GB 009

O Mercador

Giambattista Basile

Lo Mercante

Cerca de 20 min de leitura

O Mercador

Sétimo entretenimento da primeira jornada.

Cienzo quebra a cabeça de um filho de rei, foge da pátria e livra de um dragão a infanta de Pierdesinno, que, depois de vários acontecimentos, se torna sua mulher; mas, enfeitiçado por uma mulher, é libertado pelo irmão, a quem, por ciúme, acaba matando; descobrindo-o inocente, restitui-lhe a vida com certa erva.

Não se pode imaginar quanto a boa sorte de Zezolla tocou a todos até os ossos; e, assim como muito louvaram a liberalidade do Céu para com aquela moça, julgaram pequeno o castigo das filhas da madrasta, pois não há pena que a soberba não mereça, nem ruína que não caiba bem à inveja. Mas, enquanto se semeava um murmúrio a respeito daquele acontecimento, o príncipe Taddeo pôs o dedo indicador da mão direita atravessado sobre a boca e fez sinal para que se calassem. Todos emudeceram ao mesmo tempo, como se tivessem visto o lobo, ou como um escolar que, no melhor da conversa, vê de repente o mestre. Fez então sinal a Ciulla para que puxasse pelo seu conto, e ela assim falou:

— Na maior parte das vezes, os trabalhos são para os homens enxadões e pás que lhes aplainam o caminho para uma boa fortuna que nem imaginavam. E há quem amaldiçoe a chuva que lhe encharca a cabeça, sem saber que ela lhe traz abundância para pôr a fome para fora; como se viu na pessoa de um jovem, conforme vou lhes contar.

Dizem que havia uma vez um mercador rico, muito rico, chamado Antoniello, que tinha dois filhos, Cienzo e Meo, tão parecidos que não se sabia distinguir um do outro. Aconteceu que Cienzo, o primogênito, brincando de atirar pedras na Arenaccia com o filho do rei de Nápoles, lhe quebrou a cachola. Por isso Antoniello, enfurecido, lhe disse:

— Bravo! Você fez uma bela coisa! Escreva isso pela terra afora! Gabele-se em seco, se eu não o regar! Ponha isso numa vara para exibir! Vá, que você quebrou aquilo que vale seis grana! Você esborrachou a cabeça do filho do rei? Não tinha a meia cana para se medir, filho de um cabeçudo? E agora, que será dos seus negócios? Eu não daria três chialle por você, que cozinhou uma bela encrenca! Ainda que entrasse por onde saiu, não o garanto contra as mãozinhas do rei: você sabe que eles têm as pernas compridas e chegam a toda parte, e ele fará daquelas coisas que fedem!

Depois que o pai falou e tornou a falar, Cienzo respondeu:

— Meu senhor, sempre ouvi dizer que é melhor ter a justiça do que o médico em casa. Não teria sido pior se ele me quebrasse a cabeça? Fui provocado; somos meninos; o caso é de uma briga; é o primeiro delito; o rei é homem de razão. Afinal, o que pode me fazer daqui a cem anos? Quem não quiser me dar a mãe, que me dê a filha; o que não quiser me mandar cozido, que me mande cru; o mundo inteiro é terra de gente, e quem tem medo que se faça esbirro.

— O que pode lhe fazer? — replicou Antoniello. — Pode pôr você para fora deste mundo; mandá-lo mudar de ares. Pode fazer de você mestre-escola com uma palmatória de vinte e quatro palmos, dando cavalinhos aos peixes para que aprendam a falar. Pode mandá-lo, com um colar de três palmos engomado de sabão, casar com a Viúva e, em vez de tocar a mão da noiva, tocar os pés do padrinho. Por isso, não fique com o couro de aluguel entre o pano e a tesoura; marche já, nesta mesma passada, para que não se faça notícia nova nem velha do seu caso, e você não fique preso pelo pé. É melhor ser passarinho do mato do que de gaiola. Aqui tem dinheiro. Pegue um dos dois cavalos encantados que tenho na estrebaria e uma cadela, também encantada, e não espere mais: é melhor dar nos calcanhares do que ser tocado por calcanhares; é melhor enfiar as pernas no pescoço do que ter o pescoço debaixo de duas pernas; é melhor dar mil passos fugindo do que ficar com três passos de corda. Se não pegar suas trouxas, nem Baldo nem Bartolo poderão ajudá-lo.

