JLB 005

O Príncipe Encantador

Jeanne-Marie Leprince de Beaumont

Conte du Prince Charmant

Cerca de 12 min de leitura

Era uma vez um príncipe que tinha apenas dezesseis anos quando perdeu o pai. Primeiro ficou um pouco triste, e depois o prazer de ser rei logo o consolou. Esse príncipe, que se chamava Encantador, não tinha mau coração; mas fora educado como príncipe, isto é, para fazer a própria vontade; e esse mau hábito sem dúvida o teria tornado malvado mais tarde. Já começava a se zangar quando lhe mostravam que havia se enganado. Negligenciava os negócios para se entregar aos prazeres; sobretudo, gostava tão apaixonadamente da caça que nela passava quase todos os dias. Fora mimado, como quase sempre são os príncipes. Tinha, porém, um bom preceptor; gostava muito dele quando era pequeno; mas, depois que se tornou rei, pensou que aquele preceptor era virtuoso demais.

“Nunca ousarei seguir meus caprichos diante dele”, dizia consigo mesmo. “Ele diz que um príncipe deve dedicar todo o tempo aos negócios de seu reino, e eu só gosto dos meus prazeres. Mesmo que não me dissesse nada, ficaria triste, e eu perceberia em seu rosto que estaria descontente comigo: é preciso afastá-lo, pois ele me constrangeria.”

No dia seguinte, Encantador reuniu seu conselho, fez grandes elogios ao preceptor e disse que, para recompensá-lo pelos cuidados que lhe havia dedicado, dava-lhe o governo de uma província muito distante da corte. Depois que seu preceptor partiu, mergulhou nas delícias e sobretudo na caça, pela qual tinha uma paixão furiosa.

Um dia, quando Encantador estava numa grande floresta, viu passar uma corça branca como a neve; ela trazia uma coleira de ouro no pescoço e, quando se aproximou do príncipe, olhou fixamente para ele e depois se afastou.

— Não quero que a matem! — exclamou Encantador.

Ordenou então aos seus homens que ficassem ali com os cães e seguiu a corça. Parecia que ela o esperava; mas, quando ele estava perto, ela se afastava aos saltos e cabriolas. Tinha tanta vontade de apanhá-la que, ao segui-la, percorreu um longo caminho sem perceber. Veio a noite, e ele perdeu a corça de vista. Ficou muito atrapalhado, pois não sabia onde estava. De repente, ouviu instrumentos, mas pareciam estar muito longe. Seguiu aquele som agradável e por fim chegou a um grande castelo onde se dava aquele belo concerto. O porteiro perguntou o que desejava, e o príncipe lhe contou sua aventura.

— Seja bem-vindo — disse-lhe o homem. — Estão esperando o senhor para cear, pois a corça branca pertence à minha senhora; e, todas as vezes que a faz sair, é para lhe trazer companhia.

Ao mesmo tempo, o porteiro assobiou, e vários criados apareceram com tochas e conduziram o príncipe a um aposento bem iluminado. Os móveis daquele aposento não eram magníficos, mas tudo estava limpo e tão bem arrumado que dava gosto de ver. Logo viu aparecer a dona da casa. O príncipe ficou deslumbrado com sua beleza e, tendo se lançado aos pés dela, não conseguia falar, tão ocupado estava em contemplá-la.

— Levante-se, meu príncipe — disse ela, dando-lhe a mão. — Fico encantada com a admiração que lhe causo: o senhor me parece tão amável que desejo de todo o coração que seja aquele que deve me tirar da solidão. Chamo-me Verdadeira Glória e sou imortal. Vivo neste castelo desde o começo do mundo, à espera de um marido. Um grande número de reis veio me ver; mas, embora me tivessem jurado fidelidade eterna, faltaram à palavra. E me abandonaram pela mais cruel de minhas inimigas.

