GB 006

Peruonto

Giambattista Basile

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Peruonto

Terceiro entretenimento da primeira jornada

Peruonto, pobre-diabo de primeira qualidade, vai buscar um feixe de lenha no bosque e faz uma gentileza a três jovens que dormem ao sol; recebe deles um encantamento e, escarnecido pela filha do rei, lança-lhe a maldição de que fique grávida dele. Isso acontece e, ao saber que ele é o pai das crianças, o rei o põe num barril com a mulher e os filhos e os lança ao mar; mas, pela virtude de seu encantamento, ele se livra do perigo e, transformado num belo jovem, torna-se rei.

Todas mostraram ter sentido grande prazer pela consolação recebida pelo pobre príncipe e pelo castigo daquela mulher malvada; mas, como cabia a Meneca continuar a conversa, cessaram os comentários das outras, e ela começou a contar o sucedido que vem a seguir.

Nunca se perdeu o bem que se faz: quem semeia cortesias colhe benefícios, e quem planta gentilezas recolhe demonstrações de amor. O favor feito a uma alma agradecida jamais foi estéril: gera gratidão e dá à luz recompensas; nas contínuas ações dos homens veem-se provas abundantes disso, e vocês verão um exemplo no conto que estou com vontade de lhes fazer ouvir.

Uma boa mulher de Casoria, chamada Ceccarella, tinha um filho chamado Peruonto, que era a criatura mais desgraçada, o maior paspalhão e o mais solene pateta que a natureza já criara. Por isso, a pobre mãe ficava com o coração mais negro que um trapo de cozinha e amaldiçoava mil vezes por dia aquele joelho que escancarara a porta a esse papa-moscas, que não prestava nem para um coalho de cachorro. Pouco adiantava à infeliz gritar e abrir a garganta, pois o mandrião não se levantava de cagar para lhe fazer um maldito serviço. Por fim, depois de mil aturdimentos de cabeça, mil ataques de raiva, mil dize-que-dizes, gritos hoje e berros amanhã, conseguiu levá-lo a ir ao bosque buscar um feixe de lenha, dizendo-lhe:

— Já é hora de nos enchermos com algum bocado. Corra buscar essa lenha, não se esqueça pelo caminho e venha depressa, que queremos cozinhar quatro talos de couve refogados para ir arrastando esta vida.

Partiu o malandro do Peruonto, e partiu como um condenado à morte entre os irmãos de uma confraria; partiu e caminhou como se andasse sobre ovos, com passo de pega, contando as pisadas, indo devagar, devagar, com cuidado, com cuidado, aos pouquinhos, arrastando o passo pelo caminho do bosque, para só voltar quando voltasse o corvo. Quando chegou ao meio de certo campo, por onde corria um rio que ia fervilhando e murmurando da pouca consideração das pedras que lhe impediam a passagem, encontrou três rapazes que tinham feito da relva colchão e de uma pedra de sílex travesseiro. Ao calor ardente do sol, que os assava a pino, dormiam como degolados. Peruonto, vendo aqueles pobrezinhos, feitos fonte de água no meio de um forno de fogo, teve compaixão deles e, com o mesmo machado que levava, cortou uns ramos de carvalho e lhes fez uma bela cobertura de folhagem. Nesse meio-tempo acordaram os jovens, que eram filhos de uma fada, e, vendo a cortesia e a bondade de Peruonto, deram-lhe um encantamento: que lhe acontecesse tudo o que soubesse pedir.

Depois disso, Peruonto tomou o caminho do bosque e ali fez um feixe de lenha tão desmedido que seria preciso uma corda grossa para arrastá-lo. Vendo que lhe era inteiramente impossível carregá-lo às costas, encarrapitou-se sobre ele, dizendo:

— Ah, meu bem, se este feixe me levasse andando a cavalo!

E eis que o feixe começou a marchar, como cavalo de Bisignano; chegando diante do palácio de um rei, fez voltas e corvetas de espantar. As damas que estavam a uma janela, vendo aquela maravilha, correram chamar Vastolla, a filha do rei. Ela se debruçou à janela e, vendo as sacudidas daquele feixe de lenha e os saltos daquela braçada de gravetos, desatou a rir, quando, por sua natural melancolia, nunca se lembrava de ter rido. Peruonto ergueu a cabeça e, vendo que zombavam dele, disse:

— Ó Vastolla! Vá, que você fique grávida deste tronco aqui!

