GB 007

Vardiello

Giambattista Basile

Cerca de 10 min de leitura

VARDIELLO

QUARTO ENTRETENIMENTO, da Primeira Jornada.

Vardiello, sendo um tolo, depois de fazer cem desserviços à mãe, perde-lhe uma peça de tecido e, querendo recuperá-la, disparatadamente, de uma estátua, fica rico.

Quando Meneca acabou seu conto, que foi considerado em nada menos belo que o outro, por estar recheado de acontecimentos curiosos que mantiveram suspenso até o fim o pensamento dos ouvintes, Tolla prosseguiu por ordem do príncipe e, sem perder tempo, falou desta maneira:

Se a natureza tivesse dado aos animais a necessidade de se vestir e de gastar com a alimentação, a raça dos quadrúpedes estaria sem dúvida destruída. Por isso encontram a comida pronta, sem hortelão que a colha, comprador que a compre, cozinheiro que a prepare, trinchante que a corte; seu próprio couro os defende da chuva e da neve, sem que o mercador lhes dê o pano, o alfaiate lhes faça a roupa e o aprendiz lhes peça a gorjeta. Mas ao homem, que tem engenho, ela não se preocupou em dar essas comodidades, porque ele sabe procurar por si mesmo aquilo de que precisa. Essa é a razão de vermos ordinariamente os sabidos mendigos e os tolos ricos, como podereis concluir do conto que vou contar.

Grannonia de Aprano era uma mulher de muito juízo, mas tinha um filho chamado Vardiello, o mais desgraçado simplório daquela terra. Contudo, como os olhos da mãe são enfeitiçados e enxergam além da conta, ela lhe tinha um amor desentranhado e não parava de o acariciar e alisar, como se fosse a criatura mais bela do mundo. Essa Grannonia tinha uma galinha choca que tirava pintinhos, nos quais pusera toda a esperança de obter uma bela ninhada e extrair bom proveito. Precisando sair para um assunto necessário, chamou o filho e lhe disse:

— Belo filhinho da tua mamãe, escuta aqui: fica de olho nesta galinha. Se ela se levantar para ciscar, presta atenção e faz com que volte ao ninho; senão os ovos esfriam e depois não terás nem ovo nem pintinho.

— Deixa por conta deste homenzarrão — disse Vardiello —, que não falaste a um surdo.

— Outra coisa — acrescentou a mãe. — Olha, filho bendito, dentro daquele armário há um pote com umas misturas venenosas. Vê se o maldito pecado não te tenta a mexer nelas, porque irias esticar as pernas!

— Longe de mim! — respondeu Vardiello. — Veneno não me apanha! E tu és sábia com tua cabeça maluca, pois me avisaste; eu podia ir bater de frente e não haveria espinha nem osso que me detivesse.

Assim que a mãe saiu, Vardiello ficou e, para não perder tempo, foi à horta fazer covinhas cobertas de gravetos e terra para apanhar os pequeninos. No melhor do trabalho, percebeu que a galinha passeava fora do quarto. Por isso começou a dizer:

— Xô, xô! Fora daqui, passa para lá!

