AsVerdadeiras HistóriasOs contos originais, em nossa língua

EK 30

Os sapatos vermelhos

Hans Christian Andersen

De røde Skoe

Sobre este conto

Karen, uma menina pobre, recebe sapatos vermelhos feitos de retalhos no dia do enterro da mãe. Uma senhora idosa a acolhe e manda queimar aqueles sapatos. Mais tarde, Karen admira o calçado de uma princesa e escolhe outro par vermelho para sua confirmação, sem que a protetora perceba a cor. Seu fascínio pelos sapatos interfere nas cerimônias religiosas e nas obrigações da casa.

Personagens e estrutura
Personagens
Karen, A mãe de Karen, enterrada no início, A velha mulher do sapateiro, A senhora idosa que acolhe Karen, A rainha e sua filha princesa, O rico sapateiro da cidade, O velho soldado de barba vermelha, O pastor, sua mulher e as crianças da casa, O anjo de Deus, O carrasco
Onde se passa
Uma aldeia e uma cidade com igreja, cemitério e salão de baile; floresta, campos e charneca; a casa isolada do carrasco e a casa do pastor, incluindo o quarto de Karen.
Acontecimentos
  1. Karen recebe o primeiro par vermelho no enterro da mãe. Uma senhora a acolhe e manda queimá-lo; depois Karen escolhe outro par para a confirmação.
  2. Após a comunhão, suas pernas continuam dançando até lhe retirarem os sapatos. Mais tarde ela deixa a protetora doente para ir a um baile.
  3. Os sapatos a levam sem parar pela floresta e pelo cemitério. Um anjo lhe anuncia a dança como castigo; ela depois vê o funeral da protetora.
  4. A pedido de Karen, o carrasco amputa seus pés com os sapatos, que continuam dançando. Ele lhe dá pernas de madeira, muletas e ensina um salmo.
  5. Karen tenta duas vezes ir à igreja, mas os sapatos aparecem diante dela. Arrependida, passa a trabalhar na casa do pastor e a ouvir a Bíblia.
  6. O anjo reaparece com um ramo de rosas; quarto e igreja se unem, ou Karen é levada até ela. Seu coração se rompe e sua alma voa para Deus.
Desfecho
Sozinha no quarto, Karen lê seu livro de salmos e pede ajuda a Deus. O anjo reaparece sem espada, com um ramo verde cheio de rosas. O anjo toca o teto e as paredes com o ramo, e eles se expandem: a igreja veio ao quarto, ou Karen foi até a igreja. A família do pastor a acolhe; ela atribui sua presença à graça. Seu coração se enche de sol, paz e alegria e se rompe. Sua alma voa para Deus na luz do sol, e ali ninguém pergunta pelos sapatos vermelhos.

Havia uma menininha tão delicada e tão graciosa, mas no verão precisava andar sempre descalça, porque era pobre, e no inverno com grandes tamancos, de modo que o peito do pezinho ficava todo vermelho, uma coisa horrível de se ver.

No meio da aldeia morava a velha mulher do sapateiro; ela costurava, tão bem quanto podia, um par de sapatinhos com velhas tiras de tecido vermelho. Eram bastante desajeitados, mas feitos com boa intenção, e seriam dados à menininha. A menina se chamava Karen.

Justamente no dia em que sua mãe foi enterrada, recebeu os sapatos vermelhos e os usou pela primeira vez. Não eram, na verdade, calçados para o luto, mas ela não tinha outros e assim os levou, com as pernas nuas, seguindo o pobre caixão de palha.

Nesse instante chegou uma grande carruagem velha, na qual estava sentada uma grande senhora idosa; ela olhou para a menininha e sentiu pena, e disse ao pastor: “Escute, dê-me essa menininha, que serei boa para ela!”

E Karen pensou que tudo aquilo fosse por causa dos sapatos vermelhos; mas a velha senhora disse que eram horríveis, e eles foram queimados. Karen, porém, foi vestida com limpeza e cuidado; teve de aprender a ler e a costurar, e as pessoas diziam que ela era graciosa, mas o espelho dizia: “Você é muito mais que graciosa, é linda!”

