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EK 15

O jardim do paraíso

Hans Christian Andersen

Paradisets Have

Sobre este conto

Um príncipe de dezessete anos, fascinado pelo jardim do paraíso, acredita que não repetiria a desobediência de Adão e Eva. Perdido numa tempestade, abriga-se na caverna da mãe dos quatro ventos e ouve as viagens de seus filhos. O Vento Leste lhe oferece uma passagem até o jardim, onde uma fada lhe apresenta as maravilhas do lugar e as condições para permanecer ali.

Personagens e estrutura
Personagens
Príncipe de dezessete anos que deseja conhecer o jardim do paraíso, Avó que lhe descreve o jardim quando ele é pequeno, Mãe dos quatro ventos, que os disciplina com sacos, Vento Norte, que relata sua passagem pelo mar Polar e pela ilha dos Ursos, Vento Oeste, também chamado Zéfiro, que relata suas brincadeiras nas florestas e savanas, Vento Sul, que conta sua passagem pelo deserto e entrega uma folha escrita pela ave Fênix, Vento Leste, que leva o príncipe ao jardim do paraíso, Fada do paraíso, que recebe o príncipe e lhe anuncia a proibição, Moças que acompanham a fada, dançam e oferecem vinho, Morte, apresentada como um velho forte com foice e grandes asas negras
Onde se passa
Floresta e caverna da mãe dos quatro ventos; viagem aérea por terras e águas até uma passagem subterrânea. No jardim do paraíso há uma ilha, um rio, uma ponte de mármore e um castelo com imagens vivas do passado, a árvore do conhecimento e salões de flores.
Acontecimentos
  1. O príncipe acredita que não teria cometido o pecado de Adão e Eva. Durante uma tempestade, encontra abrigo na caverna dos ventos.
  2. Os quatro ventos chegam e contam suas viagens. A mãe põe o Vento Sul no saco depois de ouvir como ele enterrou uma caravana na areia; solta-o a pedido do Vento Leste.
  3. O Vento Leste leva o príncipe pelo ar e por cavernas até o jardim do paraíso. Entrega à fada a folha em que a ave Fênix gravou a história de sua vida.
  4. A fada mostra o castelo e anuncia que um beijo na boca dela fará o príncipe perder o paraíso. O Vento Leste parte e promete voltar dali a cem anos.
  5. Já na primeira noite, o príncipe segue a fada apesar do aviso, vê-a dormindo e beija a lágrima de seu olho; sua boca toca a dela.
  6. O paraíso afunda, e o príncipe se encontra novamente na floresta. A Morte adia colocá-lo no caixão e descreve o destino futuro condicionado a seus pensamentos e atos.
Desfecho
Depois do beijo, um trovão acompanha o afundamento do paraíso. Sob chuva e vento, o príncipe reconhece ter pecado como Adão; a luz que ainda vê é a estrela da manhã. Perto da caverna, a mãe dos ventos o repreende. A Morte diz que ainda o deixará no mundo para expiar seu pecado e tornar-se melhor. Quando voltar, levará seu caixão à estrela: se ele for bom e piedoso, entrará no jardim que ali floresce; se continuar mau e cheio de pecado, afundará mais fundo com o caixão, e a Morte só voltará a buscá-lo a cada mil anos, para que afunde mais ou permaneça na estrela. A narrativa termina nessa fala, sem mostrar a morte ou o destino definitivo do príncipe.

Havia um príncipe; ninguém tinha tantos livros nem tão belos quanto ele. Tudo o que acontecera neste mundo ele podia conhecer pela leitura e ver representado em magníficas imagens. Podia informar-se sobre cada povo e cada país, mas não havia uma palavra sobre onde encontrar o jardim do paraíso; e era nele, justamente nele, que mais pensava.

Sua avó lhe contara, quando ele ainda era bem pequeno, mas estava para começar os estudos, que cada flor do jardim do paraíso era o mais doce dos bolos, e os estames, o mais fino vinho. Em uma estava escrita a história, em outra a geografia ou as tabuadas; bastava comer bolo para saber a lição. Quanto mais se comia, mais se aprendia de história, geografia e tabuadas.

Naquele tempo, ele acreditava nisso. Mas, à medida que crescia, aprendia mais e ficava muito mais instruído, compreendia que a beleza do jardim do paraíso devia ser de uma natureza muito diferente.

— Ah, por que Eva colheu da árvore do conhecimento? Por que Adão comeu do fruto proibido? Se fosse eu, isso não teria acontecido! Nunca o pecado teria entrado no mundo!

Era o que dizia naquele tempo, e continuava a dizê-lo aos dezessete anos! O jardim do paraíso ocupava todos os seus pensamentos.

Um dia, foi à floresta. Ia sozinho, pois esse era seu maior prazer.

A noite caiu, as nuvens se juntaram, e desabou uma chuva como se o céu inteiro fosse uma única comporta por onde a água se precipitava. Estava tão escuro quanto costuma ficar, à noite, no fundo do poço mais profundo. Ora ele escorregava na grama molhada, ora tropeçava nas pedras nuas que sobressaíam do chão rochoso. Tudo escorria água; não restava um fio seco na roupa do pobre príncipe. Precisava subir por grandes blocos de pedra, de onde a água escorria por entre o musgo alto. Estava prestes a cair sem forças quando ouviu um estranho rumor e viu, à sua frente, uma grande caverna iluminada. Lá dentro ardia uma fogueira capaz de assar um cervo, e era justamente o que estava acontecendo: um cervo magnífico, com sua alta galhada, fora posto no espeto e girava lentamente entre dois pinheiros derrubados. Uma mulher já de certa idade, alta e forte, como se fosse um homem disfarçado, estava sentada junto ao fogo e atirava nele um pedaço de lenha depois do outro.

— Chegue mais perto! — disse ela. — Sente-se junto ao fogo para secar suas roupas!

— Há uma corrente de ar terrível aqui! — disse o príncipe, sentando-se no chão.

— Vai piorar ainda mais quando meus filhos chegarem! — respondeu a mulher. — Você está na caverna dos ventos. Meus filhos são os quatro ventos do mundo, compreende?

— Onde estão seus filhos? — perguntou o príncipe.

— Bem, é difícil responder a uma pergunta tola — disse a mulher. — Meus filhos andam por conta própria, jogam bola com as nuvens lá em cima, no salão! — E apontou para o alto.

— Ah, é assim! — disse o príncipe. — A senhora fala com bastante dureza e não é tão delicada quanto as mulheres que costumo ver à minha volta!

— É, elas provavelmente não têm outra coisa para fazer! Preciso ser dura para manter meus rapazes na linha! E consigo, apesar de serem teimosos! Está vendo os quatro sacos pendurados na parede? Eles têm tanto medo deles quanto você já teve da vara de castigo atrás do espelho. Posso dobrar os rapazes, fique sabendo, e então vão para o saco. Não fazemos cerimônia! Ficam lá dentro e não saem para suas andanças até eu achar conveniente. Mas aí vem um deles!

Era o Vento Norte, que entrou trazendo um frio glacial. Grandes pedras de granizo saltavam pelo chão, e flocos de neve rodopiavam por toda parte. Ele usava calças e casaco de pele de urso; um capuz de pele de foca lhe cobria as orelhas. Longas pontas de gelo pendiam de sua barba, e uma pedra de granizo depois da outra escorregava pela gola do casaco.

— Não vá direto para o fogo! — disse o príncipe. — Seu rosto e suas mãos podem facilmente sofrer queimaduras de frio!

— Frio! — disse o Vento Norte, soltando uma grande gargalhada. — Frio! Esse é justamente meu maior prazer! Mas que magricela é você? Como veio parar na caverna dos ventos?

— Ele é meu hóspede! — disse a velha. — E, se essa explicação não lhe agradar, pode ir para o saco! Agora já conhece meu poder de julgar!

Isso funcionou, e o Vento Norte contou de onde vinha e onde passara quase um mês inteiro.

— Venho do mar Polar — disse ele. — Estive na ilha dos Ursos com os caçadores russos de morsas. Estava sentado, dormindo no leme, quando partiram do cabo Norte! Quando eu acordava um pouco, de vez em quando, a ave das tempestades voava ao redor das minhas pernas! É um pássaro curioso: dá uma rápida batida de asas e depois as mantém estendidas, imóveis, e assim já tem velocidade suficiente.

