EK 153
A chave do portão
Portnøglen
Sobre este conto
Um conselheiro aprende a fazer a chave do portão responder a perguntas pelo movimento sobre os dedos e passa a confiar em suas previsões. A jovem Lotte-Lene, que deseja ser atriz, também acredita na chave.
Personagens e estrutura
- Personagens
- O conselheiro da câmara, A mulher do conselheiro, Lotte-Lene, filha do vendedor do porão, O pai de Lotte-Lene, O farmacêutico, parente da mulher do conselheiro, O barão que ensina o truque da chave, A criada e seu namorado
- Onde se passa
- Copenhague, em lembranças do tempo de Frederico VI, com passeio a Frederiksberg e teatro em Vesterbro; mais tarde, a casa do conselheiro e uma cidade do interior.
- Acontecimentos
- Num passeio, o conselheiro aprende com um barão a obter letras e respostas girando a chave sobre o dedo.
- O grupo perde o horário de fechar Vesterport e entra por Nørreport; em casa, o conselheiro quebra vidraças para conseguir entrar e depois acha a chave no forro da sobrecasaca.
- O conselheiro passa a acreditar nas respostas que ele mesmo induz; o farmacêutico demonstra sua descrença com uma história de uma cômoda que afoga duas crianças.
- A chave promete vitória e felicidade a Lotte-Lene; o conselheiro lhe empresta Dyveke e o livro de Knigge, que ela conserva por dois anos.
- Lotte-Lene se apresenta no interior, e o farmacêutico envia uma crítica negativa; as cartas seguintes rompem sua convivência com o conselheiro.
- A mulher do conselheiro morre; Lotte-Lene, já de volta sem sucesso artístico, permanece próxima dele durante o luto.
- Desfecho
- Terminado o ano de luto, o conselheiro pergunta se vai se casar e com quem. Ele empurra a chave, que responde “Lotte-Lene”. Ela se torna sua mulher, e a narrativa retoma as palavras “Vitória e felicidade”, antes ditas pela chave do portão.
Cada chave tem sua história, e há muitas chaves: chave de camareiro, chave de relógio, a chave de São Pedro; poderíamos contar sobre todas elas, mas agora contaremos apenas sobre a chave do portão do conselheiro da câmara.
Fora feita por um serralheiro, mas bem poderia acreditar que fora por um ferreiro, de tanto que o homem a segurara, martelara e limara. Era grande demais para o bolso da calça e, por isso, tinha de ir no bolso da sobrecasaca. Ali ficava muitas vezes no escuro; de resto, tinha seu lugar certo na parede, ao lado da silhueta do conselheiro quando criança: nela ele parecia um pãozinho com jabô.
Dizem que todo ser humano recebe, em seu caráter e em seu modo de agir, alguma coisa do signo celeste sob o qual nasceu: Touro, Virgem, Escorpião, como são chamados no almanaque. A mulher do conselheiro não mencionava nenhum desses; dizia que o marido nascera sob o “signo do carrinho de mão”: sempre era preciso empurrá-lo para a frente.
O pai o empurrou para um escritório, a mãe o empurrou para o casamento, e a mulher o empurrou até o título de conselheiro da câmara; mas essa última parte ela não dizia. Era uma boa mulher, sensata, que se calava na hora certa, falava e empurrava na hora certa.
Agora ele já era entrado em anos, “bem proporcionado”, como ele próprio dizia, homem de leitura, de boa índole e, além disso, sábio das chaves, coisa que compreenderemos melhor adiante. Estava sempre de bom humor, gostava de todas as pessoas e tinha prazer em conversar com elas. Quando saía pela cidade, era difícil fazê-lo voltar para casa, se a mamãe não estivesse junto para empurrá-lo. Precisava conversar com todo conhecido que encontrava. Tinha muitos conhecidos, e quem sofria com isso era o almoço.
Da janela, a mulher do conselheiro vigiava.
— Lá vem ele! — dizia à criada. — Ponha a panela no fogo! — Agora parou e está conversando com alguém; tire a panela, senão a comida vai cozinhar demais! — Agora vem mesmo! Sim, ponha a panela de novo!
Mas nem por isso ele vinha.
Podia estar bem debaixo da janela da casa e acenar para cima; mas, se passava um conhecido, não se continha, precisava lhe dizer umas palavras. Se, enquanto falava com este, chegava outro conhecido, segurava o primeiro pela casa do botão e pegava o segundo pela mão, enquanto chamava um terceiro que queria passar.