— Ah, bela princesa! — disse Encantador. — É possível esquecê-la depois de vê-la uma vez? Juro nunca amar ninguém além da senhora; e, desde este momento, escolho-a como minha rainha.

— E eu o aceito como meu rei — disse-lhe Verdadeira Glória. — Mas ainda não me é permitido casar com o senhor. Vou lhe mostrar outro príncipe, que está em meu palácio e também pretende se casar comigo. Se eu pudesse decidir, daria preferência ao senhor; mas isso não depende de mim. É preciso que me deixe por três anos, e aquele dos dois que me for mais fiel durante esse tempo terá a preferência.

Encantador ficou muito aflito com essas palavras; mas ficou ainda mais quando viu o príncipe de quem Verdadeira Glória lhe falara. Ele era tão belo, tinha tanto espírito, que receou que Verdadeira Glória o amasse mais do que a ele. Chamava-se Absoluto e possuía um grande reino. Os dois cearam com Verdadeira Glória e ficaram muito tristes quando tiveram de deixá-la pela manhã. Ela lhes disse que os esperava dali a três anos, e eles saíram juntos do palácio. Mal haviam caminhado duzentos passos pela floresta, viram um palácio muito mais magnífico que o de Verdadeira Glória: o ouro, a prata, o mármore e os diamantes deslumbravam os olhos, seus jardins eram soberbos, e a curiosidade os levou a entrar. Ficaram muito surpresos ao encontrar ali sua princesa, mas ela havia trocado de roupa: seu vestido era todo guarnecido de diamantes, e seus cabelos também estavam ornados deles, ao passo que, na véspera, seu traje consistia apenas num vestido branco enfeitado de flores.

— Ontem lhes mostrei minha casa de campo — disse-lhes ela. — Antes ela me agradava; mas, como tenho dois príncipes por pretendentes, já não a considero digna de mim. Abandonei-a para sempre e os esperarei neste palácio, pois os príncipes devem amar a magnificência. O ouro e as pedras preciosas só foram feitos para eles; e, quando seus súditos os veem tão magníficos, respeitam-nos mais.

Ao mesmo tempo, fez seus dois pretendentes passarem a um grande salão.

— Vou lhes mostrar — disse-lhes — os retratos de vários príncipes que foram meus favoritos. Aquele ali se chamava Alexandre, com quem eu teria me casado, mas ele morreu jovem demais. Esse príncipe, com um número muito pequeno de tropas, devastou toda a Ásia e se tornou senhor dela. Amava-me loucamente e arriscou várias vezes a vida para me agradar. Vejam este outro: chamava-se Pirro. O desejo de se tornar meu esposo o levou a deixar seu reino para adquirir outros; passou a vida em correrias e infelizmente foi morto por uma telha que uma mulher lhe atirou na cabeça. Este outro se chamava Júlio César: para merecer meu coração, guerreou durante dez anos nas Gálias; venceu Pompeu e submeteu os romanos. Teria sido meu esposo; mas, tendo perdoado seus inimigos contra meu conselho, eles lhe deram vinte e duas punhaladas.

A princesa ainda lhes mostrou um grande número de retratos e, depois de lhes oferecer um esplêndido desjejum, servido em pratos de ouro, disse-lhes que prosseguissem viagem. Quando saíram do palácio, Absoluto disse a Encantador:

— Reconheça que a princesa estava mil vezes mais amável hoje, com suas belas roupas, do que ontem, e que também tinha muito mais espírito.

— Não sei — respondeu Encantador. — Hoje ela estava maquiada e me pareceu diferente por causa de suas belas roupas; mas, com certeza, agradava-me mais com seu traje de pastora.

Os dois príncipes se separaram e voltaram aos seus reinos, bem decididos a fazer tudo o que pudessem para agradar à sua senhora. Quando Encantador estava em seu palácio, lembrou-se de que, quando era pequeno, seu preceptor lhe falara muitas vezes de Verdadeira Glória, e disse consigo mesmo:

“Já que ele conhece a princesa, quero trazê-lo de volta à minha corte; ele me ensinará o que devo fazer para agradar a ela.”