— Não se alongue tanto! — disse a mãe dos ventos. — E então chegou à ilha dos Ursos!

— Lá é uma beleza! É um chão próprio para dançar, liso como um prato! Havia neve meio derretida com um pouco de musgo, pedras pontiagudas e esqueletos de morsas e ursos-polares. Pareciam braços e pernas de gigantes, cobertos de um verde bolorento. Era de imaginar que o sol nunca os tivesse iluminado. Soprei um pouco a névoa para que se pudesse ver o abrigo: era uma casa feita de madeira de naufrágios e revestida de peles de morsa, com o lado da carne voltado para fora, cheio de vermelho e verde. No telhado havia um urso-polar vivo, rosnando. Fui à praia, olhei os ninhos das aves, olhei os filhotes nus que gritavam de bico aberto; então soprei pelas mil gargantas, e eles aprenderam a fechar a boca. Lá embaixo, as morsas se revolviam como entranhas vivas ou larvas gigantescas, com cabeças de porco e dentes de um côvado de comprimento!

— Você conta bem, meu rapaz! — disse a mãe. — Ouvi-lo me dá água na boca!

— Então começou a caça! O arpão foi cravado no peito da morsa, e um jato de sangue fumegante se ergueu como uma fonte sobre o gelo. Aí também pensei na minha brincadeira! Soprei com força e fiz meus navegantes, os blocos de gelo altos como rochedos, apertarem os barcos entre si. Ui, como assobiavam e como gritavam, mas eu assobiava mais alto! Tiveram de descarregar sobre o gelo as carcaças das baleias mortas, os baús e as cordas! Sacudi os flocos de neve ao redor deles e deixei que, com a caça, fossem levados para o sul nos barcos presos entre os gelos, para provar água salgada. Nunca mais voltarão à ilha dos Ursos!

— Então você fez maldades! — disse a mãe dos ventos.

— O que fiz de bom, os outros podem contar! — disse ele. — Mas aí vem meu irmão do oeste, de quem mais gosto entre todos: tem sabor de mar e traz consigo um frio abençoado!

— É o pequeno Zéfiro? — perguntou o príncipe.

— É Zéfiro, sim! — disse a velha. — Mas já não é tão pequeno assim. Antigamente era um rapaz bonito, mas isso acabou!

Parecia um selvagem, mas usava um gorro de proteção para não se machucar. Na mão segurava um porrete de mogno, cortado nas florestas de mogno americanas. Não podia ser menos!

— De onde vem? — perguntou sua mãe.

— Das florestas desertas! — disse ele. — Lá os cipós espinhosos fazem uma cerca entre cada árvore, a cobra-d'água fica na grama molhada, e os seres humanos parecem desnecessários!

— O que fez por lá?

— Olhei o rio profundo, vi onde ele se precipitava do rochedo, virava poeira e voava rumo às nuvens para sustentar o arco-íris. Vi o búfalo selvagem nadando no rio, mas a correnteza o arrastou. Foi levado com o bando de patos selvagens, que levantaram voo onde a água despencava. O búfalo teve de cair; gostei disso e soprei uma tempestade, de modo que as árvores antiquíssimas saíram navegando e se partiram em lascas.

— E não fez mais nada? — perguntou a velha.

— Dei cambalhotas nas savanas, acariciei os cavalos selvagens e sacudi os cocos! Sim, sim, tenho histórias para contar! Mas não se deve dizer tudo o que se sabe. Você bem conhece isso, minha velha! — E beijou a mãe com tanta força que ela quase caiu de costas; era realmente um rapaz selvagem.

Chegou então o Vento Sul, de turbante e manto de beduíno esvoaçante.

— Está um frio danado aqui fora! — disse ele, atirando lenha ao fogo. — Dá para perceber que o Vento Norte chegou primeiro!

— Está tão quente aqui que se pode assar um urso-polar! — disse o Vento Norte.

— Você é que é um urso-polar! — respondeu o Vento Sul.

— Querem ir para o saco? — perguntou a velha. — Sente-se naquela pedra e conte onde esteve.

— Na África, minha mãe! — respondeu ele. — Fui caçar leões com os hotentotes na terra dos cafres! Que grama cresce na planície, verde como uma azeitona! Lá o gnu dançava, e o avestruz apostou corrida comigo, mas minhas pernas são mais rápidas. Fui ao deserto, à areia amarela; parece o fundo do mar. Encontrei uma caravana! Mataram seu último camelo para conseguir água para beber, mas conseguiram bem pouca. O sol queimava por cima, e a areia assava por baixo. Não tinha limites o imenso deserto. Então me esbaldei na areia fina e solta, fazendo-a rodopiar em grandes colunas: que dança! Você devia ter visto o dromedário parado, desanimado, e o mercador puxando o cafetã sobre a cabeça. Ele se prostrou diante de mim como diante de Alá, seu Deus. Agora estão enterrados, há uma pirâmide de areia sobre todos eles. Quando um dia eu a soprar para longe, o sol irá branquear seus ossos brancos, e os viajantes poderão ver que antes houve pessoas ali. De outro modo, não se acredita nisso no deserto!

— Então só fez maldades! — disse a mãe. — Marche para o saco! — E, antes que ele percebesse, ela havia agarrado o Vento Sul pela cintura e o enfiado no saco. O saco rolava pelo chão, mas ela se sentou em cima dele, e então teve de ficar quieto.

— Que rapazes cheios de vida a senhora tem! — disse o príncipe.

— Sim, de fato — respondeu ela. — E sei mantê-los na linha! Aí vem o quarto!

Era o Vento Leste, vestido como um chinês.

— Ah, vem daquele lado! — disse a mãe. — Pensei que tivesse estado no jardim do paraíso.

— Só vou voar para lá amanhã! — disse o Vento Leste. — Amanhã faz cem anos que estive lá! Agora venho da China, onde dancei ao redor da torre de porcelana, fazendo soar todos os sinos. Lá embaixo, na rua, os funcionários apanhavam; varas de bambu se gastavam em seus ombros, e eram pessoas do primeiro ao nono grau. Gritavam: “Muito obrigado, meu paternal benfeitor!” Mas não falavam com sinceridade, e eu tocava os sinos e cantava tsing, tsang, tsu!

— Você anda muito travesso! — disse a velha. — Ainda bem que amanhã vai ao jardim do paraíso, isso sempre melhora sua educação! Beba bastante da fonte da sabedoria e traga para mim uma garrafinha cheia!

— Vou trazer! — disse o Vento Leste. — Mas por que meteu meu irmão do sul no saco? Tire-o de lá! Ele precisa me contar sobre a ave Fênix. A princesa do jardim do paraíso sempre quer ouvir falar dessa ave quando faço minha visita, a cada cem anos. Abra o saco! Assim será minha mãe mais querida, e vou lhe dar dois bolsos cheios de chá, tão verde e fresco quanto o colhi lá mesmo!

— Bem, por causa do chá e porque você é meu queridinho, vou abrir o saco! — Assim fez, e o Vento Sul saiu rastejando, mas parecia muito abatido porque o príncipe estrangeiro tinha visto aquilo.

— Aqui está uma folha de palmeira para a princesa! — disse o Vento Sul. — Quem me deu esta folha foi a velha ave Fênix, a única que havia no mundo. Com o bico, ela gravou aqui toda a história de sua vida, os cem anos que viveu. Agora a princesa pode ler por si mesma. Vi a ave Fênix atear fogo ao próprio ninho e ficar sentada, queimando até o fim, como a mulher de um hindu. Como os galhos secos estalavam! Que fumaça e que cheiro! Por fim, tudo se ergueu em chamas, a velha ave Fênix virou cinzas, mas seu ovo ficou no fogo, vermelho em brasa. Rachou com um grande estrondo, e o filhote saiu voando. Agora é o soberano de todas as aves e a única ave Fênix do mundo. Ele fez com o bico um furo na folha de palmeira que lhe dei: é sua saudação à princesa!