Certa vez a rainha viajou pelo país e levou consigo sua filhinha, que era princesa. As pessoas se aglomeraram diante do castelo, e Karen também estava lá; a princesinha apareceu numa janela com suas roupas brancas e se deixou admirar. Não tinha cauda no vestido nem coroa de ouro, mas lindos sapatos vermelhos de marroquim; eram, sem dúvida, bem mais elegantes que os que a mulher do sapateiro costurara para a pequena Karen. Nada no mundo se podia comparar a sapatos vermelhos!

Agora Karen já tinha idade para ser confirmada; ganhou roupas novas e também devia ganhar sapatos novos. O rico sapateiro da cidade tirou as medidas de seu pezinho; foi na sala da própria casa dele, onde havia grandes armários envidraçados com sapatos encantadores e botas lustrosas. Tudo parecia bonito, mas a velha senhora não enxergava bem e por isso não tirava prazer daquilo. Entre os sapatos havia um par vermelho, exatamente como o que a princesa usara: como eram bonitos! O sapateiro disse ainda que tinham sido feitos para um filho de conde, mas não haviam servido.

“Deve ser couro envernizado!”, disse a velha senhora. “Como brilham!”

“Sim, brilham!”, disse Karen. E serviram, e foram comprados; mas a velha senhora não sabia que eram vermelhos, pois nunca teria permitido que Karen fosse à confirmação com sapatos vermelhos, mas foi o que ela fez.

Todos olhavam para seus pés, e, enquanto ela caminhava pela igreja até a porta do coro, parecia-lhe que até as velhas imagens sobre as sepulturas, aqueles retratos de pastores e de mulheres de pastores com golas duras e longas roupas pretas, fixavam os olhos nos seus sapatos vermelhos. E só neles pensava quando o pastor pôs a mão em sua cabeça e falou do santo batismo, da aliança com Deus e de que agora ela devia ser uma pessoa cristã adulta. O órgão tocava tão solenemente, as belas vozes infantis cantavam, e o velho cantor da igreja cantava, mas Karen só pensava nos sapatos vermelhos.

À tarde, a velha senhora soube por toda a gente que os sapatos tinham sido vermelhos, e disse que aquilo era feio, que não era apropriado e que dali em diante Karen devia sempre ir à igreja com sapatos pretos, mesmo que fossem velhos.

No domingo seguinte havia comunhão. Karen olhou para os sapatos pretos, olhou para os vermelhos — e então olhou de novo para os vermelhos e calçou os vermelhos.

Fazia um belo dia de sol; Karen e a velha senhora seguiam pelo caminho entre os cereais; levantava-se um pouco de poeira.

À porta da igreja estava um velho soldado com uma muleta e uma barba estranhamente comprida, mais vermelha que branca, pois era vermelha; ele se curvou até o chão e perguntou à velha senhora se podia limpar seus sapatos. Karen também estendeu o pezinho. “Vejam que belos sapatos de dança!”, disse o soldado. “Fiquem bem presos quando dançarem!” E bateu com a mão nas solas.

A velha senhora deu ao soldado um pequeno skilling e entrou na igreja com Karen.

E todos lá dentro olhavam para os sapatos vermelhos de Karen, e todas as imagens olhavam para eles. Quando Karen se ajoelhou diante do altar e levou o cálice de ouro à boca, só pensava nos sapatos vermelhos; era como se os visse nadar dentro do cálice. E se esqueceu de cantar seu salmo, esqueceu-se de rezar seu pai-nosso.

Então todos saíram da igreja, e a velha senhora subiu na carruagem. Karen ergueu o pé para subir atrás dela; nesse instante o velho soldado, que estava bem perto, disse: “Vejam que belos sapatos de dança!” Karen não pôde resistir, teve de dar alguns passos de dança, e, quando começou, as pernas continuaram dançando, como se os sapatos tivessem adquirido poder sobre elas. Dançou ao redor da esquina da igreja, sem poder parar; o cocheiro teve de correr atrás dela e agarrá-la, e a ergueu para dentro da carruagem, mas os pés continuaram dançando, de modo que ela deu terríveis pontapés na boa velha senhora. Por fim conseguiram tirar-lhe os sapatos, e as pernas sossegaram.