Mandou então um mensageiro buscá-lo e, assim que seu preceptor, chamado Sincero, chegou, fez com que viesse a seu gabinete e lhe contou o que havia acontecido. O bom Sincero, chorando de alegria, disse ao rei:

— Ah, meu príncipe, como estou contente por ter voltado! Sem mim, teria perdido sua princesa. Preciso lhe contar que ela tem uma irmã chamada Falsa Glória; essa criatura malvada não é tão bela quanto Verdadeira Glória, mas se maquia para esconder seus defeitos. Ela espera todos os príncipes que saem da casa de Verdadeira Glória e, como se parece com a irmã, engana-os. Eles pensam trabalhar por Verdadeira Glória e a perdem seguindo os conselhos da irmã. O senhor viu que todos os pretendentes de Falsa Glória perecem miseravelmente. O príncipe Absoluto, que vai seguir o exemplo deles, viverá apenas até os trinta anos; mas, se o senhor se guiar por meus conselhos, prometo que no fim será esposo de sua princesa. Ela deve se casar com o maior rei do mundo: trabalhe para se tornar esse rei.

— Meu caro Sincero — respondeu Encantador —, tu sabes que isso não é possível. Por maior que seja meu reino, meus súditos são tão ignorantes, tão rudes, que nunca poderei levá-los a fazer a guerra. Ora, para se tornar o maior rei do mundo, não é preciso ganhar um grande número de batalhas e tomar muitas cidades?

— Ah, meu príncipe! — replicou Sincero. — O senhor já esqueceu as lições que lhe dei. Ainda que tivesse por toda riqueza uma única cidade e duzentos ou trezentos súditos, e nunca fizesse a guerra, poderia se tornar o maior rei do mundo; para isso, basta ser o mais justo e o mais virtuoso. Esse é o meio de conquistar a princesa Verdadeira Glória. Aqueles que tomam os reinos de seus vizinhos, que oprimem seus povos para construir belos castelos, comprar belas roupas e muitos diamantes, são enganados e só encontrarão a princesa Falsa Glória, que então já não estará maquiada e lhes aparecerá em toda a sua deformidade. O senhor diz que seus súditos são rudes e ignorantes; é preciso instruí-los. Faça guerra à ignorância e ao crime; combata suas paixões, e será um grande rei e um conquistador superior a César, a Pirro, a Alexandre e a todos os heróis cujos retratos Falsa Glória lhe mostrou.

Encantador resolveu seguir os conselhos de seu preceptor. Para isso, pediu a um de seus parentes que governasse seu reino durante sua ausência e partiu com o preceptor para viajar pelo mundo inteiro e aprender por si mesmo tudo o que era preciso fazer para tornar seus súditos felizes. Quando encontrava num reino um homem sábio ou habilidoso, dizia-lhe:

— Quer vir comigo? Eu lhe darei muito ouro.

Quando já estava bem instruído e tinha consigo um grande número de pessoas habilidosas, voltou a seu reino e as encarregou de instruir seus súditos, que eram muito pobres e muito ignorantes. Mandou construir grandes cidades e muitos navios, fazia com que os jovens aprendessem a trabalhar, alimentava os pobres doentes e os velhos, ele próprio fazia justiça a seus povos, de modo que os tornou pessoas honradas e felizes. Passou dois anos nesse trabalho e, ao fim desse tempo, disse a Sincero:

— Acha que logo serei digno de Verdadeira Glória?

— Ainda lhe resta uma grande obra a fazer — disse seu preceptor. — O senhor venceu os vícios de seus súditos, sua preguiça e seu amor pelos prazeres, mas ainda é escravo de sua cólera; é o último inimigo que deve combater.