— Vamos comer alguma coisa! — disse a mãe dos ventos. — Então todos se sentaram para comer do cervo assado. O príncipe ficou ao lado do Vento Leste, e por isso logo se tornaram bons amigos.

— Escute, diga-me uma coisa — disse o príncipe. — Quem é essa princesa de quem tanto se fala, e onde fica o jardim do paraíso?

— Ho, ho! — disse o Vento Leste. — Quer ir até lá? Então voe comigo amanhã! Mas preciso lhe dizer que nenhum ser humano esteve lá desde o tempo de Adão e Eva. Você certamente os conhece de sua história bíblica!

— Claro! — disse o príncipe.

— Quando foram expulsos, o jardim do paraíso afundou na terra, mas conservou seu sol quente, seu ar ameno e toda a sua glória. A rainha das fadas mora lá dentro; lá fica a ilha da bem-aventurança, onde a Morte nunca chega, onde é uma delícia estar! Sente-se nas minhas costas amanhã e eu o levarei. Acho que será possível! Mas agora não fale mais, pois quero dormir!

E todos adormeceram.

Bem cedo, o príncipe acordou e ficou bastante assustado ao perceber que já estava muito acima das nuvens. Estava sentado nas costas do Vento Leste, que o segurava com firmeza. Voavam tão alto que florestas e campos, rios e lagos pareciam parte de um grande mapa colorido.

— Bom dia! — disse o Vento Leste. — Você bem poderia dormir mais um pouco, pois não há muito para ver na terra plana debaixo de nós. A menos que queira contar igrejas! São como pontinhos de giz lá embaixo, na tábua verde. — Era aos campos e prados que ele chamava de tábua verde.

— Foi falta de educação eu não ter me despedido de sua mãe e de seus irmãos! — disse o príncipe.

— Quem está dormindo está desculpado! — disse o Vento Leste, e voaram ainda mais depressa. Podia-se ouvi-los nas copas das florestas: quando passavam por cima delas, todos os galhos e folhas farfalhavam. Podia-se ouvi-los no mar e nos lagos, pois, por onde voavam, as ondas se erguiam mais altas, e os grandes navios se inclinavam profundamente na água, como cisnes nadando.

Ao cair da tarde, quando escureceu, as grandes cidades tinham um aspecto divertido. As luzes ardiam lá embaixo, ora aqui, ora ali, exatamente como quando se queima um pedaço de papel e se veem as muitas faíscas pequeninas, que são crianças saindo da escola! O príncipe bateu palmas, mas o Vento Leste pediu que não fizesse isso, que se segurasse bem, pois, do contrário, poderia facilmente cair e ficar pendurado na ponta de uma torre de igreja.

A águia voava ligeira nas florestas escuras, mas o Vento Leste voava mais ligeiro. O cossaco disparava pelas planícies em seu cavalinho, mas o príncipe disparava de outra maneira.

— Agora pode ver o Himalaia! — disse o Vento Leste. — É a montanha mais alta da Ásia; logo chegaremos ao jardim do paraíso! — Então tomaram uma direção mais ao sul, e logo sentiram cheiro de especiarias e flores. Figos e romãs cresciam espontaneamente, e a videira silvestre tinha uvas azuis e vermelhas. Ali os dois desceram e se estenderam na grama macia, onde as flores acenavam ao vento como se quisessem dizer: “Bem-vindo de volta.”

— Já estamos no jardim do paraíso? — perguntou o príncipe.

— Claro que não! — respondeu o Vento Leste. — Mas logo chegaremos. Está vendo aquele paredão rochoso e a grande caverna, onde as videiras pendem como enormes cortinas verdes? É por ali que precisamos passar! Envolva-se no manto: aqui o sol queima, mas, a um passo, faz um frio glacial. O pássaro que passa rente à caverna tem uma asa aqui fora, no verão quente, e a outra lá dentro, no inverno frio!

— Então esse é o caminho para o jardim do paraíso? — perguntou o príncipe.

Entraram na caverna! Ui, que frio glacial! Mas não durou muito. O Vento Sul estendeu as asas, e elas brilharam como o fogo mais luminoso. Que cavernas! Grandes blocos de pedra, de onde pingava água, pendiam sobre eles nas formas mais extraordinárias. Ora a passagem era tão estreita que precisavam rastejar sobre as mãos e os pés, ora era tão alta e ampla quanto o ar livre. Pareciam capelas funerárias, com tubos de órgão mudos e órgãos petrificados.

— Parece que estamos seguindo o caminho da Morte para o jardim do paraíso! — disse o príncipe. Mas o Vento Leste não respondeu uma palavra; apontou para a frente, e a mais bela luz azul brilhou ao encontro deles. Os blocos de pedra acima iam se tornando cada vez mais uma névoa, que por fim ficou clara como uma nuvem branca ao luar. Agora estavam no mais delicioso ar ameno, tão fresco quanto nas montanhas, tão perfumado quanto junto às rosas do vale.

Corria ali um rio tão transparente quanto o próprio ar, e os peixes pareciam de prata e ouro. Enguias vermelho-púrpura, que soltavam faíscas azuis a cada movimento, brincavam lá embaixo na água. As folhas largas dos nenúfares tinham as cores do arco-íris; a própria flor era uma chama ardente vermelho-amarelada, alimentada pela água, como o óleo faz a lâmpada arder sem parar! Uma ponte sólida de mármore, mas tão artística e delicadamente lavrada que parecia feita de rendas e contas de vidro, atravessava a água até a ilha da bem-aventurança, onde florescia o jardim do paraíso.

O Vento Leste tomou o príncipe nos braços e o carregou para o outro lado. Ali, flores e folhas cantavam as mais belas canções de sua infância, mas com uma plenitude tão deliciosa que nenhuma voz humana neste mundo consegue cantar assim.

Eram palmeiras ou plantas aquáticas gigantescas que cresciam ali? O príncipe nunca tinha visto árvores tão viçosas e tão grandes. Em longas grinaldas pendiam as mais extraordinárias trepadeiras, como as que só se veem representadas com cores e ouro nas margens dos antigos livros de santos, ou enroscadas por entre suas letras iniciais. Eram as mais estranhas combinações de pássaros, flores e arabescos. Bem perto, na grama, havia um bando de pavões com as caudas abertas, radiantes! Sim, era isso mesmo! Não: quando o príncipe os tocou, percebeu que não eram animais, mas plantas. Eram grandes plantas de folhas largas que ali brilhavam como a bela cauda do pavão. O leão e o tigre saltavam como gatos ágeis entre as sebes verdes, que cheiravam a flores de oliveira. O leão e o tigre eram mansos; a pomba silvestre, brilhando como a mais bela pérola, batia as asas na juba do leão, e o antílope, que costuma ser tão arisco, balançava a cabeça como se também quisesse brincar.

Chegou então a fada do paraíso. Suas roupas brilhavam como o sol, e seu rosto era suave como o de uma mãe alegre, muito feliz com seu filho. Era tão jovem e bela, e as mais belas moças a seguiam, cada uma com uma estrela luminosa nos cabelos.

O Vento Leste lhe entregou a folha escrita pela ave Fênix, e seus olhos cintilaram de alegria. Ela tomou o príncipe pela mão e o levou ao seu castelo, onde as paredes tinham as cores da mais magnífica pétala de tulipa erguida contra o sol. O próprio teto era uma única flor grande e radiante, e, quanto mais se olhava para ela, mais profundo parecia seu cálice. O príncipe foi até a janela e olhou por uma das vidraças: viu a árvore do conhecimento com a serpente, e Adão e Eva estavam bem ao lado. “Eles não foram expulsos?”, perguntou. A fada sorriu e lhe explicou que, em cada vidraça, o Tempo havia gravado assim sua imagem a fogo; mas não como se costumava ver: havia vida ali. As folhas das árvores se moviam, as pessoas iam e vinham como numa imagem refletida. Ele olhou por outra vidraça, e lá estava o sonho de Jacó, em que a escada chegava diretamente ao céu, e os anjos de grandes asas pairavam subindo e descendo. Sim, tudo o que acontecera neste mundo vivia e se movia nas vidraças. Pinturas tão artísticas, só o Tempo poderia gravar a fogo.

