EK 125
O filho do porteiro
Portnerens Søn
Sobre este conto
Georg, filho de um porteiro, cresce na mesma casa que Emilie, filha de um general orgulhoso da posição social. Seu talento para o desenho recebe apoio de um conde e de um professor e o conduz à arquitetura. Ao pedir Emilie em casamento, é rejeitado pelo general, mas seu reconhecimento na corte e um encontro num baile de máscaras ajudam a mudar sua acolhida na família.
Personagens e estrutura
- Personagens
- Georg, filho do porteiro e depois arquiteto e professor, Emilie, filha do general, O general, A esposa do general, O porteiro e sua mulher, pais de Georg, O velho conde, O professor da Academia de Belas-Artes, A velha Else, Os príncipes e o rei, Os novos porteiros, Os três filhos de Georg e Emilie
- Onde se passa
- Uma casa com a família do general no primeiro andar e a do porteiro no porão, a Academia, Roma, o palácio do velho conde e a corte.
- Acontecimentos
- Na infância, Georg impede que um fogo na cortina se transforme em incêndio e dá desenhos a Emilie.
- Um professor e o velho conde apoiam sua formação; Georg ganha medalhas e parte para Roma.
- Os pais de Georg morrem; Emilie consola sua mãe na morte do pai e acompanha também os últimos momentos da mãe.
- Georg reencontra Emilie no palácio do conde, mas o general rejeita seu pedido de casamento.
- Depois de Georg ser nomeado professor, o general o confunde com um príncipe mascarado e o convida para jantar; mantém o convite ao descobrir sua identidade.
- Georg passa a frequentar a casa do general e, ao tornar-se conselheiro de Estado, casa-se com Emilie; o casal tem três meninos.
- Desfecho
- Georg e Emilie ficam juntos e têm três meninos. O general brinca de cavalinho de pau com os netos, enquanto a esposa sorri apesar da dor de cabeça. O narrador afirma que Georg foi ainda mais longe na vida.
A família do general morava no primeiro andar; a do porteiro, no porão. Grande era a distância entre as duas famílias: todo o andar térreo e a hierarquia das posições sociais. Mas moravam sob o mesmo teto, com vista para a rua e para o pátio. Neste havia um pedaço de gramado com uma acácia florida, quando ela florescia, e sob a árvore às vezes se sentava a ama, toda enfeitada, com a criança do general, ainda mais enfeitada: a “pequena Emilie”. Diante delas dançava, de pernas nuas, o filhinho do porteiro, de grandes olhos castanhos e cabelos escuros; a criança ria para ele, estendia-lhe as mãozinhas, e, quando o general via aquilo de sua janela, fazia um aceno para baixo e dizia:
— Charmant!
A esposa do general, tão jovem que quase poderia ser filha de um casamento precoce do marido, nunca olhava pela janela que dava para o pátio. Mas dera ordem de que o menino da gente do porão podia muito bem divertir a criança, desde que não tocasse nela. A ama cumpria rigorosamente as ordens da senhora.
E o sol entrava na casa do primeiro andar e na do porão. A acácia dava flores, elas caíam e outras tornavam a nascer no ano seguinte. A árvore florescia, e o filhinho do porteiro também florescia: parecia uma viçosa tulipa.
A filhinha do general ficava delicada e pálida como a pétala rosada da flor da acácia. Agora raramente descia para debaixo da árvore; tomava ar fresco na carruagem. Saía com a mamãe e sempre acenava para Georg, o filho do porteiro; chegava a lhe mandar beijos com a ponta do dedo, até que a mãe lhe disse que já era grande demais para isso.
Certa manhã, ele devia levar ao general as cartas e os jornais deixados bem cedo na portaria. Ao subir a escada, passando pela porta junto ao depósito de areia, ouviu um pio lá dentro; pensou que fosse um pintinho choramingando, mas era a filhinha do general, vestida de renda e gaze.
— Não conte ao papai e à mamãe, senão eles ficam zangados!
— O que houve, senhorita? — perguntou Georg.
— Está tudo pegando fogo! — disse ela. — Está ardendo em chamas!
Georg abriu a porta do pequeno quarto das crianças. A cortina da janela estava quase toda queimada; o varão ardia em brasas e chamas. Georg saltou, arrancou tudo e chamou gente. Sem ele, teria havido um incêndio na casa.
O general e sua esposa interrogaram a pequena Emilie.
— Peguei só um fósforo — disse ela —, e ele pegou fogo na mesma hora, e a cortina também. Eu cuspi para apagar, cuspi tudo o que pude, mas não tinha cuspe suficiente. Então saí correndo e me escondi, porque papai e mamãe iam ficar zangados.
— Cuspiu! — disse o general. — Que palavra é essa? Quando você ouviu papai e mamãe dizerem “cuspiu”? Aprendeu isso lá embaixo!
