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EK 155

Tia Dor de Dente

Hans Christian Andersen

Tante Tandpine

Sobre este conto

Um narrador encontra, entre papéis guardados por um aprendiz de merceeiro, páginas de um estudante morto. Nelas, o jovem conta como a tia Mille alimentava suas ambições de poeta e como uma dor de dente se ligou a essas expectativas.

Personagens e estrutura
Personagens
O narrador que lê o manuscrito, O aprendiz de merceeiro, O estudante que escreve suas lembranças, Tia Mille, chamada Tia Dor de Dente, O cervejeiro Rasmussen, A senhora Dor de Dente, Satania infernalis, A senhoria e os moradores da casa do estudante
Onde se passa
Uma cidade, a casa da tia, estabelecimentos comerciais que reutilizam papéis e a moradia ruidosa do estudante, durante lembranças de infância e uma noite de inverno.
Acontecimentos
  1. O narrador recebe folhas do manuscrito do estudante; o resto foi trocado pela senhoria por meia libra de sabão verde.
  2. A tia dá doces às crianças e elogia a imaginação do estudante; ele recorda o amigo dela, o cervejeiro Rasmussen, sua morte e o enterro.
  3. O estudante descreve a casa barulhenta onde mora, e a tia o incentiva a pôr a descrição no papel e continuar inventando.
  4. Uma tempestade de neve obriga a tia a pernoitar na moradia dele; os dois conversam sobre os dentes e as lembranças da infância.
  5. Durante uma forte dor de dente, ele vê uma figura que o atormenta e exige que abandone a poesia, ameaçando reaparecer na figura da tia Mille.
  6. O estudante promete desistir, adormece, acorda com a tia e registra o episódio em prosa, declarando que nunca será impresso.
Desfecho
O manuscrito termina quando a tia beija o estudante e volta para casa. O narrador diz que não foi possível recuperar as folhas restantes, usadas como papel de embrulho, e informa que o cervejeiro, a tia e o estudante morreram. As centelhas de pensamento do estudante foram parar na tina.

De onde tiramos a história? —

— Quer saber?

Nós a tiramos do barril, aquele com os papéis velhos.

Muito livro bom e raro foi parar no vendedor de toucinho e no merceeiro, não como leitura, mas como artigo de primeira necessidade. Eles precisam de papel para fazer cartuchos de goma e de café em grão, papel para embrulhar arenque salgado, manteiga e queijo. Papéis escritos também servem.

Muitas vezes vai para a tina o que não devia ir para a tina.

Conheço um aprendiz de merceeiro, filho de um vendedor de toucinho; ele subiu do porão para a loja no térreo. É pessoa de muita leitura: leitura de cartucho, tanto impressa como manuscrita. Tem uma coleção interessante, na qual se encontram diversos documentos importantes da cesta de papéis de um ou outro funcionário público, ocupado demais e distraído; uma ou outra carta confidencial de amiga para amiga: notícias escandalosas que não deveriam ser passadas adiante nem mencionadas por ninguém. Ele é uma instituição viva de salvamento de uma parte nada pequena da literatura e nela dispõe de um grande campo de ação: tem o estabelecimento dos pais e o do patrão, e ali salvou muito livro, ou folhas de um livro, que bem mereceria ser lido duas vezes.

Mostrou-me sua coleção de impressos e manuscritos retirados da tina, em sua maior parte vindos do vendedor de toucinho. Havia ali algumas folhas de um caderno maior; a letra, extraordinariamente bonita e clara, logo me chamou a atenção.

— Foi o estudante quem escreveu! — disse ele. — O estudante que morava bem aqui em frente e morreu faz um mês. Sofreu muito de dor de dente, pelo que se vê. É bem divertido de ler! Aqui só resta um pouco do que estava escrito; era um livro inteiro e mais alguma coisa. Meus pais deram meia libra de sabão verde por ele à senhoria do estudante. Aqui está o que consegui guardar.

Tomei-o emprestado, li-o e agora o transmito.

O título era:

Tia Dor de Dente.

I.

