SR 004
Os Três Coroados
Os tres coroados
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Texto do conto
(Sergipe)
Foi um dia, havia três moças já órfãs de pai e mãe. Uma vez, elas estavam todas três na sacada de seu sobrado, quando viram passar o rei. A mais velha disse:
— Se eu me casasse com aquele rei, fazia-lhe uma camisa como ele nunca viu.
A do meio disse:
— Se eu me casasse com ele, lhe fazia uma ceroula como ele nunca teve.
A caçula disse:
— E eu, se me casasse com ele, paria três coroados.
O rei ouviu perfeitamente a conversa e, quando foi no dia seguinte, foi à casa das moças e lhes disse:
— Apareça a moça que disse que, se se casasse comigo, paria três coroados.
A moça apareceu, e o rei a levou e se casou com ela. As irmãs ficaram com muita inveja e fingiram não tê-la. Quando a moça apareceu grávida, as irmãs se meteram dentro do palácio, com aparências de ajudá-la em seus trabalhos. Aproximando-se o tempo de a rainha dar à luz, suas irmãs se ofereceram para servi-la e dispensar a parteira. Chegado o dia, elas se muniram de um sapo, uma cobra e um gato. Quando nasceram os três coroados, elas os esconderam dentro de uma boceta e mandaram largar no mar. Apresentaram, então, ao rei os três bichos, dizendo:
— Aí estão os coroados que aquela impostora pariu.
O rei ficou muito desgostoso e mandou enterrar a mulher até os peitos, perto da escada do palácio, dando ordem a quem por ali passasse para cuspir-lhe no rosto. Assim se fez. Mas um velho pescador encontrou no mar a boceta, apanhou-a, abriu-a e encontrou os três meninos ainda vivos e muito lindinhos. Ficou muito alegre e os levou para casa para criar. A velha, sua mulher, se desvelou muito no trato das crianças. Quando estas cresceram a ponto de poderem ir para a escola, foram e passavam sempre pelo palácio do rei. As cunhadas dele viram, por vezes, passar os meninos e os reconheceram.
Um dia os chamaram e se puseram com muitos agrados com eles, e lhes deram de presente três frutas envenenadas, a cada um a sua.
Os meninos comeram as frutas e viraram todos três em pedra. Os velhos ficaram muito aflitos com aquilo, e toda a cidade falou no caso.
Mas a velha, que era adivinha, disse ao marido:
— Não tem nada; eu vou à casa do Sol buscar um remédio para as três pedras virarem outra vez em gente.
Partiu montada a cavalo.
Depois de andar muito tempo, encontrou um rio muito grande e bonito. O rio lhe disse:
— Ó minha avó, aonde vai?
A velha respondeu:
— Vou à casa do Sol para ele me ensinar que remédio se deve dar a quem virou para pedra para tornar a virar para gente.
O rio lhe disse:
— Pois então pergunte também a ele a razão por que, sendo eu um rio tão bonito, grande e fundo, nunca criei peixe.
A velha seguiu. Adiante encontrou um pé de fruta muito copado e bonito, mas sem uma só fruta. Ao avistar a velha, a árvore disse:
— Onde vai, minha velhinha?
— Vou à casa do Sol buscar uma mezinha para gente que virou pedra.
— Pois pergunte a ele a razão por que, sendo eu tão grande, tão verde e tão copada, nunca dei um só fruto...
A caminheira seguiu. Depois de andar muito, passou pela casa de três moças, todas três solteiras e já passando da idade de casar. As moças lhe disseram:
— Onde vai, minha avó?
A velha contou onde ia. Elas lhe pediram para indagar do Sol o motivo por que, sendo elas tão formosas, ainda não tinham se casado. A velha partiu e continuou a caminhar. Ainda depois de muito tempo é que chegou à casa da mãe do Sol. A dona da casa a recebeu muito bem; ouviu toda a sua história e as encomendas que levava, e a escondeu porque seu filho não queria estranhos em sua casa, e, quando vinha, era muito zangado e queimando tudo. Quando o Sol chegou, vinha desesperado e estragando tudo o que achava:
— Fum... aqui me fede a sangue real!... aqui me fede a sangue real!...
— Não é nada não, meu filho, é uma galinha que eu matei para nós jantar.
Assim a mãe do Sol o foi enganando, até que ele se aquietou e foi jantar. Na mesa da janta, sua mãe lhe perguntou:
— Meu filho, um rio muito fundo e largo por que é que não dá peixe?