Em casa os sapatos foram postos num armário, mas Karen não conseguia deixar de olhar para eles.

Agora a velha senhora estava de cama, doente; diziam que não sobreviveria. Precisava de cuidados e atenção, e ninguém estava mais próximo para isso que Karen; mas na cidade havia um grande baile, para o qual Karen fora convidada. — Ela olhou para a velha senhora, que afinal não sobreviveria, olhou para os sapatos vermelhos, e nisso achou que não havia pecado algum. — Calçou os sapatos vermelhos, isso ela bem podia fazer. — Mas então foi ao baile, e então começou a dançar.

Mas, quando queria ir para a direita, os sapatos dançavam para a esquerda; quando queria subir pelo salão, os sapatos dançavam para baixo, desciam a escada, seguiam pela rua e saíam pelo portão da cidade. Ela dançava e tinha de dançar, direto para a floresta escura.

Algo brilhou entre as árvores lá no alto, e ela pensou que fosse a lua, pois era um rosto; mas era o velho soldado de barba vermelha. Estava sentado, fazendo sinais com a cabeça, e dizia: “Vejam que belos sapatos de dança!”

Ela então se apavorou e quis jogar fora os sapatos vermelhos, mas eles estavam presos; rasgou as meias para tirá-las, mas os sapatos tinham crescido grudados a seus pés. Ela dançava e tinha de dançar, pelos campos e prados, na chuva e ao sol, de noite e de dia, mas à noite era mais horrível.

Dançou para dentro do cemitério aberto, mas os mortos ali não dançavam, tinham coisa muito melhor para fazer do que dançar. Queria se sentar na sepultura do pobre, onde crescia o amargo tanaceto, mas para ela não havia paz nem descanso. Quando dançou na direção da porta aberta da igreja, viu ali um anjo de longas vestes brancas, com asas que lhe chegavam dos ombros até o chão; seu rosto era severo e sério, e na mão segurava uma espada tão larga e reluzente.

“Você vai dançar!”, disse ele. “Dançar com seus sapatos vermelhos até ficar pálida e fria, até sua pele se encolher como um esqueleto! Vai dançar de porta em porta, e onde morarem crianças orgulhosas e vaidosas, você deve bater, para que a ouçam e a temam! Vai dançar, dançar — —”

“Misericórdia!”, gritou Karen. Mas não ouviu o que o anjo respondeu, pois os sapatos a levaram pelo portão, para o campo, por estradas e caminhos, e sempre tinha de dançar.

Certa manhã dançou diante de uma porta que conhecia bem; lá dentro se ouviam salmos, e carregavam para fora um caixão enfeitado de flores. Soube então que a velha senhora havia morrido, e lhe pareceu que agora estava abandonada por todos e amaldiçoada pelo anjo de Deus.

Dançava e tinha de dançar, dançar na noite escura. Os sapatos a carregavam sobre espinhos e tocos, e ela se rasgava até sangrar. Dançou pela charneca até uma casinha isolada. Sabia que ali morava o carrasco; bateu com o dedo na vidraça e disse:

“Saia! — Saia! — Não posso entrar porque estou dançando!”

E o carrasco disse: “Você não deve saber quem eu sou! Corto a cabeça dos maus, e sinto que meu machado está tremendo!”

“Não corte minha cabeça!”, disse Karen, “porque assim não poderei me arrepender do meu pecado! Mas corte meus pés com os sapatos vermelhos.”

Então ela confessou todo o seu pecado, e o carrasco cortou seus pés com os sapatos vermelhos; mas os sapatos dançaram com os pezinhos pelo campo, para dentro da floresta profunda.

Ele lhe entalhou pernas de madeira e muletas, ensinou-lhe um salmo, o que os pecadores sempre cantam; ela beijou a mão que manejara o machado e atravessou a charneca.

“Agora já sofri bastante por causa dos sapatos vermelhos!”, disse ela. “Agora vou à igreja, para que possam me ver!” E seguiu bem depressa para a porta da igreja; mas, ao chegar, os sapatos vermelhos dançavam diante dela, e ela se apavorou e voltou.