A fada sorriu e o levou a um salão grande e alto. Suas paredes pareciam pinturas transparentes, com um rosto mais belo que o outro: eram milhões de seres felizes que sorriam e cantavam, de modo que tudo se fundia numa única melodia. Os que estavam no alto eram tão pequenos que pareciam menores que o menor botão de rosa, quando desenhado como um pontinho no papel. No meio do salão havia uma grande árvore com ramos pendentes e exuberantes. Maçãs douradas, grandes e pequenas, pendiam como laranjas entre as folhas verdes. Era a árvore do conhecimento, de cujo fruto Adão e Eva haviam comido. De cada folha pingava uma gota de orvalho vermelho e brilhante; era como se a árvore chorasse lágrimas de sangue.

— Vamos entrar no barco! — disse a fada. — Lá tomaremos refrescos sobre a água ondulante! O barco balança, mas não sai do lugar, enquanto todos os países do mundo deslizam diante dos nossos olhos. — Era estranho ver como toda a costa se movia. Vieram os altos Alpes cobertos de neve, com nuvens e pinheiros escuros; a trompa soava profunda e melancólica, e o pastor cantava belamente à tirolesa no vale. Então as bananeiras inclinaram seus longos ramos pendentes sobre o barco, cisnes negros como carvão nadavam na água, e os animais e flores mais estranhos apareciam na margem: era a Nova Holanda, a quinta parte do mundo, que deslizava diante deles com uma vista das montanhas azuis. Ouviam-se os cantos dos sacerdotes e viam-se as danças dos selvagens ao som de tambores e tubos de osso. As pirâmides dos egípcios, que se erguiam até as nuvens, colunas derrubadas e esfinges meio enterradas na areia passavam navegando. As auroras boreais ardiam sobre as geleiras do norte: eram fogos de artifício que ninguém conseguiria imitar. O príncipe estava tão feliz! Sim, via cem vezes mais do que contamos aqui.

— E poderei ficar aqui para sempre? — perguntou.

— Isso depende de você! — respondeu a fada. — Se não se deixar tentar, como Adão, a fazer o que é proibido, poderá ficar aqui para sempre!

— Não tocarei nas maçãs da árvore do conhecimento! — disse o príncipe. — Há aqui mil frutos tão belos quanto esse!

— Ponha-se à prova e, se não for forte o bastante, acompanhe o Vento Leste, que o trouxe. Ele está voltando agora e não virá aqui por cem anos. Aqui, esse tempo passará para você como se fossem apenas cem horas, mas é muito tempo para a tentação e o pecado. Todas as noites, quando me afastar de você, terei de lhe gritar: “Venha comigo!” Terei de acenar com a mão para você, mas fique onde está. Não me acompanhe, pois a cada passo seu desejo aumentará. Você chegará ao salão onde cresce a árvore do conhecimento. Eu dormirei sob seus ramos pendentes e perfumados, você se inclinará sobre mim, e eu terei de sorrir; mas, se me der um beijo na boca, o paraíso afundará nas profundezas da terra e estará perdido para você. O vento cortante do deserto soprará ao seu redor, a chuva fria pingará dos seus cabelos. A tristeza e a aflição serão sua herança.

— Vou ficar aqui! — disse o príncipe. O Vento Leste o beijou na testa e disse: “Seja forte, e nos encontraremos aqui de novo daqui a cem anos! Adeus! Adeus!” Então estendeu suas grandes asas; elas brilhavam como os relâmpagos distantes no tempo da colheita ou como a aurora boreal no inverno frio. “Adeus! Adeus!”, soava das flores e das árvores. Cegonhas e pelicanos voavam em fila, como fitas esvoaçantes, acompanhando-o até o limite do jardim.

— Agora começam nossas danças! — disse a fada. — No fim, quando eu dançar com você, verá, ao pôr do sol, que aceno para você. Vai me ouvir gritar: “Venha comigo!” Mas não faça isso! Durante cem anos, terei de repetir isso todas as noites. A cada vez que esse tempo passar, você ganhará mais força; por fim, nem pensará nisso. Hoje à noite será a primeira vez; agora está avisado!

A fada o levou a um grande salão de lírios brancos e transparentes. Os estames amarelos de cada um eram uma pequena harpa de ouro, que ressoava com sons de cordas e tons de flauta. As mais belas moças, esguias e leves, vestidas de véus ondulantes através dos quais se viam seus belos membros, flutuavam dançando e cantavam sobre como era glorioso viver, que nunca morreriam e que o jardim do paraíso floresceria eternamente.

O sol se pôs, o céu inteiro virou um só ouro, que dava aos lírios o brilho da mais bela rosa. O príncipe bebia do vinho espumante que as moças lhe ofereciam e sentia uma bem-aventurança como nunca antes. Viu abrir-se o fundo do salão, e a árvore do conhecimento surgiu num esplendor que ofuscava seus olhos. O canto que vinha dali era suave e belo como a voz de sua mãe, e era como se ela cantasse: “Meu filho! Meu filho amado!”

Então a fada acenou e chamou com tanto carinho: “Siga-me! Siga-me!” Ele correu ao encontro dela, esqueceu sua promessa, esqueceu-a já na primeira noite, e ela acenava e sorria. O perfume, o perfume de especiarias ao redor, ficou mais intenso, as harpas soaram muito mais belas, e era como se os milhões de rostos sorridentes no salão onde a árvore crescia acenassem e cantassem: “É preciso conhecer tudo! O ser humano é o senhor da Terra.” E já não eram lágrimas de sangue que caíam das folhas da árvore do conhecimento: pareciam-lhe estrelas vermelhas e cintilantes. “Siga-me, siga-me!”, soavam as notas trêmulas, e, a cada passo, as faces do príncipe ardiam mais, seu sangue se agitava com mais força! “Preciso ir!”, disse ele. “Não é pecado, não pode ser! Por que não seguir a beleza e a alegria? Quero vê-la dormir! Nada estará perdido se eu apenas deixar de beijá-la, e não vou fazer isso: sou forte, tenho uma vontade firme!”

A fada tirou sua roupa radiante, afastou os ramos para trás e, um instante depois, estava escondida lá dentro.

— Ainda não pequei! — disse o príncipe. — E também não vou pecar! — Então afastou os ramos: ela já dormia, bela como só a fada do jardim do paraíso poderia ser. Sorria em sonhos; ele se inclinou sobre ela e viu as lágrimas tremerem entre seus cílios!

— Você chora por mim? — sussurrou. — Não chore, bela mulher! Só agora compreendo a felicidade do paraíso: ela corre pelo meu sangue, pelos meus pensamentos; sinto a força e a vida eterna do querubim no meu corpo terreno. Que para mim seja noite para sempre: um minuto como este já é riqueza suficiente! — E beijou a lágrima do olho dela; sua boca tocou a dela…

Então soou um trovão tão profundo e terrível como ninguém jamais ouvira, e tudo desabou: a bela fada, o paraíso florido, afundou, afundou tão fundo, tão fundo! O príncipe o viu afundar na noite escura; como uma pequena estrela luminosa, brilhava muito longe! Um frio de morte atravessou seus membros; ele fechou os olhos e ficou muito tempo deitado, como morto.

A chuva fria caiu em seu rosto, o vento cortante soprou ao redor de sua cabeça, e seus pensamentos voltaram. “O que fiz!”, suspirou. “Pequei como Adão! Pequei, de modo que o paraíso afundou tão profundamente lá embaixo!” Abriu os olhos e ainda viu a estrela ao longe, a estrela que cintilava como o paraíso submerso: era a estrela da manhã no céu.

Levantou-se e estava na grande floresta, perto da caverna dos ventos. A mãe dos ventos estava sentada ao seu lado, com uma expressão zangada, erguendo o braço.

— Já na primeira noite! — disse ela. — Era o que eu pensava! Ah, se fosse meu rapaz, agora iria para o saco!