— Minha tia me dava guloseimas quando eu era pequeno. Meus dentes aguentaram, não se estragaram; agora fiquei mais velho, tornei-me estudante. Ela ainda me mima com doces, diz que sou poeta.

Tenho em mim alguma coisa de poeta, mas não o bastante. Muitas vezes, quando ando pelas ruas da cidade, tenho a impressão de andar numa grande biblioteca; as casas são estantes, cada andar é uma prateleira de livros. Ali está uma história da vida cotidiana, ali uma boa comédia antiga, obras científicas de todos os ramos, aqui literatura obscena e boa leitura. Posso fantasiar e filosofar sobre todo esse acervo de livros.

Há em mim alguma coisa de poeta, mas não o bastante. Muitas pessoas devem ter tanto disso dentro de si quanto eu e, no entanto, não usam placa nem coleira com o nome de poeta.

A elas e a mim foi dado um dom de Deus, uma bênção, grande o suficiente para a própria pessoa, mas pequena demais para ser repartida com os outros. Vem como um raio de sol, enche a alma e o pensamento; vem como um perfume de flor, como uma melodia que a gente conhece, mas não lembra de onde.

Na outra noite, eu estava sentado no meu quarto, precisava de leitura, não tinha livro nem folha de papel, quando caiu uma folha da tília, fresca e verde. A brisa a trouxe pela janela até mim.

Observei as numerosas nervuras ramificadas; um bichinho se movia sobre elas, como se quisesse fazer um estudo minucioso da folha. Isso me fez pensar na sabedoria humana: nós também rastejamos pela folha, só conhecemos a folha, e logo fazemos conferências sobre a grande árvore inteira, a raiz, o tronco e a copa; a grande árvore: Deus, o mundo e a imortalidade, e de tudo isso só conhecemos uma folhinha!

Enquanto estava ali sentado, recebi a visita da tia Mille.

Mostrei-lhe a folha com o bichinho, contei-lhe meus pensamentos a respeito, e os olhos dela brilharam.

— Você é poeta! — disse ela. — Talvez o maior que temos! Se eu chegar a ver isso, irei de bom grado para a sepultura. Você sempre me espantou com sua poderosa imaginação, desde o enterro do cervejeiro Rasmussen!

Foi o que disse a tia Mille, e me beijou.

Quem era a tia Mille, e quem era o cervejeiro Rasmussen?

II.

A tia de minha mãe era chamada de tia por nós, crianças; não tínhamos outro nome para ela.

Ela nos dava geleia e açúcar, embora isso fizesse muito mal aos nossos dentes; mas era fraca diante das doces crianças, dizia ela. Seria uma crueldade negar-lhes o pouquinho de doce de que tanto gostavam.

E por isso gostávamos tanto da tia.

Era uma solteirona desde os tempos mais remotos de que me lembro, sempre velha! Sua idade não mudava.

Nos primeiros anos, sofria muito de dor de dente e falava sempre nisso; foi então que seu amigo, o cervejeiro Rasmussen, teve a graça de chamá-la de Tia Dor de Dente.

Nos últimos anos, ele não fabricava cerveja, vivia de seus rendimentos, visitava muito a tia e era mais velho que ela. Ele não tinha dente nenhum, só alguns tocos pretos.

Quando pequeno, comera açúcar demais, dizia ele a nós, crianças, e era assim que a gente acabava ficando.

A tia certamente nunca comera açúcar na infância; tinha os mais belos dentes brancos.

Também os poupava: não dormia com eles à noite! Dizia o cervejeiro Rasmussen.

Isso era maldade, sabíamos nós, crianças; mas a tia dizia que ele não falava por mal.

Uma manhã, durante a refeição, ela contou um sonho horrível que tivera à noite: um dos seus dentes caíra.

— Isso significa — disse ela — que vou perder um amigo ou uma amiga de verdade!

— Era um dente falso? — disse o cervejeiro com um risinho. — Então só pode significar que a senhora vai perder um amigo falso!

— O senhor é um velho mal-educado! — disse a tia, zangada como nunca a vi antes nem depois.

