AM 018
A Filha do Homem e a Filha da Mulher
Manddatteren og Kjærringdatteren.
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Texto do conto
Era uma vez duas pessoas que se casaram; cada uma tinha uma filha. A filha da mulher era preguiçosa e indolente e nunca queria fazer nada, e a filha do homem era diligente e prestativa, mas, mesmo assim, nunca conseguia agradar à mãe em coisa alguma, e tanto a mulher como a filha queriam se ver livres dela. Certa vez, as duas deviam se sentar junto ao poço e fiar; a filha da mulher devia fiar linho, mas a filha do homem não recebeu nada além de cerdas.
— Você é tão habilidosa e está sempre tão à frente — disse a filha da mulher —, mas, mesmo assim, não tenho medo de disputar com você quem fia mais depressa.
Pois bem, combinaram que aquela cujo fio se rompesse primeiro teria de ir para dentro do poço. De repente, o fio da filha do homem se rompeu, e ela teve então de ir para dentro do poço. Mas, quando chegou ao fundo, viu ao redor, a perder de vista, um belo prado verde, e não se machucou.
Andou um pouco e chegou a uma cerca de ramos, que precisava atravessar.
— Ah, não pise com força em mim — disse a cerca —, que eu a ajudarei outra vez.
Ela então procurou ficar bem leve e pisou com tanto cuidado que quase nem encostou na cerca.
Andou mais um pouco e chegou a uma bela vaca que trazia uma tigela de leite nos chifres; era uma vaca grande e bonita, e o úbere estava teso e cheio.
— Ah, faça a gentileza de me ordenhar — disse a vaca —, porque estou com o úbere tão cheio de leite; beba quanto quiser e despeje o resto sobre meus cascos, que eu a ajudarei outra vez.
A filha do homem fez como a vaca pediu; bastava pegar nas tetas para o leite esguichar na tigela. Então bebeu até matar a sede, despejou o resto sobre os cascos e pendurou a tigela de novo nos chifres.
Depois de andar mais um pouco, encontrou um grande bode com lã tão grossa e comprida que ia arrastando-a atrás de si, e num dos chifres pendia uma grande tesoura.
— Ah, faça a gentileza de me tosquiar — disse o bode —, pois ando aqui com toda esta lã, ofegante, e faz tanto calor que estou quase sufocando. Pegue quanto quiser e enrole o resto em volta do meu pescoço, que eu a ajudarei outra vez.
Ela logo se prontificou, e o bode se deitou por si mesmo no colo dela, ficou bem quieto, e ela o tosquiou com tanto cuidado que não fez nem o menor arranhão na pele. Então pegou tanta lã quanto quis e enrolou o resto em volta do pescoço do bode.
Um pouco adiante, chegou a uma macieira tão carregada de maçãs que todos os ramos se curvavam até o chão, e junto ao tronco havia uma pequena vara.
— Ah, faça a gentileza de colher minhas maçãs — disse ela —, para que meus ramos possam se endireitar, porque ficar assim curvada me faz sofrer; mas bata com cuidado, para não me estragar. Coma quanto quiser e ponha o resto junto à minha raiz, que eu a ajudarei outra vez.
Ela colheu as que alcançava e depois pegou a vara e bateu com cuidado para derrubar as outras maçãs; comeu até se saciar e pôs o resto com cuidado junto à raiz.
Andou então um longo, longo trecho e chegou a uma grande propriedade onde morava uma mulher-troll com sua filha. Entrou e perguntou se podia conseguir trabalho.
— Ah, não adianta — disse a mulher-troll —, pois já tivemos muitas, mas nenhuma delas prestou para nada.
Mas ela pediu com tanta delicadeza que, por fim, a aceitassem no serviço. Aceitaram-na, e a mulher-troll lhe deu uma peneira e mandou que fosse buscar água nela. Ela bem achou que não fazia sentido carregar água numa peneira, mas foi assim mesmo, e, quando chegou ao poço, os passarinhos cantaram:
Passe barro!
Ponha palha!
Passe barro!
Ponha palha!
Ela assim fez e pôde carregar muito bem a água na peneira. Mas, quando voltou com a água e a mulher-troll viu a peneira, disse:
— Isso você não tirou do próprio peito!
