AsVerdadeiras HistóriasOs contos originais, em nossa língua

EK 152

O que a velha Johanne contou

Hans Christian Andersen

Hvad gamle Johanne fortalte

Sobre este conto

A velha Johanne conhece a história de Rasmus, filho de um alfaiate de aldeia. Criado entre o desalento do pai e a confiança religiosa da mãe, ele aprende o ofício e se apaixona por Else, filha de um lavrador rico. Johanne, sua companheira de infância, acompanha sua vida ao longo dos anos.

Personagens e estrutura
Personagens
Johanne: filha de um tamanqueiro, companheira de infância de Rasmus, criada de fazenda e sua amiga constante., Rasmus: filho mais novo dos alfaiates Ivar Ølse e Maren; aprende o ofício do pai e se apaixona por Else., Maren Ølse: mãe de Rasmus, alfaiata trabalhadora e religiosa, antiga babá da senhora da propriedade., Ivar Ølse: alfaiate da aldeia e pai de Rasmus; sofre de dores nas mãos e repete “De que adianta?”., Else: filha de Klaus Hansen, apaixonada por Rasmus; procura a curandeira Stine e depois se casa com o lavrador mais rico., Stine Madsdatter: curandeira e adivinha que promete trazer Rasmus de volta por meio de um caldeirão., Klaus Hansen: pai de Else e segundo lavrador mais rico da paróquia., A senhora da propriedade: antiga protegida de Maren, fornece provisões à família do alfaiate; fica viúva e torna a se casar.
Onde se passa
Uma aldeia e sua paróquia, a casa do alfaiate junto de um velho salgueiro, de uma lagoa e da antiga estrada real; fazendas da região e uma cidade. A narrativa acompanha a infância, as viagens e a velhice de Rasmus, contadas pelas lembranças de Johanne.
Acontecimentos
  1. Ivar e Maren criam onze filhos; Rasmus é o caçula e brinca com Johanne. O pai adoece das mãos; a mãe continua trabalhando.
  2. Após o funeral do senhor da propriedade, os alfaiates recebem o tecido da carruagem de luto e fazem roupas. Ivar morre; Rasmus é confirmado e vai aprender o ofício na cidade.
  3. Rasmus retorna formado e permanece na região. Ele e Else se apaixonam sem declarar o amor; quando ela afirma estar noiva do lavrador rico, ele parte pelo mundo.
  4. Else procura Stine, que mantém um caldeirão para chamá-lo de volta. Depois de longa espera, Else se casa com o lavrador; Maren volta da festa e encontra Rasmus doente em casa.
  5. Rasmus se recupera de uma febre contagiosa, mas Maren a contrai e morre. O narrador atribui o desgaste dele à vida desregrada nas viagens, não ao caldeirão.
  6. Johanne consegue hospitalização para Rasmus depois que ele passa uma noite caído junto da lagoa. Continua a visitá-lo e recita um hino de memória. Já velho, ele é perseguido pelos gritos das meninas da aldeia.
Desfecho
Numa manhã de Pentecostes, Johanne está entre os que se ajoelham para comungar; Rasmus não está, pois morrera naquela manhã. O narrador afirma que em Deus há graça e misericórdia. Muitos anos depois, a casa do alfaiate está vazia e quase caindo. Johanne vive no asilo dos pobres, canta o hino que cantara para Rasmus, pensa nele, reza por ele e conserva suas lembranças.

O vento sussurra no velho salgueiro!

É como se ouvíssemos uma canção: o vento a canta, a árvore a conta. Se você não a entende, pergunte à velha Johanne no asilo dos pobres; ela sabe de tudo, nasceu aqui na paróquia.

Muitos anos atrás, quando a estrada real ainda passava por aqui, a árvore já era grande e chamava a atenção. Ficava onde ainda está, diante da casa caiada de enxaimel do alfaiate, bem junto da lagoa, que naquele tempo era tão grande que o gado vinha beber ali e, no verão quente, os menininhos dos camponeses corriam nus e brincavam na água. Bem debaixo da árvore, tinham erguido com pedras talhadas um marco de milha; agora ele está caído, e ramos de amoreira-silvestre crescem sobre ele.