Mas a galinha não arredava pé. Vardiello, vendo que ela tinha alguma coisa de burro, depois do xô, xô, pôs-se a bater os pés; depois de bater os pés, a atirar o gorro; depois do gorro, atirou-lhe um rolo de massa, que a acertou em cheio, fazendo-a morrer e esticar as pernas. Vendo aquela desgraça, Vardiello pensou em remediar o dano e, fazendo da necessidade virtude, para que os ovos não esfriassem, baixou logo as calças e sentou-se sobre o ninho. Mas, ao pousar o corpo, fez deles uma fritada! Vendo que fizera besteira em dobro, como numa jogada de cartas, quase deu com a cabeça nas paredes. Por fim, porque toda dor acaba numa bocada, sentindo o estômago piar, resolveu engolir a galinha. Depenou-a, enfiou-a num belo espeto, fez uma grande fogueira e começou a assá-la. Estando ela já cozida, para fazer tudo a seu tempo, estendeu uma bela toalha recém-lavada sobre um baú velho e, pegando uma bilha, desceu à adega para abrir um barrilete de vinho. Quando estava justamente tirando o vinho, ouviu um barulho, uma quebradeira, um estrondo pela casa, que pareciam cavalos armados. Inteiramente sobressaltado, voltou os olhos e viu um gatão que havia surrupiado a galinha com espeto e tudo, e uma outra gata ia atrás, gritando por sua parte. Para remediar o dano, Vardiello lançou-se sobre a gata como um leão solto das correntes e, na pressa, deixou o barrilete aberto. Depois de correr atrás dela por todos os cantos da casa, recuperou a galinha, mas esqueceu-se do barrilete. Ao voltar, vendo que fizera uma lavagem de vinho, também abriu o tonel da alma pelas torneiras dos olhos. Mas, como o juízo o ajudava, para remediar o dano e não deixar que a mãe percebesse tamanha ruína, pegou um saco raso, raso, abarrotado, abarrotado, cheio, cheio, atulhado, atulhado, e até a boca, até a boca, de farinha e espalhou-a por cima do derramado. Apesar de tudo, contando nos dedos os desastres acontecidos e pensando que, depois de descarregar tamanha carga de burrices, perderia o jogo com a graça de Grannonia, resolveu de coração não se deixar encontrar vivo pela mãe. Assim, atacou o pote de nozes em conserva que a mãe lhe dissera conter veneno e não tirou a mão de lá até descobrir o fundo. Depois de encher bem a barriga, meteu-se dentro de um forno.

Nesse meio-tempo a mãe chegou. Depois de bater um bom tempo e ver que ninguém a ouvia, deu um pontapé na porta e entrou. Chamando pelo filho em alta voz e vendo que ninguém respondia, pressentiu um dia ruim e, com a aflição redobrada, ergueu ainda mais os gritos:

— Ó Vardiello! Vardiello, estás surdo, que não ouves? Estás com a doença das juntas dos cavalos, que não corres? Tens pevide, que não respondes? Onde estás, cara de enforcado? Onde te derreteste, raça ruim? Quem me dera ter-te sufocado na goela quando te fiz!

Vardiello, ouvindo aquela gritaria, por fim disse com uma vozinha lastimosa:

— Aqui estou, dentro do forno, e não me vereis mais, minha mãe!

— Por quê? — respondeu a pobre mãe.

— Porque estou envenenado — replicou o filho.

— Ai de mim! — acrescentou Grannonia. — Como fizeste? Que motivo tiveste para cometer esse homicídio? E quem te deu o veneno?

Vardiello lhe contou uma por uma todas as belas proezas que fizera, por causa das quais queria morrer e deixar de servir de exemplo ao mundo. Ouvindo essas coisas, a mãe viu-se negra, viu-se amarga, teve o que fazer e o que dizer para tirar da cabeça de Vardiello aquele humor melancólico. E, porque lhe tinha um amor desentranhado, dando-lhe outras coisas açucaradas, tirou-lhe da cabeça a ideia das nozes em conserva, que não eram veneno, mas remédio para o estômago. Acalmando-o assim com boas palavras e fazendo-lhe mil carícias, tirou-o de dentro do forno. Deu-lhe então uma bela peça de tecido e mandou que fosse vendê-la, recomendando que não tratasse desse negócio com pessoas de muitas palavras.

— Muito bem! — disse Vardiello. — Agora te sirvo com perfume de almíscar, não duvides!

Pegando o tecido, foi apregoá-lo pela cidade de Nápoles, aonde levou a mercadoria:

— Tecido, tecido!

Mas, a todos os que lhe perguntavam que tecido era aquele, respondia:

— Não serves para a minha casa, que falas demais.

Se outro lhe perguntava por quanto o vendia, chamava-o de tagarela e dizia que ele lhe estourara o cérebro e arrebentara as têmporas. Por fim, vendo no pátio de uma casa desabitada por causa do monaciello, o duende doméstico, certa estátua de estuque, o pobre homem, com os pés moídos e cansado de tanto andar às voltas, sentou-se num poial. Não vendo ninguém circular por aquela casa, que parecia uma aldeia saqueada, disse, muito espantado, à estátua:

— Diz, camarada, não mora ninguém nesta casa?