Depois a mulher-troll disse que ela devia ir ao estábulo tirar o esterco e ordenhar; mas, quando chegou lá, havia uma pá tão grande e pesada que ela não conseguia manejá-la, nem sequer levantá-la. Não sabia de modo algum o que fazer; mas os pássaros cantaram que ela devia pegar o cabo da vassoura e jogar um pouco para fora, que todo o resto voaria atrás. Ela assim fez e, mal acabara de fazê-lo, o estábulo ficou tão limpo como se tivesse sido tanto limpo do esterco como esfregado. Agora devia ordenhar as vacas, mas elas estavam tão inquietas, davam tantos coices e pontapés que ela não conseguia chegar perto para ordenhá-las. Mas os pássaros lá fora cantaram:
Um pequeno fio,
Um pequeno gole,
Para todos
Os passarinhos, esguiche!
Ela assim fez, esguichou um pequeno fio de leite para os passarinhos, e todas as vacas ficaram quietas e se deixaram ordenhar. Não davam mais coices nem pontapés; nem sequer levantavam uma perna.
Quando a mulher-troll a viu entrar com o leite, disse:
— Isso você não tirou do próprio peito; mas agora pode pegar esta lã preta e lavá-la até ficar branca.
A menina não sabia de modo algum como fazer aquilo; nunca tinha visto ninguém conseguir tornar branca a lã preta lavando-a, mas, mesmo assim, não disse nada. Pegou a lã e foi com ela ao poço. Os passarinhos então cantaram que devia pegar a lã e colocá-la no grande balde que havia ali, que ela ficaria branca.
— Não, não — disse a mulher-troll quando ela entrou com a lã. — Não adianta ficar com você, pois você sabe fazer tudo; acabaria me matando de raiva. É melhor lhe dar dispensa.
A mulher-troll pôs então diante dela três baús, um vermelho, um verde e um azul, e ela podia escolher qualquer um deles como pagamento por seu trabalho. Não sabia qual escolher, mas os passarinhos cantaram:
Não pegue o verde,
Não pegue o vermelho,
Mas pegue o azul,
Sobre o qual pusemos
Três cruzes!
Ela pegou o azul, como os pássaros cantavam.
— Que a desgraça caia sobre você! — disse a mulher-troll. — Você ainda há de pagar por isso.
Quando a filha do homem ia partir, a mulher-troll arremessou atrás dela uma barra de ferro incandescente, mas ela logo pulou para trás da porta e se escondeu, de modo que a barra não a atingiu, pois os passarinhos lhe haviam dito antes o que devia fazer. Andou então o mais depressa que pôde; mas, quando se aproximava da macieira, ouviu começar um estrondo terrível na estrada: eram a mulher-troll e sua filha, que vinham atrás. A menina ficou tão aflita e assustada que não sabia onde se meter.
— Venha aqui para junto de mim — disse a macieira —, que eu a ajudarei; entre debaixo dos meus ramos e esconda-se, pois, se elas a pegarem, tomarão seu baú e a despedaçarão até a morte.
Ela assim fez, e logo chegaram a mulher-troll e a filha.
— Você viu alguma moça passar por aqui? — perguntou a mulher-troll.
— Ah, sim — disse a macieira. — Uma passou correndo há pouco, mas agora está tão longe que vocês nunca mais a alcançarão.
A mulher-troll então deu meia-volta e foi para casa.
A moça andou mais um pouco, mas, quando se aproximava do bode, ouviu começar um estrondo tão terrível que não sabia onde se meter, tão aflita e assustada ficou, pois bem podia saber que a mulher-troll tinha mudado de ideia.
— Venha aqui para junto de mim, que eu a ajudarei — disse o bode. — Esconda-se debaixo da minha lã, que elas não a verão; senão tomarão seu baú e a despedaçarão até a morte.
Logo chegou a mulher-troll correndo.
— Você viu alguma moça passar por aqui? — perguntou ao bode.
— Ah, sim — disse o bode. — Vi uma há pouco, mas ela corria tão depressa que você não vai alcançá-la.