— É para lá que ele irá! — disse a Morte. Era um velho forte, com uma foice na mão e grandes asas negras. — Será posto no caixão, mas não agora. Só o marco; que ainda caminhe um tempo pelo mundo, expie seu pecado, torne-se bom e melhor! Um dia voltarei. Quando ele menos esperar, vou metê-lo no caixão negro, pô-lo sobre minha cabeça e voar rumo à estrela. Lá também floresce o jardim do paraíso, e, se ele for bom e piedoso, poderá entrar. Mas, se seus pensamentos forem maus e seu coração ainda estiver cheio de pecado, afundará com o caixão mais fundo do que o paraíso afundou. E só a cada mil anos voltarei para buscá-lo, para que possa afundar mais ou permanecer na estrela, a estrela cintilante lá no alto!


Sobre esta edição

Obra
Paradisets Have
Autoria original
Hans Christian Andersen
Texto em português
Tradução do original
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Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
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Paradisets Have

Eventyr, fortalte for Børn · Ny Samling · Andet Hefte · 1839 · Dinamarquês · Ny Samling · Andet Hefte · rosto de 1839
Volume Ny Samling · Andet Hefte. Página 1–30. Consultar esta edição ↗
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Der var en Kongesøn, Ingen havde saa mange og saa smukke Bøger, som han; Alt hvad der var skeet i denne Verden kunde han læse sig til og see afbildet i prægtige Billeder. Hvert Folk og hvert Land kunde han faae Besked om, men hvor Paradisets Have var at finde, derom stod der ikke et Ord; og den, just den var det, han tænkte meest paa.

Hans Bedstemoder havde fortalt ham, da han endnu var ganske lille, men skulde begynde sin Skolegang, at hver Blomst i Paradisets Have var den sødeste Kage, Støvtraadene den fineste Viin; paa een stod Historie, paa en anden Geographie eller Tabeller, man behøvede kun at spise Kage, saa kunde man sin Lectie; jo mere man spiste, desmere fik man ind af Historie, Geographie og Tabeller.

Det troede han den Gang; men alt, som han blev en større Dreng, lærte meer og blev langt klogere, begreb han nok, at der maatte være en langt anderledes Deilighed i Paradisets Have.

„O, hvorfor brød dog Eva af Kundskabens Træ! hvorfor spiste Adam af den forbudne Frugt! det skulde have været mig, da var det ikke skeet! aldrig skulde Synden være kommen ind i Verden!”

Det sagde han den Gang, og det sagde han endnu, da han var sytten Aar! Paradisets Have fyldte hele hans Tanke.

En Dag gik han i Skoven; han gik alene, for det var hans største Fornøielse.

Aftenen faldt paa, Skyerne trak sammen, det blev et Regnveir, som om hele Himlen var en eneste Sluse, hvorfra Vandet styrtede; der var saa mørkt, som det ellers er om Natten i den dybeste Brønd. Snart gled han i det vaade Græs, snart faldt han over de nøgne Stene, der ragede frem fra Klippegrunden. Alt drev af Vand, der blev ikke en tør Traad paa den stakkels Prinds. Han maatte kravle op over store Steenblokke, hvor Vandet sivede ud af det høie Mos. Han var ved at segne om; da hørte han en forunderlig Susen, og foran sig saae han en stor, oplyst Hule. Midt inde brændte en Ild, saa man kunde stege en Hjort derved, og det blev der ogsaa; den prægtigste Hjort, med sine høie Takker, var stukket paa Spid og dreiedes langsomt rundt mellem to omhuggede Grantræer. En gammelagtig Kone, høi og stærk, som var hun et udklædt Mandfolk, sad ved Ilden, og kastede det ene Stykke Træ efter det andet.

„Kom du kun nærmere!” sagde hun, „sæt dig ved Ilden at du kan faae dine Klæder tørrede!”

„Her er en slem Træk!” sagde Prindsen og satte sig paa Gulvet.

„Det bliver værre endnu, naar mine Sønner komme hjem!” svarede Konen. „Du er her i Vindenes Hule, mine Sønner ere Verdens de fire Vinde, kan du forstaae det?”

„Hvor ere dine Sønner?” spurgte Prindsen.

„Ja, det er ikke godt at svare, naar man spørger dumt,” sagde Konen. „Mine Sønner ere paa egen Haand, de spille Langbold med Skyerne deroppe i Storstuen!” og saa pegede hun op i Veiret.

„Naa saa!” sagde Prindsen. „I taler ellers noget haardt og er ikke saa mild, som de Fruentimmer, jeg ellers seer omkring mig!”

„Ja, de have nok ikke andet at gjøre! Jeg maa være haard, skal jeg holde mine Drenge i Ave! men det kan jeg, skjønt de have stive Nakker! seer du de fire Sække, der hænge paa Væggen; dem ere de ligesaa bange for, som du har været det for Riset bag Speilet. Jeg kan bukke Drengene sammen, skal jeg sige dig, og saa komme de i Posen; der gjøre vi ingen Omstændigheder! der sidde de og komme ikke ud at føite, før jeg finder for godt. Men der har vi den ene!”

Det var Nordenvinden, som traadte ind med en isnende Kulde, store Hagl hoppede hen ad Gulvet, og Sneeflokkene fygede rundt om. Han var klædt i Bjørneskinds Buxer og Trøie; en Hætte af Sælhundeskind gik ned over Ørene; lange Iistapper hang ham ved Skjægget, og det ene Hagl efter det andet gled ham ned fra Trøie-Kraven.

„Gaae ikke strax til Ilden!” sagde Prindsen, „De kan saa let faae Frost i Ansigtet og Hænderne!”

„Frost!” sagde Nordenvinden og lo ganske høit. „Frost! det er just min største Fornøielse! Hvad er ellers Du for et Skrinkelbeen! Hvor kommer du i Vindenes Hule!”

„Han er min Gjæst!” sagde den Gamle, „og er du ikke fornøiet med den Forklaring, saa kan du komme i Posen! — Nu kjender du min Dommekraft!”

See det hjalp, og Nordenvinden fortalte hvorfra han kom, og hvor han nu havde været næsten en heel Maaned.

„Fra Polarhavet kommer jeg” sagde han, „jeg har været paa „Beeren-Eiland” med de russiske Hvalrosse-Fangere. Jeg sad og sov paa Roret, da de seilede ud fra Nordkap! naar jeg imellem vaagnede lidt, fløi Stormfuglen mig om Benene! det er en løierlig Fugl, den gjør et rask Slag med Vingerne og saa holder den dem ubevægelig udstrakt og har da Fart nok.”

„Gjør det bare ikke saa vidtløftigt!” sagde Vindenes Moder. „Og saa kom du da til Beeren-Eiland!”

„Der er deiligt! det er et Gulv til at dandse paa, fladt, som en Talerken! halvtøet Snee med lidt Mos, skarpe Stene og Beenrade af Hvalrosser og Iisbjørne laae der, de saae ud som Kjæmpers Arme og Been, med muggen Grønhed. Man skulde troe, at Solen aldrig havde lyst paa dem. Jeg pustede lidt til Taagen for at man kunde see Skuret: det var et Huus, reist af Vrag og betrukket med Hvalrosse-Hud; Kjødsiden vendte ud, den var fuld af Rødt og Grønt; paa Taget sad en levende Iisbjørn og brummede. Jeg gik til Stranden, saae paa Fuglerederne, saae paa de nøgne Unger, der skreg og gabede; da blæste jeg ned i de tusinde Struber, og de lærte at lukke Munden. Nederst væltede sig Hvalroserne, som levende Indvolde eller Kjæmpe-Madiker med Svinehoveder og alenlange Tænder!”

„Du fortæller godt, min Dreng!” sagde Moderen. „Jeg faaer Vandet i Munden ved at høre paa dig!”

„Saa gik det paa Fangst! Harpunen blev stødt i Hvalrossens Bryst, saa den dampende Blodstraale stod som et Springvand over Isen. Da tænkte jeg ogsaa paa mit Spil! jeg blæste op, lod mine Seilere, de klippehøie Iisfjelde, klemme Baadene inde; hui hvor man peb, og hvor man skreg, men jeg peb høiere! de døde Hval-Kroppe, Kister og Tougværk maatte de pakke ud paa Isen! jeg rystede Snee-Flokkene om dem og lod dem i de indklemte Fartøier drive Syd paa med Fangsten, for der at smage Saltvand. De komme aldrig meer til Beeren-Eiland!”

„Saa har du jo gjort ondt!” sagde Vindenes Moder.