Dito isso, deu uma esporada de botinas no feixe e, a galope de lenha, chegou num instante a casa, com tantos meninos atrás de si, que lhe faziam gritaria e alvoroço, que, se a mãe não se apressasse a fechar a porta, teriam-no matado a laranjadas e golpes de talos de couve.

Mas Vastolla, depois da interrupção do costume mensal e de certos desfalecimentos e palpitações do coração, percebeu que estava apanhada. Escondeu aquela gravidez enquanto pôde; mas, não conseguindo mais esconder a barriga, que lhe crescera como um verdadeiro tômolo, o rei percebeu e, fazendo coisa do outro mundo, chamou o conselho, dizendo:

— Já sabem que a lua da honra me pôs chifres; já sabem que, para que escrevam crônicas, ou antes cornônicas das minhas vergonhas, minha filha me forneceu matéria para os tinteiros. Já sabem que, para me carregar a testa, deixou que lhe carregassem o ventre. Digam-me, pois, aconselhem-me. Minha ideia seria fazê-la dar à luz a alma antes de parir uma raça ruim; minha vontade seria fazê-la sentir as dores da morte antes das dores do parto; meu capricho seria que desaparecesse deste mundo antes de produzir rebento e semente.

Os conselheiros, que tinham consumido mais azeite que vinho, disseram:

— Merece, de fato, um grande castigo, e do chifre que lhe pôs na testa se deveria fazer o cabo da faca que lhe tirasse a vida. Mas, se a matarmos agora, que está grávida, escapará pela malha rota aquele temerário que, para o meter numa batalha de desgostos, o armou de chifre à direita e à esquerda; para lhe ensinar a política de Tibério, pôs diante de si um Cornélio Tácito; para lhe representar um sonho verdadeiro de infâmia, fez que saísse pela porta de chifre. Esperemos, portanto, que ela chegue a porto, e apuremos qual foi a raiz desse ultraje; depois pensaremos e resolveremos, com um grão de sal, o que deveremos fazer.

O rei encaixou aquele conselho, vendo que falavam assentadamente e às claras; por isso susteve a mão e disse:

— Esperemos o resultado do negócio.

Mas, como quis o Céu, chegou a hora do parto e, com quatro dores leves, leves, ao primeiro sopro no vaso de parto, à primeira voz da parteira, ao primeiro aperto do corpo, atirou para a comadre dois meninões como dois pomos de ouro. O rei, que também estava cheio de raiva, chamou os conselheiros para dar à luz e disse:

— Eis que minha filha pariu; mas é hora de a aconchegar com uma cacetada?

— Não — disseram aqueles velhos sabidos, pois tudo era dar tempo ao tempo. — Esperemos que cresçam os rapazinhos para podermos reconhecer a fisionomia do pai.

O rei, para não puxar para seu lado a pauta do conselho e escrever torto, encolheu os ombros, teve paciência e esperou até os meninos terem sete anos. Nesse tempo, instados de novo os conselheiros a acertar no trinco e no alvo, um deles disse:

— Já que não conseguiu descalçar sua filha nem arrancar-lhe quem foi o moedeiro falso que, à imagem de Vossa Majestade, adulterou a coroa, agora tiraremos essa mancha. Ordene que se prepare um grande banquete, ao qual venha toda a gente titulada e de honra desta cidade. Fiquemos atentos, com os olhos no prato: para onde os pequeninos se inclinarem de melhor vontade, movidos pela natureza, esse, sem dúvida, será o pai, e nós logo o levantaremos como cocô de gralha.

