JLB 007
O Príncipe Désir
Conte du Prince Désir
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Texto do conto
Era uma vez um rei que amava apaixonadamente uma princesa, mas ela não podia se casar, porque estava encantada. Ele foi procurar uma fada para saber o que devia fazer para ser amado por essa princesa. A fada lhe disse:
— O senhor sabe que a princesa tem um gato grande de quem gosta muito; ela deve se casar com aquele que for hábil o bastante para pisar na cauda de seu gato.
O príncipe disse consigo: “Isso não será muito difícil.” Deixou, então, a fada, decidido a esmagar a cauda do gato em vez de deixar de pisar nela. Correu ao palácio de sua amada; Minon veio ao seu encontro, arqueando as costas, como costumava fazer. O rei levantou o pé; mas, quando pensou que o tivesse posto sobre a cauda, Minon se virou tão depressa que ele não apanhou nada debaixo do pé. Passou oito dias procurando pisar nessa cauda fatal; mas parecia que ela estivesse cheia de mercúrio, pois não parava de se mexer. Por fim, o rei teve a sorte de surpreender Minon enquanto dormia, e lhe apertou a cauda com o pé, com toda a força. Minon acordou miando horrivelmente; depois, de repente, tomou a figura de um homem alto e, olhando o príncipe com os olhos cheios de cólera, disse-lhe:
— Tu te casarás com a princesa, já que destruíste o encantamento que te impedia disso, mas eu me vingarei. Terás um filho que será sempre infeliz, até o momento em que reconhecer que tem o nariz comprido demais; e, se falares da ameaça que te faço, morrerás no mesmo instante.
Embora o rei ficasse muito assustado ao ver aquele homem alto, que era um encantador, não pôde deixar de rir da ameaça. “Se meu filho tiver o nariz comprido demais”, disse consigo, “a menos que seja cego ou maneta, sempre poderá vê-lo e senti-lo.” Tendo o encantador desaparecido, o rei foi procurar a princesa, que consentiu em se casar com ele; mas ele não viveu muito tempo com ela, e morreu ao fim de oito meses. Um mês depois, a rainha deu à luz um pequeno príncipe, que recebeu o nome de Désir. Tinha grandes olhos azuis, os mais belos do mundo, uma boquinha bonita; mas seu nariz era tão grande que lhe cobria metade do rosto. A rainha ficou inconsolável quando viu aquele nariz enorme; mas as damas que estavam ao seu lado lhe disseram que o nariz não era tão grande quanto lhe parecia; que era um nariz romano, e que se via nas histórias que todos os heróis tinham tido nariz grande. A rainha, que amava loucamente o filho, ficou encantada com essa conversa e, de tanto olhar Désir, seu nariz já não lhe pareceu tão grande.
O príncipe foi criado com cuidado; assim que aprendeu a falar, contavam diante dele toda sorte de histórias maldosas sobre as pessoas que tinham nariz curto. Só se admitiam perto dele aqueles cujo nariz se parecesse um pouco com o seu; e os cortesãos, para agradar à rainha e ao filho, puxavam várias vezes por dia o nariz de seus filhinhos, para fazê-lo se alongar; mas, por mais que fizessem, pareciam ter o nariz achatado perto do príncipe Désir. Quando ele chegou à idade da razão, ensinaram-lhe história; e, quando lhe falavam de algum grande príncipe ou de alguma bela princesa, diziam sempre que tinham nariz comprido. Todo o seu quarto estava cheio de quadros em que havia narizes grandes, e Désir se acostumou tanto a considerar o comprimento do nariz uma perfeição que nem por uma coroa teria consentido que tirassem uma linha do seu.
Quando completou vinte anos e pensaram em casá-lo, apresentaram-lhe os retratos de várias princesas. Ficou encantado com o de Mignone: era filha de um grande rei e devia receber vários reinos; mas Désir nem sequer pensava nisso, tão ocupado estava com a beleza dela. Essa princesa, que ele achava encantadora, tinha, no entanto, um narizinho arrebitado, que produzia o efeito mais bonito do mundo em seu rosto, mas que deixou os cortesãos no maior embaraço. Tinham adquirido o hábito de zombar dos narizes pequenos, e às vezes lhes escapava uma risada do nariz da princesa; mas Désir não admitia brincadeiras nesse assunto, e expulsou da corte dois cortesãos que tinham ousado falar mal do nariz de Mignone. Os outros, tornados prudentes por esse exemplo, se corrigiram; e houve um que disse ao príncipe que, na verdade, um homem não podia ser atraente sem ter nariz grande; mas que a beleza das mulheres era diferente, e que um erudito lhe dissera ter lido num velho manuscrito grego que a bela Cleópatra tinha a ponta do nariz arrebitada. O príncipe deu um magnífico presente àquele que lhe trouxe essa boa notícia e mandou partir embaixadores para pedir Mignone em casamento. Concederam-lhe a mão dela, e ele foi ao seu encontro a mais de três léguas, tamanha era a vontade de vê-la; mas, quando se adiantava para lhe beijar a mão, viram descer o encantador, que arrebatou a princesa diante de seus olhos e o deixou inconsolável.