Mas o pequeno Georg ganhou uma moeda de quatro skillings. Ela não foi para o padeiro: foi para o cofrinho. Logo havia tantos skillings que ele pôde comprar uma caixa de tintas e pôr cores em seus desenhos, dos quais tinha muitos; pareciam sair sozinhos do lápis e dos dedos. Os primeiros desenhos coloridos foram dados de presente à pequena Emilie.
— Charmant! — disse o general.
Até a esposa admitiu que se via claramente o que o menino pretendera representar.
— Ele tem gênio!
Foram essas as palavras que a mulher do porteiro levou para o porão.
O general e sua esposa eram pessoas distintas; tinham dois brasões na carruagem, um de cada um. A senhora tinha o seu em todas as peças de roupa, nas de fora e nas de dentro, na touca de dormir e na bolsa de viagem. O dela era um brasão caro, comprado pelo pai por táleres reluzentes: ele não nascera com o brasão, e ela tampouco; chegara cedo demais, sete anos antes do brasão. A maioria das pessoas se lembrava disso; a família, não. O brasão do general era antigo e grande. Carregá-lo já podia fazer uma pessoa estalar, quanto mais carregar dois emblemas heráldicos! E a esposa do general estalava quando seguia ereta e imponente para o baile da corte.
O general era velho e grisalho, mas montava bem; sabia disso e saía a cavalo todos os dias, com um criado de estrebaria a uma distância conveniente atrás dele. Quando chegava a uma reunião, era como se entrasse montado em seu alto cavalo. E trazia tantas condecorações que era incompreensível; mas não tinha a menor culpa disso. Muito jovem, servira nas forças armadas e participara das grandes manobras de outono, realizadas com as tropas naqueles tempos de paz. Dessa época lhe restara uma anedota, a única que tinha para contar: seu suboficial interceptara e capturara um dos príncipes, e este fora obrigado a entrar na cidade a cavalo, como prisioneiro, com seu pequeno grupo de soldados capturados, atrás do general. Era um acontecimento inesquecível, que o general recontava ao longo dos anos sempre com as mesmas palavras memoráveis que dissera ao devolver o sabre ao príncipe:
— Somente meu suboficial poderia fazer Vossa Alteza prisioneira; eu, jamais!
E o príncipe respondera:
— O senhor é incomparável!
O general nunca estivera numa guerra de verdade. Quando ela atravessara o país, ele seguira o caminho diplomático, passando por três cortes estrangeiras. Falava francês a ponto de quase esquecer a própria língua; dançava bem, montava bem, brotavam condecorações em seu casaco numa quantidade incompreensível. As sentinelas lhe apresentavam armas; uma das mais belas jovens se apresentara a ele e se tornara esposa de general. E tiveram uma encantadora criancinha, que parecia ter caído do céu, de tão encantadora que era. O filho do porteiro dançava para ela no pátio desde que ela começara a entender as coisas e lhe dava todos os seus desenhos coloridos; ela os olhava, alegrava-se com eles e os rasgava em pedaços. Era tão fina e tão graciosa.
— Minha pétala de rosa! — dizia a mãe. — Você nasceu para um príncipe!
O príncipe já estava do lado de fora da porta, mas ninguém sabia. As pessoas não enxergam muito além da soleira.
— Outro dia, nosso menino até dividiu pão com manteiga com ela! — disse a mulher do porteiro. — Não havia queijo nem carne em cima, mas ela comeu como se fosse carne assada. A casa teria vindo abaixo se a família do general tivesse visto aquela refeição; mas não viu.
Georg dividira pão com manteiga com a pequena Emilie; de bom grado teria dividido o coração com ela, se isso pudesse alegrá-la. Era um bom menino, vivo e inteligente; agora frequentava o curso noturno da Academia para aprender a desenhar direito. A pequena Emilie também progredia nos estudos: falava francês com sua “bonne” e tinha professor de dança.
— Georg vai fazer a confirmação na Páscoa! — disse a mulher do porteiro.
A esse ponto Georg chegara.
— Então seria sensato colocá-lo como aprendiz! — disse o pai. — Numa boa profissão! Assim o teríamos fora de casa!
— Mas ele continuará dormindo em casa — disse a mãe. — Não é fácil encontrar um mestre que tenha lugar. Também teremos de lhe dar roupa; e haverá de sobrar dinheiro para o pouco que ele come, pois fica contente com um par de batatas cozidas. O ensino é gratuito. Deixe-o seguir seu caminho; você verá que ele nos dará alegria. O professor também disse isso!
A roupa da confirmação estava pronta; a própria mãe a costurara, mas fora cortada pelo alfaiate remendão, que cortava bem. Se tivesse tido outra posição e pudesse manter uma oficina com oficiais, dizia a mulher do porteiro, aquele homem bem poderia ter sido alfaiate da corte.