Agradou ao rei aquele parecer. Ordenou o banquete, convidou todas as pessoas de categoria e importância e, depois da refeição, fez que se pusessem em fila e que os meninos passassem por elas; mas deram-lhes a mesma atenção que o grande cão corso de Alexandre dava aos coelhos. O rei levantava tempestade e mordia os beiços; e, embora não lhe faltassem calçadeiras, como lhe apertava o sapato da dor, batia os pés no chão. Mas os conselheiros lhe disseram:

— Calma, Vossa Majestade, procure acreditar: amanhã faremos outro banquete, desta vez com gente de posição mais baixa. Talvez, como a mulher sempre se apega ao pior, encontremos entre cuteleiros, vendedores de contas de rosário e mercadores de pentes a semente de sua cólera que não encontramos entre cavaleiros.

Aquela razão caiu bem ao rei, que mandou fazer o segundo banquete. Ao pregão lançado, vieram todos os andrajosos, joões-ninguém, patifes, malcriados, moços de estrebaria, mandriões, pés-rapados, desqualificados, moleques, despojadores de enforcados e gente de avental e tamancos que havia na cidade. Sentados como belos condes a uma mesa muito comprida, começaram a devorar a comida. Ceccarella, ouvindo o pregão, começou a espicaçar Peruonto para que também fosse àquela festa e tanto fez que ele se encaminhou ao lugar da mastigação. Assim que chegou, aqueles belos pequerruchos se lhe agarraram ao redor e lhe fizeram festas e carícias além de toda medida.

O rei, vendo aquilo, arrancou toda a barba: a fava daquela torta, o nome sorteado naquela loteria, coubera a um mandrião de aspecto tão horrendo que só vê-lo dava náusea e fastio. Além da cabeça de veludo, dos olhos de coruja, do nariz de papagaio e da boca de garoupa, estava descalço e esfarrapado; sem ler o Shioravante, podia-se tomar nele uma vista dos segredos. Depois de um profundo suspiro, o rei disse:

— O que terá visto esta porquinha de minha filha para se encaprichar por esse ogro marinho? O que terá visto para se pôr a montar às esporas com esse pé peludo? Ah, infame, cega, falsa! Que metamorfoses são estas? Tornar-se vaca por um porco, para que eu me torne carneiro? Mas o que se espera, em que se pensa? Tenha o castigo que merece, tenha a pena que vocês julgarem, e tirem-na da minha frente, que não a posso digerir!

Os conselheiros então se puseram de acordo e concluíram que tanto ela quanto o malfeitor e os filhos fossem fechados num barril e lançados ao mar, para que, sem sujar as mãos no próprio sangue, pusessem ponto final à vida deles.

Mal foi dada a sentença, trouxeram o barril e enfiaram os quatro lá dentro. Mas, antes que o tapassem, umas damas de Vastolla, chorando em soluços, puseram ali um barrilete de passas e figos secos, para que ela se mantivesse por algum tempo. Fechado o barril, foi levado e lançado ao mar, onde flutuava conforme o vento o virava.

Enquanto isso, Vastolla, chorando e fazendo dos olhos dois rios, disse a Peruonto:

— Que grande desgraça a nossa, termos por sepultura da morte o berço de Baco! Ah, se eu ao menos soubesse quem trabalhou este corpo para me enfiar nesta prisão! Ai de mim, que me vejo perfurada sem saber como! Diga, diga, cruel, que encantamento fez e com que vara, para me fechar entre os aros deste barril? Diga, diga, que diabo o tentou a me pôr uma torneira invisível, para que não tivesse outra abertura à vista senão um desgraçado buraco de barrica?

Peruonto, que por um bom tempo se fizera de surdo, por fim respondeu:

Se quer que eu lhe diga,
Me dê passas e figos.

Vastolla, para lhe tirar alguma coisa do corpo, meteu-lhe no corpo um punhado de uns e de outros. Assim que encheu a goela, ele lhe contou pontualmente tudo o que lhe acontecera com os três jovens, depois com o feixe de lenha e, por último, com ela à janela: por ela o ter tratado de barriga cheia, fizera-lhe encher a barriga. Ouvindo aquilo, a pobre senhorinha tomou ânimo e disse a Peruonto:

— Meu irmão, vamos acabar a vida dentro deste barril? Por que não faz que ele se torne um belo navio e que vamos escapar deste perigo num bom porto?

Peruonto replicou:

Me dê passas e figos,
Se quer que eu lhe diga.

