JLB 002
O Príncipe Chéri
Le Prince Chéri
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Texto do conto
O Príncipe Chéri
Era uma vez um rei tão honrado que seus súditos o chamavam de rei bom. Um dia, enquanto caçava, um coelhinho branco, que os cães iam matar, atirou-se em seus braços. O rei acariciou o coelhinho e disse:
— Já que se colocou sob minha proteção, não quero que lhe façam mal.
Levou o coelhinho para seu palácio e mandou que lhe dessem uma linda casinha e boas ervas para comer. À noite, quando ficou sozinho em seu quarto, viu aparecer uma bela senhora. Ela não trazia roupa de ouro e prata, mas seu vestido era branco como a neve e, em vez de um adorno de cabeça, tinha uma coroa de rosas brancas. O bom rei ficou muito espantado ao vê-la, pois sua porta estava fechada e ele não sabia como ela havia entrado. Ela lhe disse:
— Sou a fada Candide. Eu passava pelo bosque enquanto o senhor caçava e quis saber se era tão bom quanto todos dizem. Para isso, tomei a forma de um coelhinho e procurei refúgio em seus braços, pois sei que aqueles que têm piedade dos animais têm ainda mais dos homens. Se o senhor me tivesse recusado seu socorro, eu teria pensado que era mau. Venho agradecer-lhe o bem que me fez e assegurar-lhe que serei sempre sua amiga. Basta pedir-me tudo o que quiser: prometo conceder-lhe.
— Senhora — disse o bom rei —, já que é uma fada, deve saber tudo o que desejo. Tenho um único filho, a quem amo muito, e por isso o chamaram de príncipe Chéri. Se tem alguma bondade para comigo, torne-se amiga de meu filho.
— De bom grado — respondeu a fada. — Posso fazer de seu filho o príncipe mais belo do mundo, ou o mais rico, ou o mais poderoso. Escolha o que quiser para ele.
— Não desejo nada disso para meu filho — respondeu o bom rei. — Mas ficarei muito agradecido se quiser fazer dele o melhor de todos os príncipes. De que lhe serviria ser belo, rico, possuir todos os reinos do mundo, se fosse mau? A senhora bem sabe que ele seria infeliz e que só a virtude pode deixá-lo satisfeito.
— Tem toda a razão — disse Candide. — Mas não está em meu poder fazer do príncipe Chéri um homem honrado contra a vontade dele. É preciso que ele próprio se esforce para tornar-se virtuoso. Tudo o que posso prometer é dar-lhe bons conselhos, repreendê-lo por suas faltas e castigá-lo, se não quiser corrigir-se e castigar a si mesmo.
O bom rei ficou muito contente com essa promessa e morreu pouco tempo depois. O príncipe Chéri chorou muito por seu pai, pois o amava de todo o coração e teria dado todos os seus reinos, seu ouro e sua prata para salvá-lo, se essas coisas fossem capazes de mudar a ordem do destino. Dois dias depois da morte do bom rei, enquanto Chéri estava deitado, Candide lhe apareceu.
— Prometi a seu pai ser sua amiga — disse ela — e, para cumprir minha palavra, venho lhe dar um presente.
Ao mesmo tempo, pôs no dedo de Chéri um pequeno anel de ouro e lhe disse:
— Guarde bem este anel: ele é mais precioso que os diamantes. Todas as vezes que fizer uma má ação, ele picará seu dedo. Mas, se apesar da picada continuar essa má ação, perderá minha amizade e me tornarei sua inimiga.
Terminando essas palavras, Candide desapareceu e deixou Chéri muito espantado. Por algum tempo ele se comportou tão bem que o anel não o picava de maneira alguma. Isso o deixava tão contente que ao nome de Chéri, que ele trazia, acrescentaram o de Feliz. Algum tempo depois, foi caçar e não apanhou nada, o que o deixou de mau humor. Pareceu-lhe então que seu anel lhe apertava um pouco o dedo; mas, como não o picava, não prestou muita atenção. Ao entrar de volta em seu quarto, sua cadelinha Bibo veio aos saltos fazer-lhe festas. Ele lhe disse:
— Vá embora, não estou mais com disposição para receber seus carinhos.
