EK 13
Os cisnes selvagens
De vilde Svaner
Sobre este conto
Elisa é separada dos onze irmãos quando a madrasta os transforma em cisnes selvagens. Ao reencontrá-los, descobre que só recuperam a forma humana depois do pôr do sol. Uma fada lhe mostra como desfazer o encanto: colher urtigas que queimam, preparar com elas onze cotas e permanecer em silêncio até concluir o trabalho. Numa terra do outro lado do mar, Elisa começa a tarefa.
Personagens e estrutura
- Personagens
- Elisa, filha de rei e irmã dos onze príncipes, Onze irmãos de Elisa, transformados em cisnes durante o dia; o mais velho e o caçula têm falas e ações próprias, Pai de Elisa e dos onze príncipes, Rainha malvada, madrasta das crianças, Velha que dá bagas a Elisa e indica os cisnes, Fada Fata Morgana, que se parece com a velha e ensina como romper o encanto, Rei da terra do outro lado do mar, que encontra Elisa e se casa com ela, Arcebispo que acusa Elisa de bruxaria, Lâmias, chamadas bruxas na narrativa, que comem cadáveres no cemitério, Caçadores, corte, povo, guarda e carrasco, Camundongos e tordo que ajudam Elisa na prisão
- Onde se passa
- Um reino onde Elisa cresce, casa de camponeses, floresta, rio e praia; travessia marítima com uma pequena rocha para pernoitar; terra distante com montanhas e uma gruta. Depois, cidade real, castelo, cemitério, prisão e caminho para a fogueira.
- Acontecimentos
- A madrasta afasta Elisa e transforma os onze irmãos em cisnes selvagens. Anos depois, tenta prejudicar a moça com sapos e disfarça sua aparência; o pai não a reconhece, e Elisa parte.
- Elisa encontra os irmãos: são cisnes de dia e homens à noite. Eles a levam numa rede pelo mar, pernoitando numa rocha; chegam à terra em que vivem.
- Uma fada ensina Elisa a preparar onze cotas de urtigas. Ela precisa manter silêncio até concluir; uma palavra mataria os irmãos. Começa o trabalho apesar das queimaduras.
- Um rei encontra Elisa, leva-a ao castelo e se casa com ela. Elisa trabalha em segredo e busca urtigas no cemitério, onde vê lâmias devorarem cadáveres; o arcebispo a acusa de bruxaria.
- O rei a segue ao cemitério; o povo a condena à fogueira. Na prisão, Elisa continua a tarefa; camundongos e um tordo a ajudam. Os irmãos tentam falar com o rei, mas o sol os transforma.
- A caminho da fogueira, Elisa termina o possível e lança as onze camisas nos cisnes. Eles viram príncipes; o caçula mantém uma asa por faltar uma manga. Ela declara sua inocência.
- Desfecho
- Quando o carrasco a segura, Elisa lança as onze camisas sobre os cisnes, que recuperam a forma de príncipes. O mais novo conserva uma asa no lugar de um dos braços, pois falta uma manga em sua cota. Elisa pode falar e declara ser inocente, mas cai sem sentidos nos braços dos irmãos. O mais velho confirma sua inocência e conta o que aconteceu. A lenha da fogueira cria raízes e ramos, formando uma cerca viva de rosas vermelhas. No alto brilha uma flor branca; o rei a colhe e a põe no peito de Elisa, que desperta com paz e felicidade. Os sinos das igrejas tocam sozinhos, pássaros chegam em bandos e um cortejo de casamento volta ao castelo.
Muito longe daqui, para onde voam as andorinhas quando temos inverno, vivia um rei que tinha onze filhos e uma filha, Elisa. Os onze irmãos eram príncipes e iam à escola com uma estrela no peito e um sabre ao lado. Escreviam em lousas de ouro com lápis de diamante e liam tão bem de cor quanto com o livro aberto; logo se percebia que eram príncipes. A irmã, Elisa, sentava-se num banquinho de vidro espelhado e tinha um livro de figuras que fora comprado por metade do reino.
Ah, aquelas crianças viviam tão bem! Mas não seria assim para sempre.
O pai, que era rei de todo o país, casou-se com uma rainha malvada, que não tinha bondade alguma com as pobres crianças. Elas perceberam isso já no primeiro dia. Havia uma grande festa no castelo inteiro, e as crianças brincavam de receber visitas. Mas, em vez de lhes dar todos os bolos e maçãs assadas que costumavam receber, ela só lhes deu areia numa xícara de chá e disse que podiam fazer de conta que era alguma coisa.
Na semana seguinte, mandou a pequena Elisa para o campo, para a casa de uns camponeses. E não demorou a encher a cabeça do rei com tantas histórias sobre os pobres príncipes que ele deixou de se importar com eles.
“Voem pelo mundo e cuidem de si mesmos!”, disse a rainha malvada. “Voem como grandes aves, sem voz!” Mas ela não conseguiu tornar a coisa tão ruim quanto desejava: eles se transformaram em onze belos cisnes selvagens. Com um grito estranho, voaram pelas janelas do castelo, por cima do parque e da floresta.
Ainda era bem cedo quando passaram pelo lugar em que Elisa dormia na casa do camponês. Pairaram sobre o telhado, viraram os longos pescoços e bateram as asas, mas ninguém ouviu nem viu aquilo. Tiveram de partir de novo, bem alto, em direção às nuvens, para longe, pelo vasto mundo. Voaram até uma grande floresta escura que se estendia até a praia.
A pobre Elisa ficava na casa do camponês e brincava com uma folha verde; não tinha outro brinquedo. Fazia um furo na folha, olhava o sol através dele e então era como se visse os olhos claros dos irmãos. Cada vez que os raios quentes do sol brilhavam em seu rosto, pensava em todos os beijos deles.
Um dia passava igual ao outro. Quando o vento soprava pelas grandes cercas de roseiras do lado de fora da casa, elas sussurravam às rosas: “Quem pode ser mais belo que vocês?” Mas as rosas balançavam a cabeça e diziam: “Elisa.” E, quando a velha se sentava à porta aos domingos e lia seu livro de salmos, o vento virava as páginas e perguntava ao livro: “Quem pode ser mais piedoso que você?” “Elisa!”, dizia o livro de salmos. E era a pura verdade o que as rosas e o livro diziam.
Quando completou quinze anos, ela deveria voltar para casa. Ao ver como estava bonita, a rainha sentiu raiva e ódio dela. Bem que gostaria de transformá-la num cisne selvagem, como os irmãos, mas não ousava fazê-lo logo, pois o rei queria ver a filha.
Bem cedo, a rainha foi até a sala de banho, construída em mármore e enfeitada com almofadas macias e os mais belos tapetes. Pegou três sapos, beijou-os e disse ao primeiro: “Ponha-se sobre a cabeça de Elisa quando ela entrar no banho, para que fique indolente como você! Ponha-se na testa dela”, disse ao segundo, “para que fique feia como você e seu pai não a reconheça! Repouse junto ao coração dela”, sussurrou ao terceiro, “e dê a ela um coração mau, para que sofra por isso!” Então pôs os sapos na água clara, que imediatamente ganhou uma cor esverdeada, chamou Elisa, despiu-a e a fez entrar na água. Quando a menina mergulhou, um sapo se pôs em seus cabelos, outro na testa e o terceiro no peito, mas Elisa pareceu nem perceber. Assim que se ergueu, três papoulas vermelhas flutuavam na água. Se os animais não fossem venenosos e não tivessem sido beijados pela bruxa, teriam se transformado em rosas vermelhas; mas ao menos se tornaram flores por repousar sobre a cabeça e junto ao coração dela. Elisa era piedosa e inocente demais para que a feitiçaria tivesse poder sobre ela.
Ao ver aquilo, a rainha malvada esfregou Elisa com suco de nozes até deixá-la inteiramente castanho-escura, cobriu seu belo rosto com um unguento fedorento e deixou que seus lindos cabelos se embaraçassem. Era impossível reconhecer a bela Elisa.
Por isso, quando o pai a viu, ficou assustado e disse que aquela não era sua filha. Ninguém quis reconhecê-la, a não ser o cão de corrente e as andorinhas; mas eram pobres animais e não tinham voz naquelas decisões.
A pobre Elisa chorou e pensou nos onze irmãos, que estavam todos longe. Triste, saiu do castelo às escondidas e andou o dia inteiro por campos e pântanos até entrar na grande floresta. Não sabia para onde ir, mas sentia tanta tristeza e tanta saudade dos irmãos! Certamente também haviam sido expulsos para o mundo, como ela. Iria procurá-los e encontrá-los.
Fazia pouco tempo que estava na floresta quando a noite caiu. Perdera completamente os caminhos e as trilhas. Deitou-se no musgo macio, fez sua oração da noite e apoiou a cabeça num toco de árvore. Tudo estava tão quieto, o ar era tão suave! Em volta, na relva e no musgo, mais de cem vaga-lumes brilhavam como um fogo verde. Quando tocou de leve num dos galhos, os insetos luminosos caíram perto dela como estrelas cadentes.