Do outro lado da rica fazenda abriram a nova estrada real; a antiga virou caminho de roça, e a lagoa, uma poça coberta de lentilhas-d’água. Se uma rã caía ali, o verde se separava, e se via a água negra; ao redor cresciam, e ainda crescem, taboas, trifólios-d’água e íris amarelos.

A casa do alfaiate ficou velha e torta; o telhado virou canteiro de musgo e sempre-vivas. O pombal desabou, e o estorninho fez ninho ali; as andorinhas penduraram ninho junto de ninho na empena da casa e debaixo do telhado, como se aquela fosse uma morada da felicidade.

Um dia fora assim; agora tudo estava solitário e quieto. Sozinho e sem ânimo, vivia lá dentro o “pobre Rasmus”, como o chamavam. Nascera ali, brincara ali, correra pelos campos e saltara as cercas; quando pequeno, chapinhara na lagoa aberta e subira na velha árvore.

Ela erguia com esplendor e beleza seus grandes ramos, como ainda os ergue, mas a tempestade já tinha torcido um pouco o tronco, e o tempo lhe abrira uma fenda. Agora o tempo e o vento tinham depositado terra nessa fenda; ali cresciam relva e folhagens, até uma sorveira pequena tinha se plantado sozinha.

Quando as andorinhas chegavam na primavera, voavam em torno da árvore e do telhado, revestiam e remendavam seus velhos ninhos. O pobre Rasmus deixava sua morada ficar de pé ou cair, como quisesse; não a remendava nem a escorava. “De que adianta?” era seu dito habitual, e também fora o do pai.

Ele ficava em casa; as andorinhas iam embora, mas voltavam, bichinhos fiéis. O estorninho voava para longe, voltava e assobiava sua canção; um dia Rasmus soubera disputar com ele no assobio, mas agora não assobiava nem cantava.

O vento sussurrava no velho salgueiro, e ainda sussurra. É como se ouvíssemos uma canção: o vento a canta, a árvore a conta. Se você não a entende, pergunte à velha Johanne no asilo dos pobres; ela sabe de tudo, conhece bem os tempos passados, é como um livro de crônicas, com registros e velhas lembranças.

Quando a casa era nova e boa, o alfaiate da aldeia, Ivar Ølse, mudou-se para lá com sua mulher, Maren; ambos eram trabalhadores e honrados. A velha Johanne era criança naquele tempo, filha do fabricante de tamancos, um dos homens mais pobres da paróquia. Muitas fatias de pão bem passadas de manteiga recebeu de Maren, a quem não faltava comida. Ela se dava bem com a senhora da propriedade, estava sempre rindo e contente, não se deixava abater. Usava a boca, mas também as mãos: movia a agulha tão depressa quanto a língua, e ainda cuidava da casa e dos filhos. Eram quase uma dúzia: onze ao todo; o décimo segundo não veio.

— Pobre tem sempre o ninho cheio de filhotes! — resmungava o senhor da propriedade. — Se a gente pudesse afogá-los como gatinhos e só ficar com um ou dois dos mais fortes, a desgraça seria menor!

— Deus tenha piedade! — dizia a mulher do alfaiate. — Filhos são uma bênção de Deus, são a alegria da casa. Cada filho é mais um pai-nosso! Se há aperto e muitas bocas para alimentar, a gente se esforça mais, encontra saída e trabalho, tudo honestamente. Nosso Senhor não nos larga, se nós não largamos!

A senhora da propriedade lhe dava razão, assentia com bondade e acariciava o rosto de Maren. Já fizera isso muitas vezes, até a beijara, mas então a senhora era uma criancinha, e Maren, sua babá. As duas se gostavam, e esse afeto não acabou.

Todos os anos, no Natal, vinham da propriedade provisões de inverno para a casa do alfaiate: um barril de farinha, um porco, dois gansos, um quarto de barril de manteiga, queijo e maçãs. Aquilo ajudava a despensa. Ivar Ølse até parecia bem contente, mas logo tornava ao velho dito: “De que adianta?”

A casa era limpa e arrumada, com cortinas nas janelas e flores também, cravos e balsaminas. Um mostruário de bordado com letras estava emoldurado, e bem ao lado havia uma “carta de enigmas” em versos, que a própria Maren Ølse compusera: sabia como juntar as rimas. Tinha até um pouco de orgulho do sobrenome “Ølse”, a única palavra da língua dinamarquesa que rimava com pølse, “linguiça”.