Era uma prova de paciência para a mulher do conselheiro.
— Conselheiro! Conselheiro! — gritava ela então. — Sim, esse homem nasceu sob o signo do carrinho de mão: não consegue sair do lugar sem ser empurrado!
Ele gostava muito de entrar em livrarias e olhar livros e jornais. Pagava ao seu livreiro uma pequena quantia para poder ler em casa os livros novos, quer dizer, ter licença para cortar as folhas dos livros no sentido do comprimento, mas não na transversal, pois, nesse caso, já não poderiam ser vendidos como novos. Era um jornal vivo, com toda a bondade: sabia de noivados, casamentos e enterros, conversas de livros e conversas da cidade; chegava a fazer misteriosas alusões a estar informado de coisas que ninguém sabia. Sabia delas pela chave do portão.
Já quando eram jovens recém-casados, os conselheiros moravam no próprio prédio, e desde então tinham a mesma chave do portão; mas naquela época não conheciam seus poderes extraordinários, só vieram a conhecê-los mais tarde.
Era no tempo do rei Frederico VI. Naquela época, Copenhague não tinha gás: tinha lampiões de óleo; não tinha Tivoli nem Cassino, nem bondes nem ferrovias. Havia poucas diversões em comparação com as de agora. Aos domingos, saía-se pelo portão até o cemitério de Assistens, liam-se as inscrições dos túmulos, sentava-se na grama, comia-se da cesta de provisões e bebia-se uma aguardente junto; ou se ia a Frederiksberg, onde, diante do palácio, havia música de regimento e muita gente para ver a família real remar pelos pequenos canais estreitos, com o velho rei dirigindo o barco. Ele e a rainha cumprimentavam todas as pessoas, sem distinção de classe. Famílias abastadas vinham da cidade para tomar seu chá da tarde. Podiam conseguir água quente numa pequena casa de camponês, no campo do lado de fora do jardim, mas precisavam levar o aparelho de chá.
Foi para lá que os conselheiros partiram numa ensolarada tarde de domingo; a criada ia na frente com o aparelho de chá, uma cesta de alimentos e “uma garrafa da aguardente de Spendrup”.
— Leve a chave do portão! — disse a mulher do conselheiro. — Para podermos entrar no que é nosso quando voltarmos. Você sabe que aqui se fecha ao escurecer, e a corda da campainha está arrebentada desde hoje de manhã! — Vamos voltar tarde! Depois de ir a Frederiksberg, vamos entrar no teatro de Casorti, em Vesterbro, e ver a pantomima “Arlequim, chefe dos malhadores”. Nela eles descem numa nuvem; custa dois marcos por pessoa!
E foram a Frederiksberg, ouviram a música, viram os barcos reais com bandeiras ao vento, viram o velho rei e os cisnes brancos. Depois de tomar um bom chá, apressaram-se em sair, mas, mesmo assim, não chegaram a tempo ao teatro.
A dança na corda já terminara, a dança sobre pernas de pau já terminara e a pantomima começara; como sempre, chegaram tarde, e o culpado era o conselheiro: a todo instante, no caminho, ele parava para conversar com conhecidos. Dentro do teatro também encontrou bons amigos e, quando o espetáculo terminou, ele e a mulher tiveram necessariamente de acompanhar uma família em “Broen”, para saborear um copo de ponche. A parada seria de apenas dez minutos, mas esses se estenderam por uma hora inteira. Conversava-se e conversava-se. Especialmente divertido era um barão sueco, ou seria alemão? Disso o conselheiro não se lembrava com exatidão; em compensação, lembrou para sempre a arte com a chave que o barão lhe ensinou. Era extraordinariamente interessante! Ele conseguia fazer a chave responder a tudo o que lhe perguntavam, até ao mais secreto.
A chave do portão do conselheiro era especialmente adequada para isso: tinha o palhetão pesado, e este precisava ficar pendurado para baixo. O barão deixava a argola da chave repousar no indicador da mão direita. Ela pendia ali, solta e leve; cada pulsação na ponta do dedo podia pô-la em movimento, fazendo-a girar; e, se isso não acontecia, o barão sabia fazê-la girar, sem que se percebesse, como queria. Cada giro era uma letra, a partir do A e até onde se desejasse no alfabeto. Encontrada a primeira letra, a chave girava para o lado oposto; procurava-se então a letra seguinte e, assim, se obtinham palavras inteiras, frases inteiras, respostas à pergunta. Era tudo mentira, mas sempre uma diversão; esse também fora, mais ou menos, o primeiro pensamento do conselheiro, só que ele não o manteve: o pensamento foi, com ele, parar inteirinho na chave.