A noite inteira sonhou com os irmãos. Brincavam outra vez, como crianças, escreviam com lápis de diamante nas lousas de ouro e olhavam o belo livro de figuras que custara metade do reino. Mas nas lousas já não escreviam apenas zeros e traços, como antes: escreviam as mais audaciosas proezas que tinham realizado, tudo o que haviam vivido e visto. E no livro de figuras tudo tinha vida. Os pássaros cantavam, as pessoas saíam do livro e falavam com Elisa e os irmãos; mas, quando ela virava a página, saltavam imediatamente de volta para não desarranjar as figuras.
Quando acordou, o sol já ia alto. Ela não conseguia vê-lo, pois as árvores altas estendiam os ramos numa cobertura fechada; mas lá em cima os raios brincavam como um véu dourado ao vento. Havia um perfume de folhagem, e os pássaros quase pousavam em seus ombros. Ouviu a água espirrar: eram muitas nascentes grandes que desaguavam numa lagoa de belo fundo arenoso. Havia arbustos cerrados em volta, mas, num lugar, os cervos tinham escavado uma grande abertura. Elisa foi até a água. Era tão clara que, se o vento não tivesse movido os galhos e arbustos, ela teria pensado que estavam pintados no fundo: cada folha se refletia com tanta nitidez, tanto a atravessada pelo sol quanto a inteiramente na sombra.
Assim que viu o próprio rosto, assustou-se com o quanto estava escuro e feio. Mas molhou a mãozinha e esfregou os olhos e a testa, e a pele branca voltou a aparecer. Então tirou toda a roupa e entrou na água fresca. Não havia no mundo uma filha de rei mais bela que ela.
Depois de se vestir e trançar os longos cabelos, foi até a nascente borbulhante, bebeu com a mão em concha e seguiu mais para dentro da floresta, sem saber para onde. Pensava nos irmãos e no bom Deus, que certamente não a abandonaria. Ele fazia crescer as maçãs silvestres para saciar os famintos; mostrou-lhe uma árvore dessas, com os galhos vergados de frutas. Ali ela almoçou, pôs escoras debaixo dos ramos e depois entrou na parte mais escura da floresta. Tudo estava tão quieto que ouvia os próprios passos e cada folhinha seca se dobrando debaixo de seus pés. Não se via um pássaro, nem um raio de sol conseguia atravessar os galhos grandes e cerrados. Os troncos altos ficavam tão próximos que, ao olhar para a frente, era como se uma grade de vigas após a outra a cercasse. Ah, ali havia uma solidão que ela nunca conhecera!
A noite ficou tão escura! Nem um único vaga-lume brilhava no musgo. Triste, ela se deitou para dormir. Então lhe pareceu que os galhos acima dela se afastavam e Nosso Senhor olhava para baixo com olhos bondosos, enquanto anjinhos espiavam por cima da cabeça dele e por baixo de seus braços.
Quando acordou pela manhã, não sabia se tinha sonhado aquilo ou se acontecera de verdade.
Deu alguns passos e encontrou uma velha com bagas no cesto. A velha lhe deu algumas. Elisa perguntou se não vira onze príncipes passarem a cavalo pela floresta.
“Não”, disse a velha, “mas ontem vi onze cisnes com coroas de ouro na cabeça nadando pelo rio aqui perto!”
E levou Elisa um pouco mais adiante, até uma encosta. Lá embaixo serpenteava um rio. As árvores de suas margens estendiam os longos ramos cheios de folhas umas em direção às outras; onde não conseguiam se alcançar com o crescimento natural, haviam arrancado as raízes da terra e se inclinavam sobre a água, com os galhos entrelaçados.
Elisa se despediu da velha e seguiu o rio até onde ele desaguava na grande praia aberta.
Todo o belo mar se estendia diante da jovem, mas não se via um veleiro lá fora, nem um barco. Como poderia ir mais longe? Observou as incontáveis pedrinhas da margem: a água as polira até ficarem redondas. Vidro, ferro, pedras, tudo o que as ondas haviam lançado ali tomara forma pela ação da água, que era muito mais macia que sua mão delicada. “Ela não se cansa de rolar, e assim o que é duro se alisa. Eu serei igualmente incansável! Obrigada pela lição, ondas claras que rolam! Um dia, meu coração me diz, vocês me levarão aos meus queridos irmãos!”
Sobre as algas trazidas pelas ondas havia onze penas brancas de cisne. Elisa as juntou num buquê. Havia gotas de água sobre elas; ninguém podia dizer se eram orvalho ou lágrimas. A praia era solitária, mas ela não sentia a solidão, pois o mar oferecia mudanças sem fim: em poucas horas, mais do que os lagos de água doce conseguem mostrar num ano inteiro. Quando vinha uma nuvem grande e negra, era como se o mar dissesse: eu também posso parecer escuro. Então o vento soprava, e as ondas mostravam seu lado branco. Mas, quando as nuvens brilhavam vermelhas e os ventos dormiam, o mar era como uma pétala de rosa. Ora ficava verde, ora branco. E, por mais quieto que repousasse, havia sempre um movimento suave junto à margem: a água se erguia de leve, como o peito de uma criança adormecida.
Quando o sol estava prestes a se pôr, Elisa viu onze cisnes selvagens com coroas de ouro na cabeça voando em direção à terra. Vinham um atrás do outro, como uma longa fita branca. Elisa subiu a encosta e se escondeu atrás de um arbusto. Os cisnes pousaram perto dela e bateram as grandes asas brancas.
No instante em que o sol ficou sob a água, a plumagem de cisne caiu de repente, e ali estavam onze belos príncipes, os irmãos de Elisa. Ela soltou um grito. Embora tivessem mudado muito, sabia que eram eles, sentia que tinham de ser eles. Saltou para seus braços e os chamou pelo nome. Eles ficaram tão felizes quando viram e reconheceram a irmãzinha, agora tão crescida e bonita! Riram e choraram, e logo cada um soube como a madrasta havia sido má com todos.
“Nós, irmãos”, disse o mais velho, “voamos como cisnes selvagens enquanto o sol está no céu. Quando ele se põe, recuperamos nossa forma humana. Por isso, ao pôr do sol, precisamos sempre ter onde apoiar os pés. Se estivermos voando lá no alto, perto das nuvens, cairemos como homens no abismo. Não moramos aqui. Do outro lado do mar há uma terra tão bela quanto esta, mas o caminho é longo. Precisamos atravessar o grande oceano, e não há nenhuma ilha no trajeto em que possamos passar a noite. Só uma pequena rocha solitária se ergue no meio dele; é apenas grande o bastante para repousarmos lado a lado. Quando o mar está agitado, a água espirra bem acima de nós, mas ainda assim agradecemos a Deus por essa rocha. Passamos a noite ali em nossa forma humana. Sem ela, nunca poderíamos visitar nossa querida pátria, pois levamos dois dos dias mais longos do ano para voar até aqui. Só nos é permitido visitar nossa terra natal uma vez por ano. Podemos ficar onze dias aqui, voar sobre a grande floresta e avistar o castelo onde nascemos e onde nosso pai mora, ver a torre alta da igreja em que nossa mãe está enterrada. Aqui nos parece que as árvores e os arbustos são nossos parentes. Aqui os cavalos selvagens correm pelas planícies, como os víamos na infância. Aqui o carvoeiro canta as velhas canções que dançávamos quando crianças. Aqui é nossa pátria, para cá somos atraídos, e aqui encontramos você, querida irmãzinha! Podemos ficar mais dois dias, depois teremos de atravessar o mar para uma terra bela, mas que não é nossa pátria. Como levaremos você? Não temos navio nem barco!”
“Como poderei salvar vocês?”, perguntou a irmã.
Conversaram quase a noite inteira; só cochilaram por algumas horas.
Elisa acordou com o ruído das asas dos cisnes passando sobre ela. Os irmãos haviam se transformado novamente e voavam em grandes círculos, até se afastarem. Mas um deles, o mais novo, ficou. O cisne pousou a cabeça no colo dela, e Elisa acariciou suas asas brancas. Passaram o dia todo juntos. Os outros voltaram ao anoitecer e, quando o sol se pôs, estavam em sua forma natural.
“Amanhã partiremos daqui e só poderemos voltar daqui a um ano inteiro. Mas não podemos abandonar você assim! Tem coragem de nos acompanhar? Meu braço é forte o bastante para carregá-la pela floresta. Será que, juntos, não teremos asas fortes o bastante para voar com você sobre o mar?”
“Sim, levem-me!”, disse Elisa.
Passaram a noite inteira trançando uma rede com a casca flexível do salgueiro e os juncos resistentes. A rede ficou grande e forte. Elisa se deitou nela e, quando o sol apareceu e os irmãos se transformaram em cisnes selvagens, eles agarraram a rede com os bicos e voaram alto, em direção às nuvens, com a querida irmã, que ainda dormia. Os raios de sol caíam diretamente em seu rosto; por isso, um dos cisnes voava por cima de sua cabeça para lhe dar sombra com as asas largas.
Já estavam longe da terra quando Elisa acordou. Ainda achava que sonhava, de tão estranho que lhe parecia ser carregada sobre o mar, no alto, pelo ar. Ao seu lado havia um ramo de belas bagas maduras e um feixe de raízes saborosas. O irmão mais novo as havia colhido e deixado para ela. Elisa lhe sorriu agradecida, pois reconhecia que era ele quem voava sobre sua cabeça, fazendo sombra com as asas.