A pobre cadelinha, que não o compreendia, puxava-o pela roupa para obrigá-lo ao menos a olhar para ela. Isso impacientou Chéri, que lhe deu um grande pontapé. No mesmo instante, o anel o picou como se fosse um alfinete. Ele ficou muito espantado e sentou-se, envergonhado, num canto do quarto. Dizia consigo mesmo:
— Acho que a fada está zombando de mim. Que grande mal fiz ao dar um pontapé num animal que me importuna? De que me serve ser senhor de um grande império, se não tenho a liberdade de bater no meu cão?
— Não estou zombando do senhor — disse uma voz que respondia ao pensamento de Chéri. — Cometeu três faltas em vez de uma. Ficou de mau humor porque não gosta de ser contrariado e porque acredita que os animais e os homens foram feitos para lhe obedecer. Encolerizou-se, o que é muito mau; e depois foi cruel com um pobre animal que não merecia ser maltratado. Sei que o senhor está muito acima de um cão; mas, se fosse razoável e permitido que os grandes maltratassem todos os que estão abaixo deles, eu poderia neste momento bater no senhor, matá-lo, pois uma fada é mais que um homem. A vantagem de ser senhor de um grande império não consiste em poder fazer todo o mal que se quer, mas todo o bem que se pode.
Chéri reconheceu sua falta e prometeu corrigir-se, mas não cumpriu a palavra. Fora criado por uma ama de leite tola, que o mimara quando era pequeno. Se queria alguma coisa, bastava chorar, enfurecer-se, bater o pé: essa mulher lhe dava tudo o que pedia, e isso o tornara teimoso. Ela também lhe dizia, da manhã à noite, que um dia seria rei e que os reis eram muito felizes, porque todos os homens deviam obedecer-lhes, respeitá-los, e ninguém podia impedi-los de fazer o que quisessem. Quando Chéri já era um rapaz crescido e sensato, havia compreendido muito bem que nada era tão feio quanto ser altivo, orgulhoso e teimoso. Fizera alguns esforços para corrigir-se; mas adquirira o mau hábito de todos esses defeitos, e um mau hábito é muito difícil de destruir. Não que tivesse um coração naturalmente mau. Chorava de despeito quando cometia uma falta e dizia:
— Sou muito infeliz por ter de lutar todos os dias contra minha cólera e meu orgulho. Se me tivessem corrigido quando era pequeno, eu não teria tanta dificuldade hoje.
Seu anel o picava com muita frequência. Às vezes ele parava imediatamente; outras vezes continuava. E havia uma particularidade: o anel o picava só um pouco por uma falta leve, mas, quando ele era mau, o sangue saía de seu dedo. Por fim, isso o impacientou e, querendo ser mau inteiramente à vontade, jogou fora o anel. Julgou-se o mais feliz de todos os homens quando se viu livre de suas picadas. Entregou-se a todas as tolices que lhe vinham à cabeça, de modo que se tornou muito mau e ninguém mais podia suportá-lo.
Um dia, durante um passeio, Chéri viu uma moça tão bela que resolveu casar-se com ela. Chamava-se Zélie e era tão sensata quanto bela. Chéri pensou que Zélie se consideraria muito feliz em tornar-se uma grande rainha, mas a moça lhe disse com muita franqueza:
— Senhor, sou apenas uma pastora, não tenho fortuna alguma, mas, apesar disso, nunca me casarei com o senhor.
— Acaso lhe desagrado? — perguntou Chéri, um pouco perturbado.
— Não, meu príncipe — respondeu Zélie. — Acho o senhor tal como é, isto é, muito belo. Mas de que me serviriam sua beleza, suas riquezas, as belas roupas e as carruagens magníficas que me daria, se as más ações que eu o visse praticar todos os dias me obrigassem a desprezá-lo e a odiá-lo?