A mulher-troll então deu meia-volta e foi para casa. Quando a menina chegou à vaca, ouviu começar um estrondo terrível na estrada.
— Venha aqui para junto de mim — disse a vaca —, que eu a ajudarei; esconda-se debaixo do meu úbere, senão a mulher-troll virá, tomará seu baú e a despedaçará até a morte.
Não demorou muito para ela chegar.
— Você viu alguma moça passar por aqui? — perguntou a mulher-troll à vaca.
— Sim, vi uma há pouco, mas agora está longe, pois corria tão depressa que você não vai mais alcançá-la — disse a vaca.
A mulher-troll então deu meia-volta e foi de novo para casa.
Depois de andar um longo, longo trecho, quando já não estava longe da cerca de ramos, a menina ouviu começar um estrondo tão terrível na estrada que ficou aflita e assustada, pois bem podia saber que a mulher-troll tinha mudado de ideia.
— Venha aqui para junto de mim, que eu a ajudarei — disse a cerca. — Entre debaixo dos meus ramos, para que elas não a vejam; senão tomarão seu baú e a despedaçarão até a morte.
Ela se apressou a entrar debaixo dos ramos da cerca.
— Você viu alguma moça passar por aqui? — perguntou a mulher-troll à cerca.
— Não, não vi moça nenhuma — respondeu a cerca, tão zangada que soltava risinhos, e ficou tão rígida que nem se podia pensar em atravessá-la. Assim, não restou à mulher-troll outra saída senão dar meia-volta e ir de novo para casa.
Quando a filha do homem chegou em casa, tanto a mulher como sua filha ficaram ainda mais invejosas dela do que antes, pois agora estava muito mais bonita e tão elegante que dava gosto vê-la. Não lhe permitiram ficar dentro de casa com elas; enxotaram-na para o chiqueiro, onde devia morar. Ela o lavou e limpou bem e depois abriu o baú para ver o que tinha recebido como pagamento. Assim que o abriu, havia ali tanto ouro e prata e tantas coisas lindas que tanto as paredes como o teto ficaram cobertos delas, e o chiqueiro ficou muito mais esplêndido que o mais magnífico palácio real. Quando a madrasta e a filha viram aquilo, ficaram fora de si e começaram a perguntar como tinha sido o trabalho.
— Ah — disse ela —, vocês bem podem imaginar, já que recebi um pagamento assim; eram tais pessoas e tal mulher para quem trabalhar que não há iguais.
Então a filha da mulher quis, de todo jeito, ir trabalhar, para também conseguir um baú de ouro daqueles. Sentaram-se de novo para fiar; mas, dessa vez, a filha da mulher devia fiar cerdas e a filha do homem, linho, e aquela cujo fio se rompesse primeiro teria de ir para dentro do poço. Não demorou muito para o da filha da mulher se romper, como bem se pode imaginar, e então a jogaram dentro do poço.
Aconteceu exatamente o mesmo: ela caiu até o fundo, mas não se machucou, e chegou a um belo prado verde. Depois de andar um pouco, chegou à cerca de ramos.
— Não pise com força em mim, que eu a ajudarei outra vez — disse a cerca.
— Ah, que me importa um monte de gravetos? — disse ela, e pisou na cerca de modo que ela estalou.
Pouco depois, chegou à vaca, que estava com o úbere tão cheio de leite.
— Faça a gentileza de me ordenhar — disse a vaca —, que eu a ajudarei outra vez; beba quanto quiser, mas despeje o resto sobre meus cascos.
Ela então fez isso, ordenhou a vaca e bebeu enquanto aguentou, mas depois não sobrou nada para despejar sobre os cascos; jogou a tigela pela encosta e foi embora.
Depois de andar mais um pouco, chegou ao bode, que ia arrastando a lã atrás de si.
— Ah, faça a gentileza de me tosquiar, que eu lhe retribuirei outra vez — disse o bode. — Pegue quanta lã quiser, mas enrole o resto em volta do meu pescoço.
Ela assim fez, mas se pôs ao trabalho com tanta brutalidade que ele cortou grandes pedaços do bode e levou consigo toda a lã.