Estavam tão alto que o primeiro navio que viram abaixo deles parecia uma gaivota branca pousada na água. Atrás havia uma grande nuvem, uma montanha inteira. Nela Elisa viu a própria sombra e as dos onze cisnes, que voavam ali como gigantes. Era um quadro mais magnífico do que qualquer outro que já vira. Mas, conforme o sol subia e a nuvem ficava mais para trás, aquela imagem flutuante de sombras desapareceu.
Voaram o dia inteiro como uma flecha zunindo pelo ar, mas mais devagar que de costume: agora tinham a irmã para carregar. O tempo piorava, a noite se aproximava. Angustiada, Elisa via o sol descer, e ainda não se avistava a rocha solitária no mar. Parecia-lhe que os cisnes batiam as asas com mais força. Ah, era culpa dela que não conseguissem avançar depressa o bastante! Quando o sol se pusesse, virariam homens, cairiam no mar e se afogariam. Do mais fundo do coração, fez uma oração a Nosso Senhor, mas ainda não avistava rocha alguma. A nuvem negra se aproximava; as rajadas fortes anunciavam uma tempestade. As nuvens formavam uma única onda grande e ameaçadora que avançava compacta como chumbo. Um relâmpago se seguia ao outro.
Agora o sol estava bem na borda do mar. O coração de Elisa tremia. Os cisnes mergulharam para baixo tão depressa que ela pensou que estava caindo, mas logo voltaram a planar. Metade do sol já estava na água quando ela finalmente avistou a pequena rocha abaixo de si. Parecia não ser maior que uma foca com a cabeça para fora da água. O sol descia tão depressa! Agora era apenas uma estrela; então o pé de Elisa tocou o chão firme. O sol se apagou como a última fagulha num papel em chamas. De braços dados, ela viu os irmãos em pé à sua volta; não havia espaço além do estritamente necessário para eles e para ela. O mar batia na rocha e passava sobre todos como uma chuva torrencial. O céu brilhava num fogo que não cessava, e os trovões ribombavam um após o outro. Mas a irmã e os irmãos seguravam as mãos uns dos outros e cantavam um salmo, do qual recebiam consolo e coragem.
Ao amanhecer, o ar estava limpo e quieto. Assim que o sol nasceu, os cisnes partiram da ilha com Elisa. O mar ainda estava agitado. Lá do alto, a espuma branca sobre o mar verde-escuro parecia milhões de cisnes flutuando na água.
Quando o sol subiu mais, Elisa viu à sua frente, como que flutuando no ar, uma terra de montanhas, com massas de gelo brilhantes nos picos. No meio se estendia um castelo que parecia ter uma milha de comprimento, com uma ousada colunata sobre a outra. Abaixo ondulavam bosques de palmeiras e flores magníficas, grandes como rodas de moinho. Perguntou se era aquela a terra para onde iam, mas os cisnes balançaram a cabeça: o que ela via era o belo castelo de nuvens de Fata Morgana, sempre mudando. Não podiam levar ser humano algum até lá. Elisa continuou olhando. Então montanhas, florestas e castelo desabaram juntos, e surgiram vinte igrejas imponentes, todas iguais, com torres altas e janelas pontudas. Pareceu-lhe ouvir um órgão, mas era o mar que ouvia. Agora estava bem perto das igrejas quando elas se tornaram uma frota inteira, que navegava debaixo dela. Olhou para baixo: era apenas a névoa do mar correndo sobre a água. As imagens se sucediam sem parar diante de seus olhos, até que viu a terra verdadeira para onde iam. Ali se erguiam belas montanhas azuis com florestas de cedros, cidades e castelos. Muito antes do pôr do sol, estava sentada na montanha diante de uma grande caverna coberta de finas trepadeiras verdes, que pareciam tapetes bordados.
“Agora vamos ver com o que você sonha aqui esta noite!”, disse o irmão mais novo, mostrando-lhe o lugar onde dormiria.
“Quem me dera sonhar como salvar vocês!”, disse ela. Esse pensamento a ocupava tão intensamente! Pediu a ajuda de Deus com todo o fervor; mesmo dormindo, continuou a oração. Então lhe pareceu que voava bem alto até o castelo de nuvens de Fata Morgana. A fada veio ao seu encontro, tão bela e resplandecente, embora se parecesse inteiramente com a velha que lhe dera bagas na floresta e falara dos cisnes com coroas de ouro.
“Seus irmãos podem ser salvos!”, disse ela. “Mas você tem coragem e perseverança? O mar é mais macio que suas mãos delicadas e, ainda assim, transforma as pedras duras. Mas ele não sente a dor que seus dedos sentirão; não tem coração e não sofre a angústia e o tormento que você terá de suportar. Está vendo esta urtiga que tenho na mão? Há muitas desta espécie em volta da caverna onde você dorme. Só as de lá e as que brotam nas sepulturas do cemitério servem; lembre-se disso. Você deve colhê-las, embora queimem sua pele e façam bolhas. Quebre as urtigas com os pés, e obterá linho. Com ele deverá fiar e tricotar onze cotas de mangas compridas. Jogue-as sobre os onze cisnes selvagens, e o feitiço estará desfeito. Mas lembre-se bem: desde o instante em que começar este trabalho até terminá-lo, mesmo que se passem anos, você não poderá falar. A primeira palavra que disser atravessará o coração de seus irmãos como um punhal mortal. A vida deles depende da sua língua. Guarde tudo isso!”
Naquele instante a fada tocou a mão dela com a urtiga. Foi como um fogo ardente, e Elisa acordou. Já era dia claro, e perto do lugar em que dormira havia uma urtiga igual à que vira no sonho. Elisa caiu de joelhos, agradeceu a Nosso Senhor e saiu da caverna para começar o trabalho.
Com as mãos delicadas, agarrou as terríveis urtigas, que eram como fogo. Grandes bolhas lhe queimavam as mãos e os braços, mas sofreria de bom grado, se assim pudesse salvar os queridos irmãos. Quebrou cada urtiga com os pés descalços e fiou o linho verde.
Quando o sol se pôs, os irmãos voltaram e se assustaram ao encontrá-la tão calada. Pensaram que fosse um novo feitiço da madrasta malvada. Mas, ao verem suas mãos, compreenderam o que fazia por eles. O irmão mais novo chorou; onde suas lágrimas caíam, ela não sentia dor e as bolhas ardentes desapareciam.
Ela passou a noite trabalhando, pois não teria sossego antes de salvar os queridos irmãos; durante todo o dia seguinte, enquanto os cisnes estavam longe, ficou em sua solidão, mas nunca o tempo havia voado tão depressa. Uma cota já estava pronta; agora começou a seguinte.
Então soaram trompas de caça entre as montanhas; ela ficou muito aflita; o som se aproximava; ouviu cães latindo; assustada, refugiou-se na gruta, amarrou num feixe as urtigas que havia colhido e penteado e sentou-se sobre elas.
No mesmo instante, um cão grande saltou do matagal, logo depois outro e mais outro; latiam alto, voltavam para trás e tornavam a avançar. Não passaram muitos minutos, e todos os caçadores estavam diante da gruta; o mais belo deles era o rei daquele país. Ele se aproximou de Elisa; nunca havia visto uma moça mais bonita.
— Como você veio parar aqui, linda criança? — perguntou ele. Elisa sacudiu a cabeça; não ousava falar, pois estavam em jogo a salvação e a vida dos irmãos; e escondeu as mãos sob o avental para que o rei não visse o que ela tinha de sofrer.
— Venha comigo! — disse ele. — Você não pode ficar aqui! Se for tão boa quanto é bonita, vou vesti-la de seda e veludo, pôr a coroa de ouro em sua cabeça, e você viverá em meu castelo mais rico! — E a ergueu para seu cavalo; ela chorava, torcia as mãos, mas o rei disse: — Só quero a sua felicidade! Um dia você ainda vai me agradecer! — E partiu a galope entre as montanhas, segurando-a à sua frente no cavalo, com os caçadores correndo atrás.
Quando o sol se pôs, surgiu diante deles a magnífica cidade real, com igrejas e cúpulas, e o rei a conduziu ao castelo, onde grandes fontes jorravam nos altos salões de mármore, onde paredes e tetos resplandeciam de pinturas; mas ela não tinha olhos para aquilo; chorava e se afligia. De boa vontade deixou que as mulheres lhe vestissem os trajes reais, entrelaçassem pérolas em seus cabelos e enfiassem luvas finas sobre seus dedos queimados.
Quando se apresentou com todo aquele esplendor, estava tão deslumbrante que a corte se inclinou ainda mais fundo diante dela, e o rei a escolheu como noiva; embora o arcebispo sacudisse a cabeça e sussurrasse que a bela moça da floresta certamente era uma bruxa: ela lhes ofuscava os olhos e enfeitiçava o coração do rei.
Mas o rei não lhe deu ouvidos; mandou tocar música, trazer os pratos mais requintados, dançar ao redor dela as moças mais encantadoras, e ela foi conduzida por jardins perfumados a salões magníficos; mas nenhum sorriso lhe passou pelos lábios nem surgiu nos olhos; a tristeza permanecia ali, como herança e propriedade eternas. Então o rei abriu um pequeno quarto, perto de onde ela dormiria; estava enfeitado com preciosas tapeçarias verdes e parecia exatamente a gruta em que ela estivera. No chão estava o feixe de linho que ela havia fiado das urtigas, e junto ao teto pendia a cota já tricotada; um dos caçadores havia recolhido tudo aquilo como uma curiosidade.