Pedindo-lhe a bênção, montou no cavalo e, com a cadelinha no braço, começou a caminhar para fora da cidade. Mas, assim que saiu pela porta Capoana, virou a cabeça para trás e começou a dizer:

— Fique aí, que eu vou deixá-la, minha bela Nápoles! Quem sabe se ainda hei de tornar a ver vocês, tijolos de açúcar e muros de massa real, onde as pedras são de maná por dentro, as vigas de cana-de-açúcar, as portas e janelas de tortas folhadas! Ai de mim, que, separando-me de você, belo Pennino, parece que vou debaixo do pendão! Afastando-me de você, Chiazza Larga, a Praça Larga, aperta-se-me o espírito; distanciando-me de você, Chiazza de l’Urmo, sinto a alma se partir; separando-me de vocês, Lanzere, atravessa-me uma lançada catalã; desprendendo-me de você, Forcella, despeja-se o espírito da forquilha desta alma! Onde encontrarei outro Puorto, doce porto de todo o bem do mundo? Onde outras Ceuze, onde os bichinhos-da-seda do amor fazem contínuas folias de contentamento? Onde outro Pertuso, refúgio de todos os homens virtuosos? Onde outra Loggia, onde se aloja a gordura e se aguça o gosto? Ai de mim, não posso me afastar de você, meu Lavinaro, sem fazer uma enxurrada destes olhos! Não posso deixá-lo, ó Mercato, sem ir marcado pela dor. Não posso fazer separação de casas de você, bela Chiaia, sem levar mil chagas neste coração! Adeus, cenouras e folhas de acelga; adeus, zeppole e migliacci; adeus, brócolis e tarantello de atum; adeus, caionze e centofigliole de miúdos; adeus, picadinhos e gratinados! Adeus, flor das cidades, ostentação da Itália, ovo pintado da Europa, espelho do mundo! Adeus, Nápoles, non plus ultra, onde a virtude pôs seus marcos e a graça seus confins! Vou embora para ficar para sempre viúvo das panelas casadas; despejo-me deste belo lugar: meus talos de couve, deixo vocês para trás!

Dizendo isso, e fazendo um inverno de pranto dentro de um sol de Leão de suspiros, tanto caminhou que, na primeira noite, chegou a um bosque para os lados de Cascano, que fazia o Sol segurar-lhe a mula fora de suas divisas enquanto gozava do silêncio e das sombras. Havia ali uma casa velha ao pé de uma torre. Bateu à torre, mas o dono, desconfiado de foragidos, por já ser noite, não quis abrir. Assim o pobre Cienzo foi obrigado a ficar naquela casa arruinada; depois de pear o cavalo no meio de um prado, deitou-se com a cadelinha ao lado sobre certa palha que achou lá dentro. Mas mal havia fechado os olhos, quando, acordado pelo latido da cadela, ouviu passos pesados naquele cômodo baixo. Cienzo, que era animoso e ousado, puxou da espada e começou a dar um grande desbaste no escuro; mas, sentindo que não acertava em ninguém e que feria o vento, tornou a se estender. Dali a pouco, porém, sentiu-se puxar pelo pé; erguido outra vez e pondo de novo a mão na lâmina, levantou-se mais uma vez, dizendo:

— Olhe lá, você me aborrece demais agora! De nada adianta fazer essas brincadeiras de esconder: deixe-se ver, se tem bom estômago, e vamos tirar a teima, que você encontrou a forma do seu sapato!

Ao ouvir isso, escutou uma risada estalada e depois uma voz lá embaixo, que disse:

— Desça aqui, que lhe direi quem sou.

Cienzo, sem perder nada do ânimo, respondeu:

— Espere, que já vou.

E tanto andou às apalpadelas que achou uma escada que descia a uma adega. Assim que desceu, encontrou uma pequena candeia acesa e três figuras como penitentes, que faziam uma amarga lamentação, dizendo:

— Meu belo tesouro, como vou perdê-lo!

