AC 022

O Homem da Espada de Vinte Quintais

Adolfo Coelho

O homem da espada de vinte quintaes

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Era uma vez um homem e uma mulher e não tinham filho nem filha; a mulher já era velha e disse assim para o homem:

— Homem, nós não temos um filho para herdar o que nós temos.

E depois o homem disse assim:

— Tu, mulher, que queres? é vontade de Deus, que se lhe há de fazer?

Deus deu-lhe um filho, mas ele crescia da noite para o dia e na primeira noite que nasceu comeu dois pães moletes de pataco, a pontos que a mulher não tinha leite para criar o menino; compra (com sua licença) uma jumentinha para ele mamar. Chamavam-lhe o Mamma-na-burra.

Ela já não tinha mais que lhe dar que comer; o menino já tinha sete anos e disse ao pai que queria uma espada que tivesse vinte quintais de ferro; o pai foi encomendá-la ao ferreiro; a espada no fim de dois meses estava feita e o ferreiro disse que a fosse buscar e que levasse dois carros e duas juntas de bois e depois então o pai mandou o filho buscar a espada; ele chegou ao ferreiro pediu a espada e diz o ferreiro assim:

— Que é dos bois e do carro?

— Não é preciso os carros, que eu pego nela.

O ferreiro apostou como ele não pegava na espada; se ele pegasse na espada o ferreiro devia dar a ele seis contos de réis e se ele não pegasse dar-lhe-ia o Mamma-na-burra outro tanto.

Ele foi pedir o dinheiro a um tio rico, que tinha, para depositar ao ferreiro; pegou na espada e andou com ela e o ferreiro perdeu assim a aposta.

Ele foi levar ao tio o dinheiro que lhe tinha pedido emprestado; o tio disse que o desse a sua mãe para os fins da vida dela. Ele chegou a casa do pai e deu-lhe quatro contos e ficou com dois e foi viajar terras e levava a espada.

Chegou a dois caminhos e viu um lavrador a lavrar e perguntou-lhe que caminho havia de seguir e ele pegou no carro e nos bois e arado e tudo numa mão e foi ensinar-lhe o caminho.

E diz o moço assim para o lavrador:

— Vocemecê é tão valente! pega em tudo numa mão e vem-me ensinar o caminho.

— Sou valente, mas consta-me que há um chamado Mamma-na-burra que é ainda mais valente que eu.

Mas o moço nunca lhe disse que era o Mamma-na-burra.

Ele foi indo, indo, e chegou a um pinheiral e viu um homem a deitar pinheiros abaixo; o homem já tinha oito pinheiros no chão e andava a botar mais quatro para fazer o feixe e diz-lhe ele:

— Você é tão valente que é preciso doze pinheiros para fazer o feixe para botar às costas.

— Sou; mas consta-me que há um chamada Mamma-na-burra que ainda é mais forte que eu.

E ele disse-lhe se ele queria ir com ele que lhe dava oito vinténs por dia.

Foram indo ambos e encontraram um homem a arrasar montanhas; cada vez que botava a enxada à terra arrancava três carros. O Mamma-na-burra disse-lhe assim:

— Vós sois tão valente que botais três carros de terra abaixo.

— Sou; mas consta-me que há um chamado Mamma-na-burra que ainda é mais forte que eu.

Depois ele disse-lhe o mesmo e foram andando todos três e depois foram indo e encontraram umas casas no meio do caminho e perguntaram a uma mulher se ali havia alguém que desse dormidas. A mulher respondeu-lhe que estava ali uma casa, mas que quem lá entrava não tornava a sair. O Mamma-na-burra foi e bateu à porta e depois falou-lhe uma mulher e disse-lhe— só se eles quisessem ir para a cozinha e ele foi.

A primeira noite ficou lá o Tomba-pinheiros e quando era meia-noite, veio o diabo pela chaminé abaixo e veio lidar com o homem a ver se o podia matar para o levar para o inferno. E depois Tomba-pinheiros pôde mais que o demônio e este foi-se embora. Ao outro dia Tomba-pinheiros estava muito triste, mas não disse aos outros o que lhe tinha acontecido.

A segunda noite ficou lá o Arrasa-montanhas e o diabo tornou a vir e o Arrasa-montanhas pôde mais que ele e o diabo pegou, foi-se embora.

A terceira noite ficou o Mamma-na-burra; veio o diabo pela chaminé abaixo e o Mamma-na-burra quando o viu disse:

— És tu?

E pegou na espada e traçou-o ao meio e o diabo meteu-se por uma rama abaixo e o Mamma-na-burra chegou pela manhã e disse para os outros:

— Havemos de arrumar aquela rama.

Arrumaram a rama e viram um poço fundo redondo; arranjaram umas cordas e um cesto e uma campainha; primeiro foi o Tomba-pinheiros metido no cesto e os outros a segurar na corda: chegou ao meio do poço e viu muitos bichos e não pôde passar para baixo e tocou a campainha para os outros o içarem para cima. Chegou acima e foi o Arrasa-montanhas e chegou ao meio do poço e viu muitos bichos e não pôde também passar. Por fim disse o outro:

— Agora é que cá vai o Mamma-na-burra —, dando-se só então a conhecer aos companheiros.

