SR 013

O Príncipe Cornudo

Sílvio Romero

O principe cornudo

Cerca de 12 min de leitura

(Sergipe)

Uma vez um rei teve um filho e mandou ver que sina o menino tinha trazido. A cigana leu a sorte e disse que o príncipe tinha trazido a sina de ser cornudo. O rei ficou muito desgostoso, e mandou fazer uma torre onde o menino foi encerrado, e ali foi criado, com ordem de nunca sair dali, nem entrar lá mulher nenhuma. O príncipe cresceu, e, quando se pôs moço feito, uma vez perguntou ao pai por que razão ele vivia ali preso. O rei lhe respondeu: «Por nada, meu filho.» Quando foi uma vez o príncipe pediu ao pai para ir ouvir missa. O rei respondeu: «Pois bem; tu irás comigo ouvir missa, mas há de ser com a condição de nunca olhares para trás por causa de umas diabinhas.» O moço prometeu e foram. Na volta o rei lhe perguntou: «Então, meu filho, o que viste de mais bonito na missa?» — «Foi o altar, meu pai.» Passou-se.

Outra vez o príncipe pediu ao rei para ir ouvir missa. O rei consentiu; mas o moço não pôde se conter, e olhou para trás e ficou embebido todo o tempo, olhando para as diabinhas que eram as moças. Chegando em casa, o rei lhe perguntou: «Então, o que viste de mais bonito na missa?» O moço respondeu: «Foram as diabinhas.» O rei ficou pensativo, e mandou preparar um navio para o filho ir viajar; mas com a condição de nunca saltar em terra senão num reino onde não houvesse notícias de seu reino nem de sua família. O moço seguiu.

Chegando muito longe, num reino onde não havia mais notícias da terra dele, mandou dois criados à terra comprar mantimentos. Os dois criados partiram; mas quando lá chegaram, ficaram-se esbabacados, vendo um leilão em que se tinha de arrematar um papagaio muito falador, e que privava os homens de serem cornudos. O lanço já estava muito alto, e nada de se entregar o papagaio.

O príncipe pôs-se a esperar e nada dos criados voltarem. Mandou um outro atrás deles, que também lá se ficou. Mandou segundo, e nada! Afinal foi ele mesmo, e, conhecendo o motivo da demora, arrematou o papagaio e foi para bordo. Seguiu viagem. Depois foi ter a um reino onde se casou. Desde então o papagaio nunca mais falou; metia a cabeça debaixo de uma asa, e vivia ali triste na gaiola. O príncipe lhe queria muito bem.

Uma vez teve de ir vencer umas guerras e recomendou muito à princesa o seu papagaio, e ao papagaio a sua mulher. Partiu.

A princesa tratava muito bem do papagaio e sempre ele triste. Ela nunca chegava à sacada; mas uma vez chegou por acaso e ia passando um moço que a viu e ficou logo muito apaixonado por ela, e voltou para casa muito triste. Uma velha, que costumava ir pedir esmola ao moço, o achando muito triste, lhe perguntou o que era. Ele respondeu que era por ter visto a mulher do príncipe, que o tinha deixado doente. A velha disse: «Oh! chente! meu netinho! tudo fora isso!... Eu vou ter com ela e arranjo um modo dela lhe falar.» Largou-se para palácio e foi convidar a princesa para ser madrinha de um batizado. A moça se desculpou muito, dizendo que não podia ir, porque o príncipe não estava em casa. Mas a velha tanto importunou que a princesa prometeu: «Pois sim; vou amanhã de tarde.»

Quando foi no dia seguinte pela tarde, a velha chegou, a princesa se aprontou, e já ia saindo. Quando passou por baixo da gaiola do papagaio, ele tirou a cabeça debaixo da asa, deu uma gargalhada e disse: «Onde vai, princesa minha senhora, tão bandarranona? Princesa minha senhora, quer ouvir uma história de seu papagaio?» — «Pois não, meu papagaio!» Então ele disse: «Oh! criadas, vão buscar a cadeira e os travesseiros para princesa, minha senhora, se assentar e se recostar para ouvir uma história de seu papagaio.» A velha ficou fumando de raiva, e o papagaio começou:

«Uma vez havia um rei que tinha só uma filha, a quem deu ordem que, quando lhe fosse tomar a bênção, fosse sempre muito bem pronta, e com as suas joias. Assim fazia a princesa: todas as manhãs, para tomar a bênção ao rei, se preparava como se fosse a uma festa. O pai tinha-lhe dito que, no dia em que ela se apresentasse sem os seus adornos, a mandaria prender numa torre. Aconteceu, que um príncipe, que estava para casar lá no seu reino, andava viajando, e, passando pelo reino da princesa, a viu na sacada do palácio, e ficou muito apaixonado por ela.