Chéri ficou muito zangado com Zélie e ordenou a seus oficiais que a levassem à força para seu palácio. Passou o dia inteiro ocupado com o desprezo que a moça lhe demonstrara; mas, como a amava, não conseguia decidir-se a maltratá-la. Entre os favoritos de Chéri estava seu irmão de leite, em quem depositara toda a confiança. Esse homem, de inclinações tão baixas quanto seu nascimento, lisonjeava as paixões de seu senhor e lhe dava conselhos muito maus. Vendo Chéri muito triste, perguntou-lhe o motivo de sua aflição. O príncipe respondeu que não podia suportar o desprezo de Zélie e que estava resolvido a corrigir seus defeitos, já que precisava ser virtuoso para agradar-lhe. O homem mau lhe disse:
— O senhor é muito condescendente ao querer impor-se restrições por causa de uma mocinha. Se eu estivesse em seu lugar, bem que a obrigaria a me obedecer. Lembre-se de que é rei e de que seria vergonhoso submeter-se à vontade de uma pastora, que já seria muito feliz se fosse recebida entre suas escravas. Faça-a jejuar a pão e água; ponha-a numa prisão e, se continuar a não querer casar-se com o senhor, faça-a morrer entre tormentos, para ensinar aos outros a ceder à sua vontade. Ficará desonrado se souberem que uma simples moça lhe resiste, e todos os seus súditos esquecerão que só estão no mundo para servi-lo.
— Mas — disse Chéri — não ficarei desonrado se mandar matar uma inocente? Afinal, Zélie não é culpada de crime algum.
— Ninguém é inocente quando se recusa a cumprir sua vontade — replicou o confidente. — Mas suponhamos que cometa uma injustiça: é muito melhor que o acusem disso do que ensinar que às vezes é permitido faltar-lhe com o respeito e contrariá-lo.
O cortesão atacava o ponto fraco de Chéri, e o receio de ver sua autoridade diminuir impressionou tanto o rei que ele sufocou o bom impulso que lhe despertara o desejo de corrigir-se. Resolveu ir naquela mesma noite ao quarto da pastora e maltratá-la, caso ela continuasse a recusar o casamento. O irmão de leite de Chéri, que ainda temia algum bom impulso, reuniu três jovens senhores tão maus quanto ele, para entregarem-se à devassidão com o rei. Cearam juntos e trataram de acabar de perturbar a razão do pobre príncipe, fazendo-o beber muito. Durante a ceia, atiçaram sua cólera contra Zélie e o fizeram sentir tanta vergonha da fraqueza que tivera por ela que ele se levantou como um furioso, jurando que a faria obedecer ou mandaria vendê-la no dia seguinte como escrava.
Ao entrar no quarto onde a moça estava, Chéri ficou muito surpreso por não encontrá-la, pois tinha a chave no bolso. Estava numa cólera terrível e jurava vingar-se de todos aqueles de quem suspeitasse terem ajudado Zélie a escapar. Seus confidentes, ouvindo-o falar assim, resolveram aproveitar sua cólera para arruinar um senhor que havia sido preceptor de Chéri. Esse homem honrado tomara algumas vezes a liberdade de advertir o rei sobre seus defeitos, pois o amava como se fosse seu filho. A princípio Chéri lhe agradecia; depois começou a impacientar-se ao ser contrariado e passou a pensar que seu preceptor só lhe apontava defeitos por espírito de contradição, enquanto todos os outros o elogiavam. Ordenou-lhe, portanto, que se retirasse da corte. Mas, apesar dessa ordem, dizia de tempos em tempos que ele era um homem honrado; que não gostava mais dele, mas o estimava, mesmo contra a própria vontade. Os confidentes temiam sempre que desse na cabeça do rei chamar de volta seu preceptor e julgaram ter encontrado uma ocasião favorável para afastá-lo. Fizeram o rei acreditar que Suliman — era o nome desse digno homem — se vangloriara de devolver a liberdade a Zélie. Três homens corrompidos com presentes disseram que haviam ouvido Suliman fazer essa afirmação. O príncipe, transportado de cólera, ordenou a seu irmão de leite que enviasse soldados para trazer-lhe seu preceptor acorrentado como um criminoso.
Depois de dar essas ordens, Chéri retirou-se para seu quarto; mas mal havia entrado, a terra tremeu, ouviu-se um grande trovão e Candide apareceu diante de seus olhos.