A roupa estava pronta, e o confirmando também. No dia da confirmação, Georg ganhou do padrinho, o velho empregado do comerciante de linho, um grande relógio de tombaque; era o mais rico dos padrinhos de Georg. O relógio era velho e provado: sempre se adiantava, mas isso é melhor do que ficar para trás. Era um presente valioso. Da casa do general veio um livro de hinos encadernado em marroquim, enviado pela pequena senhorita a quem Georg dera os desenhos. Na primeira página estavam o nome dele, o dela e as palavras “sua benevolente protetora”. Aquilo fora escrito sob ditado da esposa do general; o general lera e dissera:
— Charmant!
— Foi mesmo uma grande atenção de gente tão distinta — disse a mulher do porteiro.
E Georg teve de subir, com a roupa da confirmação e o livro de hinos, para se apresentar e agradecer.
A esposa do general estava sentada, muito agasalhada, com sua grande dor de cabeça, que sempre tinha quando se aborrecia. Olhou muito amavelmente para Georg e lhe desejou tudo de bom e que jamais tivesse a dor de cabeça dela. O general usava roupão, gorro com borla e botas russas de canos vermelhos. Andou três vezes de um lado para outro, mergulhado em pensamentos e lembranças, parou e disse:
— Então o pequeno Georg agora é um homem cristão! Seja também um homem honrado e respeite as autoridades! Quando for velho, poderá dizer que foi o general quem lhe ensinou essa máxima!
Foi um discurso mais longo do que os que o general costumava fazer. Depois tornou a se recolher em si mesmo e a parecer distinto. De tudo o que Georg ouviu e viu lá em cima, porém, o que ficou mais nítido em sua memória foi a pequena senhorita Emilie. Como era encantadora, como era doce, como parecia flutuar, como era delicada! Se fosse retratada, teria de ser numa bolha de sabão. Havia um perfume em suas roupas, nos cabelos loiros e encaracolados, como se fosse uma roseira recém-florida. E ele dividira pão com manteiga com ela certa vez; ela o comera com enorme apetite e acenara para ele a cada duas bocadas. Será que ainda se lembrava? Sim, certamente: dera-lhe aquele belo livro de hinos “em lembrança” disso. Quando apareceu a primeira lua nova do ano depois daquele dia, ele saiu com pão e um skilling e abriu o livro para ver qual hino lhe caberia. Era um hino de louvor e agradecimento. Abriu-o então para ver o que seria reservado à pequena Emilie; tomou justamente o cuidado de não abrir na parte dos hinos fúnebres e, apesar disso, foi cair entre a morte e a sepultura. Não era coisa em que se devesse acreditar! Ainda assim, ficou angustiado quando, pouco depois, a linda menina adoeceu e a carruagem do médico passou a parar diante do portão todos os dias ao meio-dia.
— Eles não ficarão com ela! — disse a mulher do porteiro. — Nosso Senhor sabe bem quem quer levar!
Mas ficaram com ela. E Georg desenhava e lhe mandava os desenhos. Desenhou o palácio do czar, o velho Kremlin de Moscou, exatamente como era, com torres e cúpulas; estas pareciam pepinos gigantescos, verdes e dourados, ao menos no desenho de Georg. Aquilo divertiu tanto a pequena Emilie que, durante a semana, ele mandou mais um par de desenhos, todos de edifícios: assim ela podia imaginar por si mesma muitas coisas atrás dos portões e das janelas. Desenhou uma casa chinesa com carrilhões em todos os seus dezesseis andares; desenhou dois templos gregos, com esbeltas colunas de mármore e escadarias ao redor; desenhou uma igreja da Noruega, visivelmente feita só de vigas, talhadas e dispostas de maneira estranha: cada andar parecia ter os pés curvos de um berço. Mas o mais bonito, numa das folhas, era o palácio que chamou de “o da pequena Emilie”. Assim ela deveria morar. Georg imaginara tudo e reunira naquele palácio o que achava mais bonito em cada um dos outros edifícios. Havia vigas entalhadas como as da igreja norueguesa, colunas de mármore como as do templo grego, carrilhões em cada andar e, bem no alto, cúpulas verdes e douradas, como as do Kremlin do czar. Era um verdadeiro palácio de criança! Debaixo de cada janela estava escrito para que serviria o salão ou o quarto lá dentro: “Aqui Emilie dorme, aqui Emilie dança e aqui brinca de receber visitas”. Era divertido de ver; e bem que o viram.
— Charmant! — disse o general.
Mas o velho conde — pois havia um velho conde ainda mais distinto que o general, que possuía palácio e propriedade senhorial — não disse nada. Soube que aquilo fora imaginado e desenhado pelo filhinho do porteiro. Bem, tão pequeno assim ele já não era: fizera a confirmação. O velho conde olhava os desenhos e tinha seus próprios pensamentos silenciosos a respeito.