— Aqui você pode sonhar que está de volta à sua antiga casa! — disse o rei. — Aqui está o trabalho que a ocupava lá; agora, em meio a todo o seu esplendor, será agradável pensar naquele tempo.
Quando Elisa viu aquilo, que lhe era tão caro ao coração, um sorriso brincou em sua boca e o sangue lhe voltou às faces; pensou na salvação dos irmãos, beijou a mão do rei, e ele a apertou contra o coração e mandou que todos os sinos das igrejas anunciassem a festa de casamento. A bela moça muda da floresta era a rainha do país.
Então o arcebispo sussurrou palavras maldosas ao ouvido do rei, mas elas não penetraram em seu coração; o casamento se realizaria. O próprio arcebispo teve de lhe pôr a coroa na cabeça e, com má vontade rancorosa, apertou aquele aro estreito contra a testa, causando-lhe dor; mas havia um aro mais pesado ao redor do coração dela: a aflição por seus irmãos; ela não sentia a dor do corpo. Sua boca permanecia muda; uma única palavra tiraria a vida dos irmãos, mas em seus olhos havia um profundo amor pelo rei bom e belo, que fazia tudo para alegrá-la. A cada dia, ela o queria mais, de todo o coração; ah, se ao menos pudesse confiar nele, contar-lhe seu sofrimento! Mas tinha de permanecer muda, muda tinha de concluir seu trabalho. Por isso, à noite, saía de mansinho do lado dele e ia ao pequeno quarto secreto, enfeitado como a gruta, onde tricotava uma cota após a outra; mas, quando começou a sétima, já não tinha linho.
Ela sabia que no cemitério cresciam as urtigas de que precisava, mas tinha de colhê-las com as próprias mãos; como chegaria até lá?
— Ah, o que é a dor em meus dedos diante do tormento que meu coração sofre! — pensou ela. — Preciso me arriscar! Nosso Senhor não vai me abandonar! — Com o coração aflito, como se estivesse prestes a cometer uma má ação, desceu furtivamente ao jardim, na noite de luar, atravessou as longas alamedas, saiu pelas ruas desertas e chegou ao cemitério. Ali viu, sentadas em círculo sobre uma das lápides mais largas, lâmias, bruxas horrendas; tiravam seus farrapos como se fossem se banhar e depois cavavam as sepulturas recentes com seus longos dedos magros, retiravam os cadáveres e lhes devoravam a carne. Elisa teve de passar bem perto delas, e elas cravaram nela seus olhos malignos; mas ela recitou sua oração, colheu as urtigas que queimavam e as levou para casa, ao castelo.
Uma única pessoa a havia visto: o arcebispo. Ele estava acordado quando os outros dormiam; agora tinha afinal a confirmação do que pensava: havia algo de errado com a rainha; ela era uma bruxa, por isso havia enfeitiçado o rei e todo o povo.
No confessionário, contou ao rei o que havia visto e o que temia; e, quando as palavras duras saíram de sua língua, as imagens entalhadas dos santos sacudiram a cabeça, como se quisessem dizer: não é assim, Elisa é inocente! Mas o arcebispo interpretou aquilo de outro modo; achava que elas testemunhavam contra a moça, que sacudiam a cabeça diante de seu pecado. Então duas lágrimas pesadas rolaram pelas faces do rei; ele voltou para casa com a dúvida no coração. À noite, fingiu dormir, mas nenhum sono tranquilo lhe veio aos olhos; percebeu Elisa se levantar, e todas as noites ela repetia aquilo; a cada vez, ele a seguia em silêncio e a via desaparecer em seu quarto secreto.
A cada dia, a expressão dele se tornava mais sombria. Elisa via aquilo, mas não entendia por quê; isso a afligia, e quanto já não sofria seu coração pelos irmãos! Suas lágrimas salgadas escorriam pelo veludo e pela púrpura reais; ali ficavam, como diamantes cintilantes, e todos os que viam aquele rico esplendor desejavam ser a rainha. Entretanto, logo ela se aproximou do fim do trabalho; faltava apenas uma cota, mas também já não havia linho, nem uma única urtiga. Por isso tinha de ir ao cemitério mais uma vez, só aquela última, para colher alguns punhados. Pensava com angústia na caminhada solitária e nas terríveis lâmias; mas sua vontade era firme como sua confiança em Nosso Senhor.
Elisa saiu, mas o rei e o arcebispo a seguiram. Viram-na desaparecer pelo portão de grades do cemitério e, quando se aproximaram dele, as lâmias estavam sentadas sobre a lápide, como Elisa as havia visto. O rei virou o rosto, pois imaginava entre elas aquela cuja cabeça, ainda naquela noite, havia repousado em seu peito.
— O povo deve julgá-la! — disse ele; e o povo julgou: ela seria queimada nas chamas vermelhas.
Dos magníficos salões reais, foi levada a um buraco escuro e úmido, onde o vento assobiava pela janela gradeada. Em vez de veludo e seda, deram-lhe o feixe de urtigas que ela havia colhido, para apoiar a cabeça; as cotas duras e ardentes que havia tricotado serviriam de edredom e coberta. Mas não poderiam ter lhe dado nada mais querido: ela retomou seu trabalho e orou a seu Deus. Lá fora, os meninos de rua cantavam canções de escárnio sobre ela; nenhuma alma a consolava com uma palavra afetuosa.
Ao cair da tarde, uma asa de cisne passou zunindo bem junto à grade; era o mais novo dos irmãos, que havia encontrado a irmã. Ela soluçou alto de alegria, embora soubesse que a noite que se aproximava talvez fosse a última de sua vida; mas agora o trabalho também estava quase concluído, e seus irmãos estavam ali.
O arcebispo veio passar com ela sua última hora, como havia prometido ao rei; mas ela sacudiu a cabeça, pedindo com o olhar e os gestos que ele fosse embora. Naquela noite, precisava terminar o trabalho; do contrário, tudo seria inútil: tudo, a dor, as lágrimas e as noites sem dormir! O arcebispo se retirou lançando-lhe palavras maldosas, mas a pobre Elisa sabia que era inocente e continuou seu trabalho.
Os camundonguinhos corriam pelo chão e arrastavam as urtigas até seus pés para ajudar um pouco; e o tordo pousou na grade da janela e cantou a noite inteira, tão alegremente quanto podia, para que ela não perdesse a coragem.
Mal começava a clarear; faltava ainda uma hora para o sol nascer quando os onze irmãos chegaram ao portão do castelo e exigiram ser conduzidos ao rei. Mas responderam que isso não podia acontecer: ainda era noite, o rei dormia e não se podia acordá-lo. Eles suplicaram, ameaçaram; a guarda veio e até o próprio rei saiu e perguntou o que significava aquilo. Nesse mesmo instante, o sol nasceu; já não havia irmãos à vista, mas onze cisnes selvagens voavam sobre o castelo.
Todo o povo saía em multidão pelo portão da cidade; queria ver a bruxa ser queimada. Um cavalo miserável puxava a carroça em que ela estava sentada; haviam lhe vestido uma túnica de pano grosseiro de saco. Seus belos cabelos compridos caíam soltos em torno da cabeça bonita; suas faces estavam pálidas como a morte, seus lábios se moviam suavemente enquanto os dedos torciam o linho verde. Nem a caminho da morte ela largava o trabalho começado: as dez cotas estavam a seus pés, e ela tricotava a décima primeira. A turba a insultava.
— Olhem a bruxa, como resmunga! Não tem um livro de salmos nas mãos; fica aí com sua feitiçaria repugnante! Arranquem isso dela e façam em mil pedaços!
E todos avançaram sobre ela, querendo rasgar o trabalho; então onze cisnes brancos chegaram voando, pousaram ao redor dela na carroça e bateram suas grandes asas. A multidão recuou horrorizada.
— É um sinal do céu! Ela deve ser inocente! — sussurravam muitos, mas não ousavam dizê-lo em voz alta.
Então o carrasco a segurou pela mão; ela lançou depressa as onze camisas sobre os cisnes, e ali estavam onze belos príncipes. Mas o mais novo tinha uma asa de cisne no lugar de um dos braços, porque faltava uma manga em sua cota: ela não havia conseguido terminá-la.
— Agora posso falar! — disse ela. — Sou inocente!
E o povo, vendo o que havia acontecido, inclinou-se diante dela como diante de uma santa; mas ela caiu sem sentidos nos braços dos irmãos, tamanhos haviam sido os efeitos da tensão, da angústia e da dor.
— Sim, ela é inocente! — disse o irmão mais velho, e contou tudo o que havia acontecido. Enquanto ele falava, espalhou-se um perfume como o de milhões de rosas, pois cada pedaço de lenha da fogueira havia criado raízes e lançado ramos; ali estava uma cerca viva perfumada, tão alta e grande, com rosas vermelhas. No alto havia uma única flor, branca e brilhante, que reluzia como uma estrela; o rei a colheu e a pôs no peito de Elisa. Então ela despertou com paz e felicidade no coração.
E todos os sinos das igrejas tocaram sozinhos, e os pássaros chegaram em grandes bandos; formou-se de volta ao castelo um cortejo de casamento como nenhum rei ainda havia visto.