— Sempre é alguma vantagem sobre os outros! — dizia, rindo.

Conservava sempre o bom humor; nunca dizia como o marido: “De que adianta?” Seu dito era: “Segure-se em si mesmo e em Nosso Senhor!” Era o que fazia, e assim mantinha tudo unido. Os filhos cresciam fortes, saíam do ninho, espalhavam-se por lugares distantes e se portavam bem. Rasmus era o caçula, uma criança tão bonita que um dos grandes pintores da cidade o tomou emprestado para retratá-lo, e nu, como viera ao mundo. Agora o quadro estava no palácio do rei; a senhora da propriedade o vira lá e reconhecera o pequeno Rasmus, embora ele não tivesse roupa.

Mas então vieram os tempos difíceis. O alfaiate passou a sentir dores nas duas mãos, onde se formaram grandes nós; nenhum médico podia ajudar, nem mesmo a sábia Stine, que “fazia curas”.

— A gente não pode se deixar abater! — dizia Maren. — Baixar a cabeça nunca adianta! Agora já não temos as duas mãos do pai para ajudar, e preciso tratar de usar as minhas com mais destreza. O pequeno Rasmus também sabe manejar a agulha!

Ele já se sentava sobre a mesa, assobiando e cantando; era um menino alegre.

Não devia ficar ali o dia inteiro, dizia a mãe; era uma maldade com a criança. Também precisava brincar e correr.

Johanne, a filha do fabricante de tamancos, era sua melhor companheira de brincadeiras; sua família era ainda mais pobre que a de Rasmus. Ela não era bonita, andava descalça, com as roupas em farrapos; não tinha ninguém para remendá-las, e fazê-lo por si mesma não lhe passava pela cabeça. Era uma criança, feliz como um pássaro ao sol de Nosso Senhor.

Junto ao marco erguido de pedras, debaixo do grande salgueiro, Rasmus e Johanne brincavam.

Ele tinha grandes planos: um dia seria um alfaiate fino e moraria na cidade, onde havia mestres que tinham dez oficiais sobre a mesa, como ouvira do pai. Ali seria oficial, ali se tornaria mestre, e então Johanne viria visitá-lo; e se soubesse cozinhar, prepararia a comida para todos eles e teria sua própria sala de visitas.

Johanne não ousava acreditar muito nisso, mas Rasmus acreditava que aconteceria.

Assim ficavam sentados debaixo da velha árvore, e o vento sussurrava nos galhos e nas folhas; era como se o vento cantasse e a árvore contasse uma história.

No outono caiu até a última folha; a chuva gotejava dos galhos nus.

— Eles tornarão a ficar verdes! — dizia a mãe Ølse.

— De que adianta? — dizia o marido. — Ano novo, nova preocupação com o sustento!

— A despensa está cheia! — dizia a mulher. — Podemos agradecer por isso à nossa boa senhora. Tenho saúde e boas forças. É pecado nos queixarmos!

Durante o Natal, os senhores ficaram em sua propriedade no campo, mas, na semana depois do Ano-Novo, foram para a cidade, onde passaram o inverno em alegrias e diversões; iam a bailes e festas na casa do próprio rei.

A senhora recebera da França dois vestidos preciosos; o tecido, o corte e a costura eram de tal maneira que Maren, a mulher do alfaiate, jamais vira semelhante maravilha. Pediu à senhora da propriedade que a deixasse ir até lá com o marido, para que ele também pudesse ver aqueles vestidos. Um alfaiate de aldeia provavelmente nunca via coisa igual, dizia ela.

Ele os viu e não teve palavras para dizer antes de chegar em casa; e o que disse foi apenas o que sempre dizia: “De que adianta?” E, daquela vez, suas palavras se tornaram verdade.

Os senhores chegaram à cidade; começaram ali os bailes e as diversões, mas, em meio a toda aquela magnificência, o velho senhor morreu, e a senhora nem chegou a usar as roupas suntuosas. Estava tão aflita, vestida da cabeça aos pés de preto, numa roupa de luto fechada; não se via sequer uma tira branca; todos os criados vestiam preto, e até a carruagem de gala foi revestida de fino tecido preto.