Passou a semana inteira triste e chorou muitas lágrimas pesadas, mas, quando chegou o domingo, disse: “Pronto! Agora já sofri e lutei bastante! Creio que sou tão boa quanto muitos dos que ficam empinados lá dentro da igreja!” E seguiu cheia de coragem; mas não passou do portão, pois viu os sapatos vermelhos dançarem à sua frente, apavorou-se, voltou e se arrependeu de seu pecado de verdade, no coração.

Foi à casa do pastor e perguntou se podia trabalhar ali; seria diligente e faria tudo o que pudesse, não se importava com o salário, contanto que tivesse um teto e pudesse estar com boas pessoas. A mulher do pastor teve pena dela e lhe deu trabalho. Ela era diligente e pensativa. Ficava sentada em silêncio, escutando, quando à noite o pastor lia a Bíblia em voz alta. Todos os pequenos gostavam muito dela, mas, quando falavam de enfeites, luxo e de ser bonita como uma rainha, ela balançava a cabeça.

No domingo seguinte todos foram à igreja e perguntaram se ela queria ir, mas ela olhou tristemente para suas muletas, com lágrimas nos olhos. Então os outros foram ouvir a palavra de Deus, mas ela entrou sozinha no seu quartinho, que mal comportava uma cama e uma cadeira. Ali se sentou com seu livro de salmos; enquanto lia com espírito devoto, o vento lhe trazia da igreja os sons do órgão. Ergueu o rosto em lágrimas e disse: “Ah, que Deus me ajude!”

O sol então brilhou tão claro, e bem diante dela estava o anjo de Deus de vestes brancas, aquele que vira naquela noite à porta da igreja. Mas ele já não segurava a espada afiada, e sim um belo ramo verde cheio de rosas. Com ele tocou o teto, que se elevou muito; onde havia tocado, brilhava uma estrela de ouro. Tocou as paredes, e elas se alargaram, e ela viu o órgão que tocava, viu as velhas imagens de pastores e de mulheres de pastores; a congregação estava sentada nos bancos enfeitados e cantava pelo livro de salmos, pois a própria igreja tinha ido até a pobre menina no seu quartinho estreito, ou então ela é que tinha ido até lá. Estava sentada no banco com os outros da casa do pastor e, quando terminaram o salmo e ergueram os olhos, fizeram-lhe um sinal e disseram: “Foi bom você ter vindo, Karen!”

“Foi a graça!”, disse ela.

E o órgão soava, e as vozes infantis no coro eram tão suaves e belas. O sol claro entrava tão quente pela janela até o banco da igreja onde Karen estava sentada; seu coração ficou tão cheio de sol, de paz e de alegria que se rompeu; sua alma voou na luz do sol para Deus, e lá ninguém perguntou pelos sapatos vermelhos.


Sobre esta edição

Obra
De røde Skoe
Autoria original
Hans Christian Andersen
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

Conheça as edições desta história e consulte os textos de origem.

De røde Sko

H. C. Andersens Eventyr og Historier · Jubilæumsudgave for danske Børn · Første Bind · 1905 · Dinamarquês · Jubilæumsudgave for danske Børn · Første Bind
Volume I. Página 326–332. Consultar esta edição ↗
Ler o original em dinamarquês

Fonte deste texto ↗

Der var en lille Pige, saa fin og saa nydelig, men om Sommeren maatte hun altid gaa med bare Fødder, for hun var fattig, og om Vinteren med store Træsko, saa at den lille Vrist blev ganske rød, og det saa grueligt.

Midt i Bondebyen boede den gamle Mor Skomagers; hun sad og syede, saa godt hun kunde det, af røde, gamle Klædesstrimler et Par smaa Sko, ganske kluntede, men godt mente vare de, og dem skulde den lille Pige have. Den lille Pige hed Karen.

Just den Dag hendes Moder blev begravet, fik hun de røde Sko og havde dem første Gang paa; det var jo rigtignok ikke noget at sørge med, men hun havde nu ingen andre, og saa gik hun med bare Ben i dem bag efter den fattige Straakiste.