— Prometi a seu pai — disse-lhe ela num tom severo — dar-lhe conselhos e castigá-lo, se se recusasse a segui-los. O senhor desprezou esses conselhos. Conservou apenas a figura de homem, e seus crimes o transformaram num monstro, o horror do céu e da terra. É tempo de eu acabar de cumprir minha promessa, castigando-o. Condeno-o a tornar-se semelhante aos animais cujas inclinações adotou. Tornou-se semelhante ao leão, pela cólera; ao lobo, pela gula; à serpente, ao dilacerar aquele que fora seu segundo pai; ao touro, pela brutalidade. Traga em sua nova figura o caráter de todos esses animais.
Mal a fada havia terminado essas palavras, Chéri se viu com horror tal como ela desejara. Tinha a cabeça de um leão, os chifres de um touro, os pés de um lobo e a cauda de uma víbora. Ao mesmo tempo, encontrou-se numa grande floresta, à beira de uma fonte, onde viu sua figura horrível, e ouviu uma voz que lhe disse:
— Olhe atentamente o estado a que se reduziu com seus crimes. Sua alma se tornou mil vezes mais medonha que seu corpo.
Chéri reconheceu a voz de Candide e, em sua fúria, voltou-se para atirar-se sobre ela e devorá-la, se lhe fosse possível. Mas não viu ninguém, e a mesma voz lhe disse:
— Zombo de sua fraqueza e de sua raiva. Vou humilhar seu orgulho, pondo-o sob o poder de seus próprios súditos.
Chéri pensou que, afastando-se daquela fonte, encontraria remédio para seus males, pois não teria mais diante dos olhos sua feiura e sua deformidade. Avançou, portanto, pelo bosque; mas mal dera alguns passos, caiu numa cova que haviam feito para apanhar ursos. Ao mesmo tempo, caçadores escondidos nas árvores desceram e, depois de acorrentá-lo, conduziram-no à capital de seu reino. Pelo caminho, em vez de reconhecer que atraíra aquele castigo por sua própria culpa, amaldiçoava a fada, mordia suas correntes e se entregava à raiva. Ao aproximar-se da cidade para onde o levavam, viu grandes festejos. Os caçadores perguntaram o que havia acontecido de novo, e lhes disseram que o príncipe Chéri, que só sentia prazer em atormentar seu povo, fora esmagado em seu quarto por um trovão, pois era assim que acreditavam ter acontecido.
— Os deuses — acrescentaram — não puderam suportar o excesso de suas maldades e livraram a terra dele. Quatro senhores, cúmplices de seus crimes, pensaram em aproveitar-se disso e repartir seu império entre si; mas o povo, que sabia que haviam sido os maus conselhos deles que tinham corrompido o rei, despedaçou-os e foi oferecer a coroa a Suliman, a quem o mau Chéri queria mandar matar. Esse digno senhor acaba de ser coroado, e celebramos este dia como o da libertação do reino, pois ele é virtuoso e vai trazer-nos de volta a paz e a abundância.
Chéri suspirava de raiva ao ouvir esse discurso, mas foi muito pior quando chegou à grande praça diante de seu palácio. Viu Suliman num trono magnífico e todo o povo desejando-lhe uma longa vida, para reparar todos os males que seu predecessor fizera. Suliman fez um sinal com a mão para pedir silêncio e disse ao povo:
— Aceitei a coroa que me ofereceram, mas foi para conservá-la para o príncipe Chéri. Ele não está morto como acreditam: uma fada me revelou isso, e talvez um dia voltem a vê-lo virtuoso como era em seus primeiros anos. Ai de nós! — continuou, derramando lágrimas. — Os aduladores o haviam seduzido. Eu conhecia seu coração: ele fora feito para a virtude e, sem os discursos envenenados daqueles que o cercavam, teria sido um pai para todos vocês. Detestem seus vícios, mas tenham piedade dele, e rezemos todos juntos aos deuses para que o devolvam a nós. Quanto a mim, eu me consideraria muito feliz em regar este trono com meu sangue, se pudesse vê-lo subir de novo a ele com disposições próprias para ocupá-lo dignamente.