Vendo aquilo, Cienzo também se pôs a lastimar para fazer companhia. Depois de terem chorado um bom pedaço, quando a Lua já tinha acertado, com a machadinha dos raios, a zeppola do Céu, aqueles três que faziam o pranto lhe disseram:

— Vamos, tome este tesouro, que está destinado somente a você, e faça com que o guardem para você.

Dito isso, desapareceram como aquele que nunca mais há de aparecer. Ele viu o Sol por certo buraco e quis ir embora, mas não encontrou a escada. Por isso começou a gritar tanto que o dono da torre, que entrara para mijar naquela ruína, o ouviu; perguntou o que fazia e, sabendo como se passara o caso, foi buscar uma escada. Desceu, encontrou um grande tesouro e quis dar parte dele a Cienzo, mas este não quis nada. Pegou a cadela, montou no cavalo e se pôs a caminho.

Chegando a um bosque ermo e deserto, tão escuro que fazia torcer a boca, encontrou uma fada ao pé de um rio que, para dar gosto à sombra, de quem estava enamorado, fazia-se de serpente pelos prados e dava cambalhotas sobre as pedras. Uma turba de malandros cercava a fada para lhe tirar a honra. Cienzo, vendo aquele mau procedimento de despojadores de enforcados, pôs a mão na espada e fez deles um açougue. A fada, vendo a façanha feita por sua causa, lhe fez muitos cumprimentos e o convidou a um palácio não muito distante, onde o recompensaria pelo serviço que recebera. Mas Cienzo lhe disse:

— Não há de quê, e mil agradecimentos! De outra vez receberei o favor, que agora vou com pressa por coisa que importa.

E se despediu. Depois de caminhar mais um bom pedaço, encontrou um palácio de rei todo coberto de luto, tanto que escurecia o coração só de vê-lo. Perguntando Cienzo a causa daquela tristeza, responderam-lhe que naquela terra aparecera um dragão de sete cabeças, o mais terrível que jamais se vira no mundo. Tinha cristas de galo, cabeça de gato, olhos de fogo, bocas de cão corso, asas de morcego, garras de urso e cauda de serpente. Ora, ele devorava um cristão por dia e, tendo o caso chegado ao dia de hoje, a sorte daquele prêmio caíra sobre Menechella, filha do rei. Por isso havia pranto e desespero na casa real, pois a criatura mais emplumada daquela terra haveria de ser abocanhada e engolida por um bicho horrendo.

Cienzo, ouvindo isso, ficou de lado e viu vir Menechella com a cauda do vestido de luto, acompanhada pelas donzelas da corte e por todas as mulheres da terra. Batendo as mãos e arrancando os cabelos mecha por mecha, choravam a má sorte daquela pobre jovem, dizendo:

— Quem diria àquela moça infeliz que cederia os bens da vida dentro daquela fera malvada? Quem diria àquele belo pintassilgo que teria por gaiola o ventre de um dragão? Quem diria àquele belo anjinho que deixaria a semente de seu fio de vida dentro daquele negro fole?

Enquanto diziam isso, eis que de uma caverna saiu o dragão. Ai, minha mãe, que cara feia! Faça de conta que o Sol se escondeu de medo dentro das nuvens, o Céu se turvou e o coração de toda aquela gente virou uma múmia; foi tamanho o tremor que não lhes teria entrado, por clister, uma cerda de porco. Cienzo, vendo aquilo, pôs a mão na espada e, zás, fez uma cabeça ir ao chão. Mas o dragão esfregou o pescoço em certa erva pouco distante e logo o uniu à cabeça, como uma lagartixa quando se junta à cauda. Vendo aquilo, Cienzo disse:

— Quem não faz por onde não dá cria!

E, apertando os dentes, levantou um golpe tão descomunal que cortou de uma vez todas as sete cabeças, que saltaram do pescoço como grãos-de-bico da escumadeira. Tirou-lhes as línguas e as guardou, e arremessou as cabeças a uma milha de distância do corpo, para que não se encaixassem de novo. Pegou um punhado daquela erva que colara o pescoço à cabeça do dragão, mandou Menechella para casa do pai e foi descansar numa taverna.

