AsVerdadeiras HistóriasOs contos originais, em nossa língua

EK 154

O aleijado

Hans Christian Andersen

Krøblingen

Sobre este conto

Hans, o filho mais velho de dois trabalhadores de um jardim, não pode andar e vive de cama. No Natal, recebe dos senhores um livro de contos, cujas histórias começa a ler para os pais.

Personagens e estrutura
Personagens
Hans, chamado de o aleijado, Ole do Jardim, pai de Hans, Kirsten do Jardim, mãe de Hans, Os quatro irmãos de Hans, Os jovens senhores da propriedade, O mestre-escola, O passarinho preto, O gato
Onde se passa
Uma propriedade senhorial com jardim e a casa pobre de trabalhadores da paróquia; depois, a escola distante para onde Hans é enviado.
Acontecimentos
  1. Os senhores dão presentes de Natal às famílias pobres; Hans recebe um livro de contos, que os pais inicialmente julgam inútil.
  2. Hans lê as histórias do lenhador e sua mulher e do homem sem tristeza nem privação, e os pais voltam a ouvi-las.
  3. O mestre-escola passa a visitar Hans, ensina-lhe assuntos sobre o mundo e conta aos senhores o efeito do livro na família.
  4. A senhora manda dinheiro e depois oferece alimentos e um passarinho numa gaiola dourada.
  5. Quando o gato ameaça o pássaro, Hans atira o livro e a colcha; depois salta da cama, afasta o gato e corre com a gaiola para a estrada.
  6. Hans recupera a capacidade de andar; o pássaro morre de susto, e os senhores providenciam estudos para o menino longe de casa.
Desfecho
Hans vai estudar numa escola de latim, enquanto os pais guardam o livro e o pai continua lendo apenas as duas histórias conhecidas. Nas cartas, Hans conta sua alegria com os estudos e deseja viver até os cem anos e um dia ser mestre-escola. Os pais esperam ver isso, e Ole diz que Nosso Senhor também pensa no filho do pobre.

Havia uma velha propriedade senhorial com donos jovens e excelentes. Tinham riqueza e bênçãos, queriam se divertir e faziam o bem. Queriam deixar todas as pessoas felizes, como eles próprios eram.

Na véspera de Natal, uma árvore lindamente enfeitada estava no antigo salão dos cavaleiros, onde o fogo ardia nas lareiras e ramos de abeto tinham sido pendurados ao redor dos velhos quadros. Ali se reuniram os donos da casa e os convidados; houve canto e dança.

Mais cedo naquela noite, a alegria do Natal já chegara à sala dos empregados. Ali também havia um grande abeto com velas vermelhas e brancas acesas, pequenas bandeiras dinamarquesas, cisnes recortados e redes de pesca de papel colorido cheias de “gostosuras”. As crianças pobres da paróquia tinham sido convidadas, cada uma com sua mãe. Esta olhava pouco para a árvore: olhava para as mesas de Natal, onde havia lã e linho, tecidos para vestidos e para calças. Sim, era para lá que as mães e as crianças crescidas olhavam; só os pequeninos estendiam as mãos para as velas, o ouropel e as bandeiras.

Toda aquela gente chegara cedo, de tarde, e recebera papa de Natal e ganso assado com repolho-roxo. Depois de ver a árvore e de receber os presentes, cada um ganhou um pequeno copo de ponche e bolinhos recheados de maçã.

Voltaram para seus pobres quartos, e ali se falou da “boa vida”, quer dizer, dos alimentos, e os presentes foram examinados mais uma vez, com atenção.

Havia, entre eles, Kirsten do Jardim e Ole do Jardim. Casados um com o outro, tinham sua casa e seu pão de cada dia por capinar e cavar no jardim da propriedade. A cada festa de Natal recebiam sua boa parte dos presentes; também tinham cinco filhos, todos os cinco vestidos pelos senhores.

— São gente caridosa, os nossos senhores! — diziam. — Mas também podem se dar a esse luxo e sentem prazer nisso!

— Aqui vieram boas roupas para as quatro crianças gastarem! — disse Ole do Jardim. — Mas por que não há nada para o aleijado? Eles costumam se lembrar dele também, embora não participe da festa!