Da kom der i det samme en stor, gammel Vogn, og i den sad der en stor, gammel Frue; hun saa paa den lille Pige og havde ondt af hende, og saa sagde hun til Præsten: »Hør, giv mig den lille Pige, saa skal jeg være god imod hende!«

Og Karen troede, det var alt sammen for de røde Sko, men den gamle Frue sagde, at de vare gruelige, og de bleve brændte, men Karen selv blev klædt paa rent og net; hun maatte lære at læse og sy, og Folk sagde, at hun var nydelig, men Spejlet sagde: »Du er meget mere end nydelig, du er dejlig!«

Da rejste Dronningen engang gennem Landet, og hun havde med sig sin lille Datter, der var en Prinsesse, og Folk strømmede til uden for Slottet, og der var da Karen ogsaa, og den lille Prinsesse stod i sine hvide Klæder i et Vindue og lod sig se paa; hun havde hverken Slæb eller Guldkrone, men dejlige røde Saffians Sko; de vare rigtignok anderledes nette, end de Mor Skomagers havde syet til lille Karen. Intet i Verden kunde dog lignes ved røde Sko!

Nu var Karen saa gammel, at hun skulde konfirmeres; ny Klæder fik hun, og ny Sko skulde hun ogsaa have. Den rige Skomager inde i Byen tog Maal af hendes lille Fod; det var hjemme i hans egen Stue, og der stod store Glasskabe med yndige Sko og blanke Støvler. Det saa nydeligt ud; men den gamle Frue saa ikke godt, og saa havde hun ingen Fornøjelse deraf; midt imellem Skoene stod et Par røde, ganske som de Prinsessen havde baaret; hvor de vare smukke! Skomageren sagde ogsaa, at de vare syede til et Grevebarn, men de havde ikke passet.

»Det er nok Blanklæder!« sagde den gamle Frue, »de skinne!«

»Ja, de skinne!« sagde Karen; og de passede, og de bleve købte; men den gamle Frue vidste ikke af, at de vare røde, thi hun havde aldrig tilladt Karen at gaa til Konfirmation med røde Sko, men det gjorde hun nu.

Alle Mennesker saa paa hendes Fødder, og da hun gik op ad Kirkegulvet til Kordøren, syntes hun, at selv de gamle Billeder paa Begravelserne, disse Portrætter af Præster og Præstekoner, med stive Kraver og lange, sorte Klæder, hæftede Øjnene paa hendes røde Sko, og kun paa disse tænkte hun, da Præsten lagde sin Haand paa hendes Hoved og talte om den hellige Daab, om Pagten med Gud, og at hun nu skulde være et stort, kristent Menneske; og Orgelet spillede saa højtideligt, de smukke Børnestemmer sang, og den gamle Kantor sang, men Karen tænkte kun paa de røde Sko.

Om Eftermiddagen vidste da den gamle Frue af alle Mennesker, at Skoene havde været røde, og hun sagde, at det var stygt, at det passede sig ikke, og at Karen herefter, naar hun gik i Kirke, skulde altid gaa med sorte Sko, selv om de vare gamle.

Næste Søndag var der Altergang, og Karen saa paa de sorte Sko, hun saa paa de røde — og saa saa hun paa de røde igen og tog de røde paa.

Det var dejligt Solskinsvejr; Karen og den gamle Frue gik ad Stien gennem Kornet; der støvede det lidt.

Ved Kirkedøren stod en gammel Soldat med en Krykkestok og med et underligt langt Skæg, det var mere rødt end hvidt, for det var rødt; og han bøjede sig lige ned til Jorden og spurgte den gamle Frue, om han maatte tørre hendes Sko af. Og Karen strakte ogsaa sin lille Fod ud. »Se hvilke dejlige Dansesko!« sagde Soldaten, »sid fast, naar I danse!« og saa slog han med Haanden paa Saalerne.

Og den gamle Frue gav Soldaten en lille Skilling, og saa gik hun med Karen ind i Kirken.

Og alle Mennesker derinde saa paa Karens røde Sko, og alle Billederne saa paa dem, og da Karen knælede for Alteret og satte Guldkalken for sin Mund, tænkte hun kun paa de røde Sko, og det var, som de svømmede om i Kalken for hende; og hun glemte at synge sin Psalme, hun glemte at læse sit »Fadervor«.