Num dia de tempo muito cinzento, molhado, horrível, Georg viveu um de seus dias mais luminosos e felizes. O professor da Academia de Belas-Artes o chamou.
— Escute, meu amigo — disse ele —, vamos conversar um pouco! Nosso Senhor foi muito bom com você ao lhe dar talento, e também é bom ao lhe dar boas pessoas. O velho conde da esquina falou comigo a seu respeito. Também vi seus desenhos; vamos passar um traço sobre eles: há muito o que corrigir! Agora você poderá vir duas vezes por semana à minha escola de desenho, e acabará aprendendo a fazer melhor. Acho que tem mais jeito para arquiteto do que para pintor; terá tempo de pensar nisso. Mas vá ainda hoje à casa do velho conde da esquina e agradeça a Nosso Senhor por aquele homem!
Na esquina havia uma grande casa, com elefantes e dromedários entalhados ao redor das janelas, tudo de tempos antigos. O velho conde, porém, preferia os tempos novos e o bem que traziam, viesse ele do primeiro andar, do porão ou do sótão.
— Acho — disse a mulher do porteiro — que, quanto mais distintas as pessoas são de verdade, menos se fazem de importantes. Como o velho conde é encantador e simples! E fala como você e eu; a família do general não sabe fazer isso! Georg não ficou ontem tonto de alegria com o tratamento tão bom que recebeu do conde? Pois hoje estou eu assim, depois de conversar com aquele homem poderoso. Não foi bom termos deixado de pôr Georg como aprendiz de um ofício? Talento ele tem.
— Mas os talentos precisam de ajuda de fora! — disse o pai.
— Agora ele a recebeu — disse a mãe. — O conde falou com palavras claras, bem claras!
— Mas tudo começou na casa do general! — disse o pai. — Também precisamos agradecer a eles.
— Podemos agradecer! — disse a mãe. — Mas acho que não há muito que agradecer. A Nosso Senhor é que quero agradecer, e também por a pequena Emilie estar melhorando!
Ela progredia, e Georg também; ao longo do ano, ele ganhou a pequena medalha de prata e, mais tarde, a maior.
— Teria sido melhor colocá-lo como aprendiz de um ofício! — disse a mulher do porteiro, chorando. — Assim o teríamos conservado perto de nós. O que vai fazer em Roma? Nunca mais vou vê-lo, mesmo que volte para casa; mas ele não volta, meu querido menino!
— Mas é a felicidade e a glória dele! — disse o pai.
— Pois muito obrigada, meu amigo! — disse a mãe. — Você fala sem acreditar no que diz! Está tão triste quanto eu.
E era verdade, tanto a tristeza quanto a partida. Todos diziam que era uma grande felicidade para o rapaz.
Houve despedidas, também na casa do general. A senhora, porém, não apareceu: estava com sua grande dor de cabeça. Na despedida, o general contou sua única anedota: o que dissera ao príncipe e o que o príncipe lhe respondera — “O senhor é incomparável!”. Depois estendeu a mão a Georg, uma mão mole.
Emilie também lhe estendeu a mão e parecia quase triste; Georg, porém, era o mais triste dos dois.
O tempo passa quando fazemos alguma coisa, e também passa quando nada fazemos. O tempo é igualmente longo, mas não igualmente útil. Para Georg, era útil e nada longo, exceto quando pensava nos de casa. Como estariam lá em cima e lá embaixo? Sim, escreviam-lhe a respeito; e tanta coisa pode caber numa carta: o sol radiante e os dias escuros e pesados. Estes estavam na carta que lhe comunicava que o pai morrera e a mãe ficara sozinha. Emilie fora como um anjo de consolo; descera para ficar com ela, sim, era o que a mãe escrevia, acrescentando que recebera permissão para continuar no cargo da portaria.
A esposa do general mantinha um diário. Nele anotava todas as reuniões e todos os bailes a que ia, e as visitas de todos os convidados. O diário era ilustrado com os cartões de visita de diplomatas e de membros da mais alta nobreza. Ela tinha orgulho dele. O diário crescia havia muito tempo, muitíssimo tempo, entre muitas grandes dores de cabeça, mas também muitas noites luminosas, isto é, bailes da corte. Emilie fora pela primeira vez a um baile da corte; a mãe vestira rosa com rendas pretas: à espanhola! A filha, de branco, tão límpida, tão delicada! Fitas de seda verde esvoaçavam como juncos entre os cabelos loiros encaracolados, que traziam uma grinalda de nenúfares brancos. Os olhos eram tão azuis e claros, a boca tão delicada e vermelha! Parecia uma pequena sereia, tão bela quanto se pode imaginar. Três príncipes dançaram com ela, quer dizer, primeiro um, depois outro. A esposa do general ficou oito dias sem dor de cabeça.