Era o mais velho dos filhos a quem chamavam de “o aleijado”; seu nome era Hans.

Quando pequeno, fora a criança mais esperta e viva; mas, de repente, ficara “mole das pernas”, como diziam, não podia ficar de pé nem andar, e agora estava no quinto ano de cama.

— Sim, também recebi uma coisa para ele! — disse a mãe. — Mas não é grande coisa, é só um livro para ele ler!

— Não vai engordar com isso! — disse o pai.

Hans, porém, ficou feliz com o presente. Era um menino muito vivo, que gostava de ler, mas também dedicava seu tempo ao trabalho, tanto quanto podia ser útil alguém que precisava ficar sempre de cama. Tinha habilidade manual, usava as mãos, tricotava meias de lã, até colchas inteiras; a senhora da propriedade as elogiara e comprara.

Era um livro de contos de fadas que Hans recebera; nele havia muito para ler, muito em que pensar.

— Não serve para coisa alguma nesta casa! — diziam os pais. — Mas deixem que leia, assim o tempo passa; ele não pode ficar o tempo todo fazendo meias!

Veio a primavera; flores e folhagens começaram a brotar, e as ervas daninhas também, como bem podemos chamar as urtigas, embora o salmo diga delas palavras tão bonitas:

“Se todos os reis marchassem em fila,
com seu poder e sua força,
não conseguiriam pôr a menor folha
sobre uma urtiga.”

Havia muito a fazer no jardim da propriedade, não só para o jardineiro e seus aprendizes, mas também para Kirsten do Jardim e Ole do Jardim.

— É uma trabalheira sem fim! — diziam. — Mal passamos o rastelo nos caminhos e os deixamos bem arrumados, e logo tornam a pisoteá-los. É um entra e sai de visitantes na propriedade. Quanto isso deve custar! Mas os senhores são ricos!

— A distribuição é esquisita! — disse Ole. — Somos todos filhos de Nosso Senhor, diz o pastor. Por que, então, tanta diferença?

— Isso vem da queda no pecado! — disse Kirsten.

Voltaram a falar nisso à noite, onde Hans, o aleijado, estava deitado com o livro de contos.

As condições difíceis, a lida e a labuta tinham endurecido as mãos dos pais, mas também seus julgamentos e opiniões; não conseguiam dominá-los nem esclarecê-los, e a conversa os deixava cada vez mais rabugentos e zangados.

— Algumas pessoas recebem prosperidade e felicidade, outras só pobreza! Por que a desobediência e a curiosidade de nossos primeiros pais têm de recair sobre nós? Não teríamos feito como aqueles dois!

— Teríamos, sim! — disse de repente Hans, o aleijado. — Está tudo aqui neste livro!

— O que está no livro? — perguntaram os pais.

E Hans leu para eles o velho conto do lenhador e de sua mulher: também reclamavam da curiosidade de Adão e Eva, culpada por sua infelicidade. Então o rei do país passou por ali.

— Venham comigo para casa! — disse ele. — Assim vão viver tão bem quanto eu: sete pratos de comida e um prato de enfeite. Este fica numa terrina fechada, em que vocês não podem tocar, pois, se tocarem, acaba a vida de senhores!

— O que pode haver na terrina? — disse a mulher.

— Isso não é da nossa conta! — disse o homem.

— Ora, não sou curiosa! — disse a mulher. — Só queria saber por que não podemos levantar a tampa. Deve haver alguma coisa deliciosa!

— Contanto que não tenha algum mecanismo! — disse o homem. — Um tiro de pistola daqueles que disparam e acordam a casa inteira!

— Ora! — disse a mulher, e não tocou na terrina.

Mas, de noite, sonhou que a tampa se levantava sozinha e vinha dali um perfume do mais delicioso ponche, como o que se serve em casamentos e enterros. Havia uma grande moeda de prata com a inscrição: “Se beberem deste ponche, serão as duas pessoas mais ricas do mundo, e todas as outras se tornarão mendigas!” — E, nesse instante, a mulher acordou e contou o sonho ao homem.

— Você pensa demais nessa coisa! — disse ele.

— Bem que podíamos levantar com cuidado! — disse a mulher.

— Com cuidado! — disse o homem.