Quando o rei viu a filha, não se pode acreditar a alegria que sentiu; sabendo o miolo de como tinha sido libertada, fez logo lançar um pregão: quem tivesse matado o dragão viesse tomar a filha por mulher. Um camponês malicioso, ouvindo aquilo, pegou as cabeças do dragão, foi ao rei e lhe disse:

— Por este corpo Menechella está a salvo; estas mãozinhas livraram esta terra de tamanha ruína. Aqui estão as cabeças, testemunhas de meu valor. Por isso, toda promessa é dívida.

O rei, ouvindo isso, tirou a coroa da própria cabeça e a pôs na cachola do camponês, que pareceu cabeça de bandido sobre uma coluna. A notícia daquele feito correu por toda a terra e chegou aos ouvidos de Cienzo, que disse consigo:

— Sou mesmo um toleirão! Tive a fortuna pelos cabelos e a deixei escapar da mão! Aquele quer me dar metade do tesouro, e faço dele o caso que um alemão faz da água fresca; aquela quer me fazer bem em seu palácio, e faço disso o caso que um burro faz da música; e agora sou chamado à coroa e fico como a bêbada com o fuso, suportando que um pé peludo ponha o pé à minha frente e que um jogador manhoso, que joga com vantagem, tire de minha mão este belo trinta e nove!

Dizendo isso, tomou um tinteiro, pegou a pena, estendeu o papel e começou a escrever:

“À belíssima joia das mulheres, Menechella, infanta de Pierdesinno. Tendo salvado sua vida pela graça do Sol de Leão, ouço que outro se enfeita com meus trabalhos e que outro se adianta por um serviço que eu fiz. Por isso, você, que esteve presente ao negócio, pode fazer o rei acreditar na verdade e não consentir que outro ganhe este benefício de praça morta, onde eu virei as escumadeiras: será efeito devido desta bela graça de rainha e merecido prêmio desta forte mão de Scannavebecco. E, para terminar, beijo suas delicadas mãozinhas. Da hospedaria dell’Aurinale, hoje, domingo.”

Escrita a carta e selada com pão mastigado, pôs-na na boca da cadelinha, dizendo:

— Vá, corra correndo e leve-a à filha do rei; não a dê a ninguém senão nas próprias mãos daquele rosto de prata.

A cadelinha correu quase voando ao palácio real. Subiu ao salão e encontrou o rei, que ainda fazia cerimônias com o noivo. Vendo a cadela com a carta na boca, ordenou que a pegassem, mas ela não quis entregá-la a ninguém e, saltando ao colo de Menechella, lhe pôs a carta no nariz. Esta se levantou da cadeira e, fazendo uma reverência ao rei, lhe entregou a carta para que a lesse. Depois de lê-la, ele ordenou que seguissem a cadelinha para ver onde entrava e trouxessem seu dono à presença dele. Dois cortesãos foram atrás dela, chegaram à taverna, encontraram Cienzo e, dando-lhe o recado do rei, o conduziram ao palácio. Chegado à presença real, perguntaram-lhe como se gabava de ter matado o dragão, se as cabeças tinham sido trazidas por aquele homem coroado ao lado do rei. Cienzo respondeu:

— Esse camponês mereceria antes uma mitra de papel real do que uma coroa, pois teve o descaramento de fazer passar bexigas por lanternas. E, para provar que eu fiz a façanha, e não esse barba de novilha, mande vir as cabeças do dragão: nenhuma poderá lhe servir de testemunha por estar sem língua. E eu as trouxe a juízo para fazê-lo acreditar no caso.

Dizendo isso, mostrou as línguas. O camponês ficou todo de uma peça, sem saber o que lhe acontecera, tanto mais que Menechella acrescentou:

— É este mesmo! Ah, camponês cachorro, que me havia logrado!