Vendo que não respondia, julgou-a um homem de poucas palavras e disse:

— Queres comprar este tecido? Faço um bom preço para ti.

Vendo que a estátua continuava calada, disse:

— Por minha fé, encontrei o que procurava! Pega-o, manda examiná-lo e dá-me o que quiseres; amanhã volto pelo dinheiro.

Dito isso, deixou o tecido onde se sentara, e o primeiro filho de sua mãe que entrou ali para algum serviço necessário, encontrando a própria sorte, levou-o.

Vardiello voltou à mãe sem o tecido e contou o sucedido. Ela quase teve um mal do coração e lhe disse:

— Quando é que vais pôr a cabeça no lugar? Vê quantas já me fizeste, lembra-te delas! Mas eu mesma me culpo: por ter o pulmão mole demais, não te endireitei logo os ossos, e agora percebo que médico piedoso faz a ferida incurável! Mas tantas me fazes que, quando eu inchar de vez, teremos contas compridas a acertar!

Vardiello, por seu lado, dizia:

— Cala-te, minha mãe, que não será tanto quanto dizes. Queres outra coisa além de torneses recém-cunhados? Pensas que sou de Ioio e não sei fazer minhas contas? É preciso chegar amanhã! Daqui a belo ver não vai tanto, e verás se não sei pôr um cabo numa pá!

Chegou a manhã, quando as sombras da noite, perseguidas pelos esbirros do Sol, deixam a terra. Vardiello apresentou-se no pátio onde estava a estátua e disse:

— Bom dia, senhor! Estais em condições de me dar aquelas quatro moedinhas? Vamos, pagai-me o tecido!

Mas, vendo que a estátua era muda, pegou uma pedra e atirou-a com toda a força, de ponta, no meio da arca do peito. Tanto que lhe rompeu uma veia, o que foi a saúde de sua casa: derrubando quatro pedras do enchimento, descobriu um pote cheio de escudos de ouro. Agarrando-o com as duas mãos, correu para casa de quebrar o pescoço, gritando:

— Mãe, mãe, quantos tremoços vermelhos! Quantos, quantos!

A mãe, vendo os escudos e sabendo que o filho tornaria o caso público, disse-lhe que ficasse ao pé da porta para quando passasse o vendedor de queijo e ricota, pois queria comprar-lhe um tornês de leite. Vardiello, que era um bobão, sentou-se logo à entrada da porta, e a mãe fez cair da janela, como granizo, por mais de meia hora, mais de seis rótolos de passas e figos secos. Vardiello, ao percebê-los, gritava:

— Ó mãe, ó mãe, traz bacias, põe tinas, apara com dornas! Se durar esta chuva, ficaremos ricos!

E, depois de encher bem a barriga, subiu para dormir.

Aconteceu que um dia, discutindo dois trabalhadores, iscas de tribunal, sobre a posse de um escudo de ouro encontrado no chão, chegou Vardiello e disse:

— Como sois burros de brigar por um tremoço vermelho desses, aos quais não dou importância, pois encontrei um pote cheio!

O tribunal, ao ouvir isso, arregalou os olhos, interrogou-o e perguntou como, quando e com quem encontrara aqueles escudos. Vardiello respondeu:

— Encontrei-os num palácio, dentro de um homem mudo, quando choveram passas e figos secos.

O juiz, ouvindo aquele salto no vazio, farejou o caso e decretou que fosse remetido a um hospital, como ao juiz de sua competência. Assim a ignorância do filho fez a mãe rica e o juízo da mãe remediou a burrice do filho; por isso se viu claramente:

Que, em navio governado por bom piloto,
É grande desgraça quando bate num escolho.


Sobre esta edição

Obra
Vardiello
Autoria original
Giambattista Basile
Texto em português
Tradução do original
Edição publicada
1.0.1
Tradução
Codex · tradução por IA (Basile)
Produção
Bons Filhos Educação
Publicação
03/11/2026
Relevância no acervo · IRC 2,50

Este índice orienta a ordem dos destaques. Não é uma nota de qualidade do conto ou da tradução.

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