Mas o primeiro baile não foi o último; Emilie não aguentou. Por isso foi bom que chegasse o verão, com descanso e ar livre. A família foi convidada ao palácio do velho conde.
Era um palácio com um jardim que valia a pena ver. Uma parte era exatamente como nos tempos antigos, com sebes verdes e rígidas: parecia que se andava entre biombos verdes com orifícios para espiar. Buxos e teixos eram podados em estrelas e pirâmides; a água jorrava de grandes grutas revestidas de conchas. Ao redor havia estátuas da mais pesada das pedras, o que se via tanto nas roupas quanto nos rostos. Cada canteiro tinha uma forma: peixe, escudo heráldico ou monograma. Era a parte francesa do jardim. Dali se passava como que a uma floresta livre e fresca, onde as árvores podiam crescer à vontade e, por isso, eram tão grandes e esplêndidas. A grama era verde e se podia andar sobre ela; também a nivelavam com rolo, aparavam e cuidavam dela. Era a parte inglesa do jardim.
— Tempos antigos e tempos novos! — disse o conde. — Aqui também se fundem muito bem! Daqui a dois anos, a própria casa terá seu verdadeiro aspecto: será toda transformada em algo mais belo e melhor. Vou mostrar os desenhos, e vou apresentar o arquiteto: ele vem almoçar aqui hoje!
— Charmant! — disse o general.
— Isto é um paraíso! — disse a esposa. — E ali o senhor tem um castelo de cavaleiros!
— É meu galinheiro! — disse o conde. — Os pombos moram na torre, os perus no primeiro andar; no térreo, quem governa é a velha Else. Tem quartos de hóspedes por todos os lados: as galinhas chocas de um lado, a galinha com os pintinhos de outro, e os patos têm saída própria para a água!
— Charmant! — repetiu o general.
E todos foram ver aquela maravilha.
A velha Else estava no meio do cômodo; ao lado dela, o arquiteto Georg. Ele e a pequena Emilie se reencontravam depois de vários anos: reencontravam-se no galinheiro.
Sim, ali estava ele, e era bem bonito de se ver: o rosto franco e decidido, cabelos negros e reluzentes, e nos lábios um sorriso que dizia: “Há um maroto atrás da minha orelha; ele conhece vocês por dentro e por fora”. A velha Else tirara os tamancos e estava só de meias, em homenagem aos ilustres hóspedes. As galinhas cacarejavam, o galo cantava, os patos saíam gingando: “Quá! Quá!”. Mas a delicada moça pálida, a amiga de infância, a filha do general, tinha agora um tom rosado nas faces tão pálidas; seus olhos se arregalaram, algo falava em torno de seus lábios sem que a boca dissesse uma única palavra. E o cumprimento que ele recebeu foi o mais encantador que um rapaz poderia desejar de uma moça com quem não tivesse parentesco ou costumasse dançar. Ela e o arquiteto nunca haviam dançado juntos.
O conde apertou-lhe a mão e o apresentou:
— Nosso jovem amigo, o senhor Georg, não é inteiramente desconhecido!
A esposa do general fez uma reverência. A filha ia lhe estender a mão, mas não a estendeu.
— Nosso pequeno senhor Georg! — disse o general. — Velhos amigos da casa. Charmant!
— O senhor virou um verdadeiro italiano! — disse a esposa do general. — E deve falar a língua como um nativo, não?
A esposa do general cantava naquela língua, mas não a falava, disse o general.
À mesa, Georg sentou-se à direita de Emilie. O general a conduzira; o conde conduzira a esposa do general.
O senhor Georg falava e contava histórias, e as contava bem; era a palavra e a alma da mesa, embora o velho conde também soubesse desempenhar esse papel. Emilie permanecia calada; os ouvidos escutavam, os olhos brilhavam.
Mas ela não dizia nada.
Na varanda, entre as flores, ela e Georg ficaram de pé; a sebe de rosas os escondia. Georg tornou a falar; foi o primeiro a falar.
— Obrigado pela bondade com minha velha mãe! — disse ele. — Eu sei que, na noite em que meu pai morreu, a senhorita desceu e ficou com ela até que os olhos dele se fechassem. Obrigado!
Tomou a mão de Emilie e a beijou; naquela ocasião podia muito bem fazê-lo. Ela ficou vermelha como brasa, mas apertou-lhe a mão em resposta e o fitou com seus abençoados olhos azuis.
— Sua mãe era uma alma amorosa! Como ela gostava do senhor! Deixava-me ler todas as suas cartas; quase acho que o conheço! Como foi bondoso comigo quando eu era pequena; dava-me desenhos…!
— Que a senhorita rasgava! — disse Georg.
— Não! Ainda tenho meu palácio, o desenho!