Nu gik alle Folk fra Kirke, og den gamle Frue steg ind i sin Vogn. Karen løftede Foden for at stige bag efter, da sagde den gamle Soldat, som stod tæt ved: »Se hvilke dejlige Dansesko!« og Karen kunde ikke lade være, hun maatte gøre nogle Dansetrin, og da hun begyndte, bleve Benene ved at danse, det var, ligesom Skoene havde faaet Magt over dem; hun dansede omkring Kirkehjørnet, hun kunde ikke lade være, Kusken maatte løbe bag efter og tage fat paa hende, og han løftede hende ind i Vognen, men Fødderne bleve ved at danse, saa hun sparkede saa grueligt den gode, gamle Frue. Endelig fik de Skoene af, og Benene kom i Ro.

Hjemme bleve Skoene satte op i et Skab, men Karen kunde ikke lade være at se paa dem.

Nu laa den gamle Frue syg, de sagde, at hun kunde ikke leve; plejes og passes skulde hun, og ingen var nærmere til det end Karen; men henne i Byen var der et stort Bal, Karen var inviteret; — hun saa paa den gamle Frue, der jo dog ikke kunde leve, hun saa paa de røde Sko, og det syntes hun, der ingen Synd var i; — hun tog de røde Sko paa, det kunde hun jo ogsaa nok; — men saa gik hun paa Bal, og saa begyndte hun at danse.

Men da hun vilde til højre, saa dansede Skoene til venstre, og da hun vilde op ad Gulvet, saa dansede Skoene ned ad Gulvet, ned ad Trappen, gennem Gaden og ud af Byens Port. Danse gjorde hun, og danse maatte hun, lige ud i den mørke Skov.

Da skinnede det oppe mellem Træerne, og hun troede, at det var Maanen, for det var et Ansigt, men det var den gamle Soldat med det røde Skæg; han sad og nikkede og sagde: »Se hvilke dejlige Dansesko!«

Da blev hun forfærdet og vilde kaste de røde Sko, men de hang fast, og hun flængede sine Strømper af, men Skoene vare voksede fast til hendes Fødder, og danse gjorde hun, og danse maatte hun, over Mark og Eng, i Regn og Solskin, ved Nat og ved Dag, men om Natten var det grueligst.

Hun dansede ind paa den aabne Kirkegaard, men de døde der dansede ikke, de havde noget meget bedre at bestille end at danse; hun vilde sætte sig paa den fattiges Grav, hvor den bitre Regnfang groede, men for hende var ikke Ro eller Hvile, og da hun dansede hen imod den aabne Kirkedør, saa hun der en Engel i lange, hvide Klæder, med Vinger, som naaede ham fra Skuldrene ned til Jorden, hans Ansigt var strengt og alvorligt, og i Haanden holdt han et Sværd, saa bredt og skinnende.

»Danse skal du!« sagde han, »danse paa dine røde Sko, til du bliver bleg og kold, til din Hud skrumper sammen som en Benrad! danse skal du fra Dør til Dør, og hvor der bo stolte, forfængelige Børn, skal du banke paa, saa at de høre dig og frygte dig! Danse skal du, danse — —«

»Naade!« raabte Karen. Men hun hørte ikke, hvad Engelen svarede, thi Skoene bar hende gennem Laagen, ud paa Marken, over Vej og over Sti, og altid maatte hun danse.

En Morgenstund dansede hun forbi en Dør, hun kendte godt; indenfor lød Psalmesang, de bar en Kiste ud, som var pyntet med Blomster; da vidste hun, at den gamle Frue var død, og hun syntes, at nu var hun forladt af alle og forbandet af Guds Engel.

Danse gjorde hun, og danse maatte hun, danse i den mørke Nat. Skoene bar hende af Sted over Tjørne og Stubbe, og hun rev sig til Blods, og hun dansede hen over Heden til et lille, ensomt Hus. Her vidste hun, at Skarpretteren boede, og hun bankede med Fingeren paa Ruden og sagde:

»Kom ud! — kom ud! — Jeg kan ikke komme ind, for jeg danser!«

Og Skarpretteren sagde: »Du veed nok ikke, hvem jeg er? Jeg hugger Hovedet af de onde Mennesker, og jeg kan mærke, at min Økse dirrer!«

»Hug ikke Hovedet af mig!« sagde Karen, »for saa kan jeg ikke angre min Synd! men hug mine Fødder af med de røde Sko.«

Og saa skriftede hun hele sin Synd, og Skarpretteren huggede Fødderne med de røde Sko af hende; men Skoene dansede med de smaa Fødder hen over Marken ind i den dybe Skov.