O príncipe não achou nunca um meio de falar com a princesa; mas sabendo do costume que ela tinha de se apresentar para cumprimentar ao pai, virou-se num pássaro, e num dia em que ela estava botando as suas joias, entrou pela janela e agarrou uma delas pelo bico e fugiu. — A moça lhe disse: «Me dê a minha joia.» — «Só se casar comigo», respondeu o pássaro, e voou. — No outro dia a mesma coisa; no outro o mesmo e assim todos os dias, até que só restava uma joia à princesa para tomar a bênção ao pai. O pássaro veio e arrancou também aquela. A moça seguiu atrás dele pedindo o adereço, e o pássaro voando... e dizendo: «Só se casar comigo.» A moça respondia sempre que não, até que entraram por uma igreja a dentro, isto já muito longe da casa de seu pai. Aí ainda ela pedia a joia, e o pássaro respondeu: «Só se casar comigo.» A princesa disse: «Só se aquele Santo Cristo abaixar o braço e nos casar ele mesmo.» Mal ela acabara de falar, a imagem abria os olhos, e abençoava o casamento. Aí o pássaro se desencantou num belo príncipe. Seguiram dali todos dois. Adiante foram descansar em casa de uma velha, onde a moça pegou no sono. O príncipe entrou a maginar e a ficar triste, porque já tinha dado a sua palavra de casar com uma outra princesa de outro reino. Deu muito dinheiro à velha, dizendo que quando a moça acordasse, procurando por ele, ela não contasse para que banda ele tinha ido e largou-se numa carruagem. A moça, quando acordou e não achou o marido, ficou muito desgostosa e entrou a chorar. A velha alcoviteira a enganou por muito tempo, passeando com ela pelo jardim; mas não havia nada que a consolasse, até que a mesma velha se viu desesperada e lhe disse para que banda o príncipe tinha tomado. A moça pôs-se como uma desesperada a caminhar atrás do marido. Adiante encontrou um carvoeiro muito porco e rasgado, trocou com ele a sua roupa e seguiu. Adiante mais encontrou o carro que ia com o príncipe, que parou e lhe perguntou: «Oh! meu carvoeiro, você passou em casa de uma velha?» — «Sim, senhor.» — «Viu lá uma moça?» — «Sim, senhor» — «O que fazia ela?» — «Chorava e se lastimava, dizendo: Oh príncipe ingrato, que te foste e me deixaste!...» O príncipe, que ouviu isto, ficou com muita pena, e botou o carvoeiro no carro. Todo o caminho foi-lhe perguntando a mesma coisa, e sempre o carvoeiro respondendo o mesmo. Assim foram andando até à terra do príncipe e sempre ele com o carvoeiro. Chegado o dia de seu novo casamento, sempre ele triste e perguntando a mesma coisa ao carvoeiro. Toda a família ficou muito desgostosa daquilo, e a noiva com muito ciúme; mas não tinham o que fazer, porque o príncipe disse que não podia viver sem o seu carvoeiro. Feito o casamento, quando foram se deitar, o príncipe, com grande espanto de todos, levou também para o quarto o seu carvoeiro. Deitou-se no meio, pôs a noiva de um lado e o carvoeiro de outro, e entre ambos o seu alfange. Pegou no sono. O carvoeiro, que o viu dormindo, pegou no alfange e se matou; o príncipe, que o vê morto, diz: «Meu carvoeiro morto, eu também.» E se matou. A moça, que vê isto, diz: «Meu marido morto, eu também.» E se matou. No outro dia encontraram aquele destroço, e foram fazer o enterro. Quando iam estando os corpos na sepultura, chegou um beija-flor e escreveu nas testas dos três: «Ninguém desfaça o que Deus fizer...» e deu vida ao príncipe e ao carvoeiro que se revelou como princesa e ficou vivendo com o seu marido.» O papagaio, quando acabou de contar esta história, disse à princesa: «Agora, princesa minha senhora, já é tarde, e deixe-se de batizados de velha.» A alcoviteira ficou desesperada com o papagaio, e disse às criadas que o botassem lá para o terreiro. Elas o botaram, mas ele gritou tanto, até que o trouxeram de novo.

No outro dia veio a velha outra vez para levar a moça para o batizado.

A princesa se preparou, e, quando ia saindo, passou por baixo da gaiola do papagaio, que deu uma gargalhada: «Como vai princesa, minha senhora, tão bandarranona! Princesa, minha senhora, quer ouvir uma história do seu papagaio?» — «Pois não, meu papagaio!» — «Oh, criadas, vão buscar a cadeira e a almofada para princesa minha senhora se sentar, se recostar para ouvir uma história do seu papagaio.» Ele começou:

«Uma vez havia numa cidade dois ourives: o ourives do ouro e o ourives da prata. O ourives do ouro era casado e sua mulher muito bonita, nunca aparecia na janela. — Tendo ele de fazer uma viagem, apostou com o ourives da prata que ele não era capaz de ver nunca a sua mulher, e se não fosse verdade perderia todo o seu ouro; e se o ourives da prata perdesse tinha de lhe dar toda a sua prata. Feita a aposta, o ourives do ouro seguiu para sua viagem.