E a mulher levantou a tampa muito devagar. — Então dois ratinhos ágeis saltaram de dentro e desapareceram num buraco de rato.

— Boa noite! — disse o rei. — Agora podem voltar para casa e deitar-se no que é de vocês. Não reclamem mais de Adão e Eva: vocês mesmos foram tão curiosos e ingratos quanto eles! — —

— De onde veio essa história parar no livro? — disse Ole do Jardim. — É como se fosse dirigida a nós. Dá muito em que pensar!

No dia seguinte, tornaram ao trabalho; eram torrados pelo sol e encharcados até a pele pela chuva; dentro deles havia pensamentos rabugentos, que ficavam ruminando.

Em casa ainda era noite clara; tinham comido sua papa de leite.

— Leia para nós outra vez a história do lenhador — disse Ole do Jardim.

— Há tantas histórias bonitas neste livro! — disse Hans. — Tantas que vocês não conhecem!

— Essas não me interessam! — disse Ole do Jardim. — Quero ouvir a que conheço!

E ele e a mulher a ouviram outra vez.

Em mais de uma noite voltaram àquela história.

— Mas ela não consegue me explicar tudo direito! — disse Ole do Jardim. — Com as pessoas é como com o leite fresco: ele talha; algumas viram coalhada fina, outras, o soro ralo e aguado! Há gente que tem sorte em tudo, senta-se à mesa de honra todos os dias e não conhece tristeza nem privação!

Hans, o aleijado, ouviu isso. Era fraco das pernas, mas esperto da cabeça. Leu para eles no livro de contos, leu sobre “O homem sem tristeza nem privação”. Sim, onde encontrá-lo? Pois ele precisava existir:

O rei estava doente e não podia ser curado sem vestir a camisa que tivesse sido usada e gasta no corpo de uma pessoa que pudesse dizer, de verdade, que nunca conhecera tristeza nem privação.

Enviaram mensageiros a todos os países do mundo, a todos os castelos e propriedades senhoriais, a todas as pessoas ricas e felizes; mas, quando se investigava bem, cada uma delas havia passado por tristeza e privação.

— Eu não passei! — disse o guardador de porcos, que estava sentado junto à vala, rindo e cantando. — Sou o homem mais feliz!

— Então nos dê sua camisa — disseram os enviados. — Vamos pagá-la com metade de um reino.

Mas ele não tinha camisa e, no entanto, se dizia o homem mais feliz.

— Esse é um belo sujeito! — exclamou Ole do Jardim, e ele e a mulher riram como não riam havia muito tempo.

Então o mestre-escola passou por ali.

— Como estão alegres! — disse ele. — Isso é novidade rara nesta casa. Acertaram uma dupla na loteria?

— Não, não é nada disso! — disse Ole do Jardim. — Foi Hans que leu para nós no livro de contos; leu sobre “O homem sem tristeza nem privação”, e o sujeito não tinha camisa. Até os olhos se descongelam quando a gente ouve uma coisa dessas, e num livro impresso. Cada um tem sua carga para puxar; a gente não é o único. Sempre há consolo nisso!

— De onde veio esse livro? — perguntou o mestre-escola.

— Nosso Hans o recebeu no Natal, há mais de um ano. Os senhores deram a ele. O senhor sabe, ele gosta tanto de ler e é aleijado! Naquela época, teríamos preferido que recebesse duas camisas de linho grosseiro. Mas o livro é extraordinário: é como se pudesse responder aos pensamentos da gente!

O mestre-escola pegou o livro e o abriu.

— Vamos ouvir a mesma história outra vez! — disse Ole do Jardim. — Ainda não a entendi bem. Depois ele também precisa ler a outra, a do lenhador!

As duas histórias eram e continuaram sendo suficientes para Ole. Eram como dois raios de sol no pobre quarto, no pensamento oprimido que os fazia ficar mal-humorados e rabugentos.

Hans tinha lido o livro inteiro, lido muitas vezes. Os contos o levavam pelo mundo, aos lugares aonde não podia ir, pois as pernas não o sustentavam.

O mestre-escola sentou-se junto à cama dele; conversaram, e foi um prazer para os dois.