O rei, ouvindo aquilo, tirou a coroa da cabeça daquele couro empedernido e a pôs em Cienzo. Quis mandar o camponês às galés, mas Cienzo lhe pediu o perdão, para confundir com cortesia sua insolência. Mandaram pôr as mesas e fizeram uma refeição de senhores; terminada esta, foram se deitar no belo leito perfumado de roupa lavada, onde Cienzo, erguendo os troféus da vitória conquistada sobre o dragão, entrou triunfante no Capitólio do Amor.

Mas veio a manhã, quando o Sol, manejando com duas mãos o espadão da luz entre as estrelas, grita: “Para trás, canalha!” Cienzo, vestindo-se diante de uma janela, viu uma bela jovem na casa em frente e, voltando-se para Menechella, disse:

— Que bela coisa é aquela que está em frente desta casa?

— O que quer com essas chagas? — respondeu a mulher. — Já abriu os olhos para ela? Veio-lhe algum mau humor? Ou se cansou da gordura e não lhe basta a carne que tem em casa?

Cienzo baixou a cabeça como gata que fez estrago e não disse nada. Fingiu ir tratar de certo negócio, saiu do palácio e se enfiou na casa daquela jovem. Ela era de fato um bocadinho de rei: via-se uma coalhada tenra, uma massa de açúcar; nunca virava os botões dos olhos sem abrir um exutório amoroso nos corações; nunca abria a bacia dos lábios sem dar uma lavagem quente nas almas; não movia a planta do pé sem apertar bem os ombros de quem pendia da corda das esperanças. Além de tantas belezas que enfeitiçavam, porém, tinha um poder: sempre que queria, encantava, atava, acorrentava e amarrava os homens com seus cabelos, como fez com Cienzo, que mal pôs o pé onde ela estava e ficou peado como um potro.

Enquanto isso, Meo, o irmão mais novo, como nunca recebia notícias de Cienzo, teve o capricho de ir procurá-lo. Pediu licença ao pai, que lhe deu outro cavalo e outra cadelinha também encantada. Caminhando, Meo chegou à noite àquela torre onde Cienzo estivera. O dono, acreditando que fosse o irmão, lhe fez as maiores carícias do mundo e depois quis lhe dar dinheiro; ele não quis. Vendo-se receber tantas cerimônias, ocorreu-lhe que o irmão havia estado ali, e por isso tomou esperança de encontrá-lo. Quando a Lua, inimiga dos poetas, virou as costas ao Sol, pôs-se a caminho e chegou onde estava a fada. Ela, julgando que fosse Cienzo, lhe fez um mar de acolhidas, dizendo sempre:

— Seja bem-vindo, meu jovem, que me salvou a vida!

Meo, agradecendo-lhe tamanha afeição, disse:

— Perdoe-me se não fico, que tenho pressa; até a volta!

Alegrando-se consigo mesmo por sempre encontrar pegadas do irmão, seguiu a estrada e chegou ao palácio do rei justamente na manhã em que Cienzo fora sequestrado pelos cabelos da fada. Entrou e foi recebido com grande honra pelos criados; abraçado com grande afeto pela noiva, disse-lhe:

— Bem-vinda, minha mulher!

— De manhã vai, de noite vem! Quando toda ave vai pastar, a coruja vai para casa. Como ficou tanto tempo fora, meu Cienzo? Como pode ficar longe de Menechella? Você me tirou da boca do dragão e me enfia na garganta da suspeita, quando não me deixa sempre ter por espelho esses seus olhos.

Meo, que era esperto, pensou logo consigo mesmo que aquela era a mulher do irmão. Voltou-se para Menechella, desculpou-se pela demora e a abraçou; foram comer. Mas, quando a Lua, como uma galinha choca, chama as estrelas para bicar o orvalho, foram dormir. Meo, que tinha respeito pelo irmão, separou os lençóis e tomaram um para cada um, para que ele não tivesse ocasião de tocar a cunhada. Vendo aquela novidade, ela, com ar azedo e cara de madrasta, lhe disse:

— Meu bem, desde quando isso? A que jogo estamos jogando? Que brincadeiras são essas? Somos fazenda de rendeiros em litígio, que você põe marcos entre nós? Somos exércitos inimigos, que faz essa trincheira? Somos cavalos selvagens, que atravessa essa cerca entre nós?