— Agora preciso construí-lo de verdade! — disse Georg, sentindo também o calor das próprias palavras.
Em seus aposentos, o general e sua esposa conversavam sobre o filho do porteiro. Ele sabia portar-se e expressar-se com uma familiaridade, um conhecimento!
— Poderia ser preceptor! — disse o general.
— Espírito! — disse a esposa, e não disse mais nada.
Durante o belo verão, o senhor Georg ia frequentemente ao palácio do conde. Quando não vinha, sentiam sua falta.
— Como Nosso Senhor lhe deu muito mais do que a nós, outros pobres seres humanos! — disse-lhe Emilie. — O senhor sabe dar o devido valor a isso?
Georg sentiu-se lisonjeado por aquela bela jovem olhá-lo com admiração; por isso a achava excepcionalmente talentosa.
E o general se convencia cada vez mais de que o senhor Georg de modo algum podia ser um filho do porão.
— A mãe, aliás, era uma mulher muito honrada! — dizia ele. — Devo isso à sua memória!
O verão passou, o inverno chegou e tornou-se a falar do senhor Georg. Era bem-visto e bem recebido, até nos lugares mais altos; o general o encontrara num baile da corte.
Agora haveria na casa um baile para a pequena Emilie. Poderiam convidar o senhor Georg?
— Quem o rei convida, o general também pode convidar! — disse o general, erguendo-se uma polegada inteira acima do chão.
O senhor Georg foi convidado e veio. Vieram príncipes e condes, e um dançava melhor que o outro. Mas Emilie só pôde dançar a primeira dança: nela torceu o pé, sem gravidade, mas o bastante para sentir. Era preciso ter cuidado, parar de dançar e olhar os outros. Ela ficou sentada, olhando, e o arquiteto ficou de pé ao seu lado.
— O senhor decerto está lhe dando a basílica de São Pedro inteira! — disse o general ao passar, sorrindo como a própria benevolência.
Com o mesmo sorriso benevolente, recebeu o senhor Georg alguns dias depois. O rapaz certamente vinha agradecer pelo baile; para quê mais? Pois para a coisa mais surpreendente, mais espantosa! Trazia palavras de louco; o general não acreditava nos próprios ouvidos: uma “declamação piramidal”, um pedido impensável! O senhor Georg pedia a mão da pequena Emilie.
— Homem! — disse o general, com a cabeça fervendo. — Não o entendo de modo algum! O que está dizendo? O que quer? Eu não o conheço! Senhor! Criatura! O senhor tem a ideia de invadir a minha casa! Posso ficar aqui, ou não posso ficar aqui?
E recuou até o quarto, girou a chave na fechadura e deixou o senhor Georg sozinho. Este ficou ali alguns minutos e depois se voltou para sair. Emilie estava no corredor.
— Meu pai respondeu…? — perguntou ela, com a voz trêmula.
Georg apertou-lhe a mão.
— Fugiu de mim! Virão tempos melhores!
Havia lágrimas nos olhos de Emilie; havia certeza e coragem nos olhos do rapaz. O sol iluminava os dois e lhes dava sua bênção.
Em seu quarto, o general estava inteiramente cozido; sim, ainda fervia, transbordava em palavras e exclamações:
— Loucura! Insânia de porteiro!
Não se passara uma hora quando a esposa soube de tudo pela boca do próprio general. Chamou Emilie e ficou a sós com ela.
— Minha pobre filha! Insultar você assim! Insultar a nós! Você também tem lágrimas nos olhos, mas elas lhe caem bem! Fica encantadora chorando! Parece comigo no dia do meu casamento. Chore, pequena Emilie!
— Pois é o que terei de fazer — disse Emilie —, se a senhora e meu pai não disserem sim!
— Menina! — gritou a esposa do general. — Você está doente! Delirando! E eu vou ter minha terrível dor de cabeça! Toda essa desgraça que cai sobre nossa casa! Não deixe sua mãe morrer, Emilie, senão ficará sem mãe!
E os olhos da esposa do general se encheram de lágrimas; ela não suportava pensar na própria morte.
Entre as nomeações, lia-se no jornal: o senhor Georg fora nomeado professor, quinta classe, número oito.
— É uma pena que os pais dele estejam na sepultura e não possam ler isso! — disseram os novos porteiros, que agora moravam no porão sob a casa do general. Sabiam que o professor nascera e crescera entre aquelas quatro paredes.
— Agora ele vai pagar o imposto do título! — disse o homem.
— Sim, não é uma coisa enorme para um menino pobre? — disse a mulher.
— Dezoito rigsdalers por ano! — disse o homem. — Sim, é muito dinheiro!
— Não, estou falando da posição elevada! — disse a mulher. — Acha que ele se importa com esse dinheiro? Pode ganhar muitas vezes mais! E ainda haverá de arranjar uma mulher rica. Se tivéssemos filhos, marido, nosso filho também seria arquiteto e professor!