Sobre esta edição
- Obra
- De vilde Svaner
- Autoria original
- Hans Christian Andersen
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Codex · tradução assistida por IA
- Revisão
- Codex · revisão independente por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 30/10/2026
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De vilde Svaner
Ler o original em dinamarquês
Langtborte herfra, der hvor Svalerne flyve hen, naar vi have Vinter, boede en Konge, som havde elleve Sønner og en Datter, Elisa. De elleve Brødre, Prindser vare de, gik i Skole med Stjerne paa Brystet og Sabel ved Siden; de skreve paa Guldtavle med Diamantgriffel og læste ligesaa godt udenad, som indeni; man kunde strax høre, at de vare Prindser. Søsteren Elisa sad paa en lille Skammel af Speilglas og havde en Billedbog, der var kjøbt for det halve Kongerige.
O, de Børn havde det saa godt, men saaledes skulde det ikke altid blive!
Deres Fader, som var Konge over hele Landet, giftede sig med en ond Dronning, der slet ikke var de stakkels Børn god; allerede den første Dag kunde de godt mærke det; paa hele Slottet var der stor Stads, og saa legede Børnene: komme Fremmede; men istedetfor at de ellers fik alle de Kager og stegte Æbler, der vare at overkomme, gav hun dem kun Sand i en Thekop og sagde, at de kunde lade, som om det var noget.
Ugen efter satte hun den lille Søster Elisa ud paa Landet hos nogle Bønderfolk, og længe varede det ikke, før hun fik Kongen indbildt saameget om de stakkels Prindser, at han slet ikke brød sig mere om dem.
„Flyv I ud i Verden og skjøt jer selv!“ sagde den onde Dronning; „flyv som store Fugle, uden Stemme!“ men hun kunde dog ikke gjøre det saa slemt, som hun gjerne vilde; de bleve elleve deilige vilde Svaner. Med et underligt Skrig fløi de ud af Slotsvinduerne henover Parken og Skoven.
Det var endnu ganske tidlig Morgen, da de kom forbi, hvor Søsteren Elisa laae og sov i Bondens Stue; her svævede de over Taget, dreiede med deres lange Halse, og sloge med Vingerne, men ingen hørte eller saae det; de maatte igjen afsted, høit op imod Skyerne, langt ud i den vide Verden, der fløi de ud i en stor mørk Skov, der strakte sig lige til Stranden.
Den stakkels lille Elisa stod i Bondens Stue, og legede med et grønt Blad, andet Legetøi havde hun ikke; og hun stak et Hul i Bladet, kikkede derigjennem op paa Solen, og da var det ligesom om hun saae sine Brødres klare Øine, og hver Gang de varme Solstraaler skinnede paa hendes Kind, tænkte hun paa alle deres Kys.
Den ene Dag gik ligesom den anden. Blæste Vinden gjennem de store Rosenhækker udenfor Huset, da hvidskede de til Roserne: „hvo kan være smukkere, end I,“ men Roserne rystede med Hovedet og sagde: „Det er Elisa.“ Og sad den gamle Kone om Søndagen i Døren og læste i sin Psalmebog, da vendte Vinden Bladene, og sagde til Bogen: „Hvo kan være frommere end Du?“ — „Det er Elisa!“ sagde Psalmebogen, og det var den rene Sandhed, hvad Roserne og Psalmebogen sagde.
Da hun var femten Aar, skulde hun hjem; og da Dronningen saae, hvor smuk hun var, blev hun hende vred og hadefuld; gjerne havde hun forvandlet hende til en vild Svane, ligesom Brødrene, men det turde hun ikke strax, da jo Kongen vilde see sin Datter.
I den tidlige Morgen gik Dronningen ind i Badet, der var bygget af Marmor, og smykket med bløde Hynder og de deiligste Tæpper, og hun tog tre Skrubtudser, kyssede paa dem, og sagde til den ene: „sæt Dig paa Elisas Hoved, naar hun kommer i Badet, at hun kan blive dorsk, som Du! Sæt Dig paa hendes Pande,“ sagde hun til den anden, „at hun kan blive styg, som Du, saa at hendes Fader ikke kjender hende! Hvil ved hendes Hjerte,“ hvidskede hun til den tredie, „lad hende faae et ondt Sind, at hun kan have Pine deraf!“ Saa satte hun Skrubtudserne ud i det klare Vand, der strax fik en grønlig Farve, kaldte paa Elisa, klædte hende af, og lod hende stige ned i Vandet, og i det hun dukkede, satte den ene Skrubtudse sig i hendes Haar, den anden paa hendes Pande og den tredie paa Brystet, men Elisa syntes slet ikke at mærke det; saasnart hun reiste sig op, flød der tre røde Valmuer paa Vandet; havde Dyrene ikke været giftige og kyssede af Hexen, da vare de blevne forvandlede til røde Roser, men Blomster bleve de dog, ved at hvile paa hendes Hoved og ved hendes Hjerte; hun var for from og uskyldig til at Trolddommen kunde have Magt over hende.
Da den onde Dronning saae det, gned hun hende ind med Valnød-Saft, saa hun blev ganske sortbruun, strøg det smukke Ansigt over med en stinkende Salve og lod det deilige Haar filtre sig; det var umuligt at kjende den smukke Elisa igjen.
Da derfor hendes Fader saae hende, blev han ganske forskrækket, og sagde at det var ikke hans Datter; Ingen vilde heller kjendes ved hende, uden Lænkehunden og Svalerne, men de vare fattige Dyr og havde ikke noget at sige.
Da græd den stakkels Elisa og tænkte paa sine elleve Brødre, der alle vare borte. Bedrøvet listede hun sig udaf Slottet, gik hele Dagen over Mark og Mose ind i den store Skov. Hun vidste slet ikke, hvor hun vilde hen, men hun følte sig saa bedrøvet og længtes efter sine Brødre, de vare vist ogsaa, ligesom hun, jaget ud i Verden, dem vilde hun søge og finde.
Kun kort Tid havde hun været i Skoven, før Natten faldt paa; hun var kommet reent bort fra Vei og Sti; da lagde hun sig ned paa det bløde Mos, læste sin Aftenbøn og hældede sit Hoved op til en Stub. Der var saa stille, Luften var saa mild, og rundt omkring i Græsset og paa Mosset skinnede, som en grøn Ild, over hundrede Sanct Hans-Orme; da hun med Haanden sagte rørte ved een af Grenene, faldt de lysende Insecter, som Stjerneskud, ned til hende.
Hele Natten drømte hun om sine Brødre; de legede igjen, som Børn, skrev med Diamantgriffel paa Guldtavle og saae i den deilige Billedbog, der havde kostet det halve Rige; men paa Tavlen skreve de ikke, som før, kun Nuller og Streger, nei de dristigste Bedrifter de havde udført, Alt hvad de havde oplevet og seet; og i Billedbogen var Alt levende, Fuglene sang, og Menneskene gik ud af Bogen og talte til Elisa og hendes Brødre; men naar hun vendte Bladet, sprang de strax igjen ind, for at der ikke skulde komme Vildrede i Billederne.
Da hun vaagnede, var Solen allerede høit oppe; hun kunde rigtignok ikke see den, de høie Træer bredte deres Grene tæt og fast ud, men Straalerne spillede deroppe ligesom et viftende Guldflor; der var en Duft af det Grønne, og Fuglene vare nær ved at sætte sig paa hendes Skuldre. Hun hørte Vandet pladske, det var mange store Kildevæld, som alle faldt ud i en Dam hvor der var den deiligste Sandbund; rigtignok voxte her tætte Buske rundt om, men paa eet Sted havde Hjortene gravet en stor Aabning og her gik Elisa hen til Vandet, det var saa klart, at havde Vinden ikke rørt Grene og Buske saaledes at de bevægede sig, da maatte hun have troet, at de vare malede af nede paa Bunden, saa tydeligt speilede sig der hvert Blad, baade det Solen skinnede igjennem og det der ganske var i Skygge.
Saasnart hun saae sit eget Ansigt, blev hun ganske forskrækket, saa bruunt og fælt var det, men da hun gjorde sin lille Haand vaad og gned Øine og Pande, skinnede den hvide Hud frem igjen, da lagde hun alle sine Klæder og gik ud i det friske Vand; et deiligere Kongebarn, end hun var, fandtes der ikke i denne Verden.
Da hun igjen var klædt og havde flettet sit lange Haar, gik hun til det sprudlende Væld, drak af sin hule Haand, og vandrede længere ind i Skoven, uden selv at vide hvorhen. Hun tænkte paa sine Brødre, tænkte paa den gode Gud, der vist ikke vilde forlade hende; han lod de vilde Skovæbler groe, for at mætte den Hungrige; han viste hende et saadant Træ, Grenene bugnede af Frugt, her holdt hun sit Middagsmaaltid, satte Støtter under dets Grene og gik saa ind i den mørkeste Deel af Skoven. Der var saa stille, at hun hørte sine egne Fodtrin, hørte hvert lille vissent Blad der bøiede sig under hendes Fod; ikke en Fugl var der at see, ikke en Solstraale kunde trænge igjennem de store tætte Trægrene; de høie Stammer stode saa nær ved hinanden, at naar hun saae ligefrem, var det, som om det ene Bjelkegitter, tæt ved det andet, omsluttede hende; o, her var en Eensomhed, hun aldrig før havde kjendt.