— Meu marido! Meu marido! — gritou a mulher do conselheiro. — Vesterport fecha à meia-noite! Não vamos conseguir entrar, só temos um quarto de hora para nos apressar!
Precisaram correr; várias pessoas que queriam entrar na cidade logo os ultrapassaram. Finalmente se aproximavam da guarita mais externa quando bateram as doze e o portão se fechou com estrondo. Um grande número de pessoas ficou trancado do lado de fora, entre elas os conselheiros com a criada, o aparelho de chá e a cesta vazia. Alguns estavam muito assustados, outros, contrariados: cada qual reagia à sua maneira. O que fazer?
Felizmente, havia pouco fora tomada a decisão de não trancar um dos portões da cidade, Nørreport; por ali os pedestres podiam passar pela casa da guarda e entrar na cidade.
O caminho não era tão curto assim, mas o tempo estava bonito, o céu, límpido, cheio de estrelas e estrelas cadentes; as rãs coaxavam na vala e no charco. O próprio grupo começou a cantar, uma canção depois da outra, mas o conselheiro não cantava, também não olhava para as estrelas, nem sequer para as próprias pernas. Caiu de corpo inteiro bem à beira da vala; poderia parecer que bebera demais, mas não era o ponche: era a chave que lhe subira à cabeça e ali girava.
Finalmente chegaram à casa da guarda de Nørrebro, atravessaram a ponte e entraram na cidade.
— Agora estou contente de novo! — disse a mulher do conselheiro. — Aqui está nosso portão!
— Mas onde está a chave do portão? — disse o conselheiro.
Não estava no bolso de trás, nem no bolso lateral.
— Misericórdia! — gritou a mulher do conselheiro. — Você não tem a chave? Perdeu-a naquelas artes com o barão. Como vamos entrar agora? Você sabe que a corda da campainha está arrebentada desde esta manhã, e o vigia não tem chave da casa. Estamos desesperados!
A criada começou a chorar aos berros; o conselheiro foi o único que mostrou presença de espírito.
— Precisamos quebrar uma vidraça da loja do vendedor de toucinho! — disse ele. — Acordá-lo e então entrar.
Quebrou uma vidraça, quebrou duas.
— Petersen! — gritou, enfiando o cabo do guarda-chuva pelas vidraças.
Então a filha do homem do porão soltou um grito lá dentro. O homem do porão abriu a porta da loja com um brado de “Vigia!” e, antes que visse direito a família do conselheiro, a reconhecesse e a deixasse entrar, o vigia apitou, e na rua seguinte outro vigia respondeu e apitou. As pessoas apareceram nas janelas.
— Onde é o incêndio? Onde é o tumulto? — perguntavam, e ainda perguntavam quando o conselheiro já estava em seu quarto, tirava a sobrecasaca e — nela estava a chave do portão —, não no bolso, mas no forro: escorregara por um buraco que não devia existir no bolso.
Desde aquela noite, a chave do portão ganhou uma importância grande e especial, não só quando se saía à noite, mas também quando se ficava em casa e o conselheiro mostrava sua esperteza, fazendo a chave responder a perguntas.
Ele imaginava a resposta mais provável e então fazia a chave dá-la; por fim, ele próprio acreditou naquilo. Mas o farmacêutico, um jovem parente próximo da mulher do conselheiro, não acreditava.
Esse farmacêutico tinha boa cabeça, cabeça crítica; desde os tempos de escola fazia críticas de livros e de teatro, mas sem mencionar seu nome, o que faz muita diferença. Era o que se chama um espírito refinado, mas não acreditava em espíritos, muito menos em espíritos de chaves.