Désir resolveu não voltar ao seu reino antes de encontrar Mignone. Não quis permitir que nenhum de seus cortesãos o seguisse; e, tendo montado um bom cavalo, soltou-lhe as rédeas sobre o pescoço e deixou que tomasse o caminho que quisesse. O cavalo entrou numa grande planície, onde andou o dia inteiro sem encontrar uma única casa. O dono e o animal morriam de fome; enfim, ao cair da noite, ele viu uma caverna onde havia luz. Entrou e viu uma velhinha que parecia ter mais de cem anos. Ela pôs os óculos para olhar o príncipe, mas ficou muito tempo sem conseguir firmá-los, porque seu nariz era curto demais. O príncipe e a fada — pois era uma fada — soltaram, cada um, uma gargalhada ao se olharem, e ambos exclamaram ao mesmo tempo:
— Ah! Que nariz esquisito!
— Não tão esquisito quanto o seu — disse Désir à fada. — Mas, senhora, deixemos nossos narizes como são, e tenha a bondade de me dar alguma coisa para comer, pois morro de fome, assim como meu pobre cavalo.
— De todo o coração — disse-lhe a fada. — Embora seu nariz seja ridículo, o senhor não deixa de ser filho do melhor de meus amigos. Eu amava o rei seu pai como a meu irmão; tinha o nariz muito bem-feito, aquele príncipe.
— E o que falta ao meu? — perguntou Désir.
— Oh! Não lhe falta nada — disse a fada. — Pelo contrário, há matéria até demais; mas não importa, pode-se ser um homem muito honrado e ter o nariz comprido demais. Eu lhe dizia, então, que era amiga de seu pai; ele vinha me visitar muitas vezes naquele tempo. Sabe que eu era muito bonita naquela época? Ele me dizia isso. Preciso lhe contar uma conversa que tivemos, da última vez que me viu.
— Ah, senhora — disse Désir —, eu a ouvirei com muito prazer quando tiver jantado; lembre-se, por favor, de que não comi nada hoje.
— Pobre rapaz — disse a fada —, ele tem razão, eu não estava pensando nisso. Vou, então, lhe dar o jantar, e, enquanto comer, lhe contarei minha história em quatro palavras, pois não gosto de discursos compridos. Uma língua comprida demais é ainda mais insuportável que um nariz grande, e me lembro de que, quando era jovem, me admiravam porque eu não era muito faladeira; diziam isso à rainha minha mãe; pois, tal como me vê, sou filha de um grande rei. Meu pai...
— Seu pai comia quando tinha fome — disse-lhe o príncipe, interrompendo-a.
— Sim, sem dúvida — disse-lhe a fada —, e o senhor também jantará daqui a pouco; eu só queria lhe dizer que meu pai...
— E eu não quero ouvir nada antes de ter o que comer — disse o príncipe, que começava a ficar zangado.
Contudo, abrandou-se, pois precisava da fada, e lhe disse:
— Sei que o prazer que eu teria em ouvi-la poderia me fazer esquecer a fome; mas meu cavalo, que não a ouvirá, precisa tomar algum alimento.
A fada empinou-se de orgulho com esse cumprimento.
— Não me ouvirá mais — disse-lhe ela, chamando seus criados. — O senhor é muito polido e, apesar do tamanho enorme de seu nariz, é muito agradável.