Natten blev saa mørk; ikke en eneste lille Sanct Hansorm skinnede fra Mosset, bedrøvet lagde hun sig ned for at sove; da syntes hun at Trægrenene oven over hende gik til Side og vor Herre med milde Øine saae ned paa hende, og smaa Engle tittede frem over hans Hoved og under hans Arme.
Da hun vaagnede om Morgenen, vidste hun ikke, om hun havde drømt det, eller om det virkelig var saa.
Hun gik nogle Skridt fremad, da mødte hun en gammel Kone med Bær i sin Kurv, den Gamle gav hende nogle af disse. Elisa spurgte, om hun ikke havde seet elleve Prindser ride igjennem Skoven.
„Nei“, sagde den Gamle, „men jeg saae igaar elleve Svaner med Guldkroner paa Hovedet svømme ned af Aaen her tæt ved!“
Og hun førte Elisa et Stykke længer frem til en Skrænt; nedenfor denne bugtede sig en Aa; Træerne paa dens Bredder strakte deres lange bladfulde Grene over imod hinanden, og hvor de, efter deres naturlige Væxt, ikke kunde naae sammen, der havde de revet Rødderne løse fra Jorden og heldede ud over Vandet med Grenene flettede i hinanden.
Elisa sagde Farvel til den Gamle og gik langs med Aaen, til hvor denne flød ud i den store, aabne Strand.
Hele det deilige Hav laae for den unge Pige; men ikke en Seiler viste sig derude, ikke en Baad var der at see, hvor skulde hun dog komme længer bort. Hun betragtede de utallige Smaastene paa Bredden; Vandet havde slebet dem alle runde. Glas, Jern, Stene, Alt hvad der laae skyllet op, havde taget Skikkelse af Vandet, der dog var langt blødere end hendes fine Haand. „Det bliver utrætteligt ved at rulle, og saa jevner sig det Haarde, jeg vil være ligesaa utrættelig! tak for Eders Lærdom, I klare, rullende Bølger; engang, det siger mit Hjerte mig, ville I bære mig til mine kjære Brødre!“
Paa den opskyllede Tang laae elleve hvide Svanefjer; hun samlede dem i en Bouquet, der laae Vanddraaber paa dem, om det var Dug eller Taarer, kunde ingen see. Eensomt var der ved Stranden, men hun følte det ikke; thi Havet frembød en evig Afvexling, ja i nogle faa Timer flere, end de ferske Indsøer kunne vise i et heelt Aar. Kom der en stor sort Sky, saa var det, som Søen vilde sige: jeg kan ogsaa see mørk ud, og da blæste Vinden og Bølgerne vendte det Hvide ud; men skinnede Skyerne røde og Vindene sov, saa var Havet som et Rosenblad; nu blev det grønt, nu hvidt; men i hvor stille det hvilede, var der dog ved Bredden en sagte Bevægelse; Vandet hævede sig svagt, som Brystet paa et sovende Barn.
Da Solen var ved at gaae ned, saae Elisa elleve vilde Svaner med Guldkroner paa Hovedet flyve mod Land, de svævede den ene bag den anden; det saae ud som et langt hvidt Baand; da steg Elisa op paa Skrænten og skjulte sig bag en Busk; Svanerne satte sig nær ved hende og sloge med deres store, hvide Vinger.
I det Solen var under Vandet, faldt pludseligt Svanehammen og der stode elleve deilige Prindser, Elisas Brødre. Hun udstødte et høit Skrig; thi uagtet de havde forandret sig meget, vidste hun, at det var dem, følte, at det maatte være dem; og hun sprang i deres Arme, kaldte dem ved Navn og de bleve saa lyksalige, da de saae og kjendte deres lille Søster, der nu var saa stor og deilig. De loe og de græd, og snart havde de forstaaet hinanden, hvor ond deres Stedmoder havde været imod dem Alle.
„Vi Brødre,“ sagde den ældste, „flyve, som vilde Svaner, saalænge Solen staaer paa Himlen; naar den er nede, faae vi vor menneskelige Skikkelse; derfor maae vi altid ved Sol-Nedgang passe paa at have Hvile for Foden; for flyve vi da oppe mod Skyerne, maae vi, som Mennesker styrte ned i Dybet. Her boe vi ikke; der ligger et ligesaa skjønt Land, som dette, hiin Side Søen; men Veien der hen er lang, det store Hav maae vi over, og der findes ingen Ø paa vor Vei, hvor vi kunne overnatte, kun en eensom lille Klippe rager op midt derude; den er ei større, end at vi Side om Side kunne hvile paa den; gaaer Søen stærk saa sprøiter Vandet høit over os; men dog takke vi vor Gud for den. Der overnatte vi i vor Skikkelse som Menneske, uden den kunde vi aldrig gjæste vort kjære Fædreland, thi to af Aarets længste Dage bruge vi til vor Flugt. Kun eengang om Aaret er det forundt os at besøge vort Fædrenehjem, elleve Dage tør vi blive her, flyve henover den store Skov, hvorfra vi kunne øine Slottet, hvor vi bleve fødte og hvor vor Fader boer, see det høie Taarn af Kirken, hvor Moder er begravet. — Her synes vi Træer og Buske ere i Slægt med os, her løbe de vilde Heste hen over Sletterne, som vi saae det i vor Barndom; her synger Kulbrænderen de gamle Sange, vi dandsede efter som Børn, her er vort Fædreland, her drages vi hen og her have vi fundet Dig Du kjære, lille Søster! to Dage endnu tør vi blive her, saa maae vi bort over Havet til et deiligt Land, men som ikke er vort Fædreland! hvorledes faae vi Dig med? Vi have hverken Skib eller Baad!“
„Hvorledes skal jeg kunne frelse Eder!“ sagde Søsteren.
Og de talte sammen næsten den hele Nat, der blev kun blundet nogle Timer.
Elisa vaagnede ved Lyden af Svanevingerne, der susede over hende. Brødrene vare igjen forvandlede og de fløi i store Kredse og tilsidst langtbort, men en af dem, den yngste, blev tilbage; og Svanen lagde sit Hoved i hendes Skjød og hun klappede dens hvide Vinger; hele Dagen vare de sammen. Mod Aften kom de Andre tilbage, og da Solen var nede, stode de i deres naturlige Skikkelse.
„Imorgen flyve vi herfra, tør ikke komme tilbage før om et heelt Aar, men Dig kunne vi ikke saaledes forlade! har Du Mod at følge med? Min Arm er stærk nok til at bære Dig gjennem Skoven, skulle vi da ikke Alle have stærke Vinger nok til at flyve med Dig over Havet!“
„Jo, tag mig med!“ sagde Elisa.
Den hele Nat tilbragte de med at flette et Net af den smidige Pilebark og de seige Siv, og det blev stort og stærkt; paa dette lagde Elisa sig, og da Solen saa kom frem, og Brødrene forvandledes til vilde Svaner, grebe de i Nettet med deres Næb, og fløi høit mod Skyerne med den kjære Søster, der sov endnu. Solstraalerne faldt lige paa hendes Ansigt, derfor fløi en af Svanerne over hendes Hoved, at dens brede Vinger kunde give Skygge. —
De vare langt fra Land, da Elisa vaagnede; hun troede endnu at drømme, saa underligt forekom det hende, at bæres over Havet, høit igjennem Luften. Ved hendes Side laae en Green med deilige modne Bær, og et Bundt velsmagende Rødder; dem havde den yngste af Brødrene samlet og lagt til hende, og hun tilsmilede ham taknemlig, thi hun kjendte, det var ham, som fløi lige over hendes Hoved, og skyggede med Vingerne.
De vare saa høit oppe, at det første Skib, de saae under dem, syntes en hvid Maage, der laae paa Vandet. En stor Sky stod bagved dem, det var et heelt Bjerg, og paa den saae Elisa Skyggen af sig selv, og af de elleve Svaner, saa kjæmpestore fløi de der; det var et Skilderi, prægtigere end hun havde seet noget før; men altsom Solen steeg høiere og Skyen blev længere bagved dem, forsvandt det svævende Skyggebillede.
Den hele Dag fløi de afsted, som en susende Piil gjennem Luften, men dog var det langsommere end ellers, nu havde de Søsteren at bære. Der trak et ondt Veir op, Aftenen nærmede sig; angst saae Elisa Solen synke, og endnu var ei den eensomme Klippe i Havet at øine; det forekom hende, at Svanerne gjorde stærkere Slag med Vingerne. Ak! hun var Skyld i, at de ei kom hurtigt nok afsted; naar Solen var nede, vilde de blive til Mennesker, styrte i Havet, og drukne. Da bad hun i sit Hjertes Inderste en Bøn til vor Herre, men endnu øinede hun ingen Klippe; den sorte Sky kom nærmere; de stærke Vindpust forkyndte en Storm; Skyerne stode i een eneste stor truende Bølge, der fast som Bly skjød fremad; Lyn blinkede paa Lyn.