Era uma noite de geada e frio cortante; a neve brilhava, as estrelas cintilavam; o pesado carro fúnebre vinha da cidade com o corpo para a igreja da propriedade, onde seria colocado no jazigo da família. O administrador e o oficial da paróquia esperavam a cavalo, com tochas, diante do portão do cemitério. A igreja estava iluminada, e o pastor, à porta aberta da igreja, recebia o corpo. Levaram o caixão até o coro; toda a congregação o acompanhou. O pastor falou, cantou-se um hino; a senhora estava na igreja, fora levada na carruagem de gala revestida de preto, preta por dentro e por fora; nunca se vira uma igual naquela paróquia.

Durante todo o inverno se falou de toda aquela pompa de luto; aquilo sim era um “enterro de senhor de terras”.

— Ali se viu a importância daquele homem! — dizia o povo da paróquia. — Nasceu em altas condições e foi sepultado com altas honras!

— De que adianta? — disse o alfaiate. — Agora não tem vida nem bens. Nós ao menos temos uma dessas coisas!

— Não diga palavras assim! — disse Maren. — Ele tem a vida eterna no reino dos céus!

— Quem lhe disse isso, Maren? — disse o alfaiate. — Homem morto é bom adubo! Mas esse homem devia ser fino demais até para servir de alguma coisa na terra; tem de ficar numa capela funerária!

— Não fale de maneira tão ímpia! — disse Maren. — Digo outra vez: ele tem a vida eterna!

— Quem lhe disse isso, Maren? — repetiu o alfaiate.

E Maren cobriu o pequeno Rasmus com o avental; ele não devia ouvir aquelas palavras.

Levou-o nos braços para o depósito de turfa e chorou.

— Aquilo que você ouviu lá, pequeno Rasmus, não era seu pai falando; era o Maligno, que atravessou a sala e tomou a voz de seu pai! Reze seu pai-nosso! Vamos rezá-lo juntos!

Juntou as mãos da criança.

— Agora estou contente de novo! — disse ela. — Segure-se firme em si mesmo e em Nosso Senhor!

O ano de luto terminou; a viúva vestia meio-luto e trazia no coração uma alegria inteira.

Começaram a correr rumores de que ela tinha um pretendente e já pensava em casamento. Maren sabia alguma coisa a esse respeito, e o pastor sabia um pouco mais.

No Domingo de Ramos, depois do sermão, seriam anunciados os proclamas do casamento da viúva com seu noivo. Ele era talhador de estacas ou escultor; não se sabia bem o nome de sua ocupação; naquele tempo Thorvaldsen e sua arte ainda não eram muito conhecidos pelo povo. O novo senhor da propriedade não era da alta nobreza, mas ainda assim era um homem muito distinto; era alguém que era alguma coisa que ninguém entendia, diziam; esculpia imagens, era hábil em seu ofício, jovem e bonito.

— De que adianta? — disse o alfaiate Ølse.

No Domingo de Ramos, o casamento foi anunciado do púlpito; depois vieram os hinos e a comunhão. O alfaiate, sua mulher e o pequeno Rasmus estavam na igreja; os pais foram comungar, Rasmus ficou no banco, pois ainda não tinha sido confirmado. Nos últimos tempos faltavam roupas na casa do alfaiate; as velhas que tinham haviam sido viradas e reviradas, costuradas e remendadas; agora os três estavam de roupa nova, mas de tecido preto, como para um enterro; estavam vestidos com o revestimento da carruagem de luto. Com ele o marido ganhara casaco e calças, Maren um vestido de gola alta e Rasmus uma roupa completa, que lhe serviria até crescer para a confirmação. Tinham tirado tanto o tecido de fora quanto o de dentro da carruagem de luto. Ninguém precisava saber em que aquilo fora usado antes, mas logo o povo soube; a curandeira Stine e outras duas mulheres tão sabidas quanto ela, que não viviam de sua sabedoria, disseram que aquelas roupas trariam enfermidade e doença à casa: “Não se pode vestir uma carruagem fúnebre, a não ser para ir à sepultura.”

Johanne, a filha do tamanqueiro, chorou quando ouviu aquilo; e, como aconteceu de, a partir daquele dia, o alfaiate adoecer cada vez mais, logo se veria sobre quem aquilo iria recair.

E se viu.

No primeiro domingo depois da Trindade morreu o alfaiate Ølse; agora Maren estava sozinha para sustentar tudo; sustentou tudo, a si mesma e sua fé em Nosso Senhor.