— Sim, acredito, acredito — disse ele. — Abençoado senhor conselheiro, acredito na chave do portão e em todos os espíritos de chaves com a mesma firmeza com que acredito na nova ciência que começa a se tornar conhecida: as mesas dançantes e os espíritos nos móveis velhos e novos. Já ouviu falar nisso? Eu ouvi! Eu duvidei, sabe que sou um duvidador, mas me converti ao ler uma história terrível num jornal estrangeiro inteiramente digno de crédito. Conselheiro! Pode imaginar? Sim, conto a história como a recebi. Duas crianças espertas tinham visto os pais despertar o espírito de uma grande mesa de jantar. Os pequenos estavam sozinhos e resolveram tentar, da mesma maneira, esfregar vida numa velha cômoda. A vida veio, o espírito acordou, mas não suportava ordens de crianças: levantou-se, a cômoda estalou, empurrou as gavetas para fora e, com seus pés de cômoda, colocou cada criança numa gaveta. Então a cômoda correu com elas pela porta aberta, desceu a escada e saiu para a rua até o canal, onde se lançou na água e afogou as duas crianças. Os pequenos corpos foram sepultados em terra cristã, mas a cômoda foi levada à prefeitura, condenada por assassinato de crianças e queimada viva na praça. Eu li isso! — disse o farmacêutico. — Li num jornal estrangeiro, não é coisa que eu tenha inventado. É verdade, que a chave me leve! Agora estou fazendo um grande juramento!
O conselheiro achou aquela conversa uma brincadeira grosseira demais; os dois nunca conseguiam conversar sobre a chave. O farmacêutico era ignorante das chaves.
O conselheiro avançava no conhecimento das chaves; a chave era sua diversão e sua sabedoria.
Uma noite, o conselheiro ia se deitar e estava meio despido quando bateram à porta que dava para o corredor. Era o homem do porão, que vinha tão tarde; também estava meio despido, mas tivera, disse ele, um pensamento tão repentino que receava não conseguir guardá-lo durante a noite.
— Preciso falar da minha filha, Lotte-Lene. É uma moça bonita, já foi confirmada, agora gostaria de vê-la bem encaminhada!
— Ainda não sou viúvo! — disse o conselheiro com um risinho. — E não tenho filho para lhe oferecer!
— O senhor me entende, conselheiro! — disse o homem do porão. — Ela sabe tocar piano, sabe cantar; isso deve dar para ouvir aqui em cima. O senhor não sabe tudo o que essa menina sabe fazer: consegue imitar a fala e o andar de qualquer pessoa. Nasceu para o teatro, e esse é um bom caminho para moças direitas, de boa família: podem até se casar com um condado, embora nem eu nem Lotte-Lene pensemos nisso. Ela sabe cantar, sabe tocar piano! Pois outro dia fui com ela à escola de canto. Ela cantou, mas não tem o que eu chamo de baixo de cervejaria nas mulheres, nem aquele grito de canário nos tons mais altos que agora exigem das cantoras; por isso a aconselharam a abandonar de todo esse caminho. Ora, pensei, se não pode ser cantora, sempre pode ser atriz: para isso só precisa de voz. Hoje conversei a respeito com o diretor, como o chamam. “Ela tem leitura?”, perguntou ele. “Não”, disse eu, “nenhuma!” — “A leitura é necessária para uma artista!”, disse ele. Isso ela ainda pode conseguir, pensei, e voltei para casa. Pode ir a uma biblioteca de aluguel e ler o que houver, pensei. Mas agora à noite, sentado, tirando a roupa, me ocorreu: por que alugar livros quando se pode tomá-los emprestados? O conselheiro tem livros de sobra, deixe que ela os leia; ali há leitura suficiente, e ela pode tê-la de graça!
— Lotte-Lene é uma boa moça! — disse o conselheiro. — Uma moça bonita! Livros para ler ela terá. Mas tem aquilo que se chama chama no espírito, o genial, o gênio? E tem o que aqui é igualmente importante: tem a sorte a seu favor?
— Ganhou duas vezes na loteria de mercadorias — disse o homem do porão. — Uma vez ganhou um guarda-roupa, outra vez seis pares de lençóis. Chamo isso de sorte, e ela a tem!
— Vou perguntar à chave! — disse o conselheiro.
E pôs a chave sobre seu indicador direito e sobre o indicador direito do homem do porão; fez a chave girar e dar letra após letra.
A chave disse: “Vitória e felicidade!” E assim ficou decidido o futuro de Lotte-Lene.
O conselheiro lhe deu logo dois livros para ler: “Dyveke” e “Do trato com as pessoas”, de Knigge.