— É porque nunca matou gente.
Passou-se um pouco de tempo e a velha fez outra pergunta:
— E uma árvore muito verde e copada, por que é que não dá fruta?
— Porque tem dinheiro enterrado embaixo.
Pouco tempo depois, outra pergunta:
— E umas moças bonitas e ricas por que não casam?
— Porque costumam mijar para o lado em que eu nasço.
Deixou passar mais um tempinho e perguntou:
— E qual será o remédio para gente que tiver virado pedra?
Aí o Sol se enfadou e disse:
— O que querem dizer hoje estas perguntas?
A mãe respondeu:
— Não é nada, meu filho; eu é que às vezes, porque vivo aqui sozinha, me ponho a imaginar estas tolices.
O Sol foi e respondeu:
— O remédio é tirar da minha boca, quando eu estiver comendo, um bocado e botar em cima da pedra.
A velha, daí a pouco, fingiu um espanto, levou a mão à boca do Sol e tirou o bocado, dizendo:
— Olha, meu filho, um cisquinho na comida!
E guardou o bocado. Daí a pouco, a mesma coisa:
— Olha um cabelo, meu filho!
E escondeu mais um bocado. Numa terceira vez, ela fez o mesmo e o Sol se levantou aborrecido, falando:
— Ora, minha mãe, seu de comer hoje está muito porco; não quero mais.
Deitou-se e, no dia seguinte, foi embora para o mundo. Sua mãe foi à velhinha, que estava escondida, e lhe contou tudo, dando os três bocados. A velha se pôs a caminho de volta. Passando pela casa das moças, ali dormiu, sem querer dizer a razão por que elas não casavam. No dia seguinte, bem cedo, ela se levantou e as moças também. Elas correram logo para o lugar onde costumavam urinar voltadas para o nascer do sol. A velha as repreendeu, dizendo:
— É esta a razão de vocês não casarem; percam este costume de urinar para a banda de onde o sol nasce.
As moças assim fizeram e logo acharam casamento. A andadeira tomou o seu caminho e foi embora a toda a pressa. Chegando à fruteira, pôs-se debaixo dela a cavar sem dizer nada; quando puxou um grande caixão, então disse por que a fruteira não dava frutas. O pé da árvore começou logo a carregar que parecia praga. A velha seguiu. Ao chegar ao rio, ele lhe perguntou pelo seu recado:
— Logo lhe digo.
E a velha foi passando depressa. Quando se viu bem longe, gritou:
— É porque nunca matou gente.
O rio botou logo uma enchente tão grande que por um triz não matou a velha. Afinal, foi ela ter em casa. Sem mais demora, aplicou os três bocados em cima das três pedras, e os meninos se desencantaram. A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos do rei. Ele mandou um dia convidar o velho com os três meninos para jantarem no palácio. O velho não quis ir, nem mandar os meninos; o rei o intimidou até que foram os meninos. Mas a velha ensinou aos meninos:
— Quando vocês lá chegarem, meus filhinhos, que passarem pela escada, se ponham de joelhos e tomem a bênção àquela nobre mulher que lá está enterrada, parecendo um cadáver, porque é a mãe de vocês. Na janta, não queiram ir para a mesa sem que o rei mande desenterrá-la e botá-la também na mesa. Quando ele der a cada um o seu prato, não comam e deem todos três a ela, que os há de devorar num instante, pois está morta de fome. Aí as duas moças que lá tem, que são tias de vocês, hão de dizer: «Que barriga de monstro que cabe três pratos de uma vez!» A isto vocês respondam, tirando os bonés e dizendo: «Não é de admirar que caiba três pratos de comida, quando três coroados!» E mostrem ao rei as cabeças.
Assim foi: os meninos executaram fielmente as recomendações da velha. (Todas as coisas se repetiram pela forma indicada pela velha adivinha, com grande surpresa para o rei e desapontamento para as duas infames malfeitoras). Tudo acabado, o rei, que ficou vivendo com sua mulher, que voltou à sua antiga beleza, e os seus filhinhos no palácio, perguntou-lhes o que queriam que ele fizesse às duas danadas. Os meninos responderam que «ele mandasse buscar quatro burros bravos e as amarrasse nos rabos». Assim fizeram, e elas morreram lascadas ao meio.
Sobre esta edição
- Obra
- Os tres coroados
- Autoria original
- Sílvio Romero
- Texto em português
- Texto original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Produção
- Codex · edição textual por IA (Romero)
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 03/11/2026
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