“Maldita seja a velha com meu nariz”, disse o príncipe consigo, “parece que minha mãe lhe roubou a matéria que falta ao dela; se eu não precisasse comer, deixaria aqui essa tagarela, que pensa que fala pouco. É preciso ser muito tolo para não conhecer os próprios defeitos; eis o que é nascer princesa: os bajuladores a estragaram e a convenceram de que falava pouco.” Enquanto o príncipe pensava nisso, as criadas punham a mesa, e ele se espantava com a fada, que lhes fazia mil perguntas só para ter o prazer de falar; espantava-se sobretudo com uma camareira que, a propósito de tudo o que via, elogiava a discrição de sua senhora. “Ora essa”, pensava ele enquanto comia, “estou encantado de ter vindo aqui. Esse exemplo me faz ver como fui sensato em não dar ouvidos aos bajuladores. Essa gente nos elogia descaradamente, esconde nossos defeitos e os transforma em perfeições; quanto a mim, nunca serei seu joguete, conheço meus defeitos, graças a Deus.”
O pobre Désir acreditava nisso de boa-fé, e não sabia que aqueles que tinham elogiado seu nariz zombavam dele, como a camareira da fada zombava dela; pois o príncipe viu que ela se virava de tempos em tempos para rir. Quanto a ele, não dizia uma palavra e comia com todas as suas forças.
— Meu príncipe — disse-lhe a fada, quando ele começava a ficar saciado —, vire-se um pouco, por favor; seu nariz faz uma sombra que me impede de ver o que está no meu prato. Ora, falemos de seu pai; eu ia à corte dele no tempo em que era apenas um menininho; mas faz quarenta anos que me retirei para esta solidão. Diga-me um pouco como se vive na corte atualmente; as damas ainda gostam de andar de um lado para outro? No meu tempo eram vistas no mesmo dia na reunião, nos espetáculos, nos passeios, no baile... Como seu nariz é comprido! Não consigo me acostumar a vê-lo.
— Na verdade — respondeu-lhe Désir —, pare de falar de meu nariz; ele é como é; o que lhe importa? Estou satisfeito com ele, não gostaria que fosse mais curto; cada um o ajeita como pode.
— Oh! Vejo bem que isso o aborrece, meu pobre Désir — disse a fada —; no entanto, não é minha intenção; pelo contrário, sou sua amiga e quero lhe prestar um serviço, mas, apesar disso, não posso deixar de me chocar com seu nariz; tratarei, contudo, de não voltar a falar nele, e até me esforçarei para pensar que tem o nariz achatado; embora, para dizer a verdade, haja matéria bastante nesse nariz para fazer três de tamanho razoável.
Désir, que já tinha jantado, se impacientou tanto com os discursos sem fim que a fada fazia sobre seu nariz que saltou sobre o cavalo e saiu. Continuou a viagem e, por toda parte onde passava, achava que todo mundo estava louco, porque todo mundo falava de seu nariz; mas, apesar disso, tinham-no acostumado tanto a ouvir dizer que seu nariz era bonito que ele nunca pôde admitir consigo mesmo que fosse comprido demais.
A velha fada, que queria lhe prestar um serviço apesar dele, teve a ideia de encerrar Mignone num palácio de cristal, e pôs esse palácio no caminho do príncipe. Désir, transportado de alegria, tentou quebrá-lo; mas não conseguiu. Desesperado, quis se aproximar para ao menos falar com a princesa, que, por sua vez, também aproximava a mão do vidro. Ele queria beijar essa mão; mas, para qualquer lado que se virasse, não conseguia levar a boca até ela, porque seu nariz o impedia. Percebeu, pela primeira vez, seu extraordinário comprimento e, pegando-o com a mão para afastá-lo para o lado, disse:
— É preciso confessar que meu nariz é comprido demais.
No mesmo instante, o palácio de cristal caiu em pedaços, e a velha, que segurava Mignone pela mão, disse ao príncipe:
— Confesse que me deve muito; por mais que eu lhe falasse de seu nariz, nunca teria reconhecido o defeito, se ele não tivesse se tornado um obstáculo ao que desejava. É assim que o amor-próprio esconde de nós as deformidades de nossa alma e de nosso corpo. Por mais que a razão procure revelá-las, só as admitimos no momento em que esse mesmo amor-próprio as considera contrárias aos seus interesses.
Désir, cujo nariz se tornara um nariz comum, aproveitou a lição: casou-se com Mignone e viveu feliz com ela por um número muito grande de anos.
Sobre esta edição
- Obra
- Conte du Prince Désir
- Autoria original
- Jeanne-Marie Leprince de Beaumont
- Texto em português
- Tradução do original
- Edição publicada
- 1.0.0
- Tradução
- Marcelo Castro Barbosa, assistido por IA
- Produção
- Bons Filhos Educação
- Publicação
- 03/11/2026
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