„Hvad godt jeg har gjort, kan de Andre fortælle!” sagde han, „men der har vi min Broder fra Vesten, ham kan jeg bedst lide af dem Alle sammen, han smager af Søen og har en velsignet Kulde med sig!”

„Er det den lille Zephyr?” spurgte Prindsen.

„Ja vist er det Zephyr!” sagde den Gamle, „men han er ikke saa lille endda. I gamle Dage var han en smuk Dreng, men nu er det forbi!”

Han saae ud som en Vildmand, men han havde en Faldhat paa for ikke at komme til Skade. I Haanden holdt han en Mahogni Kølle, hugget i de amerikanske Mahogni-Skove. Mindre kunde det ikke være!

„Hvor kommer du fra?” spurgte hans Moder.

„Fra Skov-Ørkenerne!” sagde han, „hvor de tornede Lianer gjøre et Gjærde mellem hvert Træ, hvor Vandslangen ligger i det vaade Græs, og Menneskene synes unødvendige!”

„Hvad bestilte du der?”

„Jeg saae paa den dybe Flod, saae hvor den styrtede fra Klippen, blev Støv og fløi mod Skyerne, for at bære Regnbuen. Jeg saae den vilde Bøffel svømme i Floden, men Strømmen rev ham med sig; han drev med Vildændernes Flok, der fløi i Veiret, hvor Vandet styrtede; Bøffelen maatte ned, det syntes jeg om, og blæste en Storm, saa de urgamle Træer seilede og bleve til Spaaner.”

„Og andet har du ikke bestilt?” spurgte den Gamle.

„Jeg har slaaet Kolbøtter i Savannerne, jeg har klappet de vilde Heste og rystet Kokosnødder; jo, jo, jeg har Historier at fortælle! men man skal ikke sige Alt, hvad man veed. Det kjender du nok, du Gamle!” og saa kyssede han sin Moder, saa hun nær var gaaet bag over; han var rigtignok en vild Dreng.

Nu kom Søndenvinden med Turban og flyvende Beduin-Kappe.

„Her er dygtigt koldt her ude!” sagde han, og kastede Brænde til Ilden, „man kan mærke, at Nordenvinden er kommen først!”

„Her er saa hedt, saa man kan stege en Iisbjørn!” sagde Nordenvinden.

„Du er selv en Iisbjørn!” svarede Søndenvinden.

„Vil I puttes i Posen!” spurgte den Gamle. — „Sæt dig paa Stenen der og fortæl, hvor du har været.”

„I Africa, min Moder!” svarede han. „Jeg var med Hottentotterne paa Løvejagt i Kaffernes Land! hvilket Græs der groer paa Sletten, grønt som en Oliven! der dandsede Gnuen, og Strudsen løb Væddeløb med mig, men jeg er dog raskere til Beens. Jeg kom til Ørkenen til det gule Sand; der seer ud, som paa Havets Bund. Jeg traf en Karavane! de slagtede deres sidste Kameel for at faae Vand at drikke, men det var kun lidt de fik, Solen brændte for oven, og Sandet stegte for neden. Ingen Grændse havde den udstrakte Ørken. Da boltrede jeg mig i det fine, løse Sand og hvirvlede det op i store Støtter, det var en Dands! Du skulde have seet hvor forknyt Dromedaren stod, og Kjøbmanden trak Kaftanen over Hovedet. Han kastede sig ned for mig som for Allah, sin Gud. Nu ere de begravede, der staaer en Pyramide af Sand over dem Alle sammen, naar jeg engang blæser den bort, saa skal Solen blege de hvide Been, da kan de Reisende see, her har før været Mennesker. Ellers kan man ikke troe det i Ørkenen!”

„Du har altsaa kun gjort ondt!” sagde Moderen. „Marsch i Posen!” og før han vidste det, havde hun Søndenvinden om Livet og i Posen, den væltede rundt omkring paa Gulvet, men hun satte sig paa den, og da maatte den ligge stille.

„Det er nogle raske Drenge, hun har!” sagde Prindsen.

„Ja saamæn,” svarede hun, „og ave dem kan jeg! der har vi den fjerde!”

Det var Østenvinden, han var klædt som en Chineser.

„Naa, kommer du fra den Kant!” sagde Moderen, „jeg troede, du havde været i Paradisets Have.”

„Der flyver jeg først hen imorgen!” sagde Østenvinden, „imorgen er det hundrede Aar siden jeg var der! jeg kommer nu fra China, hvor jeg har dandset om Porcellaintaarnet, saa alle Klokkerne klingede. Nede paa Gaden fik Embedsmændene Prygl, Bambusrør blev slidt paa deres Skuldre, og det var Folk fra den første til den niende Grad, de skreg: mange Tak, min faderlige Velgjører! men de meente ikke noget med det, og jeg ringede med Klokkerne og sang tsing, tsang, tsu!”

„Du er kaad paa det!” sagde den Gamle. „Det er godt Du imorgen kommer til Paradisets Have, det hjælper altid paa din Dannelse! drik saa dygtig af Viisdommens Kilde og tag en lille Flaske fuld hjem med til mig!”

„Det skal jeg!” sagde Østenvinden. „Men hvorfor har du nu puttet min Broder fra Sønden ned i Posen, frem med ham! han skal fortælle mig om Fugl Phønix, den Fugl vil Prindsessen i Paradisets Have altid høre om, naar jeg hvert hundrede Aar gjør Visit. Luk Posen op! saa er Du min sødeste Moder, og jeg skal forære dig to Lommer fulde af The, saa grøn og frisk, som jeg har plukket den paa Stedet!”

„Naa, for Theens Skyld og fordi du er min Kjæledægge, vil jeg aabne Posen!” det gjorde hun, og Søndenvinden krøb ud, men han saae ganske slukøret ud, fordi den fremmede Prinds havde seet det.

„Der har du et Palmeblad til Prindsessen!” sagde Søndenvinden, „det Blad har den gamle Fugl Phønix, den eneste der var i Verden, givet mig; han har med sit Næb ridset deri sin hele Levnets-Beskrivelse, de hundred Aar han levede; nu kan hun selv læse sig det til. Jeg saae, hvor Fugl Phønix selv stak Ild i sin Rede og sad og brændte op, som en Hindues Kone. Hvor dog de tørre Grene knagede, der var en Røg og en Duft. Tilsidst slog Alt op i Lue, den gamle Fugl Phønix blev til Aske, men hans Æg laae glødende rødt i Ilden, det revnede med et stort Knald, og Ungen fløi ud, nu er den Regent over alle Fuglene og den eneste Fugl Phønix i Verden. Han har bidt et Hul i Palmebladet, jeg gav dig, det er hans Hilsen til Prindsessen!”

„Lad os nu faae noget at leve af!” sagde Vindenes Moder, og saa satte de sig Alle til til at spise af den stegte Hjort, og Prindsen sad ved Siden af Østenvinden, og derfor bleve de snart gode Venner.

„Hør, siig mig engang,” sagde Prindsen, „Hvad er det for en Prindsesse, her bliver talt saa meget om, og hvor ligger Paradisets Have!”

„Ho, ho!” sagde Østenvinden, „vil du derhen, ja saa flyv du med mig imorgen! men det maa jeg ellers sige dig, der har ingen Mennesker været siden Adam og Evas Tid. Dem kjender du jo nok af din Bibelhistorie!”

„Ja vist!” sagde Prindsen.

„Dengang de bleve forjagne, sank Paradisets Have ned i Jorden, men den beholdt sit varme Solskin, sin milde Luft og al sin Herlighed. Feernes Dronning boer derinde; der ligger Lyksalighedens Ø, hvor Døden aldrig kommer, hvor der er deiligt at være!” Sæt dig paa min Ryg i Morgen, saa skal jeg tage dig med; jeg tænker, det nok lader sig gjøre! men nu maa du ikke snakke mere, for jeg vil sove!”

Og saa sov de Allesammen.

I den tidlige Morgenstund vaagnede Prindsen, og blev ikke lidt betuttet ved at han allerede var høit oppe over Skyerne. Han sad paa Ryggen af Østenvinden, der nok saa ærligt holdt paa ham; de vare saa høit i Veiret, at Skove og Marker, Floder og Søer toge sig ud, som paa et stort illumineret Landkaart.