No ano seguinte Rasmus foi confirmado; agora iria à cidade como aprendiz de um grande alfaiate, que, na verdade, não tinha doze oficiais sobre a mesa, mas um; o pequeno Rasmus podia ser contado como meio. Estava contente, tinha um ar satisfeito, mas Johanne chorava; gostava dele mais do que ela mesma sabia. A mulher do alfaiate ficou na velha casa e continuou o ofício.

Foi por esse tempo que se abriu a nova estrada real; a antiga, que passava pelo salgueiro e pela casa do alfaiate, virou caminho de campo; a lagoa foi ficando tomada pela vegetação, e lentilhas-d'água cobriram a poça que restava; o marco de milha caiu, não tinha mais o que indicar, mas a árvore continuava vigorosa e bonita; o vento sussurrava nos galhos e nas folhas.

As andorinhas partiram, o estorninho partiu, e voltaram na primavera; e, quando regressaram pela quarta vez, Rasmus também voltou para casa. Passara na prova de oficial; era um rapaz bonito, mas franzino; agora queria atar a mochila, conhecer terras estrangeiras; era isso que desejava. Mas a mãe o reteve; em casa era melhor! Todos os outros filhos estavam espalhados, ele era o mais novo, a casa seria dele. Poderia ter trabalho de sobra, se quisesse andar pela região, ser alfaiate ambulante, costurar catorze dias numa fazenda, catorze dias em outra. Isso também era viajar. E Rasmus seguiu o conselho da mãe.

Assim voltou a dormir sob o teto da casa em que nascera, voltou a se sentar debaixo do velho salgueiro e a ouvi-lo sussurrar.

Era bonito, sabia assobiar como um pássaro e cantar cantigas novas e antigas. Era bem recebido nas grandes fazendas, sobretudo na de Klaus Hansen, o segundo lavrador mais rico da paróquia.

A filha, Else, parecia a mais bela das flores e vivia rindo; havia gente tão maldosa que dizia que ela só ria para mostrar os belos dentes. Era risonha e sempre tinha disposição para fazer travessuras; tudo lhe caía bem.

Ela se apaixonou por Rasmus, e ele se apaixonou por ela, mas nenhum dos dois disse isso com todas as letras.

Então ele foi ficando melancólico; tinha mais do temperamento do pai do que do da mãe. A alegria só vinha quando Else chegava; então os dois riam, brincavam e faziam travessuras, mas, embora não faltasse ocasião, ele não lhe dizia em segredo uma só palavra sobre seu amor. “De que adianta?”, pensava. “Os pais querem riqueza para ela, e isso eu não tenho; o mais sensato seria ir embora daqui!” Mas não conseguia se afastar da fazenda; era como se Else tivesse um fio preso a ele; diante dela era como um pássaro adestrado, cantava e assobiava para agradá-la e conforme a vontade dela.

Johanne, a filha do tamanqueiro, era criada naquela fazenda, empregada nas tarefas humildes; levava a carroça do leite até o campo, onde ordenhava as vacas com as outras moças; sim, também tinha de transportar estrume quando era preciso. Não ia à sala de visitas e pouco via Rasmus ou Else, mas ouvira dizer que os dois eram praticamente namorados.

— Assim Rasmus vai ficar rico! — disse ela. — Desejo isso a ele de todo o coração!

E seus olhos ficaram bem molhados; mas não havia ali motivo para chorar!

Havia feira na cidade; Klaus Hansen foi até lá de carroça, e Rasmus foi junto, sentado ao lado de Else, tanto na ida como na volta. Estava tomado de amor, mas não dizia uma palavra a respeito.

“Ele precisa me dizer alguma coisa sobre isso!”, pensava a moça, e nisso tinha razão. “Se não quiser falar, vou dar-lhe um bom susto!”

E logo se começou a falar na fazenda que o lavrador mais rico da paróquia pedira Else em casamento; e pedira mesmo, mas ninguém sabia que resposta ela dera.

Os pensamentos rodopiavam na cabeça de Rasmus.

Uma noite Else pôs um anel de ouro no dedo e perguntou a Rasmus o que aquilo significava.

— Noivado! — disse ele.

— E com quem você acha? — perguntou ela.

— Com o lavrador rico? — disse ele.

— Acertou! — disse ela, fez que sim com a cabeça e escapuliu.