As palavras de Suliman chegaram ao coração de Chéri. Compreendeu então como o afeto e a fidelidade daquele homem haviam sido sinceros e, pela primeira vez, censurou a si mesmo por seus crimes. Mal deu ouvidos a esse bom impulso, sentiu acalmar-se a raiva que o animava. Refletiu sobre todos os crimes de sua vida e achou que não estava sendo castigado com tanto rigor quanto merecera. Deixou, portanto, de debater-se na jaula de ferro onde estava acorrentado e tornou-se manso como um cordeiro. Levaram-no a uma grande casa (a), onde se guardavam todos os monstros e animais ferozes, e o prenderam junto dos outros.
(a) Menageria.
Chéri resolveu então começar a reparar suas faltas, mostrando-se muito obediente ao homem que o guardava. Esse homem era um bruto e, embora o monstro fosse muito manso, quando estava de mau humor batia nele sem motivo nem razão. Um dia, enquanto esse homem dormia, um tigre, que rompera sua corrente, atirou-se sobre ele para devorá-lo. A princípio Chéri sentiu um movimento de alegria ao ver que ia livrar-se de seu perseguidor; mas logo condenou esse impulso e desejou estar livre.
— Eu retribuiria o mal com o bem — disse — salvando a vida desse infeliz.
Mal formulou esse desejo, viu sua jaula de ferro aberta. Atirou-se para junto do homem, que havia acordado e se defendia do tigre. O guarda julgou-se perdido ao ver o monstro, mas seu medo logo se transformou em alegria: o monstro benfazejo lançou-se sobre o tigre, estrangulou-o e em seguida deitou-se aos pés daquele que acabava de salvar. O homem, tomado de gratidão, quis abaixar-se para acariciar o monstro que lhe prestara tão grande serviço; mas ouviu uma voz que lhe dizia: Uma boa ação nunca fica sem recompensa. Ao mesmo tempo, já não viu senão um bonito cão a seus pés. Chéri, encantado com sua metamorfose, fez mil festas a seu guarda, que o tomou nos braços e o levou ao rei, a quem contou aquela maravilha. A rainha quis ficar com o cão, e Chéri teria sido feliz em sua nova condição, se pudesse esquecer que era homem e rei. A rainha o cobria de carinhos; mas, receando que crescesse mais do que já era, consultou seus médicos. Eles lhe disseram que devia alimentá-lo apenas com pão e dar-lhe somente uma certa quantidade. O pobre Chéri morria de fome durante metade do dia, mas era preciso ter paciência.
Um dia, depois que acabavam de lhe dar seu pãozinho para o desjejum, teve vontade de ir comê-lo no jardim do palácio. Pegou-o na boca e caminhou em direção a um canal que conhecia e ficava um pouco afastado. Mas não encontrou mais o canal e viu em seu lugar uma grande casa, cujas paredes exteriores brilhavam de ouro e pedras preciosas. Via entrar ali grande quantidade de homens e mulheres magnificamente vestidos. Naquela casa cantava-se, dançava-se e comia-se bem; mas todos os que saíam estavam pálidos, magros, cobertos de feridas e quase todos nus, pois suas roupas estavam rasgadas em farrapos. Alguns caíam mortos ao sair, sem forças para arrastar-se mais longe; outros se afastavam com muita dificuldade; outros permaneciam deitados no chão, morrendo de fome, e pediam um pedaço de pão aos que entravam na casa, mas estes nem sequer olhavam para eles. Chéri aproximou-se de uma jovem que tentava arrancar ervas para comer. Tocado de compaixão, o príncipe disse consigo mesmo:
— Estou com bastante apetite, mas não morrerei de fome até a hora de minha refeição. Se sacrificasse meu desjejum por essa pobre criatura, talvez lhe salvasse a vida.
Resolveu seguir esse bom impulso e pôs seu pão na mão da jovem, que o levou à boca com avidez. Logo ela pareceu inteiramente restabelecida. Chéri, radiante por tê-la socorrido tão a propósito, pensava em voltar ao palácio quando ouviu grandes gritos: era Zélie nas mãos de quatro homens, que a arrastavam para aquela bela casa e a forçaram a entrar. Chéri lamentou então sua figura de monstro, que lhe teria dado os meios de socorrer Zélie; mas, cão fraco, só pôde latir contra seus raptores e esforçar-se por segui-los. Expulsaram-no a pontapés, e ele resolveu não deixar aquele lugar, para saber o que aconteceria a Zélie. Censurava a si mesmo pelas desgraças daquela bela moça.
