AC 015
O Criado do Estrujeitante
O creado do estrujeitante
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Texto do conto
Era uma vez um rapaz que foi procurar amo. Chegou a uma casa onde lhe perguntaram se ele sabia ler e, tendo ele respondido que sim, disseram-lhe que não o queriam. Foi a outra casa e, tendo-lhe feito a mesma pergunta, respondeu que não, e lá o aceitaram. O amo dele era um estrujeitante¹; de noite escrevia, e o rapaz ia vendo o que ele escrevia sem que ele o suspeitasse.
Foi o amo uma ocasião para fora de casa, e o rapaz leu-lhe todos os livros mágicos, por onde aprendeu a estrujeitar, e foi depois disso para casa dos pais. Quando a mãe o viu, disse-lhe: — Ai, filho, tu vens tão magro! — Deixe-se estar, que eu ainda hei de engordar. Eu vou fazer-me em galgo, e o meu pai leva-me à feira preso por uma fita, mas não venda a fita: traga-a, senão vende-me a mim.
Foi à feira feito em galgo; juntaram-se muitos caçadores e compraram o galgo; queriam também comprar a fita, mas o pai não a vendeu e meteu-a no bolso.
Chegaram os caçadores, que compraram o galgo, a um monte, e apareceu-lhe uma lebre; soltaram-lhe os cães todos mais o galgo; o galgo passou por um outeirinho, desaparecendo da vista dos caçadores, fez-se em homem e seguiu para os caçadores, que lhe perguntaram: — Oh, homenzinho! Viu passar por aqui um galgo? — Vi; vai aí adiante e tem pernas de prata. — Custou-nos tantas moedas. — Faça a tenção que elas foram como dadas.
Chegou o rapaz a casa, e disse-lhe o pai: — Ó filhinho, tu tardaste tanto! — Escute, meu pai, que eu já andei à lebre. Amanhã há outra feira, e eu hei de ir lá fingido num cavalo; venda o cavalo caro, mas não venda o freio, senão vende-me a mim.
Foi o pai à feira; mas lá estava o amo, que conheceu o rapaz no cavalo e o comprou por todo o dinheiro, teimando em levar o freio; juntou-se muita gente que teimava que ele tinha comprado freio e cavalo, de modo que o pai não teve remédio senão deixar ir também o freio.
O amo entregou o cavalo a um moço e, apontando-lhe para uma certa fonte, disse-lhe: — Tu não me deixes chegar o cavalo àquela fonte, senão eu mato-te.
Não passava ninguém ao pé que não gabasse o cavalo; o cavalo queria beber, saltava muito, e todos pediam ao rapaz que deixasse ir beber tão lindo animal. O cavalo, assim que apanhou o rapaz descuidado, saltou por cima dele e foi para a fonte e fingiu-se num peixe e meteu-se pela fonte dentro. Chegou o amo e, não vendo o cavalo, ficou muito zangado; ralhou muito com o rapaz; ajuntou-se gente que disse: — Ele não teve culpa, porque o cavalo saltou por cima dele, fez-se num peixe e meteu-se pela fonte dentro.
Nisto o amo fingiu-se numa lontra; meteu-se pela fonte dentro para comer o peixe; o peixe fingiu-se numa pomba e fugiu; a lontra fingiu-se num milhafre para comer a pomba; quando o milhafre ia quase a apanhar a pomba, ela viu umas senhoras numa janela, fez-se numa maçã e caiu na aba² de uma das senhoras. O milhafre fez-se em homem e começou a pedir a maçã às senhoras. Elas disseram-lhe que não lha davam, que aquela maçã tinha caído do céu. Então o homem disse para elas: — Oh, minhas senhoras, deem-me essa maçã, que eu morro se não ma derem. E pôs-se a chorar e tanto pediu que elas iam dá-la a ele; nisto a maçã fingiu-se em painço e caiu-lhe dentre as mãos. O estrujeitante fingiu-se numa galinha de pintos para comer o painço, e o painço juntou-se muito juntinho e formou-se numa raposa, que comeu a galinha e os pintos. Depois disso fez-se em homem e foi para casa. Disse-lhe o pai: — Ai, filho, que te demoraste tanto! — Olhe, meu pai, você podia ficar rico, mas mil forcas que eu tivesse poucas eram para o enforcar, porque você, pela sua fraqueza de vender o freio, foi a causa de eu ver a morte muitas vezes ao pé de mim.
(Ourilhe)
¹ Estrujeitante por estrejeitante (de es e trejeitar, de jeito) é um nome popular no Minho dos mágicos e principalmente dos que fazem transformações, visualidades; estrejeitar no sentido de fazer tours de passe-passe encontra-se já em D. Duarte, Leal conselheiro, c. 37: «E a astrologia, nigromancia, geomancia, e outras semelhantes ciências, artes, experimentos e sutilezas, de modo de trejeitar por sutileza das mãos ou natural maneira não costumada, etc.»
² Regaço.
Sobre esta edição
- Obra
- O creado do estrujeitante
- Autoria original
- Adolfo Coelho
- Texto em português
- Texto original
- Edição publicada
- 1.0.1
- Produção
- Marcelo Castro Barbosa, assistido por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 04/11/2026
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Pesquisa em 30/10/2026 · Confiança baixa · Método 2.0 · Evidência limitada
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