Mais tarde, ela disse que fora apenas uma brincadeira de seu velho amigo; ele era a pessoa mais nobre da terra e, quando um dia morresse, se tornaria um anjinho de Deus no céu.

Pensei muito nessa transformação e em se seria capaz de reconhecê-lo na nova figura.

Quando a tia era jovem e ele também era jovem, ele a pediu em casamento. Ela pensou por tempo demais, ficou esperando, esperou tempo demais, ficou solteirona para sempre, mas sempre foi amiga fiel.

E então morreu o cervejeiro Rasmussen.

Foi levado à sepultura no carro fúnebre mais caro e teve um grande cortejo, gente de condecorações e uniformes.

A tia estava à janela, vestida de luto, com todas nós, crianças, menos o irmãozinho que a cegonha trouxera uma semana antes.

Agora o carro fúnebre e o cortejo tinham passado, a rua estava vazia; a tia queria sair dali, mas eu não queria. Esperava o anjo, o cervejeiro Rasmussen; afinal, agora se tornara um filhinho alado de Deus e precisava aparecer.

— Tia! — disse eu. — Você não acha que ele vem agora? Ou que, quando a cegonha nos trouxer outro irmãozinho, trará o anjo Rasmussen?

A tia ficou inteiramente tomada pela minha imaginação e disse:

— Essa criança vai ser um grande poeta!

E repetiu isso durante todos os meus anos de escola, mesmo depois da minha confirmação, e agora pelos meus anos de estudante.

Ela foi e é minha amiga mais solidária, tanto na dor de poeta como na dor de dente. Tenho ataques das duas.

— Vá escrevendo todos os seus pensamentos — disse ela — e ponha-os na gaveta da mesa. Foi o que fez Jean Paul; tornou-se um grande poeta, de quem, na verdade, não gosto: ele não empolga! Você tem de empolgar! E vai empolgar!

Na noite seguinte a essa conversa, eu me deitava entre anseios e aflições, com a necessidade e o desejo de me tornar o grande poeta que a tia via e pressentia em mim. Eu estava com dor de poeta! Mas existe uma dor pior: dor de dente; ela me esmagava e triturava. Tornei-me um verme contorcido, com saquinho de ervas e emplastro de cantáridas.

— Isso eu conheço! — disse a tia.

Havia um sorriso de tristeza em sua boca; seus dentes brilhavam tão brancos.


Mas preciso começar uma nova parte da minha história e da tia.

III.

Eu me mudara para uma nova moradia e estava ali havia um mês. Conversei a respeito com a tia.

— Moro com uma família sossegada; não pensam em mim, mesmo que eu toque a campainha três vezes. De resto, é uma verdadeira casa de barulho, com os sons e o alarido do tempo, do vento e das pessoas. Moro bem acima do portão; cada carro que entra ou sai faz os quadros da parede se moverem. O portão bate e sacode a casa como se fosse um terremoto. Se estou na cama, os abalos atravessam todos os meus membros; mas dizem que isso fortalece os nervos. Quando venta, e aqui nesta terra venta sempre, os compridos ganchos das janelas ficam balançando de um lado para o outro do lado de fora e batem na parede. A campainha do portão do quintal do vizinho toca a cada rajada.

“Os moradores da nossa casa chegam em pequenos grupos, tarde da noite, já de madrugada; o inquilino bem acima de mim, que de dia dá aulas de trombone, é quem chega por último e não se deita sem primeiro fazer seu pequeno passeio da meia-noite, com passos pesados e botas ferradas.

“Não há janelas duplas, mas há uma vidraça quebrada, sobre a qual a senhoria colou papel; mesmo assim, o vento entra pela fresta e produz um som como o de uma mutuca zumbindo. É música para dormir. Quando enfim adormeço, logo sou acordado pelo canto do galo. — O galo e a galinha anunciam, do cercado de aves do morador do porão, que logo vai amanhecer. Os pôneis noruegueses não têm estábulo: ficam amarrados no buraco de areia sob a escada e dão coices na porta e no revestimento de madeira para se movimentar.