Nu var Solen lige ved Randen af Havet. Elisas Hjerte bævede; da skjød Svanerne nedad, saa hastigt at hun troede at falde; men nu svævede de igjen. Solen var halvt nede i Vandet; da først øinede hun den lille Klippe under sig, den saae ud, ikke større, end om det var en Sælhund, der stak Hovedet op af Vandet. Solen sank saa hurtigt; nu var den kun, som en Stjerne; da rørte hendes Fod ved den faste Grund, Solen slukkedes liig den sidste Gnist i det brændende Papir; Arm i Arm saae hun Brødrene staae omkring sig; men mere Plads, end netop til dem og hende, var der heller ikke. Søen slog mod Klippen, og gik som en Slagregn hen over dem; Himlen skinnede i een altid flammende Ild og Slag paa Slag rullede Tordenen; men Søster og Brødre holdt hinanden i Hænderne og sang en Psalme, hvoraf de fik Trøst og Mod.
I Dagningen var Luften reen og stille; saasnart Solen steeg, fløi Svanerne med Elisa bort fra Øen. Havet gik endnu stærkt, det saae ud, da de vare høit i Veiret, som om den hvide Skum paa den sortegrønne Sø var Millioner Svaner, der fløde paa Vandet.
Da Solen kom høiere, saae Elisa foran sig, halv svømmende i Luften, et Bjergland, med skinnende Iismasser paa Fjeldene og midt derpaa strakte sig et vist milelangt Slot, med den ene dristige Søilegang ovenpaa den anden; nedenfor gyngede Palmeskove og Pragtblomster, store, som Møllehjul. Hun spurgte, om det var Landet, hun skulde til, men Svanerne rystede med Hovedet, thi det, hun saae, var Fata Morganas deilige, altid omvexlende Skyslot; derind turde de intet Menneske bringe. Elisa stirrede derpaa; da styrtede Bjerge, Skove og Slot sammen, og der stode tyve stolte Kirker, alle hinanden liig, med høie Taarne, og spidse Vinduer. Hun syntes at høre Orgelet klinge, men det var Havet, hun hørte. Nu var hun Kirkerne ganske nær, da bleve disse til en heel Flaade, der seilede hen under hende; hun saae ned, og det var kun Havtaage, der jog hen over Vandet. I en evig Afvexling havde hun for Øie, og nu saae hun det virkelige Land, hun skulde til; der reiste sig de deilige blaa Bjerge, med Cederskove, Byer og Slotte. Længe før Solen gik ned, sad hun paa Fjeldet foran en stor Hule, der var begroet med fine grønne Slyngplanter; det saae ud, som det var broderede Tæpper.
„Nu skal vi see, hvad Du drømmer her inat!“ sagde den yngste Broder og viste hende hendes Sovekammer.
„Gid jeg maatte drømme, hvorledes jeg skulde frelse Eder!“ sagde hun; og denne Tanke beskjæftigede hende saa levende; hun bad saa inderlig til Gud om hans Hjælp, ja selv isøvne vedblev hun sin Bøn; da forekom det hende, at hun fløi høit op i Luften, til Fata Morganas Skyslot, og Feen kom hende imøde, saa smuk og glimrende, og dog lignede hun ganske den gamle Kone, der gav hende Bær i Skoven, og fortalte hende om Svanerne med Guldkronerne paa.
„Dine Brødre kan frelses!“ sagde hun, „men har Du Mod og Udholdenhed. Vel er Havet blødere end dine fine Hænder, og omformer dog de haarde Stene, men det føler ikke den Smerte, dine Fingre ville føle; det har intet Hjerte, lider ikke den Angest og Qval, Du maa udholde. Seer Du denne Brændenælde, jeg holder i min Haand! af denne Slags voxe mange rundt om Hulen, hvor Du sover; kun de der, og de, som skyde frem paa Kirkegaardens Grave, ere brugelige, mærk Dig det; dem maa Du plukke, skjøndt de vil brænde din Hud i Vabler; bryd Nælderne med dine Fødder, da faaer Du Hør; med den skal Du snoe og binde elleve Pantserskjorter, med lange Ærmer, kast disse over de elleve vilde Svaner, saa er Trolddommen løst. Men husk vel paa, at fra det Øieblik, Du begynder dette Arbeide, og lige til det er fuldendt, om der endog gaaer Aar imellem, maa Du ikke tale; det første Ord, Du siger, gaaer som en dræbende Dolk i dine Brødres Hjerte; ved Din Tunge hænger deres Liv. Mærk Dig Alt dette!“
Og hun rørte i det samme ved hendes Haand med Nælden; den var som en brændende Ild, Elisa vaagnede derved. Det var lys Dag, og tæt ved, hvor hun havde sovet, laae en Nælde, som den, hun havde seet i Drømme. Da faldt hun paa sine Knæ, takkede vor Herre, og gik ud af Hulen, for at begynde paa sit Arbeide.
Med de fine Hænder greb hun ned i de hæslige Nælder, de vare som Ild; store Vabler brændte de paa hendes Hænder og Arme, men gjerne vilde hun lide det, kunde hun frelse de kjære Brødre. Hun brød hver Nælde med sine nøgne Fødder, og snoede den grønne Hør.
Da Solen var nede, kom Brødrene, og de bleve forskrækkede ved at finde hende saa taus; de troede at det var en ny Trolddom af den onde Stedmoder; men da de saae hendes Hænder, begreb de, hvad hun gjorde for deres Skyld, og den yngste Broder græd, og hvor hans Taarer faldt, der følte hun ingen Smerter, der forsvandt de brændende Vabler.
Natten tilbragte hun med sit Arbeide, thi hun havde ingen Ro, før hun havde frelst de kjære Brødre; hele den følgende Dag, medens Svanerne vare borte, sad hun i sin Eensomhed, men aldrig havde Tiden fløiet saa hurtig. Een Pantserskjorte var alt færdig, nu begyndte hun paa den næste.
Da klang Jagthorn mellem Bjergene; hun blev ganske angest; Lyden kom nærmere; hun hørte Hunde gjøe; forskrækket søgte hun ind i Hulen, bandt Nælderne, hun havde samlet og heglet, i et Bundt, og satte sig derpaa.
I det samme kom en stor Hund springende frem fra Krattet, og strax efter en, og endnu en; de gjøede høit, løb tilbage, og kom frem igjen. Det varede ikke mange Minuter, saa stode alle Jægerne udenfor Hulen, og den smukkeste blandt dem var Landets Konge, han traadte hen til Elisa, aldrig havde han seet en skjønnere Pige.
„Hvor er Du kommet her, Du deilige Barn!” sagde han. Elisa rystede med Hovedet, hun turde jo ikke tale, det gjaldt hendes Brødres Frelse og Liv; og hun skjulte sine Hænder under Forklædet, at Kongen ikke skulde see, hvad hun maatte lide.
„Følg med mig!” sagde han, „her maa Du ikke blive! er Du god, som Du er smuk, da vil jeg klæde Dig i Silke og Fløiel; sætte Guldkronen paa dit Hoved, og Du skal boe og bygge i mit rigeste Slot! — og saa løftede han hende op paa sin Hest; hun græd, vred sine Hænder, men Kongen sagde: „Jeg vil kun din Lykke! engang skal Du takke mig derfor!” og saa foer han afsted mellem Bjergene, og holdt hende foran paa Hesten, og Jægerne joge bagefter.
Da Solen gik ned, laae den prægtige Kongestad, med Kirker og Kupler foran, og Kongen førte hende ind i Slottet, hvor store Vandspring pladskede i de høie Marmorsale, hvor Vægge og Loft prangede med Malerier, men hun havde ikke Øine derfor; hun græd og sørgede; godvillig lod hun Qvinderne iføre hende de kongelige Klæder, flette Perler i hendes Haar, og trække fine Handsker over de forbrændte Fingre.
Da hun stod der i al sin Pragt, var hun saa blendende smuk, at Hoffet bøiede sig endnu dybere for hende, og Kongen kaarede hende til sin Brud; skjøndt Ærke-Biskoppen rystede med Hovedet, og hvidskede, at den smukke Skovpige vist var en Hex, hun blændede deres Øine, og bedaarede Kongens Hjerte.
Men Kongen hørte ikke derpaa, lod Musiken klinge, de kosteligste Retter frembære, de yndigste Piger dandse om hende, og hun blev ført gjennem duftende Haver ind i prægtige Sale; men ikke et Smiil gik over hendes Læber, eller frem paa hendes Øine, Sorgen stod der, som evig Arv og Eie. Nu aabnede Kongen et lille Kammer, tætved hvor hun skulde sove; her var pyntet med kostelige grønne Tæpper, og lignede ganske Hulen, hvori hun havde været; paa Gulvet laae det Bundt Hør, hun havde spundet af Nælderne, og under Loftet hang Pantserskjorten, der var strikket færdig; Alt dette havde en af Jægerne taget til sig, som noget Curiøst.
„Her kan Du drømme Dig tilbage i dit fordums Hjem!” sagde Kongen. „Her er det Arbeide, som der beskjæftigede Dig; nu, midt i al din Pragt, vil det more Dig at tænke tilbage paa hiin Tid.”
Da Elisa saae dette, der laae hendes Hjerte saa nær, spillede et Smiil om hendes Mund, og Blodet vendte tilbage i Kinderne; hun tænkte paa sine Brødres Frelse, kyssede Kongens Haand, og han trykkede hende til sit Hjerte, og lod alle Kirkeklokker forkynde Bryllups Fest. Den deilige stumme Pige fra Skoven var Landets Dronning.