Chegou ao meio do poço e com a espada conseguiu passar para baixo; chegou lá abaixo e viu uma sala muito bonita e viu lá três meninas encantadas e eram todas três irmãs filhas dum rei e elas perguntaram-lhe:

— Menino, quem vos trouxe aqui?

E ele disse:

— Fui eu que quis vir.

Disse uma:

— Vai-te embora, senão vem o meu encanto e mata-te.

Perguntou ele:

— O que é o teu encanto?

— É uma serpente.

— Não tem dúvida.

Veio o encanto e disse à princesa:

— Tens cá carne humana.

— Não tenho.

O encanto entrou e o menino deu-lhe com a espada e matou a serpente. Ele desencantou a menina, que lhe deu um lenço marcado em todas as pontas com o nome dela. Ele meteu-a dentro do cesto, tocou a campainha e os companheiros içaram-na. Ele foi à segunda que também o mandou embora. Perguntou-lhe o que era o encanto dela e ela disse-lhe que era uma bicha. Veio o encanto que perguntou se tinha carne humana e o Mamma-na-burra matou-o. Ela deu-lhe uma maçã dourada e ele fê-la também içar.

Depois foi à derradeira (princesa) e perguntou-lhe o que era o encanto dela e ela disse-lhe que era o diabo maioral. Quando o menino viu o demônio, disse:

— Oh! a ti mesmo é que eu cá queria.

Pegou na espada e cortou-lhe uma orelha fora (ao diabo) e meteu-a no bolso e a menina passou-lhe a mão por cima do cabelo e dourou-lhe o cabelo e ele tocou a campainha para a guindarem.

Ele ficou sozinho dentro da casa e meteu uma pedra dentro do cesto e tocou para içarem e eles quando viram que estava o cesto no meio do poço deixaram-no cair, pensando que era o Mamma-na-burra. Eles fugiram com as três princesas e ele trincou a orelha do demônio dentro do poço e o demônio apareceu-lhe e disse-lhe:

— Tu que queres?

— Quero que me botes lá em cima.

— Dá-me a orelha.

— Dou; põe-me lá em cima que eu dou-ta.

O demônio pegou nele e pô-lo lá em cima do poço e o Mamma-na-burra não lhe deu a orelha. Avistou os outros dois muito longe a fugir com as princesas para o palácio. Pegou ele e seguiu atrás deles; não podia ir pelo caminho que todos lhe cobiçavam o cabelo; foi a um matadouro onde se matavam bois; pediu uma bexiga de boi para meter na cabeça e foi indo, indo, até à casa dum lavrador defronte do palácio do rei; pediu que fazer e o lavrador deu-lhe que fazer.

O lavrador não tinha mais que lhe dar a fazer, nem mais que lhe dar a comer. Num domingo tinha de haver uma corrida de cavalos à porta do palácio do rei; o demônio foi-lho dizer e ele disse-lhe que lhe aprontasse o melhor cavalo que houvesse e foi para a corrida sem ser convidado. Era o melhor cavaleiro que lá andava; perguntavam-lhe de onde ele era e ele dizia que era um viajante que ia correr terras.

Convidaram-no de lhe fazer um circo de espadas e peças; se ele não obedecesse e não dissesse de onde era que o matariam; o demônio soube-o e foi avisá-lo e disse-lhe que ele que se livrasse das espadas que ele diabo o livrava do fogo.

O Mamma-na-burra não obedeceu a nada; o cavalo, que era o próprio diabo, pinchava por cima das espadas; e quando iam a atirar o fogo este não pegou, porque o diabo tinha-lhe ido mijar. Assim o Mamma-na-burra escapou. Pescaram para onde ele entrou; foi o rei convidá-lo para jantar; o demônio disse-lhe que fosse e ele foi.

Quando entrou pelo palácio dentro as princesas viram-no da janela; elas diziam sempre ao pai que não tinham sido aqueles homens que as tinham desencantado e depois começaram a dizer ao pai que aquele homem é que as tinha desencantado; disseram que lhe tinham dado prendas. O rei perguntou-lhe por elas e ele mostrou-as todas três e perguntou às princesas se eram aqueles e elas disseram que sim. O rei disse que escolhesse delas a que quisesse e ele não escolheu; trincou a orelha ao demônio e o demônio apareceu-lhe e disse-lhe:

— Que queres?

E pediu-lhe a orelha.

— Dou-te a orelha, mas hás de dizer-me qual delas é que tem melhor gênio.

E ele respondeu-lhe:

— Leva-as todas três para dentro e cá de fora pede-lhe o dedo mendinho da mão direita pelo buraco da fechadura.

A que tivesse uma cova na cabeça do dedo era a que tinha melhor gênio.

Ele assim fez; a primeira que veio era a que tinha a covinha e tinha sido a que lhe dourara o cabelo. O rei perguntou-lhe o que queria que se fizesse aos outros dois.

— A um mandai-o deitar dum poço abaixo; e ao outro andar em volta do jardim agarrado ao rabo (com licença) do cavalo e um homem a chicotá-lo até ele morrer. «Acabou.»

(Foz do Douro.)


Sobre esta edição

Obra
O homem da espada de vinte quintaes
Autoria original
Adolfo Coelho
Texto em português
Texto original
Edição publicada
1.0.0
Produção
Marcelo Castro Barbosa, assistido por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
06/11/2026
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Pesquisa em 31/10/2026 · Confiança baixa · Método 2.0 · Evidência limitada

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