“O dia começa a clarear; o porteiro, que dorme com a família no sótão, desce a escada fazendo estrondo; os tamancos de madeira estalam, o portão bate, a casa treme, e, quando isso termina, o inquilino de cima começa seus exercícios de ginástica. Levanta uma pesada bola de ferro em cada mão, não consegue segurá-la: ela cai e torna a cair, enquanto, ao mesmo tempo, os jovens da casa que vão para a escola descem correndo e gritando. Vou à janela, abro-a para respirar ar fresco, e isso é revigorante quando consigo respirá-lo e a moça da casa dos fundos não está lavando luvas com tira-manchas: é assim que ela ganha a vida. De resto, é uma casa agradável, e moro com uma família sossegada.

Foi esse o relato que fiz à tia sobre minha moradia; contei-o com mais vivacidade: o discurso falado tem palavras mais frescas que o escrito.

— Você é poeta! — gritou a tia. — Basta escrever sua fala e será tão bom quanto Dickens! Sim, agora você me interessa muito mais! Você pinta quando fala! Descreve sua casa de um jeito que a gente a vê! Dá até arrepios! — Continue inventando! Ponha alguma coisa viva nisso, pessoas, pessoas encantadoras, de preferência infelizes!

Eu realmente pus a casa no papel, tal como era, com sons e barulhos, mas só comigo mesmo, sem ação. Essa veio depois!

IV.

Era inverno, tarde da noite, depois da hora do espetáculo, um tempo terrível, uma tempestade de neve que quase não deixava a gente avançar.

A tia fora ao teatro, e eu estava lá para acompanhá-la de volta a casa; mas já era difícil andar sozinho, quanto mais acompanhar outra pessoa. Os carros de aluguel estavam todos ocupados; a tia morava num ponto distante da cidade, enquanto minha moradia ficava perto do teatro. Se não fosse assim, teríamos de ficar numa guarita até segunda ordem.

Avançamos a custo na neve funda, cercados pelo sopro dos flocos em redemoinho. Eu a levantava, eu a segurava, eu a empurrava para a frente. Só caímos duas vezes, mas caímos macio.

Chegamos ao meu portão, onde nos sacudimos; na escada também nos sacudimos e, mesmo assim, ainda tínhamos neve suficiente para encher o chão da antessala.

Tiramos as roupas de cima e as de baixo, todas as peças de que podíamos nos desfazer. A senhoria emprestou à tia meias secas e um roupão; era necessário, disse a senhoria, e acrescentou, o que era verdade, que seria impossível a tia voltar para casa naquela noite. Pediu-lhe que se contentasse com sua sala: ali faria uma cama no sofá, diante da porta sempre trancada que dava para o meu quarto.

E assim se fez.

O fogo ardia na minha estufa de azulejos, o aparelho de chá foi posto na mesa, e o quartinho ficou aconchegante, embora não tanto quanto a casa da tia, onde, no inverno, há cortinas grossas na porta, cortinas grossas nas janelas, tapetes duplos com três camadas de papel grosso por baixo; ali a gente fica como dentro de uma garrafa bem tampada, cheia de ar quente. Mas, como disse, minha casa também ficou aconchegante; lá fora o vento assobiava.

A tia falava e contava histórias; a juventude voltava, o cervejeiro voltava, velhas lembranças.

Ela se lembrava de quando nasceu meu primeiro dente e da alegria da família.

O primeiro dente! O dente da inocência, brilhando como uma pequena gota branca de leite, o dente de leite.

Veio um, vieram outros, uma fileira inteira, lado a lado, em cima e embaixo, os mais belos dentes de criança; e, contudo, eram só a vanguarda, não os verdadeiros, que deveriam durar a vida inteira.

Esses também vieram, e com eles os dentes do siso, os soldados das extremidades da fileira, nascidos com dor e grande dificuldade.

Eles se vão outra vez, todos, sem exceção! Vão-se antes de terminar o tempo de serviço; até o último dente vai embora, e esse não é um dia de festa, é um dia de tristeza.

Então a gente é velho, mesmo que o humor seja jovem.

Uma conversa de tia dessas não é divertida e, no entanto, acabamos falando de tudo isso; voltamos aos anos da infância, falamos e falamos. Deu meia-noite antes que a tia fosse se deitar no quarto ao lado.