— Ai de mim! — dizia consigo mesmo. — Estou indignado com aqueles que a raptam; não cometi o mesmo crime? E, se a justiça dos deuses não tivesse impedido meu atentado, não a teria tratado com a mesma indignidade?
As reflexões de Chéri foram interrompidas por um ruído acima de sua cabeça. Viu que abriam uma janela e sua alegria foi extrema quando percebeu Zélie atirando por ela uma travessa cheia de carnes tão bem preparadas que só de vê-las davam apetite. Fecharam imediatamente a janela e Chéri, que não comera durante o dia inteiro, pensou que devia aproveitar a oportunidade. Ia comer daquelas carnes quando a jovem a quem dera seu pão soltou um grito e, tomando-o nos braços, disse-lhe:
— Pobre animalzinho, não toque nessas carnes! Esta casa é o palácio da volúpia: tudo o que sai dela está envenenado.
Ao mesmo tempo Chéri ouviu uma voz que dizia:
— Está vendo que uma boa ação não fica sem recompensa.
E imediatamente foi transformado num belo pombinho branco. Lembrou-se de que aquela cor era a de Candide e começou a esperar que ela enfim lhe concedesse de novo suas boas graças. Quis primeiro aproximar-se de Zélie e, erguendo-se no ar, voou ao redor de toda a casa. Viu com alegria que havia uma janela aberta; mas, por mais que percorresse a casa inteira, não encontrou Zélie. Desesperado por tê-la perdido, resolveu não parar antes de encontrá-la. Voou durante vários dias e, entrando num deserto, viu uma caverna, da qual se aproximou. Qual não foi sua alegria! Zélie estava sentada ao lado de um venerável eremita e tomava com ele uma refeição frugal. Chéri, transportado de alegria, voou para o ombro da encantadora pastora e exprimia com seus carinhos o prazer de vê-la. Zélie, encantada com a mansidão do animalzinho, acariciava-o suavemente com a mão. E, embora acreditasse que ele não podia compreendê-la, disse-lhe que aceitava a dádiva que ele fazia de si próprio e que o amaria para sempre.
— O que fez, Zélie? — disse-lhe o eremita. — Acaba de empenhar sua palavra.
— Sim, encantadora pastora — disse-lhe Chéri, que naquele momento retomou sua forma natural. — O fim de minha metamorfose estava ligado ao consentimento que desse à nossa união. Prometeu amar-me para sempre. Confirme minha felicidade, ou vou suplicar à fada Candide, minha protetora, que me devolva a figura sob a qual tive a felicidade de agradar-lhe.
— Não tem o que recear da inconstância dela — disse-lhe Candide, que, abandonando a forma do eremita sob a qual se escondera, apareceu diante deles tal como era de fato. — Zélie o amou assim que o viu, mas seus vícios a obrigaram a esconder-lhe a afeição que o senhor lhe havia inspirado. A mudança de seu coração lhe dá liberdade para entregar-se a toda a sua ternura. Viverão felizes, pois sua união será fundada na virtude.
Chéri e Zélie haviam-se atirado aos pés de Candide. O príncipe não se cansava de agradecer-lhe suas bondades, e Zélie, encantada ao saber que ele detestava seus desvarios, confirmava-lhe a declaração de sua ternura.
— Levantem-se, meus filhos — disse-lhes a fada. — Vou transportá-los para seu palácio, para devolver a Chéri uma coroa da qual seus vícios o haviam tornado indigno.
Mal acabou de falar, eles se encontraram no quarto de Suliman, que, encantado por rever seu querido senhor tornado virtuoso, lhe cedeu o trono e continuou sendo o mais fiel de seus súditos. Chéri reinou por muito tempo com Zélie, e dizem que se dedicou tanto a seus deveres que o anel, que havia retomado, não o picou uma única vez até sair sangue.
Sobre esta edição
- Obra
- Le Prince Chéri
- Autoria original
- Jeanne-Marie Leprince de Beaumont
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Codex · tradução assistida por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 03/11/2026
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