A partir desse dia, o mestre-escola passou a visitar Hans com mais frequência, quando os pais estavam no trabalho. Era uma festa para o menino cada vez que ele vinha. Como escutava o que o velho lhe contava, sobre o tamanho da Terra e os muitos países, e que o Sol era quase meio milhão de vezes maior que a Terra e ficava tão longe que uma bala de canhão, em seu voo, levaria vinte e cinco anos inteiros do Sol à Terra, enquanto os raios de luz podiam chegar à Terra em oito minutos.

Hoje qualquer bom aluno sabe de tudo isso, mas para Hans era novidade, e ainda mais maravilhoso que tudo o que estava no livro de contos.

O mestre-escola comia à mesa dos senhores algumas vezes por ano e, numa dessas ocasiões, contou a importância do livro de contos naquela casa pobre, onde apenas duas de suas histórias tinham se tornado um despertar e uma bênção. Com sua leitura, o menino pequeno, esperto e frágil trouxera reflexão e alegria à casa.

Quando o mestre-escola saiu da propriedade, a senhora lhe apertou na mão dois brilhantes táleres de prata, para o pequeno Hans.

— Isso tem de ficar com meu pai e minha mãe! — disse o menino quando o mestre-escola lhe trouxe o dinheiro.

E Ole do Jardim e Kirsten do Jardim disseram:

— Hans, o aleijado, também serve de ajuda e de bênção!

Alguns dias depois, enquanto os pais trabalhavam na propriedade, a carruagem dos senhores parou diante da casa; era a senhora de bom coração que vinha, feliz por seu presente de Natal ter trazido tanto consolo e prazer ao menino e aos pais.

Trouxe pão fino, frutas e uma garrafa de suco doce; mas, o que era ainda mais agradável, trouxe-lhe, numa gaiola dourada, um passarinho preto que assobiava de maneira encantadora. A gaiola com o pássaro foi posta sobre a velha cômoda, a alguma distância da cama do menino: ele podia ver o pássaro e ouvi-lo; até as pessoas na estrada podiam ouvir seu canto.

Ole do Jardim e Kirsten do Jardim só voltaram para casa depois que a senhora partiu; perceberam como Hans estava feliz, mas achavam que o presente dado só traria trabalho.

— Os ricos não pensam muito adiante! — disseram. — Agora também vamos ter de cuidar dele. Hans, o aleijado, não pode fazer isso. Vai acabar é nas unhas do gato!

Passaram oito dias, passaram mais oito; nesse tempo, o gato estivera muitas vezes no quarto sem assustar o pássaro, muito menos lhe fazer mal. Então aconteceu uma coisa importante. Era de tarde, os pais e os outros filhos estavam no trabalho, e Hans estava inteiramente sozinho; tinha o livro de contos na mão e lia sobre a mulher do pescador, que via todos os seus desejos realizados: quis ser rei e se tornou; quis ser imperador e se tornou; mas depois quis ser o bom Deus — e então voltou para a vala de lama de onde saíra.

Essa história não tinha nenhuma relação com o pássaro ou com o gato; mas era justamente a história que lia quando o acontecimento se deu: disso ele sempre se lembrou depois.

A gaiola estava na cômoda, e o gato, no chão, olhando fixamente para o pássaro com seus olhos amarelo-esverdeados. Havia alguma coisa no rosto do gato, como se quisesse dizer ao pássaro: “Como você é bonito! Eu bem que gostaria de comer você!”

Hans conseguia entender isso; lia-o diretamente no rosto do gato.

— Fora, gato! — gritou ele. — Trate de sair do quarto!

Parecia que o gato se preparava para saltar.

Hans não podia alcançá-lo; não tinha nada para lhe atirar, a não ser seu tesouro mais querido, o livro de contos. Atirou-o, mas a capa estava solta e voou para um lado, enquanto o livro com todas as folhas voou para o outro. O gato recuou um pouco no quarto, a passos lentos, e olhou para Hans como se quisesse dizer:

— Não se meta nisso, pequeno Hans! Eu posso andar e posso saltar; você não pode fazer nem uma coisa nem outra!

Hans observava o gato e estava muito inquieto; o pássaro também ficou inquieto. Não havia ninguém a quem chamar; era como se o gato soubesse disso, e tornou a se preparar para saltar. Hans agitou a colcha: as mãos ele podia usar; mas o gato não se importou com a colcha e, quando esta também foi atirada contra ele sem resultado, deu um salto para a cadeira e para o peitoril da janela, ficando mais perto do pássaro.