Mas ele também escapuliu; chegou à casa da mãe como alguém fora de si e atou a mochila. Queria partir para o vasto mundo; de nada adiantou a mãe chorar.

Cortou para si um bordão do velho salgueiro e assobiou como se estivesse de bom humor; iria conhecer todas as maravilhas do mundo.

— Isso é para mim uma grande tristeza! — disse a mãe. — Mas talvez, para você, partir seja o mais certo e o melhor; então tenho de me conformar. Segure-se em si mesmo e em Nosso Senhor, e hei de recebê-lo outra vez alegre e satisfeito!

Ele seguiu pela nova estrada; ali viu Johanne vindo de carroça com uma carga de estrume. Ela não o notara, e ele não queria ser visto por ela; sentou-se atrás da sebe da vala, onde ficou escondido — e Johanne passou com a carroça.

Partiu pelo mundo, ninguém sabia para onde. A mãe pensava: ele há de voltar para casa antes que o ano termine; agora terá coisas novas para ver e em que pensar, depois voltará aos velhos vincos, que nenhum ferro de passar consegue desfazer. Tem um pouco demais do temperamento do pai; eu preferia que tivesse o meu, pobre filho! Mas há de voltar para casa; não consegue se desligar de mim e da casa.

A mãe estava disposta a esperar ano e dia; Else só esperou um mês, depois foi em segredo procurar a curandeira Stine Madsdatter, que sabia “curar”, ler a sorte nas cartas e no café e sabia mais que o seu “pai-nosso”. Também sabia onde Rasmus estava; leu isso na borra de café. Ele estava numa cidade estrangeira, mas ela não conseguia ler o nome. Naquela cidade havia soldados e lindas donzelas. Seus pensamentos se inclinavam a pegar no mosquete ou a tomar uma das donzelas.

Else não suportou ouvir aquilo. Daria de bom grado suas economias para resgatá-lo, mas ninguém devia saber que era ela.

E a velha Stine prometeu que ele voltaria; conhecia uma arte, uma arte perigosa para aquele a quem se destinava, mas era o último recurso. Poria o caldeirão a ferver para chamá-lo, e então ele teria de se pôr a caminho, estivesse onde estivesse no mundo; teria de voltar para casa, onde o caldeirão fervia e a amada o esperava; poderiam passar meses antes que chegasse, mas teria de vir, se ainda houvesse vida nele.

Sem sossego nem descanso, noite e dia, teria de seguir, por mares e montanhas, fosse o tempo ameno ou rigoroso, por mais cansados que estivessem seus pés. Devia voltar para casa, tinha de voltar para casa.

A lua estava no quarto crescente; precisava estar assim para aquela arte, dizia a velha Stine. O tempo estava tempestuoso; o velho salgueiro rangia; Stine cortou um ramo, deu-lhe um nó; ele haveria de ajudar a puxar Rasmus de volta à casa da mãe. Tiraram musgo e sempre-vivas do telhado e os puseram no caldeirão, que foi levado ao fogo. Else devia arrancar uma folha do hinário; por acaso arrancou a última, a que trazia as erratas.

— Serve do mesmo jeito! — disse Stine, atirando-a no caldeirão.

Eram necessárias muitas coisas para aquela papa, que tinha de ferver e continuar fervendo até Rasmus voltar para casa. O galo preto que vivia na sala da velha Stine teve de perder a crista vermelha, que foi para o caldeirão. O grosso anel de ouro de Else também foi parar lá dentro, e ela nunca mais o teria de volta, Stine lhe anunciou. Era tão sabida, Stine. Muitas coisas que não sabemos nomear foram postas no caldeirão; ele permanecia sobre o fogo, ou sobre brasas incandescentes, ou sobre cinzas quentes. Só ela e Else sabiam disso.

A lua crescia, a lua minguava; a cada vez Else vinha perguntar:

— Você não o vê chegando?

— Sei muitas coisas! — dizia Stine. — E vejo muitas coisas, mas não consigo ver a distância que ele tem de percorrer. Agora já passou as primeiras montanhas! Agora está no mar, em mau tempo! O caminho é longo por grandes florestas; ele tem bolhas nos pés, tem febre no corpo, mas tem de seguir.

— Não! Não! — dizia Else. — Tenho pena dele!

— Agora não se pode detê-lo! Pois, se fizermos isso, ele cairá morto na estrada!