Og han snittede hende Træben og Krykker, lærte hende en Psalme, den Synderne altid synge, og hun kyssede den Haand, som havde ført Øksen, og gik hen over Heden.

»Nu har jeg lidt nok for de røde Sko!« sagde hun, »nu vil jeg gaa i Kirke, at de kunne se mig!« og hun gik nok saa rask mod Kirkedøren, men da hun kom der, dansede de røde Sko foran hende, og hun blev forfærdet og vendte om.

Hele Ugen igennem var hun bedrøvet og græd mange, tunge Taarer, men da det blev Søndag, sagde hun: »Se saa! nu har jeg lidt og stridt nok! jeg skulde tro, at jeg er lige saa god som mange af dem, der sidde og knejse derinde i Kirken!« og saa gik hun nok saa modig; men hun kom ikke længer end til Laagen, da saa hun de røde Sko danse foran sig, og hun forfærdedes og vendte om og angrede ret i Hjertet sin Synd.

Og hun gik hen til Præstegaarden og bad, om hun maatte komme i Tjeneste der, flittig vilde hun være og gøre alt hvad hun kunde, paa Lønnen saa hun ikke, kun at hun maatte faa Tag over Hovedet og være hos gode Mennesker. Og Præstekonen havde ondt af hende og gav hende Tjeneste. Og hun var flittig og tankefuld. Stille sad hun og hørte til, naar om Aftenen Præsten læste højt af Bibelen. Alle de smaa holdt meget af hende, men naar de talte om Pynt og Stads og at være dejlig som en Dronning, rystede hun med Hovedet.

Næste Søndag gik de alle til Kirke, og de spurgte hende, om hun vilde med, men hun saa bedrøvet, med Taarer i Øjnene, paa sine Krykker, og saa gik de andre hen at høre Guds Ord, men hun gik alene ind i sit lille Kammer; det var ikke større, end at der kunde staa en Seng og en Stol, og her satte hun sig med sin Psalmebog; og alt som hun med fromt Sind læste i den, bar Vinden Orgeltonerne fra Kirken over til hende, og hun løftede med Taarer sit Ansigt og sagde: »Oh, Gud hjælpe mig!«

Da skinnede Solen saa klart, og lige foran hende stod den Guds Engel i de hvide Klæder, ham, hun hin Nat havde set i Kirkedøren, men han holdt ikke længer det skarpe Sværd, men en dejlig grøn Gren, der var fuld af Roser, og han rørte med den ved Loftet, og det hævede sig saa højt, og hvor han havde rørt, skinnede der en Guldstjerne, og han rørte ved Væggene, og de udvidede sig, og hun saa Orgelet, som spillede, hun saa de gamle Billeder med Præster og Præstekoner; Menigheden sad i de pyntede Stole og sang af Psalmebogen, for Kirken var selv kommen hjem til den stakkels Pige i det lille, snævre Kammer, eller ogsaa var hun kommen der hen; hun sad i Stolen hos de andre Præstens Folk, og da de havde endt Psalmen og saa op, nikkede de og sagde: »Det var ret, du kom, Karen!«

»Det var Naade!« sagde hun.

Og Orgelet klang, og Børnestemmerne i Koret lød saa blødt og dejligt. Det klare Solskin strømmede saa varmt gennem Vinduet ind i Kirkestolen, hvor Karen sad; hendes Hjerte blev saa fuldt af Solskin, af Fred og Glæde, at det brast; hendes Sjæl fløj paa Solskin til Gud, og der var der ingen, som spurgte om de røde Sko.

Os sapatos vermelhos

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
Consultar esta edição ↗
Encontrou um erro?

Uma palavra, uma passagem, uma referência: sua observação chega à mesa editorial vinculada à edição 1.0.0 que você leu.