Encantador teve muita dificuldade para se corrigir desse último defeito, mas estava tão apaixonado por sua princesa que fez os maiores esforços para se tornar manso e paciente. Conseguiu e, passados os três anos, dirigiu-se à floresta onde vira a corça branca. Não havia levado consigo uma grande comitiva; só Sincero o acompanhava. Logo encontrou Absoluto num carro soberbo. Mandara pintar nesse carro as batalhas que vencera e as cidades que tomara; e fazia caminhar diante de si vários príncipes que havia aprisionado e que estavam acorrentados como escravos. Quando viu Encantador, zombou dele e da conduta que havia seguido. Nesse mesmo momento, viram os palácios das duas irmãs, que não ficavam muito distantes um do outro. Encantador tomou o caminho do primeiro, e Absoluto ficou encantado com isso, pois aquela que ele tomava por sua princesa lhe dissera que nunca voltaria para lá.

Mas mal havia deixado Encantador, a princesa Verdadeira Glória, mil vezes mais bela, porém vestida com a mesma simplicidade da primeira vez em que ele a vira, veio ao encontro dele.

— Venha, meu príncipe — disse-lhe. — Graças a seu amigo Sincero, que lhe ensinou a me distinguir de minha irmã, o senhor é digno de ser meu esposo.

Ao mesmo tempo, Verdadeira Glória ordenou às virtudes, que são suas súditas, que dessem uma festa para celebrar seu casamento com Encantador; e, enquanto ele pensava na felicidade que teria ao ser esposo daquela princesa, Absoluto chegou à casa de Falsa Glória, que o recebeu muito bem e lhe ofereceu casar-se com ele imediatamente. Ele consentiu; mas, mal ela se tornou sua mulher, percebeu, ao olhá-la de perto, que era velha e enrugada, embora não tivesse esquecido de pôr muita maquiagem branca e vermelha para esconder as rugas. Enquanto ela lhe falava, rompeu-se um fio de ouro que prendia seus dentes postiços, e os dentes caíram no chão. O príncipe Absoluto ficou tão encolerizado por ter sido enganado que se lançou sobre ela para bater-lhe; mas, como a havia agarrado pelos belos cabelos negros, que eram muito compridos, ficou espantado ao vê-los permanecerem em sua mão: Falsa Glória usava peruca e, quando ficou de cabeça descoberta, ele viu que ela tinha apenas uma dúzia de cabelos, e ainda por cima eram todos brancos. Absoluto deixou aquela criatura malvada e feia e correu ao palácio de Verdadeira Glória, que acabava de se casar com Encantador; e a dor que sentiu por ter perdido aquela princesa foi tão grande que morreu disso.

Encantador lamentou sua desgraça e viveu por muito tempo com Verdadeira Glória. Teve com ela várias filhas, mas apenas uma se parecia perfeitamente com a mãe. Instalou-a no castelo campestre, à espera de que pudesse encontrar um esposo; e, para impedir que a tia malvada lhe desviasse os pretendentes, escreveu sua própria história, a fim de ensinar aos príncipes que quisessem se casar com sua filha que o único meio de possuir Verdadeira Glória era trabalhar para se tornarem virtuosos e úteis a seus súditos; e que, para terem êxito nesse propósito, precisavam de um amigo sincero.


Sobre esta edição

Obra
Conte du Prince Charmant
Autoria original
Jeanne-Marie Leprince de Beaumont
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
03/11/2026
Relevância no acervo · IRC 2,50

Este índice orienta a ordem dos destaques. Não é uma nota de qualidade do conto ou da tradução.

Pesquisa em 03/11/2026 · Confiança baixa · Método 2.0 · Evidência limitada

Como o índice é calculado

Na sua biblioteca

Edições e fontes

Conheça as edições desta história e consulte os textos de origem.

O Príncipe Encantador

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
Consultar esta edição ↗
Encontrou um erro?

Uma palavra, uma passagem, uma referência: sua observação chega à mesa editorial vinculada à edição 1.0.0 que você leu.