Desde aquela noite começou uma convivência mais próxima entre Lotte-Lene e os conselheiros. Ela passou a frequentar a família, e o conselheiro a achava uma moça sensata: acreditava nele e na chave. Na franqueza com que, a todo instante, ela mostrava sua grande ignorância, a mulher do conselheiro via alguma coisa de infantil, de inocente. Cada um à sua maneira, os dois gostavam dela, e ela deles.
— Lá em cima há um cheiro tão delicioso! — dizia Lotte-Lene.
Havia um cheiro, um perfume, um perfume de maçãs no corredor, onde a mulher do conselheiro guardara um barril inteiro de maçãs “Graastener”. Havia também um perfume de incenso de rosas e lavanda por todos os quartos.
— Isso dá um ar fino! — dizia Lotte-Lene.
Seus olhos também se alegravam com as muitas flores bonitas que a mulher do conselheiro sempre tinha ali: até no meio do inverno floresciam lilases e ramos de cerejeira. Os galhos cortados, sem folhas, eram postos na água, e no quarto aquecido logo se tornavam flor e folha.
— A gente pensaria que a vida abandonara esses galhos nus, mas veja como ela ressuscita dos mortos.
— Isso nunca me tinha ocorrido! — disse Lotte-Lene. — A natureza é mesmo encantadora!
E o conselheiro lhe mostrou seu “livro das chaves”, no qual estavam anotadas coisas extraordinárias que a chave dissera, até sobre meia torta de maçã que desaparecera do armário justamente na noite em que a criada recebera a visita do namorado.
O conselheiro perguntou à chave:
— Quem comeu a torta de maçã, o gato ou o namorado?
E a chave do portão respondeu: “O namorado!” O conselheiro já acreditava nisso antes de perguntar, e a criada confessou: a maldita chave sabia mesmo de tudo.
— Não é extraordinário? — disse o conselheiro. — Essa chave, essa chave! E de Lotte-Lene ela disse: “Vitória e felicidade!” — Agora veremos! — Eu garanto.
— É encantador! — disse Lotte-Lene.
A mulher do conselheiro não tinha tanta confiança, mas não expunha suas dúvidas quando o marido podia ouvir; mais tarde, porém, confidenciou a Lotte-Lene que o conselheiro, quando jovem, fora inteiramente apaixonado pelo teatro. Se alguém o tivesse empurrado naquela época, com certeza teria se apresentado como ator; mas a família o empurrou para longe. Ele queria subir ao palco e, para chegar lá, escreveu uma comédia.
— É um grande segredo que lhe confio, pequena Lotte-Lene. A comédia não era ruim, foi aceita no Teatro Real e vaiada, tanto que nunca mais se ouviu falar nela, e fico contente por isso. Sou mulher dele e o conheço. Agora a senhorita quer seguir o mesmo caminho; desejo-lhe tudo de bom, mas não creio que dê certo, não acredito na chave do portão!
Lotte-Lene acreditava nela, e nessa fé se encontrava com o conselheiro.
Seus corações se compreendiam com todo recato e honra.
A moça, além disso, tinha diversas habilidades que a mulher do conselheiro apreciava. Lotte-Lene sabia fazer goma de batatas, costurar luvas de seda com meias de seda velhas, forrar seus sapatinhos de dança de seda, embora pudesse comprar todas as suas roupas novas. Tinha, como dizia o vendedor de toucinho, moedas na gaveta da mesa e títulos no cofre. Na verdade, seria uma esposa para o farmacêutico, pensava a mulher do conselheiro; mas não dizia isso, nem deixava a chave dizê-lo. Em breve, o farmacêutico se estabeleceria com farmácia própria numa das maiores cidades do interior, nas proximidades.
Lotte-Lene lia sem parar “Dyveke” e “Do trato com as pessoas”, de Knigge. Ficou com os dois livros por dois anos; então sabia um deles de cor, “Dyveke”, todos os papéis, mas só queria representar um: o de Dyveke. E não queria se apresentar na capital, onde havia tanta inveja e onde não a queriam. Queria começar sua carreira artística, como a chamava o conselheiro, numa das maiores cidades do interior do país.
Aconteceu, de maneira extraordinária, que era justamente o mesmo lugar onde o jovem farmacêutico se estabelecera como o mais novo, senão o único farmacêutico da cidade.
Chegou a grande noite, cheia de expectativas: Lotte-Lene se apresentaria, conquistaria vitória e felicidade, como dissera a chave. O conselheiro não estava lá: estava de cama, e sua mulher cuidava dele; precisava de guardanapos quentes e chá de camomila: guardanapos em volta da barriga e chá dentro da barriga.