„God Morgen!” sagde Østenvinden. „Du kunde ellers gjerne sove lidt endnu, for der er ikke meget at see paa det flade Land under os. Uden du har Lyst til at tælle Kirker! de staae som Kridtprikker nede paa det grønne Brædt.” Det var Marker og Enge, han kaldte det grønne Brædt.

„Det var uartigt, at jeg ikke fik sagt Farvel til din Moder og dine Brødre!” sagde Prindsen.

„Naar man sover, er man undskyldt!” sagde Østenvinden, og derpaa fløi de endnu raskere afsted: man kunde høre det paa Toppene af Skovene, naar de foer henover dem, raslede alle Grene og Blade; man kunde høre det paa Havet og Søerne, thi hvor de fløi, væltede Bølgerne høiere, og de store Skibe neiede dybt ned i Vandet, som svømmende Svaner.

Mod Aften, da det blev mørkt, saae det morsomt ud med de store Byer; Lysene brændte dernede, snart her, snart der, det var akkurat, som naar man har brændt et Stykke Papir og seer de mange smaa Ildgnister, hvor de ere Børn og gaae af Skole! Og Prindsen klappede i Hænderne, men Østenvinden bad ham lade være med det, heller holde sig fast, ellers kunde han let falde ned og blive hængende paa et Kirkespiir.

Ørnen i de sorte Skove fløi nok saa let, men Østenvinden fløi lettere. Kosakken paa sin lille Hest jog afsted over Sletterne, men Prindsen jog anderledes afsted.

„Nu kan du see Himmalaia! sagde Østenvinden, „det er det høieste Bjerg i Asien; snart skulle vi nu komme til Paradisets Have!” Saa dreiede de mere sydligt, og snart duftede der af Krydderier og Blomster. Figen og Granatæbler voxte vildt, og den vilde Viinranke havde blaa og røde Druer. Her steeg de begge to ned, strakte sig i det bløde Græs, hvor Blomsterne nikkede til Vinden ligesom de vilde sige: „velkommen tilbage.”

„Ere vi nu i Paradisets Have?” spurgte Prindsen.

„Nei vist ikke!” svarede Østenvinden „men nu skal vi snart komme der. Seer du Fjeldvæggen der og den store Hule, hvor Viinrankerne hænge som store grønne Gardiner. Der skal vi ind igjennem! Svøb dig i din Kappe, her brænder Solen, men eet Skridt og der er isnende koldt. Fuglen, som streifer forbi Hulen, har den ene Vinge herude i den varme Sommer og den anden derinde i den kolde Vinter!”

„Saa, det er Veien til Paradisets Have?” spurgte Prindsen.

Nu gik de ind i Hulen! hu, hvor der var isnende koldt, men det varede dog ikke længe. Søndenvinden bredte sine Vinger ud, og de lyste som den klareste Ild; nei hvilke Huler! de store Steenblokke, som Vandet dryppede fra, hang over dem i de forunderligste Skikkelser; snart var der saa snevert, at de maatte krybe paa Hænder og Fødder, snart saa høit og udstrakt, som i den frie Luft. Det saae ud som Gravcapeller med stumme Orgelpiber og forstenede Orgler.

„Vi gaae nok Dødens Vei til Paradisets Have!” sagde Prindsen, men Østenvinden svarede ikke et Ord, pegede fremad, og det deiligste blaa Lys straalede dem imøde? Steenblokkene oven over bleve mere og mere en Taage, der tilsidst var klar, som en hvid Sky i Maaneskin. Nu vare de i den deiligste milde Luft, saa frisk som paa Bjergene, saa duftende, som ved Dalens Roser.

Der strømmede en Flod, saa klar, som Luften selv, og Fiskene vare som Sølv og Guld; purpurrøde Aal, der skjøde blaa Ildgnister ved hver Bøining, spillede dernede i Vandet og de brede Aakande-Blade havde Regnbuens Farver, Blomsten selv var en rødguul brændende Lue, som Vandet gav Næring, ligesom Olien faaer Lampen bestandigt til at brænde! en fast Bro af Marmor, men saa kunstigt og fiint udskaaren, som var den gjort af Kniplinger og Glasperler, førte over Vandet til Lyksalighedens Ø, hvor Paradisets Have blomstrede.

Østenvinden tog Prindsen paa sine Arme og bar ham derover. Der sang Blomster og Blade de skjønneste Sange fra hans Barndom, men saa svulmende deiligt, som ingen menneskelig Stemme her kan synge.

Var det Palmetræer, eller kjæmpestore Vandsplanter, her groede! saa saftige og store Træer havde Prindsen aldrig før seet; i lange Krandse hang der de forunderligste Slyngplanter, som de kun findes afbildede med Farver og Guld paa Randen af de gamle Helgenbøger eller snoe sig der gjennem Begyndelses-Bogstaverne. Det var de sælsomste Sammensætninger af Fugle, Blomster og Snørkler. I Græsset tæt ved stod en Flok Paafugle med udbredte straalende Haler! Jo det var rigtignok saa! nei da Prindsen rørte ved dem, mærkede han, at det ikke var Dyr, men Planter: det var de store Skræpper, der her straalede som Paafuglens deilige Hale. Løven og Tigeren sprang liig smidige Katte mellem de grønne Hækker, der duftede som Olietræets Blomster, og Løven og Tigren vare tamme, den vilde Skovdue skinnende som den skjønneste Perle, baskede med sine Vinger Løven paa Manken, og Antilopen, der ellers er saa sky, stod og nikkede med Hovedet, ligesom den ogsaa vilde lege med.

Nu kom Paradisets Fee; hendes Klæder straalede som Solen, og hendes Ansigt var mildt, som en glad Moders, naar hun ret er lykkelig over sit Barn. Hun var saa ung og smuk, og de deiligste Piger, hver med en lysende Stjerne i Haaret, fulgte hende.

Østenvinden gav hende det skrevne Blad fra Fugl Phønix, og hendes Øine funklede af Glæde; hun tog Prindsen ved Haanden og førte ham ind i sit Slot, hvor Væggene havde Farver, som det prægtigste Tulipanblad, holdt mod Solen, Loftet selv var een stor straalende Blomst, og jo mere man stirrede op i den, desto dybere syntes dens Bæger. Prindsen traadte hen til Vinduet og saae igjennem een af Ruderne, da saae han Kundskabens Træ med Slangen, og Adam og Eva stod tæt derved. „Ere de ikke forjagne?” spurgte han, og Feen smilede, og forklarede ham, at paa hver Rude havde Tiden saaledes brændt sit Billede, men ikke, som man pleiede at see det, nei der var Liv deri, Træernes Blade rørte sig, Menneskene kom og gik, som i et Speilbillede. Og han saae gjennem en anden Rude, og der var Jakobs Drøm, hvor Stigen gik lige ind i Himlen, og Englene med store Vinger svævede op og ned. Ja, Alt hvad der var skeet i denne Verden levede og rørte sig i Glasruderne; saa kunstige Malerier kunde kun Tiden indbrænde.

Feen smilede og førte ham ind i en Sal, stor og høi; dens Vægge syntes transparente Malerier, med det ene Ansigt deiligere, end det andet; det var Millioner Lykkelige, der smilede og sang, saa det flød sammen i een Melodie; de allerøverste vare saa smaa, at de syntes mindre, end den mindste Rosenknop, naar den tegnes som en Prik paa Papiret. Og midt i Salen stod et stort Træ med hængende yppige Grene; gyldne Æbler, store og smaa, hang som Appelsiner mellem de grønne Blade. Det var Kundskabens Træ, af hvis Frugt Adam og Eva havde spiist. Fra hvert Blad dryppede en skinnende rød Dugdraabe; det var, som om Træet græd blodige Taarer.