Falava-se bem de Georg no porão e no primeiro andar; o velho conde se permitia fazê-lo.
Os desenhos da infância é que haviam dado o ensejo. Mas por que se falava deles? Conversavam sobre a Rússia, sobre Moscou, e daí chegavam ao Kremlin, que o pequeno Georg desenhara certa vez para a senhorita Emilie. Desenhara tantas coisas; o conde se lembrava especialmente de uma: “o palácio da pequena Emilie”, onde ela dormia, dançava e brincava de receber visitas. O professor tinha muita capacidade; certamente morreria velho e conselheiro de conferência — não era impossível —, tendo antes construído de verdade um palácio para a dama agora tão jovem. Por que não?
— Foi uma brincadeira estranha — observou a esposa do general, depois que o conde se retirou.
O general balançou a cabeça, pensativo, saiu a cavalo, com o criado de estrebaria à distância devida, e sentou-se em seu alto cavalo com mais orgulho do que nunca.
Era o aniversário da pequena Emilie. Trouxeram flores e livros, cartas e cartões de visita. A esposa do general beijou-lhe a boca; o general, a testa. Eram pais amorosos. Tanto ela quanto eles receberam visitas ilustres: dois dos príncipes. Conversaram sobre bailes e teatros, sobre missões diplomáticas, sobre o governo de reinos e países. Conversaram sobre capacidade, sobre a capacidade do próprio país, e assim se chegou ao jovem professor, o senhor arquiteto.
— Ele constrói para a própria imortalidade! — disseram. — Certamente também construirá sua entrada numa das primeiras famílias!
— Numa das primeiras famílias! — repetiu depois o general à esposa. — Quem é uma de nossas primeiras famílias?
— Sei a quem se referiam! — disse a esposa. — Mas não direi! Nem pensarei nisso! Deus governa! Mas ficarei surpresa.
— Deixem que eu também me surpreenda! — disse o general. — Não tenho ideia alguma na cabeça!
E mergulhou numa expectativa pensativa.
Há um poder, um poder inominável na torrente de graças que vem do alto: o favor da corte, o favor de Deus. E o pequeno Georg tinha todos esses favores da graça. Mas estamos esquecendo o aniversário.
O quarto de Emilie cheirava às flores dos amigos e das amigas. Sobre a mesa havia belos presentes, saudações e lembranças; mas nenhum de Georg. Não podia vir, e nem era necessário: a casa inteira era uma lembrança dele. Até do depósito de areia sob a escada piava a flor da recordação: ali Emilie piara, quando a cortina pegara fogo e Georg chegara como a primeira bomba de incêndio. Bastava olhar pela janela, e a acácia recordava a infância. As flores e as folhas haviam caído, mas a árvore estava coberta de geada, como um enorme ramo de coral. A lua brilhava clara e grande entre os galhos, imutável em toda a sua mutabilidade, como quando Georg dividira pão com manteiga com a pequena Emilie.
Ela tirou da gaveta os desenhos do palácio do czar e de seu próprio palácio: as lembranças de Georg. Olhou-os e pensou, e muitos pensamentos se ergueram. Recordou o dia em que, sem que o pai e a mãe percebessem, descera à casa da mulher do porteiro, que estava morrendo. Sentara-se ao seu lado, segurara-lhe a mão, ouvira suas últimas palavras:
— Bênção! Georg!
A mãe pensava no filho. Agora Emilie atribuía àquilo seu próprio sentido. Sim, Georg estava presente no aniversário, muito presente!
No dia seguinte, quis o acaso, havia outro aniversário na casa: o do general. Nascera um dia depois da filha, naturalmente antes dela, muitos anos antes. Tornaram a chegar presentes, entre eles uma sela, excelente no aspecto, confortável e preciosa; apenas um dos príncipes tinha outra igual. De quem seria? O general ficou encantado. Um bilhetinho a acompanhava; se nele estivesse escrito “Obrigado por ontem!”, nós outros bem poderíamos adivinhar de quem vinha. Mas estava escrito: “De alguém que o senhor general não conhece”.
— Quem, neste mundo, eu não conheço? — disse o general. — Conheço todo mundo!
E seu pensamento percorreu a alta sociedade; conhecia a todos.
— É da minha mulher! — disse por fim. — Ela está me pregando uma peça! Charmant!
Mas ela não lhe pregava peças; esse tempo já passara.
E houve uma festa, outra festa, mas não na casa do general: um baile à fantasia na casa de um dos príncipes. Máscaras também eram permitidas.