— Boa noite, minha doce criança! — gritou ela. — Agora vou dormir como se estivesse na minha própria cômoda!

E ela foi repousar; mas não houve repouso nem dentro nem fora da casa. A tempestade sacudia as janelas, batia os compridos ganchos de ferro pendentes, fazia soar a campainha da porta do vizinho no quintal dos fundos. O inquilino de cima voltara para casa. Ainda fez um pequeno passeio noturno de um lado para o outro; jogou as botas, foi então para a cama descansar, mas roncava de tal maneira que, com bons ouvidos, se podia ouvir através do teto.

Eu não encontrava descanso, não conseguia sossegar; o tempo também não sossegava: estava extraordinariamente animado. O vento assobiava e cantava à sua maneira; meus dentes também começaram a se animar, assobiavam e cantavam à sua maneira. Deram o primeiro acorde de uma grande dor de dente.

Entrava uma corrente de ar pela janela. A lua brilhava no chão. A claridade vinha e ia, conforme as nuvens vinham e iam na tempestade. Havia inquietação entre sombra e luz, mas, por fim, a sombra no chão pareceu alguma coisa; olhei para aquilo que se movia e senti um vento gelado, cortante.

No chão estava sentada uma figura, comprida e magra, como quando uma criança desenha com lápis de ardósia na lousa alguma coisa que deve parecer um ser humano; um único traço fino é o corpo, um traço e mais outro são os braços; as pernas também são apenas um traço cada uma, e a cabeça, um polígono.

Logo a figura ficou mais nítida; adquiriu uma espécie de vestido, muito fino, muito delicado, mas que mostrava que ela pertencia ao sexo feminino.

Ouvi um zumbido. Era ela ou o vento, que zumbia como uma mutuca na fresta da vidraça?

Não, era ela mesma, a senhora Dor de Dente! Sua Terribilidade Satania infernalis, Deus nos livre e guarde de sua visita.

— Aqui é bom de ficar! — zumbiu ela. — Aqui há boa morada! Terreno pantanoso, terreno de brejo. Aqui os mosquitos zumbiam com veneno no ferrão; agora sou eu que tenho o ferrão. Precisa ser afiado em dentes humanos. Como brilham brancos os deste aqui na cama! Desafiaram doces e ácidos, calor e frio, cascas de nozes e caroços de ameixa! Mas vou abalá-los, alargá-los, adubar a raiz com correntes de ar, gelar-lhes os pés!

Era uma fala terrível, uma visita terrível.

— Ora, então você é poeta! — disse ela. — Pois vou versificar você em todos os metros do tormento! Vou lhe pôr ferro e aço no corpo, enfiar fio em todas as fibras dos seus nervos!

Era como se uma sovela em brasa entrasse no osso da minha face; eu me torcia e revirava.

— Uma dentadura excelente! — disse ela. — Um órgão para tocar. Concerto de berimbau de boca, grandioso, com tímpanos e trombetas, flautim, trombone no dente do siso. Grande poeta, grande música!

Sim, ela começou a tocar, e era terrível de ver, embora só se visse sua mão, a mão cinzenta de sombra e gelada, com os longos dedos finos como sovelas. Cada um era um instrumento de tortura: o polegar e o indicador tinham torquês e parafuso, o dedo médio terminava numa sovela pontuda, o anelar era uma verruma, e o mindinho, uma seringa com veneno de mosquito.

— Vou lhe ensinar métrica! — disse ela. — Grande poeta precisa de grande dor de dente, pequeno poeta, pequena dor de dente!

— Oh, deixe-me ser pequeno! — supliquei. — Deixe-me nem sequer ser! E eu não sou poeta; só tenho ataques de fazer versos, ataques como os de dor de dente! Vá embora! Vá embora!

— Você reconhece, então, que sou mais poderosa que a poesia, a filosofia, a matemática e toda a música? — disse ela. — Mais poderosa que todas essas sensações pintadas e talhadas em mármore! Sou mais velha que todas elas juntas. Nasci perto do jardim do Paraíso, do lado de fora, onde o vento soprava e os cogumelos molhados cresciam. Fiz Eva se vestir naquele tempo frio, e Adão também. Pode acreditar: havia força na primeira dor de dente!