Pouco depois, chegou à macieira, de novo toda curvada sob os frutos.
— Faça a gentileza de colher minhas maçãs, para que meus ramos possam se endireitar, pois ficar assim curvada me faz sofrer — disse a macieira. — Mas tome cuidado para não me estragar; coma quanto quiser, mas ponha o resto com cuidado junto à minha raiz, que eu a ajudarei outra vez.
Ela colheu as mais próximas e bateu com a vara para derrubar as que não alcançava; mas não se importou com nada, arrancou e derrubou grandes ramos, comeu até não aguentar mais e jogou o resto debaixo da árvore.
Depois de andar mais um pouco, chegou à propriedade onde morava a mulher-troll; ali pediu trabalho. A mulher-troll disse que não queria criada nenhuma, porque ou não prestavam para nada, ou eram habilidosas demais e a defraudavam do que possuía. A filha da mulher não desistiu e disse que queria trabalho, e então a mulher-troll disse que a aceitaria, se prestasse para alguma coisa.
A primeira tarefa que recebeu foi buscar água na peneira. Ela foi ao poço e despejou água na peneira, mas, tão depressa como despejava, a água escorria de novo. Os pássaros então cantaram:
Passe barro,
Ponha palha!
Passe barro,
Ponha palha!
Mas ela não deu atenção ao canto dos pássaros; jogou barro neles, de modo que voaram para longe, e teve de voltar para casa com a peneira vazia e recebeu uma bronca da mulher-troll. Depois devia tirar o esterco do estábulo e ordenhar as vacas; mas achava que era boa demais para isso. Ainda assim entrou no estábulo, mas, quando chegou lá, não conseguiu de modo algum manejar a pá, tão grande ela era. Os pássaros lhe disseram o mesmo que à filha do homem: devia pegar a vassoura e jogar um pouco para fora, que todo o resto voaria atrás; mas ela pegou a vassoura e a atirou contra os pássaros. Quando ia ordenhar, as vacas estavam tão inquietas, davam coices e pontapés, e, toda vez que ela conseguia um pouco de leite na tigela, derrubavam-na. Os pássaros cantaram:
Um pequeno fio,
Um pequeno gole,
Para todos
Os passarinhos, esguiche!
Mas ela batia e espancava as vacas, atirava e arremessava contra os pássaros tudo que conseguia alcançar e fazia uma algazarra verdadeiramente horrível. Assim, não conseguiu nem tirar o esterco nem ordenhar. Quando entrou, recebeu tanto pancadas como repreensões da mulher-troll, e depois devia lavar a lã preta até ficar branca, mas nisso também não teve melhor resultado. A mulher-troll achou aquilo ruim demais e pôs diante dela três baús, um vermelho, um verde e um azul, e disse que não precisava dela, pois não prestava para nada, mas, como pagamento por seu trabalho, ainda assim poderia escolher o baú que quisesse. Os pássaros então cantaram:
Não pegue o verde,
Não pegue o vermelho;
Mas pegue o azul,
Sobre o qual pusemos
Três cruzes!
Ela não deu atenção ao que os pássaros cantavam e pegou o vermelho, que era o que mais brilhava. Então se pôs a caminho e foi para casa, podendo ir em toda paz e sossego, pois ninguém a perseguiu. Quando chegou, sua mãe ficou muito alegre, e elas logo entraram na sala principal e puseram o baú ali, pois acreditavam que dentro dele só havia ouro e prata e pensavam que tanto as paredes como o teto ficariam dourados. Mas, quando abriram o baú, só saíram cobras e sapos, e, quando a filha da mulher abria a boca, acontecia o mesmo: saíam cobras, sapos e toda a bicharada que se pudesse imaginar, de modo que, por fim, não era possível viver na mesma casa com ela. Esse foi o pagamento que recebeu por ter trabalhado para a mulher-troll.
Sobre esta edição
- Obra
- Manddatteren og Kjærringdatteren.
- Autoria original
- Peter Christen Asbjørnsen
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Marcelo Castro Barbosa, assistido por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 04/11/2026
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Este índice orienta a ordem dos destaques. Não é uma nota de qualidade do conto ou da tradução.
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