O general foi de Rubens, em traje espanhol, com uma pequena gola de pregas, espada e boa postura. A esposa era a senhora Rubens, de veludo preto, vestido fechado até o pescoço, terrivelmente quente, com uma pedra de moinho em volta do pescoço — quer dizer, naturalmente, uma grande gola de pregas —, exatamente como num quadro holandês que possuíam e no qual sobretudo as mãos eram admiradas: pareciam inteiramente com as da esposa do general.
Emilie era Psique, em gaze e renda. Parecia uma penugem de cisne flutuando; não precisava das asas, que trazia apenas como distintivo de Psique.
Havia brilho, esplendor, luzes e flores, riqueza e bom gosto. Havia tanto para ver que ninguém reparou nas belas mãos da senhora Rubens.
Um dominó preto, com uma flor de acácia no capuz, dançava com Psique.
— Quem é ele? — perguntou a esposa do general.
— Sua Alteza Real! — disse o general. — Tenho absoluta certeza; reconheci-o logo pelo aperto de mão!
A esposa do general duvidou.
O general Rubens não duvidava. Aproximou-se do dominó preto e traçou letras reais na mão; elas foram negadas, mas ele recebeu uma indicação:
— A divisa da sela! Alguém que o senhor general não conhece.
— Mas então eu o conheço! — disse o general. — Foi o senhor quem me mandou a sela!
O dominó levantou a mão e desapareceu entre os outros.
— Quem é o dominó preto com quem você dançou, Emilie? — perguntou a esposa do general.
— Não lhe perguntei o nome! — respondeu ela.
— Porque já sabia! É o professor! Seu protegido está aqui, senhor conde! — continuou, voltando-se para o conde, que estava perto. — Dominó preto com flor de acácia!
— Muito possível, minha senhora! — respondeu ele. — Mas um dos príncipes, aliás, também está fantasiado assim!
— Conheço o aperto de mão! — disse o general. — Foi o príncipe quem me deu a sela! Estou tão certo disso que posso convidá-lo à nossa mesa!
— Convide! Se for o príncipe, certamente virá…! — disse o conde.
— E, se for o outro, não virá! — disse o general.
Aproximou-se do dominó preto, que naquele momento conversava com o rei. Fez um convite extremamente respeitoso, para que pudessem se conhecer. Sorria, tão seguro de saber quem convidava; falava alto e claramente.
O dominó ergueu a máscara: era Georg.
— O senhor general repete o convite? — perguntou ele.
O general certamente ficou uma polegada mais alto, tomou uma postura mais firme, deu dois passos para trás e um para a frente, como num minueto. Havia seriedade e expressão, tanta quanto o general podia pôr no fino rosto do general.
— Nunca retiro minha palavra; o professor está convidado!
E inclinou-se, olhando para o rei, que muito provavelmente ouvira tudo.
E houve um almoço na casa do general, para o qual só foram convidados o velho conde e seu protegido.
“Com o pé debaixo da mesa”, pensou Georg, “a pedra fundamental está lançada!” E a pedra fundamental foi de fato lançada com grande solenidade na casa do general e de sua esposa.
O homem viera e, como o general bem sabia e conhecia, falara exatamente como um homem da boa sociedade, fora extremamente interessante; o general precisara dizer muitas vezes seu “Charmant”. A esposa falou de seu almoço; chegou a falar dele a uma dama da corte, uma das mais espirituosas, que pediu para ser convidada na próxima vez em que o professor viesse. Assim, ele tinha de ser convidado. Foi convidado e veio, e tornou a ser charmant; sabia até jogar xadrez.
— Ele não é do porão! — disse o general. — É, com toda certeza, filho de alguém distinto! Há muitos filhos de gente distinta, e o rapaz não tem a menor culpa disso.
O senhor professor, que frequentava a casa do rei, bem podia frequentar a do general; mas criar raízes, nem pensar — a não ser na cidade inteira.
Ele crescia. O orvalho da graça caía do alto!
Por isso não foi surpresa alguma que, quando o professor se tornou conselheiro de Estado, Emilie se tornasse esposa de conselheiro de Estado.
— A vida é tragédia ou comédia — disse o general. — Na tragédia, eles morrem; na comédia, ficam juntos.
Aqui ficaram juntos. E tiveram três meninos sadios, mas não logo de uma vez.
As queridas crianças montavam cavalinhos de pau pelos quartos e salões quando estavam na casa do avô e da avó. E o general também montava um cavalinho de pau, atrás deles:
— Como jóquei dos pequenos conselheiros de Estado!
A esposa do general se sentava no sofá e sorria, mesmo quando tinha sua grande dor de cabeça.
Até aí Georg chegou, e muito mais longe ainda; senão, não teria valido a pena contar a história do filho do porteiro.
Sobre esta edição
- Obra
- Portnerens Søn
- Autoria original
- Hans Christian Andersen
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Codex · tradução assistida por IA
- Revisão
- Codex · revisão independente por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 30/10/2026
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Portnerens Søn
O filho do porteiro
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