— Acredito em tudo! — disse eu. — Vá embora! Vá embora!

— Sim, se você desistir de ser poeta, nunca puser versos em papel, lousa ou qualquer espécie de material de escrever, então vou soltá-lo; mas volto se você fizer poesia!

— Eu juro! — disse eu. — Só não me deixe nunca mais ver nem sentir você!

— Você vai me ver, mas numa figura mais cheia, mais querida para você do que sou agora! Vai me ver como tia Mille, e eu direi: “Faça poesia, meu doce menino! Você é um grande poeta, talvez o maior que temos!” Mas, se acreditar em mim e começar a fazer versos, então porei seus versos em música, vou tocá-los no seu berimbau de boca! Minha doce criança! — Lembre-se de mim quando vir a tia Mille!

Então ela desapareceu.

Na despedida, senti como que uma picada de sovela em brasa no maxilar; mas logo se abrandou. Era como se eu deslizasse sobre a água macia, via os nenúfares brancos com suas folhas verdes e largas se curvarem, afundarem debaixo de mim, murcharem, se dissolverem; e eu afundava com eles, desfazia-me em paz e repouso — —

— “Morrer, derreter aqui como a neve!” — cantava e ressoava na água. — “Dissipar-se aqui na nuvem, partir como a nuvem! — —”

Através da água, grandes nomes luminosos brilhavam para mim lá embaixo, inscrições em bandeiras de vitória que tremulavam, a patente da imortalidade — escrita na asa de uma efêmera.

O sono era profundo, sono sem sonhos. Não ouvia o vento que assobiava, o portão que batia, a campainha do portão do vizinho que tocava, nem a pesada ginástica do inquilino.

Bem-aventurança!

Então veio uma rajada de vento, tão forte que a porta trancada que dava para o quarto da tia se abriu de repente. A tia deu um salto, calçou os sapatos, vestiu-se e entrou no meu quarto.

Eu dormia como um anjo de Deus, disse ela, e não teve coragem de me acordar.

Acordei sozinho, abri os olhos, havia esquecido completamente que a tia estava ali na casa, mas logo me lembrei, lembrei da minha visão da dor de dente. Sonho e realidade se confundiam.

— Você não escreveu nada ontem à noite, depois que demos boa-noite um ao outro, escreveu? — disse ela. — Quem dera tivesse escrito! Você é meu poeta, e vai continuar sendo!

Achei que ela sorria de modo tão malicioso. Não sabia se era a bondosa tia Mille, que me amava, ou a terrível criatura a quem fizera uma promessa naquela noite.

— Fez poesia, minha doce criança?

— Não, não! — gritei. — Você é a tia Mille!

— Quem mais seria? — disse ela.

E era a tia Mille. Beijou-me, tomou um carro de aluguel e voltou para casa.

Pus no papel o que está escrito aqui. Não é em verso e nunca será impresso — —.


Sim, aqui terminava o manuscrito.

Meu jovem amigo, o futuro oficial de merceeiro, não conseguiu encontrar o que faltava; saíra pelo mundo como papel de embrulho de arenque salgado, manteiga e sabão verde: cumprira seu destino.

O cervejeiro morreu, a tia morreu, o estudante morreu, aquele cujas centelhas de pensamento foram parar na tina: este é o fim da história — — a história de Tia Dor de Dente.


Sobre esta edição

Obra
Tante Tandpine
Autoria original
Hans Christian Andersen
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.0
Tradução
Codex · tradução assistida por IA
Revisão
Codex · revisão independente por IA
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
30/10/2026
Edições e fontes

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Tante Tandpine

Eventyr og Historier · Femte Bind · Anden Udgave · 1894 · Dinamarquês · Femte Bind · Anden Udgave · edição póstuma
Volume Femte Bind. Página 286–303. Consultar esta edição ↗

Tia Dor de Dente

As Verdadeiras Histórias · edição em português · 2026 · Português brasileiro · Edição em produção
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