Ano e dia haviam passado. A lua brilhava redonda e grande, o vento sussurrava na velha árvore, um arco-íris apareceu no céu ao luar.

— É o sinal da confirmação! — disse Stine. — Agora vem Rasmus.

Mas ele não vinha.

— A espera é longa! — disse Stine.

— Agora estou cansada disso! — disse Else.

Ela passou a ir menos à casa de Stine, não lhe levava nenhum presente novo.

Seu ânimo ficou mais leve, e uma bela manhã todos na paróquia souberam que Else dissera sim ao lavrador mais rico.

Ela foi ver a fazenda e as terras, o gado e os móveis. Tudo estava em boa ordem, não havia por que esperar para o casamento.

O casamento foi celebrado com uma grande festa de três dias. Houve dança ao som de clarinete e violinos. Ninguém na paróquia foi esquecido no convite. A mãe Ølse também estava lá; e, quando a pompa terminou, os encarregados da festa agradeceram aos convidados e as trombetas deram o toque final, ela foi para casa com as sobras do banquete.

Tinha fechado a porta apenas com uma vareta; tinham-na tirado, a porta estava aberta, e na sala estava sentado Rasmus. Voltara para casa, chegara naquela mesma hora. Meu Deus, em que estado estava, só pele e osso, pálido e amarelo!

— Rasmus! — disse a mãe. — É você que estou vendo? Como está mal! Mas meu coração está contente por ter você!

E deu-lhe da boa comida que trouxera da festa, um pedaço de assado e de torta de casamento.

Nos últimos tempos, disse ele, pensara muitas vezes na mãe, na terra natal e no velho salgueiro. Era estranho quantas vezes vira em sonhos aquela árvore e Johanne de pernas nuas.

Não mencionou Else nem uma vez. Estava doente e teve de ir para a cama; mas não acreditamos que o caldeirão fosse culpado disso ou que tivesse exercido algum poder sobre ele; só a velha Stine e Else acreditavam nisso, mas não falavam a respeito.

Rasmus ardia em febre, e ela era contagiosa; por isso ninguém ia à casa do alfaiate, a não ser Johanne, a filha do tamanqueiro. Ela chorou ao ver como Rasmus estava mal.

O médico lhe receitou remédios da farmácia; ele não queria tomá-los.

— De que adianta? — dizia.

— Assim você vai sarar! — dizia a mãe. — Segure-se firme em si mesmo e em Nosso Senhor! Se eu pudesse voltar a ver você criar carne no corpo, ouvir você assobiar e cantar, daria minha vida de bom grado!

E Rasmus se livrou da doença, mas a mãe a contraiu; Nosso Senhor chamou por ela, não por ele.

A casa ficou solitária, ali dentro a pobreza aumentou.

— Está acabado! — diziam na paróquia. — Pobre Rasmus.

Levara uma vida desregrada em suas viagens; aquilo, e não o caldeirão preto que fervia, lhe sugara a medula e lhe dera inquietação no corpo. Os cabelos ficaram ralos e grisalhos; não tinha vontade de fazer trabalho de verdade.

— De que adianta? — dizia.

Preferia procurar a estalagem a procurar a igreja.

Numa noite de outono, sob chuva e vento, vinha a custo pelo caminho enlameado, da estalagem para casa; sua mãe já partira havia muito tempo, posta na sepultura. As andorinhas e o estorninho, aqueles bichos fiéis, também tinham partido; Johanne, a filha do tamanqueiro, não partira; alcançou-o no caminho e o acompanhou por um trecho.

— Reaja, Rasmus!

— De que adianta? — disse ele.

— É um mau dito esse seu! — disse ela. — Lembre-se das palavras de sua mãe: segure-se em si mesmo e em Nosso Senhor! Você não faz isso, Rasmus! É preciso fazer, é dever fazer. Nunca diga “de que adianta?”, pois assim você arranca a raiz de tudo o que faz!

Ela o acompanhou até a porta de casa e ali se despediu. Ele não ficou lá dentro; foi até o velho salgueiro e sentou-se numa pedra do marco de milha caído.

O vento sussurrava nos galhos da árvore; era como um canto, era como uma fala. Rasmus lhe respondeu; falou alto, mas ninguém o ouviu, a não ser a árvore e o vento que sussurrava.