„Lad os nu stige i Baaden!” sagde Feen, „der ville vi nyde Forfriskninger ude paa det svulmende Vand! Baaden gynger, kommer dog ikke af Stedet, men alle Verdens Lande glide forbi vore Øine.” Og det var underligt at see, hvorledes hele Kysten bevægede sig. Der kom de høie sneebedækte Alper, med Skyer og sorte Grantræer, Hornet klang saa dybt veemodigt, og Hyrden jodlede smukt i Dalen. Nu bøiede Banantræerne deres lange, hængende Grene ned over Baaden, kulsorte Svaner svømmede paa Vandet, og de sælsomste Dyr og Blomster viste sig paa Strandbreden: det var Ny-Holland, den femte Verdensdeel, der med en Udsigt til de blaa Bjerge gled forbi. Man hørte Præsternes Sang og saae de Vildes Dands til Lyden af Trommer og Been-Tuber. Ægypternes Pyramider, der ragede ind i Skyerne, omstyrtede Søiler og Sphinxer, halv begravet i Sandet, seilede forbi. Nordlysene brændte over Nordens Jøkler, det var et Fyrværkeri, som Ingen kunde gjøre efter. Prindsen var saa lyksalig, ja han saae jo hundrede Gange mere, end hvad vi her fortælle.

„Og altid kan jeg blive her?” spurgte han.

„Det beroer paa dig selv!” svarede Feen, „Dersom du ikke, som Adam, lader dig friste til at gjøre det Forbudne, da kan du altid blive her!”

„Jeg skal ikke røre Æblerne paa Kundskabens Træ!” sagde Prindsen. „Her er jo tusinde Frugter, skjønne, som den!”

„Prøv dig selv, og er du ikke stærk nok, saa følg med Østenvinden, som bragte dig; han flyver nu tilbage og kommer her ei i hundrede Aar; den Tid vil paa dette Sted gaae for dig, som var det kun hundrede Timer, men det er en lang Tid for Fristelsen og Synden. Hver Aften, naar jeg gaaer fra dig, maa jeg tilraabe dig „følg med!” jeg maa vinke med Haanden ad dig, men bliv tilbage. Gaa ikke med, thi da vil ved hvert Skridt din Længsel blive større: du kommer i Salen, hvor Kundskabens Træ groer; jeg sover under dens duftende hængende Grene, du vil bøie dig over mig, og jeg maa smile, men trykker du et Kys paa min Mund, da synker Paradiset dybt i Jorden, og det er tabt for dig. Ørkenens skarpe Vind vil omsuse dig, den kolde Regn dryppe fra dit Haar. Sorg og Trængsel bliver din Arvelod.”

„Jeg bliver her!” sagde Prindsen, og Østenvinden kyssede ham paa Panden og sagde „vær stærk, saa samles vi her igjen om hundrede Aar! farvel! farvel!” og Østenvinden bredte sine store Vinger ud; de lyste, som Kornmoen i Høsten, eller Nordlyset i den kolde Vinter. „Farvel! farvel!” klang det fra Blomster og Træer. Storke og Pelikaner fløi i Række, som flagrende Baand, og fulgte med til Grændsen af Haven.

„Nu begynde vore Dandse!” sagde Feen, „ved Slutningen, hvor jeg dandser med dig, vil du see, idet Solen synker, at jeg vinker ad dig, du vil høre mig tilraabe dig: følg med! men gjør det ikke! i hundred Aar maa jeg hver Aften gjentage det; for hver Gang den Tid er omme, vinder du mere Kraft, tilsidst tænker du aldrig derpaa. Iaften er det første Gang; nu har jeg advaret dig!

Og Feen førte ham ind i en stor Sal af hvide gjennemsigtige Lilier, de gule Støvtraade i hver var en lille Guldharpe, som klang med Strængelyd og Fløitetoner. De skjønneste Piger, svævende og slanke, klædte i bølgende Flor, saa man saae de deilige Lemmer, svævede i Dandse, og sang om hvor herligt det var at leve, at de aldrig vilde døe, og at Paradisets Have skulde evig blomstre.

Og Solen gik ned, den hele Himmel blev eet Guld, der gav Lilierne Skjær som den deiligste Rose, og Prindsen drak af den skummende Viin, Pigerne rakte ham, og han følte en Lyksalighed, som aldrig før; han saae, hvor Salens Baggrund aabnede sig, og Kundskabens Træ stod i en Glands, der blændede hans Øie; Sangen derfra var blød og deilig, som hans Moders Stemme, og det var, som hun sang: mit Barn! mit elskede Barn!”

Da vinkede Feen og raabte saa kjærligt „følg mig! følg mig!” og han styrtede hen imod hende, glemte sit Løfte, glemte det alt den første Aften, og hun vinkede og smilede. Duften, den krydrede Duft rundt om blev mere stærk, Harperne tonede langt deiligere, og det var, som de Millioner smilende Hoveder i Salen, hvor Træet groede, nikkede og sang: „Alt bør man kjende! Mennesket er Jordens Herre.” og det var ikke længer Blod-Taarer, der faldt fra Bladene paa Kundskabens Træ, det var røde, funklende Stjerner, syntes ham. „Følg mig, følg mig!” lød de bævende Toner, og ved hvert Skridt brændte Prindsens Kinder hedere, hans Blod bevægede sig stærkere! „jeg maa!” sagde han, „det er jo ingen Synd, kan ikke være det! hvorfor ikke følge Skjønhed og Glæde! see hende sove vil jeg! der er jo intet tabt, naar jeg kun lader være at kysse hende, og det gjør jeg ikke, jeg er stærk, jeg har en fast Villie!”

Og Feen kastede sin straalende Dragt, bøiede Grenene tilbage, og et Øieblik efter var hun skjult derinde.

„Jeg har endnu ikke syndet!” sagde Prindsen, „og vil det ikke heller;” og saa drog han Grenene til Side, der sov hun allerede, deilig, som kun Feen i Paradisets Have kan være det; hun smilede i Drømme, han bøiede sig ned over hende og saae Taarerne bæve mellem hendes Øienhaar!

„Græder du over mig?” hviskede han, „græd ikke, du deilige Qvinde! Nu begriber jeg først Paradisets Lykke, den strømmer gjennem mit Blod, gjennem min Tanke, Cherubens Kraft og evige Liv føler jeg i mit jordiske Legeme, lad det blive evig Nat for mig, et Minut, som dette er Rigdom nok!” og han kyssede Taaren af hendes Øie, hans Mund rørte ved hendes — —

— Da lød der et Tordenskrald, saa dybt og skrækkeligt, som ingen har hørt det før, og Alt styrtede sammen: den deilige Fee, det blomstrende Paradiis sank, det sank saa dybt, saa dybt, Prindsen saae det synke i den sorte Nat; som en lille skinnende Stjerne straalede det langt borte! Dødskulde gik gjennem hans Lemmer, han lukkede sit Øie og laae længe, som død.

Den kolde Regn faldt paa hans Ansigt, den skarpe Vind blæste om hans Hoved, da vendte hans Tanker tilbage. „Hvad har jeg gjort!” sukkede han, „jeg har syndet som Adam! syndet, saa Paradiset er sjunket dybt der ned!” og han aabnede sit Øie, Stjernen, langt borte, Stjernen, der funklede som det sjunkne Paradiis, saae han endnu — det var Morgenstjernen paa Himlen.

Han reiste sig op og var i den store Skov nær ved Vindenes Hule; og Vindenes Moder sad ved hans Side, hun saae vred ud, og løftede sin Arm i Veiret.

„Allerede den første Aften!” sagde hun, „det tænkte jeg nok! ja, var du min Dreng, saa skulde Du nu i Posen!

„Der skal han komme!” sagde Døden; det var en stærk gammel Mand med en Lee i Haanden og med store sorte Vinger. „I Liigkisten skal han lægges, men ikke nu; jeg mærker ham kun, lad ham da en Stund endnu vandre om i Verden, afsone sin Synd, blive god og bedre! — jeg kommer engang. Naar han da mindst venter det, putter jeg ham i den sorte Liigkiste, sætter den paa mit Hoved og flyver op mod Stjernen; ogsaa der blomstrer Paradisets Have, og er han god og from, da skal han træde derind, men er hans Tanke ond og Hjertet endnu fuldt af Synd, synker han med Kisten dybere, end Paradiset sank, og kun hver tusinde Aar henter jeg ham igjen, for at han maa synke dybere eller blive paa Stjernen, den funklende Stjerne deroppe!”

O jardim do paraíso

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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