O casal não assistiu à apresentação de “Dyveke”, mas o farmacêutico estava lá e escreveu a respeito à sua parente, a mulher do conselheiro.
“A gola de Dyveke foi o que houve de melhor!”, escreveu. “Se a chave do portão do conselheiro estivesse no meu bolso, eu a teria tirado e assobiado nela: ela merecia, e a chave também merecia, por ter mentido tão vergonhosamente a respeito dela: ‘Vitória e felicidade!’”
O conselheiro leu a carta. Era tudo maldade, disse ele, ódio à chave que recaía sobre a moça inocente.
Assim que se levantou da cama e tornou a ser gente, enviou uma carta curta, mas venenosa, ao farmacêutico. Este respondeu como se não tivesse entendido nada além de brincadeira e bom humor na epístola inteira.
Agradeceu por aquela e por qualquer futura contribuição benevolente para divulgar o incomparável valor e a importância da chave. Depois confidenciou ao conselheiro que, além do seu trabalho na farmácia, escrevia um grande romance de chaves, no qual todas as personagens eram chaves, única e exclusivamente chaves. “A chave do portão” era, naturalmente, a protagonista, e a chave do portão do conselheiro lhe servia de modelo, dotada de visão de vidente e capacidade de profecia. Em torno dela tinham de girar todas as outras: a velha chave de camareiro, que conhecia o esplendor e as festas da corte; a chave de relógio, pequena, fina e distinta, por quatro skillings no ferrageiro; a chave do banco da igreja, que se considerava parte do clero e, por ter passado uma noite na fechadura da igreja, vira espíritos; a chave da despensa, a do depósito de lenha e a da adega, todas se apresentavam, faziam reverência e giravam em torno da chave do portão. Os raios de sol a iluminavam até torná-la prata, o vento, o espírito do mundo, entrava nela e a fazia assobiar. Era a chave de todas as chaves, fora a chave do portão do conselheiro, agora era a chave do portão do céu, era a chave papal, era “infalível”!
— Maldade! — disse o conselheiro. — Maldade piramidal!
Ele e o farmacêutico nunca mais se viram. — Sim, viram-se no enterro da mulher do conselheiro.
Ela morreu primeiro.
Havia tristeza e saudade na casa. Até os ramos cortados de cerejeira, que tinham dado brotos novos e flores, se entristeciam e murchavam; ficavam esquecidos, ela não cuidava deles.
O conselheiro e o farmacêutico caminharam atrás do caixão dela, lado a lado, como os dois parentes mais próximos. Não havia tempo nem disposição para discutir.
Lotte-Lene amarrou um crepe de luto no chapéu do conselheiro. Estava ali na casa, havia muito de volta, sem vitória nem felicidade na carreira artística. Mas elas poderiam vir: Lotte-Lene tinha um futuro. A chave o dissera, e o conselheiro o dissera.
Ela subia para vê-lo. Falavam da falecida e choravam: Lotte-Lene era sensível; falavam de arte, e Lotte-Lene era forte.
— A vida no teatro é encantadora! — dizia ela. — Mas há tanta bobagem e inveja! Prefiro seguir meu próprio caminho. Primeiro eu mesma, depois a arte!
Knigge dissera a verdade em seu capítulo sobre atores, disso ela se dava conta; a chave não dissera a verdade, mas sobre isso ela não falava com o conselheiro: gostava dele.
Durante todo o ano de luto, a chave do portão foi seu consolo e seu estímulo. Ele lhe fazia perguntas, e ela lhe dava respostas. Quando o ano terminou e, numa noite cheia de sentimento, ele e Lotte-Lene estavam sentados juntos, perguntou à chave:
— Vou me casar, e com quem vou me casar?
Não havia ninguém para empurrá-lo; ele empurrou a chave, e ela disse: “Lotte-Lene!”
Assim ficou dito, e Lotte-Lene tornou-se a mulher do conselheiro.
“Vitória e felicidade!”
Essas palavras tinham sido ditas antes — pela chave do portão.
Sobre esta edição
- Obra
- Portnøglen
- Autoria original
- Hans Christian Andersen
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Codex · tradução assistida por IA
- Revisão
- Codex · revisão independente por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 30/10/2026
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A chave do portão
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