Da hvidskede Ærke-Biskoppen onde Ord i Kongens Øre, men de sank ikke ned til hans Hjerte, Brylluppet skulde staae, Ærke-Biskoppen selv maatte sætte hende Kronen paa Hovedet, og han trykkede med ond Uvillie den snævre Ring fast ned over Panden, saa det gjorde ondt; dog der laae en tungere Ring om hendes Hjerte, Sorgen over hendes Brødre; hun følte ikke den legemlige Pine. Hendes Mund var stum, et eneste Ord vilde jo skille hendes Brødre ved Livet, men i hendes Øine laae der en dyb Kjærlighed til den gode, smukke Konge, der gjorde Alt for at glæde hende. Med hele sit Hjerte blev hun ham Dag for Dag mere god; o, at hun turde blot betroe sig til ham, sige ham sin Lidelse! men stum maatte hun være, stum maatte hun fuldføre sit Værk. Derfor listede hun sig om Natten fra hans Side, gik ind i det lille Lønkammer, der var smykket, som Hulen, og hun strikkede den ene Pantserskjorte færdig efter den anden; men da hun begyndte paa den syvende, havde hun ikke mere Hør.
Paa Kirkegaarden vidste hun de Nælder groe, som hun skulde bruge, men selv maatte hun plukke dem, hvorledes skulde hun komme derud.
„O, hvad er Smerten i mine Fingre, mod den Qval mit Hjerte lider!” tænkte hun, „jeg maa vove det! Vor Herre vil ikke slaae Haanden af mig!” med en Hjerte-Angest, som var det en ond Gjerning hun havde for, listede hun sig, i den maaneklare Nat, ned i Haven, gik gjennem de lange Alleer, ud paa de eensomme Gader, hen til Kirkegaarden. Der saae hun paa en af de bredeste Ligstene sad en Kreds Lamier, hæslige Hexe, de toge deres Pjalter af, som om de vilde bade sig, og saa gravede de med de lange magre Fingre ned i de friske Grave, toge Ligene frem og aade deres Kjød. Elisa maatte dem tæt forbi, og de fæstede deres onde Øine paa hende, men hun læste sin Bøn, samlede de brændende Nælder, og bar dem hjem til Slottet.
Kun et eneste Menneske havde seet hende, Ærke-Biskoppen, han var oppe, naar de andre sov; nu havde han dog faaet ret i hvad han meente: at det ikke var, som det skulde, med Dronningen; hun var en Hex, derfor havde hun bedaaret Kongen og det hele Folk.
I Skriftestolen sagde han til Kongen, hvad han havde seet, og hvad han frygtede, og da de haarde Ord kom fra hans Tunge, rystede de udskaarne Helgenbilleder med Hovedet, som om de vilde sige: det er ikke saa, Elisa er uskyldig! men Ærke-Biskoppen lagde det anderledes ud, meente, at de vidnede imod hende, at de rystede med Hovedet over hendes Synd. Da rullede to tunge Taarer ned over Kongens Kinder, han gik hjem med Tvivl i sit Hjerte; og han lod som om han sov om Natten, men der kom ingen rolig Søvn i hans Øine, han mærkede, hvorledes Elisa stod op, og hver Nat gjentog hun dette og hver Gang fulgte han sagte efter, og saae at hun forsvandt i sit Lønkammer.
Dag for Dag blev hans Mine mere mørk, Elisa saae det, men begreb ikke hvorfor, men det ængstede hende, og hvad leed hun ikke i sit Hjerte for Brødrene! paa det kongelige Fløiel og Purpur randt hendes salte Taarer, de laae der som glimrende Diamanter, og Alle som saae den rige Pragt, ønskede at være Dronningen. Snart var hun imidlertid tilende med sit Arbeide, kun een Pantserskjorte manglede endnu; men Hør havde hun heller ikke meer; og ikke en eneste Nælde. Eengang, kun denne sidste, maatte hun derfor paa Kirkegaarden og plukke nogle Haandfulde. Hun tænkte med Angest paa den eensomme Vandring, og paa de skrækkelige Lamier; men hendes Villie var fast, som hendes Tillid til vor Herre.
Elisa gik, men Kongen og Ærke-Biskoppen fulgte efter, de saae hende forsvinde ved Gitterporten ind til Kirkegaarden og da de nærmede sig den, sad paa Gravstenen Lamierne, som Elisa havde seet dem, og Kongen vendte sig bort; thi mellem disse tænkte han sig hende, hvis Hoved endnu i denne Aften havde hvilet ved hans Bryst.
„Folket maa dømme hende!” sagde han, og Folket dømte, hun skal brændes i de røde Luer.
Fra de prægtige Kongesale blev hun ført hen i et mørkt, fugtigt Hul, hvor Vinden peeb ind af det gittrede Vindue; istedetfor Fløiel og Silke gav de hende det Bundt Nælder hun havde samlet, det kunde hun lægge sit Hoved paa; de haarde brændende Pantserskjorter, hun havde strikket, skulde være Dyne og Tæppe, men intet kjærere kunde de skjænke hende, hun tog igjen fat paa sit Arbeide og bad til sin Gud. Udenfor sang Gadedrengene Spotteviser om hende; ingen Sjæl trøstede hende med et kjærligt Ord.
Da susede mod Aften, tæt ved Gitteret, en Svanevinge, det var den yngste af Brødrene, han havde fundet Søsteren; og hun hulkede høit af Glæde, skjøndt hun vidste, at Natten, som kom, muligt var den sidste hun havde at leve i; men nu var jo Arbeidet ogsaa næsten fuldført og hendes Brødre vare her.
Ærke-Biskoppen kom for at være den sidste Time hos hende, det havde han lovet Kongen, men hun rystede paa Hovedet, bad med Blik og Miner at han vilde gaae; i denne Nat maatte hun jo ende sit Arbeide, ellers var Alt til Unytte; Alt, Smerte, Taarer og de søvnløse Nætter! Ærke-Biskoppen gik bort med onde Ord imod hende, men den stakkels Elisa vidste, hun var uskyldig, og vedblev sit Arbeide.
De smaa Muus løb paa Gulvet, de slæbte Nælderne hen for hendes Fødder, for dog at hjælpe lidt, og Droslen satte sig ved Vinduets Gitter, og sang den hele Nat, saa lystigt den kunde, at hun ikke skulde tabe Modet.
Det var endnu ikke mere end Dagning, først om en Time vilde Solen komme op, da stode de elleve Brødre ved Slottets Port, forlangte at føres for Kongen, men det kunde ikke skee, blev der svaret, det var jo Nat endnu, Kongen sov og turde ikke vækkes. De bade, de truede, Vagten kom, ja selv Kongen traadte ud, og spurgte hvad det betød; da kom Solen i det samme op, og der vare ingen Brødre at see, men hen over Slottet fløi elleve vilde Svaner.
Ud af Byens Port strømmede det hele Folk, de vilde see Hexen blive brændt. En ussel Hest trak Karren, hvori hun sad; man havde givet hende en Kittel paa, af grovt Sækketøi; hendes deilige lange Haar hang løst om det smukke Hoved; hendes Kinder vare dødblege, hendes Læber bevægede sig sagte, medens Fingrene snoede den grønne Hør; selv paa Veien til sin Død slap hun ikke det begyndte Arbeide, de ti Pantserskjorter laae ved hendes Fødder, den ellevte strikkede hun paa. Pøbelen forhaanede hende.
„See til Hexen, hvor hun mumler! ikke en Psalmebog har hun i Haanden, nei sit lede Kogleri sidder hun med, riv det fra hende i tusinde Stykker!”
Og de trængte Alle ind paa hende og vilde sønderrive det; da kom elleve hvide Svaner flyvende, de satte sig rundt om hende paa Karren og sloge med deres store Vinger. Da veeg Hoben forfærdet til Side.
„Det er et Tegn fra Himlen! hun er vist uskyldig!” hvidskede mange, men de vovede ikke høit at sige det.
Nu greb Bøddelen hende ved Haanden, da kastede hun i Hast de elleve Skjorter over Svanerne og der stod elleve deilige Prindser, men den yngste havde en Svanevinge istedetfor sin ene Arm, thi der manglede et Ærme i hans Pantser-Skjorte, det havde hun ikke faaet færdig.
„Nu tør jeg tale!” sagde hun, „jeg er uskyldig!”
Og Folket som saae, hvad der var skeet, bøiede sig for hende som for en Helgeninde; men hun sank livløs i Brødrenes Arme, saaledes havde Spænding, Angst og Smerte virket paa hende.
„Ja, uskyldig er hun!” sagde den ældste Broder, og nu fortalte han Alt hvad der var skeet, og medens han talte, udbredte sig en Duft, som af Millioner Roser, thi hvert Brændestykke i Baalet havde slaaet Rødder og skudt Grene; der stod en duftende Hæk, saa høi og stor med røde Roser; øverst sad een Blomst, hvid og skinnende, den lyste, som en Stjerne, den brød Kongen, satte den paa Elisas Bryst, da vaagnede hun med Fred og Lyksalighed i sit Hjerte.
Og alle Kirkeklokker ringede af sig selv og Fuglene kom i store Flokke; der blev et Bryllupstog tilbage til Slottet, som endnu ingen Konge havde seet det.
Os cisnes selvagens
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