Vastolla, depressa, encheu-lhe a garganta para que ele abrisse a garganta; como um pescador de caniço, com passas e figos secos pescava-lhe do corpo palavras frescas. E eis que, dizendo Peruonto aquilo que Vastolla desejava, o barril se tornou embarcação com todos os apetrechos necessários para navegar e todos os marinheiros exigidos pelo serviço do navio. Ali se via um puxando a escota, outro enrolando os cabos, outro pondo a mão ao leme, outro fazendo vela, outro subindo ao cesto da gávea, outro gritando para barlavento, outro para sotavento, um tocando uma trombeta, outro dando fogo às peças, uns fazendo uma coisa, outros outra; tanto que Vastolla estava dentro do navio e nadava num mar de doçura. Já chegava a hora em que a Lua queria brincar com o Sol de foi-se, voltou e perdeu o lugar. Vastolla disse a Peruonto:

— Meu belo jovem, faça este navio se tornar um belo palácio, que ficaremos mais seguros. Sabe que se costuma dizer: louve o mar, mas mantenha-se em terra.

Peruonto respondeu:

Se quer que eu lhe diga,
Me dê passas e figos.

Ela logo repôs a porção devida, e Peruonto, apanhado pela garganta, satisfez-lhe a vontade: o navio logo tocou terra e se tornou um belíssimo palácio, aparelhado de tudo e tão cheio de móveis e magnificências que nada mais se podia desejar. Vastolla, que antes teria dado a vida por três moedinhas, não a trocaria pela da primeira senhora deste mundo. Vendo-se erguida e servida como uma rainha, para coroar todas as suas boas fortunas pediu a Peruonto que obtivesse a graça de se tornar belo e asseado, a fim de poderem se casar. Pois, embora diga o provérbio: “Melhor marido porcalhão que amante imperador”, se ele mudasse de cara ela o teria pela maior fortuna do mundo. Peruonto, com a mesma condição, respondeu:

Me dê passas e figos,
Se quer que eu lhe diga.

Vastolla logo remediou a prisão de ventre das palavras de Peruonto com seus figuinhos compridos como dedos: mal ele falou, de papa-moscas se tornou pintassilgo, de ogro, Narciso, de mascarão, um bonequinho. Vendo aquilo, Vastolla ficou fora de si de alegria e, apertando-o nos braços, espremeu dele sumo de contentamento.

Nesse mesmo tempo, o rei, que desde o dia daquele desastre andava sempre cheio até a garganta de aborrecimentos, foi levado pelos cortesãos à caça para se distrair. Surpreendidos pela noite, viram uma luzinha brilhar numa janela daquele palácio, e o rei mandou um criado perguntar se o queriam hospedar. Responderam-lhe que ali podia não só quebrar um copo, mas despedaçar um penico. O rei foi até lá e, subindo as escadas e percorrendo os quartos, não viu pessoa viva, salvo os dois meninos, que o rodearam dizendo:

— Vovô, vovô!

O rei, espantado, pasmado e atônito, ficou como encantado. Sentando-se de cansaço junto a uma mesa, viu estender-se invisivelmente uma toalha de pano da Flandres e chegarem pratos cheios, de aposta e de resto. Comeu e bebeu verdadeiramente como rei, servido por aqueles belos meninos, sem nunca cessar, enquanto estava à mesa, uma música de colasciones e tamborins, que lhe chegou até os ossos dos pés. Depois de comer, apareceu uma cama toda espuma de ouro; tiradas as botas, deitou-se, assim como fez toda a sua corte, depois de muito devorarem em outras mesas preparadas pelos outros quartos.

Ao chegar a manhã, querendo partir, o rei quis levar consigo os dois meninos; mas apareceu Vastolla com o marido e, lançando-se aos pés do pai, pediu-lhe perdão e lhe contou todas as suas fortunas. O rei, vendo que ganhara dois netos que eram duas joias e um genro que era uma fada de homem, abraçou um e outro e os carregou para a cidade. Mandou fazer grandes festas, que duraram muitos dias por aquele bom ganho, confessando, a despeito das próprias goelas:

O que o homem propõe,
Deus dispõe.


Sobre esta edição

Obra
Peruonto
Autoria original
Giambattista Basile
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.1
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
03/11/2026
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