivo não bebeu o vinho que lhe serviram antes de dormir: derramou-o atrás da cama. E, quando tudo ficou quieto na casa, ouviu uma voz suave que o chamava:

Tamborileiro, tamborileiro, escute-me,
você então me esqueceu por completo?
Não se sentou comigo no monte de vidro?
Não salvei sua vida da bruxa?
Não me deu a mão em promessa de fidelidade?
Tamborileiro, tamborileiro, escute-me.

De repente, a memória lhe voltou.

— Ah! — exclamou. — Como pude agir de maneira tão infiel? Mas o beijo que dei na face direita de meus pais, na alegria de meu coração, é o culpado: ele me entorpeceu.

Levantou-se de um salto, tomou a princesa pela mão e a levou à cama dos pais.

— Esta é minha verdadeira noiva — disse ele. — Se me casar com a outra, cometerei uma grande injustiça.

Os pais, quando ouviram como tudo acontecera, concordaram. Então as luzes do salão tornaram a ser acesas, trouxeram tímpanos e trombetas, convidaram os amigos e parentes a voltar, e o verdadeiro casamento foi celebrado com grande alegria. A primeira noiva ficou com os belos vestidos como compensação e se deu por satisfeita.


Sobre esta edição

Obra
Der Trommler
Autoria original
Irmãos Grimm
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

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Der Trommler

Kinder- und Hausmärchen · 1857 · Alemão · 7. Große Ausgabe
Volume II. Página 427–437. Consultar esta edição ↗

O tamborileiro

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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