Meo, que sabia contar até treze, disse:

— Não se queixe de mim, meu bem, mas do médico: querendo me purgar, me ordenou dieta; além disso, venho sem cauda de tão cansado de caçar.

Menechella, que não sabia turvar a água, engoliu aquela lorota e se pôs a dormir. Mas, quando a noite, despedida pelo Sol, recebe os crepúsculos para ter tempo de recolher seus fardos, Meo foi se vestir à mesma janela onde o irmão se vestira. Viu a mesma jovem que havia apanhado Cienzo e, gostando muito dela, disse a Menechella:

— Quem é aquela bela moça que está à janela?

E ela, muito furiosa, respondeu:

— É assim mesmo que você me trata? É assim? Estamos bem! Ontem também me aborreceu as calças com essa garoupa, e tenho medo de que a língua vá lá onde o dente dói. Devia me ter respeito, pois, afinal, sou filha de rei, e todo tolete tem sua fumaça! Não foi à toa que esta noite fez a águia imperial, ombro a ombro, nem que se retirou com suas entradas: entendi! Essa dieta de meu leito é para fazer banquete em casa alheia. Mas, se vir isso, quero fazer coisa de doida, e que voem lascas pelos ares!

Meo, que havia comido pão de muitos fornos, a acalmou com boas palavras: disse e jurou que não trocaria a própria casa pela mais bela puta do mundo e que ela era a cereja de seu coração. Menechella, toda consolada com essas palavras, foi a um gabinete para as donzelas lhe passarem a bola de vidro pela testa, lhe trançarem os cabelos, tingirem as sobrancelhas, pintarem-lhe o rosto e a enfeitarem toda, para parecer mais bela àquele que acreditava ser seu marido.

Meo, entretanto, pelas palavras de Menechella, entrou em suspeita de que Cienzo estivesse na casa daquela jovem. Pegou a cadela, saiu do palácio e entrou na casa dela. Mal chegou, ela disse:

— Meus cabelos, atem esse homem!

E Meo respondeu logo, de negócio ligeiro:

— Minha cadelinha, coma essa mulher!

A cadela, de um salto, a fez descer como gema de ovo. Meo entrou e achou o irmão como que enfeitiçado; mas, pondo-lhe em cima dois pelos da cadela, pareceu que ele acordava de um grande sono. Contou-lhe tudo o que lhe acontecera na viagem e, por último, no palácio, e como, sendo tomado por ele por Menechella, dormira com ela. Ia então continuar a falar dos lençóis separados quando Cienzo, tentado pelo diabo, puxou de uma velha espada e lhe cortou o pescoço como a um pepino. Ao barulho apareceram o rei e a filha; vendo Cienzo, que havia matado outro homem parecido com ele, perguntaram-lhe a causa. Cienzo disse:

— Pergunte a você mesma, que dormiu com meu irmão, pensando ter dormido comigo, e foi por isso que o ceifei!

— Ah, quantas são mortas injustamente! — disse Menechella. — Bela façanha você fez! Não merecia esse bom irmão, pois, encontrando-se no mesmo leito comigo, com grande modéstia separou os lençóis e deixou ambos a salvo.

Cienzo, ouvindo aquilo, arrependeu-se de um erro tão grande, filho de um juízo temerário e pai de uma asneira, e arranhou metade do rosto. Mas lhe veio à lembrança a erva ensinada pelo dragão; esfregou-a no pescoço do irmão, que logo se uniu e, grudado à cabeça, tornou a ficar são e vivo. Abraçou-o com alegria e lhe pediu perdão por ter corrido tão furioso e mal informado a expulsá-lo deste mundo. Foram juntos ao palácio, de onde mandaram chamar Antoniello e toda a casa. Ele se tornou querido do rei e viu na pessoa do filho verificar-se o provérbio:

À barca torta, o porto direito.


Sobre esta edição

Obra
Lo Mercante
Autoria original
Giambattista Basile
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução integral por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
03/11/2026
Relevância no acervo · IRC 2,50

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