— Vem sobre mim um frio tão grande! Deve ser hora de ir para a cama. Dormir! Dormir!

E foi, mas não em direção à casa: foi para a lagoa, onde cambaleou e caiu. A chuva caía em torrentes, o vento era de um frio cortante, ele não o sentia; mas, quando o sol nasceu e os corvos voaram sobre os juncos da lagoa, acordou, com o corpo quase morto. Se tivesse deitado a cabeça onde estavam os pés, nunca mais teria se levantado; as verdes lentilhas-d'água teriam sido sua mortalha.

Mais tarde naquele dia Johanne foi à casa do alfaiate. Ela foi seu socorro; conseguiu levá-lo ao hospital.

— Nós nos conhecemos desde pequenos — disse ela. — Sua mãe me deu cerveja e comida; nunca poderei retribuir-lhe isso! Você vai recuperar a saúde, vai tornar-se uma pessoa capaz de viver!

E Nosso Senhor quis que ele vivesse. Mas a saúde e o ânimo tinham altos e baixos.

As andorinhas e o estorninho vinham, partiam e voltavam; Rasmus envelheceu antes do tempo. Ficava sentado sozinho na casa, que se arruinava cada vez mais. Era pobre, agora mais pobre que Johanne.

— Você não tem fé — dizia ela —, e, se não temos Nosso Senhor, o que temos? Devia ir comungar! — dizia. — Você provavelmente não vai desde a confirmação.

— Sim, de que adianta? — disse ele.

— Se você diz isso e acredita nisso, então deixe estar! O Senhor não quer à sua mesa um convidado que vai contra a vontade. Mas pense em sua mãe e em seu tempo de criança! Naquela época você era um menino bom e piedoso. Posso recitar um hino para você?

— De que adianta? — disse ele.

— Ele sempre me consola! — respondeu ela.

— Johanne, você deve ter virado uma das beatas!

E olhou para ela com os olhos baços e cansados.

E Johanne recitou o hino, mas não o leu num livro: não tinha nenhum, sabia-o de cor.

— Eram palavras bonitas! — disse ele. — Mas não consegui acompanhar tudo. Sinto tanto peso dentro da cabeça!

Rasmus se tornara um velho, mas Else também já não era jovem, se devemos mencioná-la; Rasmus nunca a mencionava. Ela era avó; sua neta era uma menininha atrevida, que brincava com as outras crianças da aldeia. Rasmus chegou apoiado na bengala, parou, olhou a brincadeira das crianças, sorriu para elas; os velhos tempos iluminaram seus pensamentos. A neta de Else apontou para ele:

— Pobre Rasmus! — gritou.

As outras menininhas seguiram o exemplo dela.

— Pobre Rasmus! — gritavam, perseguindo o velho com seus gritos.

Foi um dia cinzento e pesado, a que se seguiram outros; mas, depois de dias cinzentos e pesados, também vem um dia de sol.

Era uma bela manhã de Pentecostes; a igreja estava enfeitada com verdes ramos de bétula, havia ali dentro um perfume de floresta, e o sol brilhava sobre os bancos. Os grandes círios do altar estavam acesos, havia comunhão, Johanne estava entre os que se ajoelhavam, mas Rasmus não estava entre eles. Justamente naquela manhã Nosso Senhor o chamara.

Em Deus há graça e misericórdia.

Muitos anos se passaram desde então; a casa do alfaiate ainda está lá, mas ninguém mora nela; pode cair à primeira tempestade noturna. A lagoa está tomada por caniços e trifólios-d'água. O vento sussurra na velha árvore; é como se ouvíssemos uma canção; o vento a canta, a árvore a conta; se você não a entende, pergunte à velha Johanne no asilo dos pobres.

Ela vive ali, canta seu hino, aquele que cantou para Rasmus, pensa nele, reza por ele a Nosso Senhor, ela, aquela alma fiel. Pode contar sobre o tempo que passou, as lembranças que sussurram na velha árvore.


Sobre esta edição

Obra
Hvad gamle Johanne fortalte
Autoria original
Hans Christian Andersen
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

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Hvad gamle Johanne fortalte

Eventyr og Historier · Femte Bind · Anden Udgave · 1894 · Dinamarquês · Femte Bind · Anden Udgave · edição póstuma
Volume Femte Bind. Página 230–253. Consultar esta edição ↗

O que a velha Johanne contou

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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