Hans podia sentir seu próprio sangue quente dentro de si, mas não pensava nisso: só pensava no gato e no pássaro. O menino não podia sair da cama sozinho, não podia ficar de pé, muito menos andar. Foi como se o coração se virasse dentro dele quando viu o gato saltar da janela diretamente para a cômoda e bater na gaiola, derrubando-a. O pássaro esvoaçava desorientado lá dentro.

Hans soltou um grito, um estremecimento lhe percorreu o corpo e, sem pensar nisso, saltou da cama até a cômoda, arrancou o gato de lá e segurou firmemente a gaiola, onde o pássaro parecia tomado de grande pavor. Com a gaiola na mão, correu pela porta e saiu para a estrada.

Então as lágrimas lhe correram dos olhos; exultava e gritava bem alto:

— Eu posso andar! Eu posso andar!

Recuperara o movimento das pernas: isso pode acontecer, e com ele aconteceu.

O mestre-escola morava perto; Hans correu até ele descalço, só de camisa e casaco, com o pássaro na gaiola.

— Eu posso andar! — gritou. — Senhor, meu Deus!

E soluçava de pura alegria.

E houve alegria na casa de Ole do Jardim e Kirsten do Jardim.

— Não poderíamos viver um dia mais feliz! — disseram os dois.

Hans foi chamado à propriedade; havia muitos anos não fazia aquele caminho. Era como se as árvores e as aveleiras, que conhecia tão bem, lhe acenassem e dissessem: “Bom dia, Hans! Bem-vindo aqui fora!” O sol lhe brilhava no rosto, direto no coração.

Os senhores, os jovens e abençoados donos da propriedade, fizeram-no sentar-se com eles e pareciam tão felizes como se ele pudesse ter sido da própria família.

A mais feliz, porém, era a senhora, que lhe dera o livro de contos e o passarinho cantor. Este, na verdade, morrera, morrera de susto, mas fora como que o instrumento de sua cura, e o livro trouxera um despertar a ele e aos pais. Ele ainda o tinha, queria guardá-lo e lê-lo por mais velho que ficasse. Agora também podia ser útil aos de casa. Queria aprender um ofício, de preferência tornar-se encadernador.

— Pois assim — disse ele — posso ter todos os livros novos para ler!

Naquela tarde, a senhora chamou os pais à sua presença. Ela e o marido tinham conversado sobre Hans: era um menino piedoso e esperto, tinha gosto pela leitura e facilidade para aprender. Nosso Senhor está sempre a favor de uma boa causa.

Naquela noite, os pais voltaram da propriedade muito felizes, sobretudo Kirsten; mas, uma semana depois, ela chorava, pois o pequeno Hans partia. Recebera boas roupas, era um bom menino; mas agora atravessaria a água salgada, iria para longe, estudar numa escola de latim, e passariam muitos anos antes que o vissem de novo.

Não levou o livro de contos: os pais quiseram guardá-lo como lembrança. E o pai lia nele muitas vezes, mas sempre e somente as duas histórias, pois eram as que conhecia.

E recebiam cartas de Hans, cada uma mais alegre que a outra. Estava com pessoas boas, em boas condições; e o mais agradável de tudo era ir à escola: havia tanto para aprender e saber! Agora só desejava chegar aos cem anos e um dia tornar-se mestre-escola.

— Se pudéssemos viver para ver isso! — disseram os pais, apertando as mãos um do outro como na comunhão.

— O que não aconteceu a Hans! — disse Ole. — Nosso Senhor também pensa no filho do pobre! Foi justamente com o aleijado que isso tinha de se mostrar! Não é como se Hans pudesse ler tudo isso para nós no livro de contos?


Sobre esta edição

Obra
Krøblingen
Autoria original
Hans Christian Andersen
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

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Krøblingen

Eventyr og Historier · Femte Bind · Anden Udgave · 1894 · Dinamarquês · Femte Bind · Anden Udgave · edição póstuma
Volume Femte Bind. Página 271–285. Consultar esta edição ↗

O aleijado

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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