Foram-se passando os dias e nunca o ourives da prata pôde ver a mulher do companheiro. Estava vendo perder a aposta, quando, indo uma velha lhe pedir uma esmola, e o vendo triste lhe perguntou o que era, e ele contou o caso. A velha lhe disse: «Oh! chente, meu netinho, não é nada; eu vou passar esta noite na casa dela, e tomo-lhe bem as feições, vejo-lhe bem até os sinais de seu corpo e lhe venho contar.» O ourives aceitou. Quando foi de noite a velha bateu na porta da mulher do ourives do ouro. Vieram-lhe abrir a porta, e ela disse que queria falar a sua filhinha que ela tinha criado em seus braços. A moça ficou muito admirada daquilo, porque nem era daquela terra, mas sempre apareceu e a velha lhe disse: «Oh! minha netinha, depois que te peguei nestes meus braços nunca mais te vi! Hoje soube que teu marido andava de viagem e vim passar a noite contigo para te fazer companhia.» A moça, sem desconfiar nada, aceitou; a velha foi dormir no quarto dela. — Fingiu que estava dormindo, e, quando a moça tomou seu banho, botou-lhe os olhos em cima, mirando bem o seu corpo para lhe descobrir algum sinal.

A moça tinha um segredo no corpo, que vinha a ser um fio de cabelo bem preto, que, saindo de um sinalzinho na coxa, lhe rodeava toda ela e vinha morrer no mesmo sinalzinho. No outro dia largou-se a velha, e contou tudo ao ourives da prata: «Olhe, é uma moça assim, assim... tem um sinal em tal parte, assim, assim...»

Quando o ourives do ouro chegou, o da prata lhe contou como era a sua mulher e até lhe revelou o segredo do cabelo da coxa; ganhou a aposta. Acabada esta segunda história, disse o papagaio: «Agora, princesa minha senhora, já é tarde, e deixemos de batizados de velha.» A alcoviteira saiu desesperada, desconjurando do papagaio e mandou-o pôr no lugar mais porco do palácio. No dia seguinte a mesma impertinência da velha, querendo levar a moça para batizado. O papagaio, quando a princesa ia saindo, tornou a dar uma gargalhada, e convidou a sua senhora para ouvir outra história. A história era:

«Uma vez havia um rei e uma rainha; estavam um dia numa janela do palácio e viram ao longe um bichinho. O rei disse que era um coelho, e a rainha que era uma lebre: é, não é, pegaram uma aposta que quem ganhasse matava um ao outro. Mandaram depressa ver por um criado que bicho era, e o criado voltou dizendo que era um coelho. O rei foi quem ganhou a aposta; mas teve pena de matar a rainha, e mandou fazer um caixão, botou-a dentro dele e mandou largar no mar.

A rainha, que estava grávida, deu à luz um menino, que por ter nascido no mar e se ter alimentado dos goivinhos das pedras, se chamou o príncipe Lodo. A rainha e o principezinho foram dar numa tarde, onde um pescador os encontrou e levou para sua casa. Por lá eles contavam a sua história. O rei pensado que a rainha já tinha morrido, já se havia casado outra vez; mas ouvindo falar daquele príncipe, meio desconfiado mandou-o chamar para ouvi-lo. O pescador deu duas folhinhas ao príncipe, e lhe disse: «Quando lá chegar conte a sua história direitinha ao rei, e quando ele se for zangando diga: Esta história era meu bisavô que contava a meu avô, meu avô a meu pai, meu pai a mim e eu agora a conto a Vossa Majestade; e cheire esta folhinha que você ficará bem velhinho, e, quando ele for melhorando, cheire esta que tornará a ficar mocinho.» O príncipe Lodo, chegando a palácio, o rei lhe pediu para contar a sua história. O príncipe lhe contou e fez tudo o que o pescador lhe ensinou; cheirou a folha e ficou velhinho com a cabeça branca como uma pasta de algodão¹...........
........................................

Acabada esta terceira história, a velha foi-se embora porque já era tarde, e acabou-se a função do batizado; porque o príncipe no dia seguinte voltou das guerras, que se tinham acabado. Aí o papagaio, que era um anjo, voou para os céus.

¹ Não nos foi possível conseguir o final deste último e belo conto do papagaio, que por vezes ouvimos integralmente em Sergipe narrado no seio de nossa família. Pedimos desculpa por semelhantes lacunas, prometendo um dia, talvez, supri-las.


Sobre esta edição

Obra
O principe cornudo
Autoria original
Sílvio Romero
Texto em português
Texto original
Edição publicada
1.0.0
Produção
Marcelo Castro Barbosa, assistido por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
04/11/2026
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Este índice orienta a ordem dos destaques. Não é uma nota de qualidade do conto ou da tradução.

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